sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018


Imagem retirada da INTERNET 


Ele, um conceituado jornalista do Diário de Notícias de uma pacata cidade e docente de Geometria Descritiva de décimo segundo ano. Ela, uma aluna discreta e muito aplicada.
Numa aula:

Ele - Apraz-me observar como unes os pontos, não se encontra mácula, borrão ou imperfeição nessas sombras perfeitas e traços sem hesitações. 
Ela - Obrigada pela apreciação, professor. É importante para mim atingir o grau máximo de exigência.
Ele - Há muito tempo que venho a reparar em ti, és muito dedicada e perfeccionista; desde a marcação de pontos, linhas, planos, sombras... Parabéns!
Ela - Agradecida!
Ele - Deduzo que terás em casa mais exercícios do gênero, não?
Ela - Sim, tenho.
Ele - Apresentas- me na próxima aula?
Ela - Com certeza

Na aula seguinte, ele passou a maior parte do tempo a lançar- lhe olhares sorridentes; ela respondia inibida. A campainha soou e depois de todos saírem, eles ficaram a sós:
Ele - Então, trouxeste o que te pedi?
Ela - Sim, sim, está aqui e pousou sobre a mesa um bloco de folhas e deixou-o folhear.
Ele - Que maravilha, gosto muito disto. Tens um talento inato! São dignos de uma exposição pública. 
Ela - Refere-se aqui na escola? - arriscou com as faces em fogo.
Ele - Mais que isso, não sei se sabes, mas sou diretor do Diário de Notícias e responsável pela revista semanal, penso que conheces a mesma, não?
Ela – Sou leitora assídua da revista e igualmente do diário, mas só ao fim de semana, quando o meu pai compra. Não fazia ideia que fosse o diretor do diário, nem o responsável pela revista. Fiquei a saber neste preciso momento.
Ele - Agora já sabes! E olha, isto vai ser publicado na revista. Que me dizes?
Ela - Nem sei o que dizer…!
Ele - Não carece de resposta. O teu semblante diz tudo; irradia alegria! Vem comigo à redação do DN.

Saíram ambos numa passada larga. Atravessaram ruas, subiram passeios, passaram semáforos. Estavam a meio de uma tarde cinzenta. Rapidamente entraram num edifício antigo e escuro. No interior, abriram e fecharam portas e foram dar a uma sala repleta de homens sentados às respetivas secretárias. Ergueram o rosto, entreolharam-se e sorriram cúmplices, de seguida, cravaram os olhos nela. Foi notório a perturbação e inquietação sentidas, ela queria desaparecer dali o mais depressa possível. Não compreendia o significado daqueles olhares, como se ela fosse um caso dele. Que absurdo! Quando ele voltou, ela respirou de alívio, ele sempre muito apressado:
Ele - Vamos?
Ela - Para onde?
Ele - Vem, para falarmos num lugar mais calmo.
Uma interrogação pairava no ar, por que razão não poderiam conversar ali, na sala, onde supostamente teria estado, ou noutra qualquer.
A rapidez dele não lhe deu tempo para argumentar.
Tornaram a atravessar ruas, galgar passeios, passar semáforos. Subitamente indicou:
Ele - Entra, é o meu carro.
Apeteceu-lhe recusar o convite mas as palavras enlearam-se nas cordas vocais sem que tivesse energia para articular fosse o que fosse.
Ele - Coloca o cinto.
Ela - Para onde pensa levar-me?
Ele - Seguimos até ao hotel Duas Torres e depois regressamos, um pequeno passeio. Olha, quanto à tua situação, é assim; já está tudo resolvido; terás duas páginas só para ti. Colocarás dois a três trabalhos, guardarás uma parte para te descreveres, só coisas que te favoreçam. Não é bom?

Ela não respondeu, os lábios rasgaram-se até aos cantos da cara; expressão de felicidade. Entretanto, o automóvel continuou a rolar devagar. Houve um silêncio momentâneo e subitamente a mão direita despegou-se do volante e pôs no joelho dela, sem dar tempo a nada, correu perna acima até à coxa apertando-a, sem observar a estupefação da rapariga. Como ela não teve reação, ele agarrou- lhe a mão esquerda, abriu-lhe os dedos com os dedos dele e apertou na sua. Algo ali mesmo estilhaçou, num clarão de relâmpago. Incrédula, disparou finalmente:
Ela - Para conversar é preciso tocar?
Ele - Não se pode?
Ela - Não. 
Imediatamente retirou a mão e juntou à outra que permanecera ao volante.
Ela - Posso sair?
Ele - Vou voltar o carro ao hotel.
Olhou-o estarrecida, ele não precisava ir tão distante. Havia no centro da cidade imensos lugares onde podia fazer inversão de marcha. Entre eles desceu um silêncio ensurdecedor. Ele tornou-se imperturbável, indiferente, frio. Ela, ao contrário, demasiado nervosa, inquieta, assustada. E desatou a tagarelar sobre assuntos corriqueiros de escola, ele nem olhava para ela, concentrado na condução, sem um único movimento de músculos faciais. Quando chegaram ao ponto de partida, sem mexer a cabeça, a olhar em frente:
Ele - Agora podes sair. - pronunciou num tom médio  e  impessoal.
Ela abriu a porta mas antes de sair, espreitou de esguelha, ele de perfil.
Ela - E a sua intenção de publicar os meus trabalhos como é que fica?
Sem mover a cabeça:
Ele - Vou pensar no assunto.
Ela - Está bem.

As aulas de Geometria prosseguiram como se ela não existisse dentro da sala. Ele mantinha uma relação cordial com os outros colegas mas ela fora literalmente banida. Ela deixou de participar, desistiu de expor dúvidas, evitava olha-lo quando ele fazia exposições orais. A nota final foi média. 

Durante muito tempo guardou aquele episódio só para si. Anos mais tarde vieram contar-lhe outros semelhantes ao seu e alguns muito piores com o mesmo docente. Chegou a assediar alunas dentro da sala de aula. Também soube que no ano que fora aluna dele, a esposa encontrava-se grávida. As poucas vezes que se cruzaram nas ruas, ela virou o rosto para o lado. Detestara-o! Depois, durante anos a fio, notou a ausência e regozijou-se. Há pouco tempo, aconteceu ler a notícia da sua morte, causa; cancro. Assistiu a um programa de informação em que os intervenientes elogiaram o jornalista que se opunha ao regime instituído, o professor exímio, o homem honesto e recto!

Só maravilhas de um ser tão abominável e asqueroso.

PN

Nota : Baseado em factos reais


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Infeliz acaso




(Durante dias, ela foi visitar o jardim, admirar a obra dele mas  e ele só tinha olhos para a beleza dela   . Agora, ela à janela, ele mesmo por baixo)

Ele- Peregrinava agora mesmo entre o jardim da minha mansão, onde sou rei e senhor, entre flores e cantos, distraído saí e conectei-me com outros jardins do mundo, depois de uma vigilância noturna dos meus sonhos, senti repentinamente, espontaneamente, abrir-se-me um rasgo de brilho fino na minha boca e os meus olhos nutriram-se de um gosto delicioso e lindo para a beleza desta manhã de domingo. Obrigado pela tua magia, rapariga.

 Ela- Ante um rosto inclinado, consumido pela vertigem da cultura e do conhecimento, coisa que já lhe conheço, sondei intrigada, e bebi o perfume… a elegância da novidade furou os meus olhos como um raio de luz... A magia deste domingo é recíproca. “Tudo vale a pena quando a alma não é míope" - atrevo-me!

Ele- Que lindo rapariga! Obrigado!
Ela - Parece que ambos somos adeptos da arte do belo!
Ele- É verdade rapariga, agradeço a tua amizade, senti logo uma simpatia muito especial por ti. O caminho ditará. Foi espontâneo, coisas belas… quando a formosura nos surge ou nos atrai imprevisivelmente.
 Ela - Às vezes acontece assim...Surge do nada...
Ele - Sim, do nada...de algum lado naturalmente, não sei donde, que mexe connosco e nos põe em movimento interior, e, a escrever...palavras vindas de lugares secretos, encerradas nos nossos mistérios, que se libertam na sua necessidade sem nós termos qualquer controlo, voam vindas de dentro de nós. Querem expressar-se, dar-te as boas vindas, sorrir para ti e mostrar-te a sua beleza atraída pela tua. É um simples gesto atraído pela simpatia.
Ela- Onde viu o rei e senhor, perdido entre as flores e os cantos do seu jardim, a tal magia de um domingo, um domingo delicioso, que rasgo foi esse? Que brilho?! Foi uma simpatia tão especial, vinda de lugares secretos. Onde moram os mistérios quase insondáveis. O mais estranho, é que o rei centrou-se apenas em mim, viu-me, digeriu rapidamente toda a beleza...num trago só... Esqueceu, no entanto, de se debruçar sobre a essência, nem um toque, nem uma remexida, qualquer coisa que mostrasse que por aqui andou...nada de nada até hoje, tudo no maior secretismo. Podia ter sido mais simpático ao mostrar um real interesse pelas “coisas” que "semeio como pregos por aqui". 
Ou Sua Eminência é narcísico ao ponto de sentir prazer em ser apreciado e não saber apreciar o que tenho meu?

Ele- Sabes sua essência, não fui eu que me dirigi a ti, foste tu que surgiste à janela quando passei e me cumprimentaste. É natural que eu veja o teu rosto e aprecie a sua beleza. A beleza também existe no exterior de alguma coisa, senão porque andas sempre de olhos atentos? Captas essências ou captas a beleza exterior? Bom, o meu olhar é como a lente dos teus olhos, captei-te a ti e memorizei a tua beleza antes da tua essência ou a essência desses pregos que espetas por ai, porque nem isso me deste tempo de apreciar, pela tua conversa insensível, o que fiz foi poetar, uma forma amistosa  de me aproximar de ti. Não tive segundas intenções. Se te choca um elogio à tua pessoa lamento, és de natureza insensível e grosseira. Depois eu não sou narcisista, se reparares eu não tenho nada do meu rosto a descoberto, nada exposto para me contemplarem a mim ou contemplarem as palavras elogiosas ou não que me possam fazer, isso é-me indiferente. Agora tu, deves ser sim, narcisista e um pouco mais, és egocentrista, senão que sentido faz permaneceres continuamente a essa janela, exposta para que os outros te vejam, comentem de uma forma bajulatória? Uma forma de visibilidade estranha e doentia de quem não quer que a vejam ou lhe façam um elogio, não te parece? Ao contrário de mim, não sinto essa necessidade de me expor aos outros, pelo contrário, ao não me expor à visibilidade dos outros, só tenho a revelar a minha essência pelo meu jardim, não é assim? Tu nunca me viste, mas já viste o meu jardim, foste espreitar e como podes  te dirigir a mim, ser minha amiga, uma pessoa que nunca viste, nem sequer conheces o meu rosto! Deduzo que seja pelo meu jardim, ou seja, por aquilo que eu demonstro ser interiormente, não tiveste a oportunidade de me ver como sou exteriormente, como fazes quando estás aí a essa janela. Tu és narcísica e egocêntrica ao ponto de te expores, para gostares de ser apreciada e não saberes apreciar a essência, a simplicidade e a minha amabilidade. Pois é. Mas aqui comigo, só tenho mesmo beleza, carácter distinto, sensibilidade e sobretudo simpatia. Não vou estragar o que existe de bom comigo e alterar o mundo lindo de gente que me rodeia  desde ; artistas, poetas, filósofos, uma massa cultural de pessoas que sabem ser sensíveis, fica com a tua grosseria. Adeus minha pseudo – amiga, para sempre.

Ela fechou a janela e deu-lhe as costas. 

PN


Nota: Inspirado em factos reais, e igualmente a pensar no que tem sucedido quer nos EUA, e também no  nosso país, há demasiado assédio sobre mulheres e homens! Parte sempre de quem tem poder! Este diálogo serve  para mostrar que se pode dizer NÃO! Dar as costas à estupidez, à sobranceria, à insensibilidade,  à má educação, à grosseria. Ele projecta nela o que ele é! Bastou ela fazer-lhe uma critica justíssima  que ele faz o qualquer fanfarrão faz; destrata-a. Há homens que justificam o injustificável, se a mulher usa mini- saia, é porque está mesmo a pedir... se usa decote, é porque está mesmo a pedir, se vai a uma discoteca, é porque está mesmo a pedir! Não digo com isto, que as mulheres são santas, não são, se aceitam certas condições, quem cala, consente! Refiro-me àquelas que se tornam presas  indefesas! Há mulheres que se oferecem, já presenciei!Ou então é necessário um jogo de cintura para conviver sem se envolver. 
PN

sábado, 6 de janeiro de 2018

Democracia, onde moras?



Presenciei algo verdadeiramente trágico, o meu queixo rolou pelo chão da sala quando aquela sombra denominada de gente ou talvez não, aquela espécie de corvo, uma verdadeira ave de rapina, se levantou do seu lugar, agitou os braços e em altos brados, vociferou demoníaco numa retórica repetida. Com que gozo e satisfação deixou subentendido que o seu superior hierárquico seria um assassino. O discurso daquele ser abjeto, supostamente preparado ao espelho inchou-lhe o ego mas revelou que o ser humano pode descer muitos degraus e o quanto se pode tornar cavernoso, medíocre, vil e desprezível. Este indivíduo desconhece a palavra respeito. Disforme, nem se aceita tamanha desfaçatez. E daqui, se conclui que a montanha pariu um rato. Ali, não se debateu nada útil, nem consensos, nem união nacional, nem acordos, nem espírito de equipa. Apenas espingardadas à semelhança de outas tantas sessões; tudo feio, cru, nu e ríspido. Democracia, onde moras?


(Nota inspirada na intervenção de um conceituado jornalista que faz parte do plantão de um programa de debate e discussão política).

PN

Fotos: NET

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Votos de Feliz Natal e Bom Ano Novo
PN

sábado, 25 de novembro de 2017

Oh, José!

Oh, José, se tivesses acreditado 
no Deus que te habitava...
a tua caravela tinha seguido outro rumo.
Não  içaste o pano e os ventos não  fazem milagres. 
Lembravas-me Pedro, o pescador;
constantemente a escarrar pragas, 
a cuspi-las por entre os dentes maldizentes. 
Pedro desconcertado, trovejador
Oh, José, via-te impotente ;
e repetias sem cessar:
- Já  sei que sou um diabo! Quando eu morrer,  todos vão  ficar  descansados ,   sou o bicho mau!  
Poucos viram o homem honesto, jamais ladrão 
poucos vislumbraram a tua inteligência
poucos te olharam e descobriram o teu corpo
em forma de poesia ; caixa craniana com medidas rigorosas 
  grandes olhos  azuis, lábios grossos, unhas cavadas e tratadas, mãos esguias... 
Mas que vazio,  que fastio, que insatisfação,
encurralado por mulheres contraditas, manipuladoras, 
generalas, rainhas e uma única submissa, não menos
feroz que tu próprio. 
Sei que querias um mundo à  parte, talvez outra época 
Havia em ti um ermita, habituado à  penitência, 
longe das gentes, isolado no teu próprio  degredo
humor de cão , sombrio de tempestade
sisudo de fechado , turvo de trágico , casmurro de vilão  . 
Ansiavas pelo sossego da solidão,
uma solidão que te esburacava por dentro, 
e te desterrava até  ao mais fundo da alma
Atormentado por uma cratera de vulcão,  ardias todo em  brasa.
Querias paz, uma paz de pés nus, descalços, 
sacrificada, num reino insólito,  bastava-te um casebre;
filhos ranhosos, maltrapilhos, uma mulher igual a ti, 
sem nenhuma ambição, resignada à  sua condição 
de pobreza extrema, sem queixumes nem lamúrias. 
José, sempre  prestaste   vassalagem aos ricos e poderosos. 
Dava-te gozo e satisfação ser servo, um humilde escravo 
do patrão.
PN 
 Foto : NET




segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O desgosto de Agosto

Wojciech Voytek Nowakowski


Mágoa inquieta
olhos secos e nebulosos
vista amortalha
turva, embaciada,
boca escancarada, engano da “seta”
Corpos contorcidos
encurralados na selva do temor,
rasgos profundos
incicatrizáveis
e na fuga do espanto
o revés espreita
e o desespero estala
crepita, a visão agita,
no fumo e na labareda medonhamente ateada
mão cega da morte anunciada.
A chama, ninguém a trava,
a passo de louca, titubeante   
ágil nos saltos e tropeços…
Sombras e mais sombras,
Humana gente tragada sem compaixão,
figura do demo escapou às masmorras do inferno
e desceu às serras dos homens
Que agosto febril!
tingido de luto
Cinza escura, branco sujo, negro de agonia
A solidão anda por aí… ao abandono
uivando na noite…
vasculhando as trevas
em buca de água
As urtigas rompem a pele, fazem sangrar
e o sangue borbulhante ferve nas veias geladas
diante de semelhante vaticínio

Não vale a pena menear a cabeça,
Ou cobrir o céu da boca de estalinhos,
falsos compungidos.
A desgraça cumpriu-se sem escrúpulos
Mais enganos?
NÃO!
PN