domingo, 13 de outubro de 2019

Nunca mais será como antes,se nada tivesse sido remexido...


Lá em cima; tufos densos, vegetação intrincada, narrativa forte, pedido desesperado e bramoso; ladrado aos quatros ventos. O céu chora alto, soluça perdido. Os fios grossos e copiosos infiltram-se por entre roseirais de nuvens, pedregosas e lamacentas e escorrem para a terra numa depressão circular; findam em vales e planícies calcárias cársicas; erosão e dissolução subterrânea inorgânica .
PN

domingo, 15 de setembro de 2019

Quem tramou Babet ?


Babet nómada, solta, desenxovalhada
Olhar cigano, sorriso espontâneo
Tisnada até às vestes dos panos
Beleza sem artifícios, rara
Frescura sem fissuras irremediáveis
Sem riscos ainda, apenas deleites
Babet; mochila às costas
Guitarra na mão
Chega às praças, às ruas estreitas ou largas, fechadas ou abertas, pernas treinadas a cruzar no chão
Ou nos bares familiares, em cima do balcão
Dedos ágeis à medida das cordas, prontos para dedilhar os sons dos fios…
Os aneis ficam-lhe bem, as argolas nos pulsos delicados também
Cabelo floreado, em síncopes desmanchado, desaguando em pontas, ombros abaixo...
 Vozeirão rouco, bem afinado, picante, rasgado
Percorre o Rock and Rool, salta para o Blues e atira-se ao Soul.
Compõe letras bem entrelaçadas, profundidade abissal...
Acordes singulares, arrisca muito e acerta no pretendido
O púlico de Babet saliva, baba para grandeza tamanha!
Há pouco, bem pouco uma notícia assaltou-me a visão:
Babet metida em escolhos?
Pasmo; a minha curiosidade desbrava mais terreno exposto; ali à mão
Casos com garotos imberbes, álcool, drogas, mentiras…?!
Casada pela terceira vez, escolhas tortas, filhos das várias uniões celebradas
A meio da notícia; a cantora  não adormece sem ter o membro sexual masculino
dentro do seu canal genital ... e assim  permanece toda a noite?
Pode-se achar censurável, causar estranheza, parecer insólito ...
Alguns entendidos arriscam que é assim que busca e preenche os afetos negados.  
Em rodapé; a vocalista foi vítima de uma infância demasiado cabeluda…
Entretanto, apesar de todos os pesares, continua nas noites perdidas em bares de enganos.
PN


                          Ilustração retirada da Internet - Mary Bridget- Davies


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Puxei por ti tantas vezes...


Puxei por ti  tantas vezes...
ao teu orgulho não agradou
Não foi uma perna, nem um braço...
Sentirias apenas o puxão e passaria a impressão
ou nem sentirias ...
Falei-te ao coração e o assomo agastado:
"Eu é que sei, não te metas na minha vida”

Mas a tua vida permanece ligada à minha...

Desterras-me para o lado da sombra?!
As minhas palavras novas em folha! … pena! 
Paraste os teus olhos ateus nos meus desarmados? Que coragem!
À procura de quê? de outra; talvez uma criatura cáustica, a crepitar aleivosa

O teu sobrolho amarrotado, num enxovalho defensivo

Logo a seguir, mais de perto, ensaiando passos cautelosos;
tento nova investida, acantoada numa penumbra reservada
Saco outra vez, outras frases, recicladas talvez; e, mais respingos:
" Faço o que eu quiser, como quiser e não quero a tua interferência "

Mas depois pedes... apelas a palpites ?!

Que cegueira desse mundo às avessas!
Cataratas coladas nas lentes, sombras sem remédio de delir, apagar ou remover.
Inamovível, à força de uma mente obstinada, lançada na ira de quem tudo quer, tudo pode, anulas o meu amor, trocas o verdadeiro pelo falso... rendido ao circo que  tu mesmo criaste
Nada mais posso fazer, a não ser caminhar e esquecer
porque voltas sempre para mim, quando a mágoa aperta e a festa termina.
Olho fixo nos meus gestos, olho; prego espetado, insinuas- te como se nada, se nada se rasgasse cá dentro...
Dentro de mim; encontras a ilusão pura de que… quem sabe…
Dentro de ti; encontro rocha dura, tranca na porta, sinal de fechado.

PN

" Desespero no Sotão"- Título e imagem captada na NET

sábado, 17 de agosto de 2019

Escuta

Amo-te hoje com a intensidade do fogo
Amo-te unicamente a ti!
Não reveles a ninguém esta nossa intimidade
É  só  nossa, pertence-nos .
O nosso segredo fica à  parte...
Eu quero assim!
Deixa-te ficar comigo até  extinguir a luz que nos apanhou
PN
Foto: NET

sábado, 3 de agosto de 2019

Há-de passar...

 Vem uma banheira de frio de um lado...
onde não  há   pontos cardeais,
a hérnia cervical remexeu-se logo, dor  aguda!
Pacientemente subo a gola do casaco,
talvez este gesto lhe traga algum conforto....
PN

ArtStation- Aspen eyes, Klaudia Kotecka



quinta-feira, 25 de julho de 2019

Que me deu de beber...?



-Que me deu de beber
gentil  e real   cavalheiro...?
Minha boca saboreia um estranho fel!
nublou-se-me a vista!
travou meus passos!
como se à  beira do fim me encontrasse?!
-Não preciosa donzela, deve tratar-se de uma
indisposição vossa...
-Que me deu de beber? Confessai!
-Esse mal estar pertence-lhe; o prenúncio do que
julgais que aí  vem…
- Em seu entender, que julgo eu?
-O vosso mal? não sois  suficientemente rica,
Sem nome grandioso… Sabeis que toda a
corte se ri de vós ? A vossa mãe demonstra o que sobejamente conheceis,
o vosso pai, sem instrução, sem terras, sem negócios promissores…
Consta que existem ascendentes nobres no vosso passado mas o sangue puro perdeu-se,
não lhes sucederam. A vossa linha não é a mesma,
querem- vos  mal. A mistura de raças…
Nunca poderá haver aliança entre as nossas famílias.
Pena, menina prendada, bela, bons atributos físicos e
com valores morais que aprecio, inteligente e instruída...
Uma fortuna deliciosa para qualquer homem que se preze
-Que propõe que façamos, então?
-Sermos amantes.
-Amantes?! Que horror! Casará com uma daquelas fidalgas da corte e eu
servirei para as escapadas ?!
Porque não enfrenta o seu pai?
-Ele deserdar-me-ia e passaria a ser um proscrito.
-Somos de famílias rivais devido à condição social.
Amantes, jamais!
-Esse teatro também me desagrada!
Perdoai querida donzela, custa-me pô-la nesta situação;
um atalho sem fim, que desgosto para mim!
-E o  vosso pai...tolerai que vos diga; grande fingido
Teme  os céus, profere  o nome de Deus em vão,
defende o bem e a justiça
Frequenta igrejas, joelha diante de altares.
Canta no coro e bendiz o Senhor?!
Que fervorosa fé é a daquele homem? 
Imita um cristão autêntico, que alma pequena, engano de pessoa 
- Tendes razão!Meu pai influenciou a corte, inventou coisas a vosso respeito!
Espalhou em cicio a difamação... Sinto vergonha pelo mal que lhe causa!
-Nem vos atreva ser malvado como ele,
nem  ides cochichar aos ouvidos de ninguém nada dos nossos encontros.
- Jamais!
-Enlamear ainda mais uma inocente! Que tirano!
-Nada vos acusa a consciência, não  vos apoquenteis, um dia ele terá 
a moeda de troca.
-Um dia, enquanto isso, sou vítima  de calúnias e maledicências
e ele sem nenhum dedo a apontar as imperfeições, continua embutido na sua vaidade
 no seu orgulho venéfico, desfruta dos seus melhores dias…
 -Melhores dias?
Não  julgue as aparências,  nem tudo é  como ele  faz crer...
Olhe que algumas vezes, não tão raras assim,
mostra-se sorumbático e indignado. Esqueçamos essa figura por agora
e diga-me,  amada menina ,o que nos guarda, o destino?
-Gostaria de lhe responder, receio nada ter a dizer, nem saber…
-E se fugíssemos os dois, sem deixar nenhum rasto,
Demorar apenas o tempo certo e partir o mais depressa possível
-E as consequências de tal acto?
- Refere-se a meu pai, dar-me-á caça por certo mas iremos para bem longe.
-Sinto-me mal por esta decisão…
-Deixe lá, já sou homem e almejo a minha independência,
amo-vos acima de tudo. Depois, chegou a hora de constituir
 a minha família... Tenho conhecimentos no estrangeiro,
farei uso desta possibilidade.

Dia da partida; encontram-se nas traseiras da quinta. Ela espera por ele impaciente,
de trouxa na mão,  capa escura, vestimenta discreta. Atira-se para dentro da carruagem.
 Beijam os lábios um do outro à pressa.
Ele incita os cavalos e a carruagem pôs -se em andamento
Mais alguns metros, freia bruscamente os animais.
Um vulto surge do nada.
Ele levanta-se assustado, inclina-se para fora, o coração perturbado:
-Senhor, queira afastar-se da frente, por favor!
O desconhecido retira o capuz.
-Mãe?!
- Meu amado filho, desejo-vos sorte, se é isso que deseja, vá depressa! Mande notícias!
Menina, o meu marido não aceitará uma descendente de escravos, lamento. Sejam felizes!
- Muito agradecida, minha senhora!
-Mãe! – enternecido, toma as mãos maternais e leva-as aos lábios, beija o rosto e envolve-a
num ternurento abraço.
Escuta-se um tiro!
- É seu pai e vem armado!Corra!
- Por favor, meu amado! – chama a donzela
- Mãe, que fará o pai consigo?! – fica preocupado
- Nada temeis, comigo não sucederá nada, filho, vá depressa!
Novos tiros são sibilados.
Os cavalos relincham, a carruagem levanta voo, num desvario de cascos.
Os olhos do rapaz rasos de água, pregados na figura materna:
- Querida mãe, mandarei novas! – promete num grito
- Fujam, fujam, fujam! - murmura a mulher entre dentes , enquanto o homem descarrega as
munições da arma, tentando acertar  na carruagem!
Num acesso de cólera e desapontado pelos intentos gorados, agride a esposa
com a coronha e fá-la resvalar para o chão.
Logo a seguir, apercebe-se que ela não se move, chama por socorro.
Mirando-se detalhadamente, temendo que alguém o apanhe de arma na mão
e pense o pior, esconde-a atrás de um tronco.
Baixa-se e tenta reanimá-la sem sucesso,
resolve carregá-la nos braços fortes e à medida que se aproxima da entrada:
- Acudam a madame, acudam!

PN

Imagem - NET
Personagens da novela " Deus salve o rei"( Não conheço a respectiva)

domingo, 30 de junho de 2019

Da tua boca não nascem rosas


Da tua boca não nascem rosas
Lamento dizer-te …
Toco a “excelência”de um ser
e o respingo é cáustico, áspero…
Índole mesquinha, alegoricamente obtuso
encrespado, abjecto, astuto
Sucedem-se birras conforme a utilidade,
complementadas com esgares,
momice imprópria para um homem de pelo na venta
Fica mesmo ridículo, feio, já te disse…
mas não escutas e foges dos espelhos!
Examino minuciosamente a representação ágil;
treino de disfarces; peças para resguardo do rosto
Brincas com os incautos, desvias a atenção dos mais atentos,
 enganas os pobres de espírito…
Trapaceiro e manipulador!
Os outros? Os outros são iguais a ti e também se servem de ti!
 agarram os ventos que correm oportunos… usam-se uns aos
outros;“prostituição” consentida…
Dono de um ego; um batalhão de soldados, que satisfazem
os teus desejos, vontades e pulsões primárias,
o “conselheiro” que devia cochichar aos teus ouvidos
a atenção a dar  aos valores morais e culturais, compraste-o!
Tens praticamente todos nas mãos, olha que obra medonha!
A corda bamboleia sob o peso estúpido dos teus pés…
Trôpego, e desastrado lá consegues fazer o teu número;
Já não sei se me chega aos tímpanos
copiosos aplausos
ou uma amalgama de assobios, vaia, ou troça;
ou dissimulam para te agradar
És dono de títulos "nobiliárquicos",
vives num castelo rococó de pó, gigantes de bolor trepam as
 paredes…e teias imóveis já sem nenhum vigor; pardas e sujas
Há uma ovelha do rebanho, novinha,
abandonada à sua sorte que vai pedir-te socorro:
- Pai, para que lado devo seguir?
- Vá poe-te a andar daqui, procura o teu grupo! – ordena trovejante
- É que não vejo ninguém, pai, não sei onde estão… - responde
desanimada
-  Quero lá saber! Não me incomodes, o meu grupo sei onde está!
( É o mesmo que dizer a um incapacitado,
numa cadeira de roda, levanta-te e anda)
Como? Por acaso és um deus? Nunca te vi fazer milagres!
Sei que és mestre na mentira, exímio na arte da manha
A tua ambição ultrapassa-te;
esmagas cabeças, entortas vidas, especialista em lavagens
cerebrais… e artista na tontice
“ Cospes no prato onde comeste …e voltas a comer no prato que cuspiste”
Contratas idiotas e cegos para desviarem quem vai no seu
caminho em paz, semeias o caos
Espera pela tempestade, tarde ou cedo abater-se-á sobre a tua soberania.
Entretanto, segues e trincas pessoas sem nenhuma comiseração;
Um sorriso “santo” nos lábios e um pedido de “desculpas”
 “natural”
A falta de limpidez chega à cave das tuas entranhas
Eu sou a pedra que desejarias fora do teu paraíso de fantochada!
Desgraçadamente estou sob o teu domínio…
Incomodo? Pois sim!
É pena, porque também eu sofro, com tão abominável figura.

 PN