quarta-feira, 25 de março de 2009

PROCURA_SE UM AMANTE

Leiam só mais este por favor!!!

"Muitas pessoas têm um amante,e outras gostariam de ter um.Há também as que não têm , e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêm ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.
Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança. Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"...além da inevitável receita do anti- depressivo do momento. Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti- depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho. Há as que pensam : "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas?!"
Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam nunca mais . As que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...
Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"?
"Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicolores, afastarmo-nos do que é gratificante ,observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva. "Ir vivendo"é adiar a possibilidade de viver o hoje, fingindo contentarmo-nos com a incerteza e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contentem com "Ir vivendo."Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida...
Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:
"Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida".
Texto :Drº Jorge Bucay
Livro: " Hay que buscarse un Amante"

sexta-feira, 20 de março de 2009

"Carregar o passado" II

"A incapacidade, ou melhor,a relutância de a mente humana abandonar o passado é maravilhosamente ilustrada na história de dois monges Zen.
Tanzan e Ekido, que caminhavam ao longo de uma estrada em terra batida, que tinha ficado completamente enlameada depois de umas fortes chuvadas. Perto de uma aldeia , depararam-se com uma rapariga que queria atravessar a estrada, mas a lama era tanta que teria arruinado o quimono de seda que trazia vestido.
Tanzan prontificou-se a pegar nela ao colo e transportou-a para o outro lado.
Os monges prosseguiram o seu caminho em silêncio. Cinco horas mais tarde, quando se aproximavam do templo onde estavam instalados, Ekido não se conseguiu conter mais.
" Porque levaste aquela rapariga ao colo para o outro lado da estrada ?"
perguntou ele. " Os monges não devem fazer esse tipo de coisas."
" Eu deixei a rapariga lá há várias horas", respondeu Tanzan. "Ainda estás com ela ao colo?"
Agora imagine como seria a vida de alguém que é sempre como Ekido, incapaz de abandonar internamente as situações, ou reticente em fazê-lo, acumulando cada vez mais "tralha " dentro de si, e poderá ter uma ideia de como é a vida para a maioria das pessoas no nosso planeta. Que pesado fardo do passado carregam nas suas mentes!
O passado continua vivo dentro de nós através das memórias, mas as memórias em si não constituem um problema. Na realidade , é através delas que aprendemos com o passado e com os erros do passado. Só quando as memórias, ou seja, os pensamentos sobre o passado nos dominam por completo é que se tranformam num fardo, se tornam problemáticas e passam a fazer parte da nossa noção de identidade. A nossa personalidade, que é condicionada pelo passado, transforma-se então em prisão. As nossas memórias estão imbuídas de uma noção de identidade , e a nossa história converte-se na pessoa que julgamos ser. Este "pequeno eu" é uma ilusão que encobre a nossa verdadeira identidade, a Presença intemporal e informe.
Contudo, a nossa história não consiste apenas na memória emocional- antigas emoções que são permanentemente revividas. Como no caso do monge,que carregou o fardo do seu ressentimento durante cinco horas, alimentando-o com os seus pensamentos, a maior parte das pessoas carrega uma enorme quantidade de bagagem desnecessária, tanto mental como emocional, ao longo da sua vida. As pessoas limitam-se a si próprias através de mágoas , arrependimentos, hostilidade, culpa. O seu pensamento emocional tornou-se a sua identidade e, por isso, ficam presas às antigas emoções, visto que estas fortalecem a sua identidade.
Devido à tendência humana para perpetuar antigas emoções, quase todas as pessoas carregam no seu campo energético uma acumulação de dor emocional antiga, a que dou o nome de "corpo de dor".
Porém, podemos parar de acrescentar coisas ao corpo de dor que já possuímos. Podemos aprender a quebrar o hábito de acumular e perpetuar antigas emoções batendo as nossas asas, metaforicamente falando, e abstendo-se de viver mentalmente no passado, quer algo se tenha passado ontem ou há trinta anos. Podemos aprender a não manter as situações ou os acontecimentos vivos nas nossas mentes, mas a voltar a focar a nossa atenção continuamente no momento presente primitivo e intemporal, em vez de estarmos presos aos filmes que elaboramos mentalmente. Então,é a nossa Presença que se torna identidade, em vez dos nossos pensamentos e emoções.
Nada do que possa ter acontecido no passado nos impede de estarmos presentes agora; e se o passado não nos pode impedir de estarmos presentes agora, que poder tem ele?"

segunda-feira, 16 de março de 2009

"BATE AS TUAS ASAS"

Uma pessoa por quem eu nutro especial consideração, respeito e estima colocou-me nas mãos vários textos para eu ler e como encontrei particular interesse, resolvi partilhá-los com os Amigos Virtuais. Reflictam!!!

O pato que tinha uma mente humana

...os patos ,após uma luta, que nunca dura mais tempo , se separam e flutuam em direcções opostas. Depois,cada pato bate vigorosamente as asas algumas vezes, libertando assim a energia em execesso acumulada durante a luta. Após baterem as asas, flutuam com serenidade, como se nada tivesse acontecido.
Se o pato tivesse mente humana, ele manteria a luta acesa através do pensamento, da criação de histórias. Esta seria provavelmente a história do pato:

"Não acredito no que ele acabou de fazer. Ele esteve a dez centímetros de mim. Ele acha que é dono deste lago. Não tem consideração pela minha esfera privada . Nunca mais volto a confiar nele. Para a próxima , ele vai tentar outra coisa qualquer só para me arreliar. Tenho a certeza de que já está a preparar alguma. Mas eu não vou permitir isto. Vou dar-lhe uma lição que ele nunca há-de esquecer."

E a mente continua ininterruptamente concentrada nas suas fantasias, pensando e falando nisso passados dias ,meses ou até anos. No que diz respeito ao corpo, a luta ainda continua, e a energia gerada por ele em resposta a todos os pensamentos é a emoção , que , por sua vez, gera mais pensamentos. Isto transforma-se no pensamento emocional do ego. É fácil imaginar como a vida do pato seria problemática se ele tivesse uma mente humana. Porém, é assim que a maior parte dos seres humanos vive. As situações ou os acontecimentos nunca chegam realmente a ter um fim. A mente e a sua maquinação de "eu e a minha história" continuam a alimentá-los.
Nós somos uma espécie que se perdeu do seu caminho. Tudo o que faz parte da Natureza, todas as flores,árvores e animais têm lições importantes a ensinar-nos, se pararmos para os ver e ouvir.
A lição que o nosso pato nos deu é esta : Bate as tuas asas - o que se traduz por
"Abandona a tua história" - regressa ao único sítio do poder :
O momento presente



terça-feira, 10 de março de 2009

Rendição do número 512

Não estou inocente
talvez seja corajoso
talvez lúcido...
A minha imaginação
funde-se no frio das grades
Perco a cabeça
e grito!!!
Um grito imenso , longínquo...calado!!!
percorre os corredores intermináveis
morde o vazio.
Sabes, adoro a noite
deixo cair no papel tudo o que sinto...
A minha janela mostra-me a estrada
e sinto inveja...
Morro de inveja
das alvoradas que não vêm nascer em mim
Quero água, sol,paz ,céu...
Cerro as pálpebras com muita raiva
mas a estúpida da saudade enlaça-me num braço de ferro
Perco o sono
Penso em ti
Triste realidade ...a minha
A tua recordação é ânimo, alento, alguma vida.
Aqui sou apenas o marginal
o número 512
Quem acredita na minha regeneração?!
Sou filho das ruas onde ninguém passa
da aventura perigosa
Pertenço à exclusão
Empurraram-me e eu fraco vim!!!
e tu sabes que...

no teu mundo não existe lugar para mim...

Publicado em 23/3/00



sábado, 7 de março de 2009

O tronco

Aproximei-me e espreitei,
vi o escuro...
tão escuro
de tal forma
que não se via rigorosamente nada.
Os olhos seguiram
os biliões de carreiros
que convergiam todos muito rugosos
sólidos...
uma miniatura
coberta de fissuras e ranhuras.
Quisera ser minúscula...
visível ao microscópio
e trepava o dorso agreste.
Terminar a ousadia
convicta de alcançar
o outro lado da terra

Publicado em 18-11-94

quarta-feira, 4 de março de 2009

Momentos...

Coloquei sobre os meus ombros as asas de um pássaro... enfiei nos olhos a saudade da Primavera. Sonhei com a terra perdida... Flutuei sobre as nuvens macias e deixei-me afundar.
Na minha viagem rasguei céus de ilusão, enfrentei ventos ciclónicos!
E procurei o inatingível ...
Subitamente toquei uma estrela e iluminada por ela subi ,subi...
Foram noites e dias sempre a bater asas...vislumbrei o inexistível, o fantástico, o inimaginável...

Um alvorecer regressei ao casulo. A amargura apertava a minha garganta e eu sentia dificuldade em respirar...
No silêncio de mim , observei uma folha que trémula rodopiava melancolicamente mesmo em frente aos meus olhos escancarados. Mais além havia um pássaro que chorava copiosamente por querer alcançar a paz de um lugar divino...e tal como eu sentia-se totalmente errante.


Publicado em 5/12/94