domingo, 14 de agosto de 2016

Não posso deixar em branco


Peço desculpa pelo texto longo e algo violento, mas é o que me vai na alma e na memória:

Um grito de revolta contra o que se vive nestes dias.
Mais uma vez se lida com a tragédia dos incêndios com irresponsabilidade usual. Mais uma vez ouvimos líderes a apelar a calma, a solidariedade e a oferta de produtos.
No entanto nem um,nos explica de forma sincera o porquê de sempre ter havido :
- Dinheiro para estádios e os bombeiros a venderem rifas para construírem quartéis.
- Dinheiro para o clube da terra (mesmo que as bancadas se mantenham vazias) e alguns bombeiros a pagarem as próprias botas.
- Rotundas luxuosas, pavilhões em tudo o que é freguesia e os bombeiros a pedirem dinheiro no Natal.
- Benefícios fiscais para hotéis e campos de golfe e os bombeiros excluídos das isenções nas taxas moderadoras de acesso a Saúde.
- Parte das Forças Armadas com centenas de oficiais gordos, caros e inúteis e muitos comandantes dos bombeiros a trabalharem em part-time.
- Frotas automóveis dos ministérios, luxuosas e renovadas a cada quatro anos e os bombeiros a terem de receber doações de ambulâncias e viaturas de combate de emigrantes, diversas associações, rotários e por aí fora.
- Portugal a receber aviões de Espanha e de Itália e os sucessivos ministros da Defesa a bloquearem a acção da Força Aérea no combate aos fogos.
- Líderes a insultarem o povo que "atira beatas" e "faz churrascadas",enquanto se mantém incapazes de montar uma política de prevenção e um plano de gestão territorial.
- Sucessivos governos a assinarem contratos com empresas privadas de meios aéreos. Contratos milionários,corruptos e quase inúteis. E aquele casal da A1 a gastar 800 euros para oferecer água, porque a BRISA coitada, não tem que chegue da sua choruda PPP.
- Bombeiros a tombarem mortos e incendiários a serem postos em liberdade !!
Não me peçam por isso que apenas acenda velas, ofereça leite ou reze pais nossos a Deus. Sou crente e não ponho em causa a solidariedade. As vezes rezo e sou solidário conforme posso.
Mas rejeito alinhar mais uma vez em prantos, lamentos e campanhas fofas que não resultarão em nada a não ser na sua repetição no Verão de 2017. Não questiono a solidariedade, exijo isso sim prioridade.
Se queremos ajudar os bombeiros teremos que estar prontos para exigir mudanças, manifestarmo-nos por elas.
E neste momento cabe ao Estado pagar tudo o que os bombeiros precisam.Porque o dinheiro do Estado é nosso!
Ganhei nojo a este repetitivo ciclo de hipocrisia. Para mim acabou.
Em nome do respeito pelos nossos bombeiros e também respeito por nós enquanto contribuintes. A solidariedade deve ser usada enquanto apoio perante algo inevitável ou cuja falha, nós seres humanos falíveis, possamos entender. Aí sim, todos nós nos unimos em solidariedade. Já o fizemos e continuaremos a fazê-lo.
Mas quando aceitamos que a solidariedade seja substituto a dignidade e eficácia do Estado, então não somos solidários, somos otários. E até Deus já perdeu a pachorra para otários.”

( Através do Facebook) 


sábado, 30 de julho de 2016

Boas férias, amigos!


Fiquem bem! Sejam felizes na medida do possível, tal como eu ... Até ao regresso! Beijinhos, abraços e cumprimentos a todos!
Sempre grata pela vossa presença!
PN

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A visita habitual




                               Surrealista - Tomasz Alen Kopera

A casa grande roda na curva da tarde,
a  única árvore a sudeste resvala lânguida no centro do jardim.
É domingo, chapéu em bico cinza
cinza nostálgico, um abraço sem enlace,
um choro de menino,
compasso rodado do dia, dentro de um cestinho, um deserto longínquo
sem perigo e sem destino…
A casa cerrada, sem gente, sem nada,
cílios colados, entorpecidos,
A dona enferma, maleita bicuda, foi embora, dizem que partiu…
para o céu dos bonzinhos
E nunca mais a casa grande se abriu…
ficou assim, cismada, silêncio surdo
não dá por nada!
É domingo, chapéu em bico cinza,
uma promessa resignada, em vigília demorada…
e a casa sobe calada , tão penosamente…
Rente à parede encostada, só há uma flor incendiada…
as outras, as outras … estão-se a ir caladinhas
Não há bebedouro… não há sacio…
Apenas a sombra pesada da idosa vizinha, espreita debruçada a moradia,
outrora acordo de paz amigável entre as duas…
Antigamente cheia de gente, farta de tudo… agora sem nada…
Alguém podou a árvore com copa carregada…
as flores maduras  já se haviam atirado para o pátio exterior, 
para a estátua do rapaz de pedra branca,
 para a rua, atropelando-se nos pneus dos automóveis…
 Vinham surgindo outras lâmpadas nas pontas dos ramos…
A velha senhora apraz-lhe ficar ali,
observando minuciosamente  o que se vai lentamente finando
…e o muro a esfriar-se
Ela fica assim; extasiada com a ideia de um paraíso próximo,
depois, alegre com a visão, afasta-se; os passinhos morosos, picados,
desconcertados, desacertados;
escadas rolantes confusas, a mão trémula sentada… sobre uma tarde
que não pára de carpir de tão mal amada.

PN











terça-feira, 28 de junho de 2016

Convida-me e vou contigo...


Convida-me e vou contigo
Hoje sim, hoje, mais que ontem… há sol,
colossal, descomunal , fartura, teimosia de claridade.
As sombras marcam compasso…
ainda não se levantam do chão
nem turvam a nossa visão!
Embarco contigo, agora.
Partamos, dia adentro, noite fora
 sigamos e despertemos os sentidos quase murchos
e desaprendidos...
Bebamos a água fresca da velha bilha;
ainda há céu para nós…
Atentos ao pincel espetado na atmosfera...
as nuvens tingidas...
 a abóboda lambida de uma ponta à outra daquele azul perfeito,
espevitado
espelhado em nós…
Um azul desperto e aberto como o meu coração.

 PN

domingo, 22 de maio de 2016

Insónia efervescente

Meus olhos ardem como círios piedosos…
Ai estes olhos  escancarados em noites de todas as luas,
cobertos de resina, nuvens de mudança sinalética.
Olhos febris, retina fossilizada,
putrefacção da camada vegetal das pálpebras,
cílios sacudidos pelo desassossego de um vento interior
olhos lacrimosos, sem sorte e sem norte.
Cristalino prismático, pedrado, partido, no eixo da insónia
E as pupilas dilatadas, semáforos vermelhos, estáticos,
acesos , avariados …
Na eternidade do tempo, os ponteiros gotejam à passagem pachorrenta na curva do relógio… e derrapam até ao fundo da memória…
Sempre o mesmo cansaço, enferrujado, e as rodas da carruagem vão estalando cobertas de artrose, e a cervical vertical não dá paz ao sono que tarda.
E meus olhos, pobres olhos, à  fornalha do lixo condenados, a queimar, a queimar…
Atiram-lhes para cima com radioactividade pura, uma poeira granulada, incomodativa
Socorro-me aflita de uma baforada de ar puro, de uma qualquer boca;
um doce, um beijo sem ser enganoso, sem ser amargo, sem ser carregado, sem ser penoso.
O sono? esse, não passa à  minha cabeça descoberta, um soluço magoado sai dos meus lábios,  névoa enrolada  sobe à vista escravizada .
Debato-me, adejo e fico a aguardar enferma pela claridade da madrugada.  
                                                                                                                                    PN
                                                                                                                                           




  Pinturas de Andrew Salgado

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Alinhavo sobre o joelho

Alguém muito próximo e com raízes católicas presentes , disse-me isto em conversa:
" O inferno está calcetado com cabeças de padres"
Foto:NET

Alinhavo sobre o joelho


Uma escola que não defende os seus professores, é como um pai que não defende os seus filhos, é como um governo que não defende o seu povo
                                                                                                                                                          PN