sábado, 12 de maio de 2007

AMIZADE


Meu Amigo, a magia das cartas...esta prosa derramada sobre o papel... nas noites de insónia faz-me sentir de novo viva...
Fico debruçada para o escuro, que noite tormentosa, com um reles monstro amordaçando a minha alma! Chove copiosamente, o frio tolhe-me os ossos e enregela o sangue...
Albinoni enlaça-me com braços suaves de solidão e encanto... dentro de mim algo se agita, uma ligeira ansiedade provocada pelo carão medonho da natureza furiosa.
Meu amigo de muitas horas de alegria e desespero...companheiro das noites brancas e intermináveis, das mágoas guardadas que a memória não consegue apagar...Tu ensinaste-me tudo o que sei...e eu soube absorver as verdades que me revelavas e transmitias...escutava-te com respeito e admiração... Consegui sobreviver ao naufrágio da vida! A minha salvação foi ter-te presente...e aproximavas-te quando eu periclitante sucumbia aos desencantos da vida! Eu olhava-te nos olhos e procurava um refúgio, tu fazias-me compreender que não era a única a sofrer no mundo e abraçavas-me segredando ao meu ouvido que eu era a tua flor preferida, e, assim fazias-me acreditar que eras o meu principezinho, aquele pequenino louro de cabelo encaracolado, criação amorosa e apaixonante de Saint- Exupéry , um hino de amizade intemporal, e todas as estrelas cintilavam dentro de mim e eu contemplava o céu cheio de ti! E tinhas razão; há fomes, misérias humanas, guerras permanentes, terrorismo que sequestra e mata, perseguições, maus-tratos e abusos sexuais, doenças incuráveis e incapacitantes, destruição e morte.
Anos depois fizeste uma viagem longínqua, a minha vida prosseguiu mas eu agora sou outra…; “não quero ver-me como dantes era mas como agora sou”...Ficaram todos os teus gestos pela casa, a tua dança, a tua voz rouca e bem disposta, as tuas gargalhadas ecoam no meu coração...a cadeira onde te sentavas permanece no mesmo lugar! Ainda hoje escuto misteriosamente as tuas largas passadas no soalho... o teu perfume invade as narinas, vejo-te de novo aqui, sinto a tua presença. Um dia havemos de nos encontrar e celebrar de novo a nossa grande Amizade! Entretanto fica uma infinita saudade!
Já publicado

Poesia

Corrida


A vida corre
A criança salta
A criança dança
A vida suja-se
O homem luta
A vida apodrece
O homem morre
A criança já não salta
A criança já não dança
O homem já não luta
Só a vida continua a correr...
Publicado em 91