segunda-feira, 22 de junho de 2020

Grande parangona

Imagem de um filme " A tempestade" - NET

Amedrontados com o forçado anacronismo
Dos  argumentos  eruditos  e sapientes
A terra, fica a perder com a criação
Deste abocanhar constante e desavergonhado
Como se não pudesse aflorar
À memória colectiva, algo semelhante,  em chuveiros  de gaz
Sob ordens dementes, marchas de soldados drogados.
A audácia carece de atos extraordinários
De ousadia,  contrária a este entorpecimento,
Esta  escravidão a que submetem os mais incautos
Ou os que se servem inescrupulosamente  das contrapartidas
A pulga, mexe e remexe atrás da orelha, há  quem a sinta,
Mas acredite em especulações  prontas a vender.
Nada como uma moléstia  complexa e incaracterística
E assim o quintal é  varrido por um vendaval desconhecido,
e a população atirada ao chão. 
Após  uma, há-de chegar outra, sem comprometer
Os donos desta farsa infame  e mal encarada
À viva força  de repetir uma cartilha bem estudada
torna-se verosímil! 
E esta  amofinação  a que nos querem submeter
Que abalo histórico, um  verdadeiro maremoto !
Um levantamento gigante, engendrado por nuvens sinistras
Tão cedo auspícios menos enganadores, não seráo possíveis
Quem irá  sarar as sequelas daqueles que, não obstante, 
Ainda conseguem ruflar, dobram a espinha,
amolgam-se para endireitar?
Apesar do ruído  confuso, o medo despersuade
Paulatinamente os mais  sinceros, honestos , honrados
Nesta panóplia de jogos pautados por riscos incomensuráveis.
PN






sexta-feira, 12 de junho de 2020

Edgar Morin

Por F. L

Segundo Edgar Morin ; Isto já  não vai lá  com uma revolução. É  preciso uma drástica mudança de paradigma.
 É  um filósofo muito conhecido e tem um livro publicado que se intitula :
" Mudemos de via"
Esta globalização muito assente em paradigmas econômicos.... temos que criar aqui uma eco política e nós  próprios também temos de começar a mudar os nossos estilos de vida e encarar as nossas relações interpessoais de uma forma diferente,  uma era humanista, fala das várias solidariedades que devem ser criadas entre grupos mas depois de indivíduo para indivíduo,  deve partir de cada um de nós...

quinta-feira, 11 de junho de 2020

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Palavras de um coletivo consciente

Acredite se quiser! "Não  há  fumo sem fogo". Que futuro nos reserva,  esta panóplia crescente de tecnologia e mais tecnologia.  E a Fome e a Miséria,  portas adentro?! Além de outras muitas misérias.  Meu Deus, em que mundo vivemos?
A tecnologia 5G é uma catástrofe desastrosa para a saúde,  e pode trazer o apocalipse. A isto chama-se, má  ciência.
( O texto não é só meu )

Imagem roubada à  NET 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Por G. A.

" Como muito bem disse o presidente do Tribunal Superior  Federal ,Luís Roberto Barroso, respondendo ao disparatado; é preciso armar o povo de Bolsonaro sim, é preciso armar  o povo de Educação,  Ciência e Cultura. Eliane Brum ,autora do livro, "Brasil construtor de ruínas ". E colunista no  "El País "lançou um aviso : Bolsonaro é um problema do planeta , não só do Brasil. "

Nota minha :  Subscrevo o argumento acima, acrescento, não só para o Brasil, à  escala planetária. E acrescento outro pormenor que considero importante; Educação, Ciência  e Cultura, e , primeiro que tudo isto, introduzido logo nas escolas; Saúde Mental! Um plano para salvar cabeças! 
De nada servem as outras se a principal falha !

Jornalista- " Olhamos agora para a informação, para as notícias, a nossa matéria prima diária, é  verdade que a tendência já  vem de trás,  nesta pandemia acentuou-se, claramente, somos bombardeados com números,  gráficos,  estatísticas, mas já chegamos a um ponto que a informação não produz necessariamente conhecimento."

" Sim, temos que pelo menos sobreviver ao tsunami e não estou a falar da onda pandémica , nem sequer a tempestade economia e financeira que temos a noção real do quão  gigantesca poderá ser. Estou mesmo a falar do ritmo avassalador de informação que paradoxalmente nos confunde, é  galopante, não vai parar, vai até agravar-se  exponencialmente com o aumento do acesso digital e com a perspectiva da implementação do 5G, Jesse Smith, da Google, uma das pessoas que pensa melhor sobre estas coisas, lembra que nos últimos dois anos foi conhecida tanta informação como em toda a história da humanidade até 2003, não fica por isso difícil imaginar que chegaríamos a uma altura em que nós, humanos, perderíamos o controlo e a capacidade de assimilar aquilo que é produzido,  daí a importância crescente  da análise de dados e da gestão da  informação.  Um ponto óptimo na relação e na quantidade de informação e produção do conhecimento,  há  muito que terá sido ultrapassado,  quanto mais informação for chegada,  se ela não tiver filtro de explicação e contextualização, pior será para a apreensão do conhecimento. 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Depois do jantar


Género - crime
Imagem retirada da NET

Em pleno Agosto, ondas adocicadas aquecem a epiderme, despertando estímulos inexplicáveis e inexprimíveis.  Nada de irremediável ou insuportável, pelo contrário, sente-se qualquer coisa de espiritual, de imortal, de longevidade.
A vir, uma penumbrazinha, a claridade a declinar, como a idade ao fim da tarde.
Os três automóveis seguem em marcha lenta, com pequenos intervalos entre eles.
A certa altura rodam à esquerda e iniciam uma suave inclinação, quase impercetível. Uma estrada velha, revestida de pedras pequenas irregulares, com algumas elevações acentuadas. As rodas bamboleiam numa dança entre subidas e descidas, mais à esquerda, mais à direita tal qual barquinhos navegando em alto mar.
Do lado direito, raras habitações de tempos remotos, algumas abandonadas. Do lado esquerdo, terreno inculto e mal cuidado.
Até que os automóveis refreiam mais ainda. Dois dos condutores debruçam-se da janela e acenam um ao outro, à procura do melhor recanto para estacionar.
  Um dos carros entra diretamente por um portão grande que se abre, enquanto os gonzos rangem perros.
Quando as pessoas se encontram, desatam aos cumprimentos, abraços e exclamações. Sobem a escada de pedra com um corrimão do lado esquerdo, e, mais ou menos a meio, do lado direito, uma porta aberta, vão por ali.
A tia Madeleine guia-os à sala de estar e convida-os a instalarem-se nos sofás e nos cadeirões.  Tudo ali é antigo, de outras gerações, com algumas adaptações modernas, para os convidados se sentirem confortáveis e ela também.
Há sorrisos, risos, gargalhadas, conversas paralelas. Madeleine vai para o bar, abrir garrafas e retirar copos, e deixar a descoberto os doces sobre a mesa de vidro grosso. Ali, existe grande harmonia entre a mobília, objetos decorativos e cores.
Ela é a anfitriã: alta, cútis escura, cabelo negro, médio, charmosa, roupas compridas, claras, largas e leves, bijuteria nos pulsos, no pescoço, nos dedos e sandálias elegantes nos pés.  Olhos castanhos mel, atentos a todos os pormenores, muito observadora e extremamente exigente, inteligência analítica e perspicaz; uma capacidade que a maioria das pessoas não gosta, deteta e corrige erros e opostamente, em certas ocasiões, manifesta grande ternura e sensibilidade, até chegar às lágrimas. Esconder-lhe algo? Nem pensar, detentora de uma mente penetrante, sem nunca revelar os seus segredos e planos. Muito moralista e grande ditadora, até atingir a provocação e a crueldade, duas pessoas da família estão na mira:
- Sortuda, a vida corre-te bem! - desata Ellen, a irmã do meio.
- Não me enerves, a paciência para te aturar, já falta! - replica enervada.
- É preciso isso, mal posso abrir a boca, ficas uma ursa! - argumenta
- A vida corre-me mesmo bem, e queres saber a razão? Sou inteligente, esforcei-me para fazer um curso superior, sou excelente profissional, competente. Adoro o Lawrence, igualmente realizado, tenho dois sobrinhos maravilhosos, uma irmã, que embora viva no estrangeiro, é muito amiga e confidente. E quando vou lá nas férias e fico na casa dela, sou muito bem recebida. Que mais posso desejar? Vês! - exclama triunfante e sorri cínica, enquanto distribui outros risos à mistura, mais simpáticos, aos convidados, pois, é mestra na arte de dissimular.
- Ora, tens tudo! Não é!? A Emily concorda com tudo o que fazes e dizes, por isso gostas tanto dela! - remata alterada
- Sem vergonha, a violar a correspondência que ela me enviava! Tu e a tua filha! - acusa irada, os olhos sempre sorridentes para os presentes.
- A July fazia-o porque lhe pedia. Tu e a outra conspiravam nas minhas costas!
- Invejosas e ciumentas, aconteceu apanhá-las às duas, linda coisa! -  termina triunfante
- Não metas a minha filha nisto. Assumo a culpa. Sou invejosa?! Ou é uma questão de justiça?!
- O que o pai fez foi justo? Beneficiou ambas e eu fiquei de fora! Porquê?
- Róis-te de inveja! - troça
- Estás a rir de quê?  Então o pai em vida passa o património todo para vocês as duas e eu? A não ser que eu seja fruto extraconjugal ...
- Disparate! Logo aquele homem, mais fiel à mulher, não conheço. Tinha as suas coisinhas, mas nesse aspeto, jamais! O que o pai decidiu, está decidido!
- Está decidido porque não foste tu a prejudicada! Eu não presto, sou tudo de mau para ti, mas vives na minha casa! Olha que contradição!
- Deixa-te de merdas!
- É mentira? Há quantos anos instalaste-te lá e nunca vieste para aqui? Metes-te em tudo, dás palpites, mexes e alteras o que te apetece! As refeições fazes na minha casa, até dormes lá!
- Tens muito que me agradecer! Aprendeste tudo comigo! Não tinhas gosto para nada! Eu investi na tua casa! Se não fosse eu, coitada, triste de ti!
- E se não fosse eu, o que seria de ti? Esta casa é só para passar férias. Ambas as partes, ganharam. És egoísta, só tens olhos para o que fazes. Se fosses honesta, dividias a tua parte comigo:
- Nem penses nisso! Agora sai daqui, quero ver pessoas bonitas e ouvir coisas bonitas.
- Tu... - articula num tom de ameaça.
- Eu o quê? - interroga cáustica
- Nada! - responde já de costas
- Ainda bem! - murmura vencedora
A realização de Ellen é ficar próxima do ninho e das pessoas emocionalmente mais importantes para ela.  A família é a sua grande fonte de sustentação, por isso nunca se coloca a si própria em primeiro lugar e por conseguinte, não cuida da sua imagem.   De qualquer forma é muito bonita, beleza selvagem, dir-se-ia sensível, carinhosa, emotiva, mas pouco racional, admirada pela coerência, doçura e simpatia, porém, numa total dependência das relações afetivas, o que a prejudica enormemente.  Natureza nostálgica, pois prende-se demasiado a relacionamentos passados. Ninguém diria que entre as duas, lá atrás, existira uma grande cumplicidade, uma grande amizade. Se bem que, Madeleine, fora sempre a comandante, a mandante e a atmosfera era tranquila porque a natureza pacífica de Ellen permitira que a outra tomasse as rédeas da sua própria vida.
A certa altura, Madeleine trocista, ridiculariza a irmã, a sobrinha e o cunhado, arranja pretextos para enfatizar os defeitos, as preferências deles, as ideias, a forma de viver e consegue os seus intentos, ajuda inclusive, a destruir o casamento mal sucedido da outra.  Transforma-os em três falhados, três inseguros, três frustrados, três revoltados e todos dependentes uns dos outros, inclusive, ela própria.
É penoso para Ellen, ver a filha ser tão maltratada pela irmã e o sentimento de culpa aumenta, quando ela própria, tão protetora, se deixa manipular pelos argumentos convincentes da outra e confusa, baralhada, sem chão, chega a ser, ela também, cruel com July. Tem a noção que não deseja ser assim, mas como fugir? Madeleine espicaça- a de tal modo que gera em Ellen, sentimentos contraditórios para com a filha. É uma espiral para a qual se vê sugada e sem forma de fuga.

A tia Madeleine respira fundo, exibe um riso desmedidamente feliz e desconcertante, e dirige-se para onde está a amiga, Christine, de repente interpôs –se Vicktor, o sobrinho amado.
- Tia, posso falar consigo num lugar mais apropriado?
-Vicktor, podes falar aqui mesmo, ninguém escuta, olha, já discuti com a Ellen...julgas que alguém percebeu? Faz como eu; semblante natural e ar de festa!
- Queria pedir desculpa pela discussão que provoquei! Mas discordo da sua decisão!
- Querido, escuta, não há segredos entre nós.  Adoro-te, mas tens de aprender a gerir melhor o teu dinheiro.  Telefona-me sóbrio, caso contrário, desligo. Já desembolsei muito para te ajudar. Chega!
- Faz isso porque casei com a Lilian!
- Vicktor, estás a misturar tudo! Sim, assumo que não suporto a caça partidos!
O rapaz fez um ar desagradado ao ouvi-la falar da mulher.
- No que respeita a te dar mais dinheiro, a fonte secou, para ti, e para a tua irmã. São os dois com a mesma conversa. Apesar das desavenças que tenho com a tua prima, July, ela jamais me pediu nada.
- Agora já a defende?
- Não estás a compreender, meu amor. Arranja outro trabalho, surgiram-te óptimas oportunidades, deixaste escapar uma a uma! Escondes-te atrás das saias daquela...
- Tia, eu não admito que se refira...
- E não é óbvio?  - o tom é firme, os olhos continuam sorridentes.
- É a sua última palavra? Neste momento preciso com urgência!
- A conversa acaba aqui, Vicktor! Ama-me pelo que sou e não pelo que tenho. Fiz muito por ti, rapaz. Acorda! Desiste de estragar a minha noite, não conseguirás os teus propósitos, sabes - encosta os lábios ao ouvido esquerdo do jovem- estou muito feliz, aproveita tu também para te divertires!
- Se fosse a si, não tinha tanta certeza - dispara seco
- Certeza de quê?
- De que vai terminar esta noite em grande!
- Tens dúvidas?  - ri-se ainda mais
Vicktor junta-se à irmã a congeminar, os dois com cara de caso.
Madeleine apercebe-se e aproxima-se dos dois, mal se senta:
- Desamarrem essa cara, os dois!  Ou então são convidados a sair. Hoje, os problemas ficam lá fora! Já basta ter de aturar a tia Ellen.
E levanta-se rapidamente. Sempre com o mesmo ar, bem disposto.
Era do conhecimento geral que Vicktor sempre fora o menino bonito da tia. O confessionário dela. Um rapaz inteligente, responsável, diplomático, com grande tendência para harmonizar os contrários. Muito atado no que respeita a tomar atitudes com mais pulso.
Anna, é muito compincha do irmão; entre os dois existe muita cumplicidade a nível de pensamentos, planos, ideias. Os dois muito semelhantes, duas autênticas sanguessugas, em termos de extorquir dinheiro à tia. Servem-se dos sentimentos para esse efeito.
Anna ama e odeia a prima, July! Compete com esta, para lhe mostrar a sua superioridade, gasta muito dinheiro em roupa e assim alimenta a vaidade. É exibicionista e pedante, a imitação de Madeleine, embora fisicamente seja o oposto; baixa, atarracada, forte como uma foca, óculos grossos e olhos grandes, de peixe. De charmosa; nada, nem bonita, assemelha-se a uma cadeira desengonçada. Sempre de olho na prima, mais parece um cão de caça; Anna é melhor que a outra, veste melhor que a outra, tem mais amigos que a outra, a família gosta mais dela do que da outra. Tem uma tendência terrível de querer mais dos outros do que é razoável, procura a sua verdade acima de qualquer outra coisa. Por vezes é mesmo rebelde e imprevisível, dir-se-ia que quando perde terreno, chega a ser mal educada, encena esgares inapropriados à sua idade; faz birras. Depois, muda para a menina    bem comportada; teatraliza e gargalha para mostrar que nada a afeta.
Finalmente passam à sala de jantar. Sentado em frente à namorada, Lawrence; não cabe em si de feliz! Exerce medicina, um médico bem conceituado, interessante, bom orador, eloquente, capaz de seduzir plateias. Mais baixo que a namorada, pele escura, cabelo curto e farto, bigode meticulosamente tratado, aparado e grosso, rosto bem cuidado e boa aparência.
O jantar decorre satisfatoriamente, com a mesma animação, mas mais contida. Cruzam-se olhares apaixonados, ou mesmo faiscantes, ou mesmo desconfiados, ou mesmo zangados, ou até mesmo fulminantes.
Lawrence observa discretamente Christine, algumas vezes, enquanto decorre o jantar e apercebe-se que Christine observa discretamente Madeleine durante praticamente todo o jantar. A certa altura, Lawrence inclina-se para a namorada e comenta:
- Já viste a cara do Andrew, babadinho, de um lado a Christine, do outro, a July!
-Pois, a July dá-lhe atenção, são muito amigos. Adoram-se há muito tempo, se a Christine faz-lhe elogios, ele fica assim, caidinho... é muito novo e ingênuo!  Mas é bom miúdo, gosta de rir, contar piadas...
- Deixa lá, até eu, vai amadurecer com calma, sonhar, levar pouca coisa a sério. Os jovens são mesmo inconstantes, hoje sim, amanhã não! Depois talvez… Têm tempo para aprender!
- O jantar acabou, vamos anunciar o nosso noivado?
-Sim, boa ideia, mas já a seguir vou dormir um bocadinho, faz-me falta!  Depois vai haver bolo.  E vamos fugir…
- Vamos fugir para onde? – pergunta rindo
-  E se fossemos à “Danceteria", concordas?
- Gosto da ideia!
-Então vamos lá anunciar o nosso amor!
Levantaram-se os dois, a tia Madeleine, bateu palmas para chamar a atenção!
Anuncia o noivado com Lawrence, e este enfia o anel no dedo dela, e ela faz o mesmo no dedo dele. E, foi um momento de exaltação: Andrew desata em voz alta:
- Beija, beija, beija!
Os outros riem-se e apoiam o jovem!

Quando Lawrence abraça e beija Madeleine nos lábios, por cima do ombro desta, os olhos dele encontram surpreendentemente os de Christine; sombrios e dardejando faíscas. Embaraçada, afasta os seus imediatamente.
Madeleine aproveita a ocasião para explicar que após as refeições retira sempre uns dez minutos para dormir, precisa daquele sono, fá-la sentir-se melhor. Por isso pede compreensão aos presentes e obviamente ninguém se opôs.
Vai a sair, Lawrence segura-lhe a mão:
- Queres companhia, amorzinho?
- Não querido-  segura na mão dele carinhosamente e sorri maliciosa - Não é boa ideia, preciso mesmo de dormir e já te conheço, maroto!
E desta forma deixa a sala de jantar e recolhe-se no quarto de dormir.
Entretanto, os convidados resolvem sair e dispersam-se todos pelos vários cantos da casa.
Mãe e filha, Ellen e July, encaminham-se para o pequeno balcão, que fica à beira   da estrada.
- Que noite fantástica! - comenta Ellen.
- Uma delícia! - responde a filha
- Ainda estou a pensar nas conversas da tia!
- Sabe mãe, isso não é novidade para si! Há quantos anos...! Julga que nunca desejei morrer...
- Pelo amor de Deus, filha!
- E também desejei matá-la!
- Credo!
- Odiei-a com todas as minhas forças, agora que me apaixonei a sério por um rapaz que me quer bem... as brutidades do pai e as histórias terríveis com a tia Madeleine, passam para segundo plano.
- E pensas ir viver com esse rapaz?
- Depende.
- Vais me deixar só com o teu pai, um homem castrador e a rainha malvada? Deixa-te ficar quieta, os homens não prestam, são todos iguais, entendes?
- A mãe namorou e casou!
- E qual foi a minha sorte? Nenhuma! A única coisa boa que me aconteceu na vida, foste tu filha! - July lança-se nos braços da mãe
- Já pensaste nos namorados que tiveste? Também noivaste com o David e depois, esmoreceu e ele casou com outra. July, és como eu, sem sorte! Tens-me a mim.
- Mãe, tenho direito a ter uma vida própria..., defeitos, quem não os tem?
- Esquece os homens. O amor é como um fósforo, basta um sopro e apaga tudo...
- Vamos entrar, sim? - desagradada do teor do que ecuta, apressa a mãe 
Quando as duas mulheres entram na sala de estar, não há ninguém.  Ocupam um cadeirão e subitamente os  outros também chegam. Até que Ellen aconselha a filha:
-Vai chamar a tia, já cá estão todos! Só falta o Andrew, daqui a pouco, está aí.
-Sim, mãe.
A animação toma conta dos presentes, aguardam que a anfitriã retorne.
July volta só e foi logo ter com Lawrence e segreda-lhe ao ouvido. Este por sua vez vai imediatamente a dentro.
Entretanto Ellen questiona a filha sobre o que possa ter acontecido e ela disse nada saber. Perante a resposta, amarrota o sobrolho intrigada.
Lawrence reaparece, muito transtornado e diz em voz alta:
- Por favor, façam silêncio! O que tenho para anunciar é difícil para todos nós, a July foi chamar a tia e como se deparou com um cenário estranho e não obteve resposta, veio me chamar, fui verificar e é com imensa consternação que comunico que a nossa Madeleine está morta! - palavras proferidas com imenso nervosismo e embaraço.
Cai um silêncio mortal, entreolham-se à procura de uma explicação.
Lawrence, muito pálido, acrescenta que vai acionar os meios hospitalares e policiais. Ninguém pode sair dali.
Vicktor ergue-se como um louco:
- Quero ver, deixe-me passar!
- Lamento, mas não pode!
- O senhor pode estar enganado!
Ellen parece acometida de uma síncope:
-Parem de discutir, pelo amor de Deus!
- Mãe, tome esta água com açúcar, vai fazer-lhe bem!- aconselha e  ela também no mesmo estado crítico
Vicktor avança novamente sobre Lawrence:
- Você pode, eu não posso, porquê?
- A sua tia foi assassinada!  Quanto menos, impressões digitais, melhor!
O rapaz baixa o rosto, e fixa as próprias mãos aterrorizado e a seguir cerra os punhos com força.
- Sendo assim.… e coloca os braços à  volta do abdômen, como se quisesse proteger-se. Depois volta-se e atira-se num pranto aos pés da irmã, deposita a cara coberta sobre o colo e chora desalmadamente.
- E Andrew? Onde está? -  Lawrence questiona e ele surge todo contente
- Estou aqui! - diz com o sorriso a esmorecer dos lábios grossos- Que se passa?
O namorado da tia Madeleine, coloca o braço sobre o ombro do jovem.
- Andrew, a tua tia faleceu- diz devagar e com calma.
- Como?! Não! Que brincadeira vem a ser essa... que loucura! -gagueja imenso
E desata a correr, porta fora, sem que ninguém conseguisse segurá -lo.
-Isto é demais para ele. A polícia vai interpelá -lo...
- Quer dizer que pode ter sido ele? - pergunta Vicktor que levanta o rosto rubro das lágrimas
- Não quis dizer nada, apenas, todos vão ser chamados!
-Porquê?  Que quer dizer- interpela Ellen, sempre muito abatida. Como se de repente envelhecesse dez anos.
- É assim, a Madeleine não faleceu de morte natural!
- Não?! - O espanto de Ellen é visível
-Um de nós, aqui esta noite, cometeu homicídio!
- Meu Deus, que crueldade! Não consigo imaginar quem...- de repente todos os olhares correm a sala, as suspeitas caem sobre Andrew. De qualquer forma os mesmos olhares inquiridores saltam sobre Catherine. A mulher, nem notou, curvada, perna cruzada, o cotovelo sobre o joelho e o rosto apoiado na mão. Os olhos a divagar sobre a carpete fofa.  E os mesmos olhos desconfiados voam logo de seguida para Lawrence.
As autoridades chegam, o corpo de Madeleine é transportado num saco, isso deixa todos abalados. Os agentes fazem buscas, investigam detalhes, mexem e remexem, vasculham a casa toda, a colhem amostras de todos os objetos utilizados. Os presentes estão notificados a comparecer na polícia, no dia seguinte para prestar declarações.

Os interrogatórios levam horas a fio. Ninguém escapa. Nem mesmo Andrew. Atarantado e muito inquieto. Há dados novos e definitivos. O inspetor entrega uma carta a Ellen:
-Da sua irmã para si, encontrada junto ao cofre, onde guardava as jóias e outros objetos pessoais.
- Que diz a carta?- pede o inspetor
- Aqui diz que ela tenciona fazer um testamento e passar todo o património para mim, para a July e para o Andrew! - Ellen está entre boquiaberta e angustiada.
- Só isso, mais nada!
- Ah, aqui ela descreve que andava a receber ameaças de morte por parte do Vicktor, ligava-lhe alcoolizado e a Anna também pressionava muito, tudo questões envolvendo dinheiro e acrescenta que andava assustada, receosa, após ter dito abertamente que não os contemplaria no seu testamento. Nem haveria mais nada para nenhum dos dois.
- Sabia desse clima?
- Não! Nada me foi transmitido, sro inspector.
- Pois, coincide tudo, a senhorita Madeleine foi assinada enquanto dormia, na noite de sábado após o jantar, os dois sobrinhos ficaram na sala de estar, apercebendo-se do momento em que todos saíram, foram ao quarto, e o senhor Vicktor enquanto estrangulava a tia com a charpe, Anna, segurava os braços da vítima, pois o senhor Vicktor não teve coragem para consumir o homicídio, sozinho, e pediu a ajuda da irmã, que assim se tornou sua cúmplice. Há impressões digitais na écharpe, na cama, onde eles tocaram. Podem algemá-los aos dois!
Vicktor, não profere uma palavra. É um homem condenado e vencido. Anna,  cala-se. Parecia mais pesada e feia.
Os outros pareciam estátuas de mármore, mais aquele acontecimento; um autêntico pesadelo.
Christine ergue-se como uma sonâmbula e coloca-se à frente de Vicktor:
- Como foste capaz, logo tu e essa aí?
- Já assinei a minha sentença de morte.
Anna rompe o silêncio:
- Se ela não tivesse mencionado nada acerca do testamento…maldita hora!
- Fica calada e assume os teus actos tresloucados, a tua tia decidiu o que achou melhor. Era um direito dela. Anna,  matar? Que aterrador!

Ao funeral compareceram familiares, amigos, conhecidos. A certa altura no fim do acto, Lawrence aproximou-se de Christine:
- Julga mesmo que não percebi ...
-O quê?
- Sabe a que me refiro, todos pensaram que eu mantinha um romance consigo.
-É óbvio que não é verdade.
- Bem que tentou, as investidas saíram-lhe goradas.
- A que se refere?
- Madeleine amava-me, estava apaixonadíssima por mim, você queria-a para si. Ela via-a como uma amiga porque estar só era-lhe penoso. Tinha de preencher todos os espaços vazios. Assim que noivássemos, a primeira coisa, era pô-la a si, fora de jogo. Acha mesmo que eu iria permitir a sua sombra atrelada a nós? - Que disparate!
- Que fantasias são essas?
- Não se faça de desentendida.
Sem mais demoras, Christine afasta-se, os outros já tinham desparecido.
Ali, só Lawrence resta, sozinho, a velar pela sua Madeleine, mal acreditando ainda no que sucedera.
Os olhos molhados de sofrimento, todo o copo reflete a agonia da dor. o desconsolo em que se encontra mergulhado. De repente, sente a presença de alguém:
- Andrew, não tiveste coragem para assistir?
- Não!  - geme, também ele desolado
- Vamos, vou levar-te a casa.