segunda-feira, 27 de abril de 2009

O que penso...

Sempre
que ...
a Esperança interceda
o mundo modifica.

É urgente
compreender
o significado
de certas palavras...
certos gestos
certos olhares

Quebra as amarras...
as velhas crenças ...retrógradas...

Liberta-te da prisão
do medo
do comodismo

Abre os olhos
à verdadeira
beleza...

Corre riscos
Luta! Enfrenta! sangra!

Mostra o peito aberto

Não temas a tempestade...
Mesmo que a embarcação
se afogue...
Aprende
a defender
os teus ideais

Ama a verdadeira grandeza do ser humano!!!

Publicado em 89

terça-feira, 21 de abril de 2009

Os Revoltados

Agora carregam...
Pedras...
Paus
Picaretas
Pistolas
Espingardas...
Estão muito magoados
O coração endureceu-os
Voltaram...
ressequidos e sem perdão
Clamam vingança aos Opressores
Escutam-se gritos e lamentos!
São aos milhares...
Ninguém ouse calá-los
Trazem as mãos cheias de angustias
O sofrimento embruteceu-os
Aproximam-se velozmente
Transformaram-se em Monstros
Feras
Lobos famintos e bravios
Bradam horizonte além...
Não esquecem
QUEM OS ATRAIÇOOU!
QUEM OS HUMILHOU!
QUEM OS CONDENOU!
Das bocas abertas de fome marmorizadas
soam hinos de Fatalidade
Querem matar quem os Matou!!!
Tiveram fome
Estalaram de sede
Sentiram medo
O frio enregelou-os...
O calor insuportável
queimou-lhes as entranhas
Mas ninguém os socorreu...
NINGUÉM!!!

Publicado em 98

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A MORTE DOS PÁSSAROS

Ninguém mais do que eles podia ser Feliz no mundo...de mãos entrelaçadas bebiam o azul de cada madrugada . Rasgavam as montanhas num agitar aflito e louco de asas...a leve brisa matinal acariciava-lhes ligeiramente as penas. As bocas moviam-se num voluptuso beijo...o olhar permanentemente renovado. Cada afago , cada gesto ousado vibrava dentro deles...acendia milhares de desejos inébrios e desvairados
E eles cantavam, brincavam, gritavam e soltavam gargalhadas...dançavam valsas de alegria...
A Floresta comungava daquela agitação ...as árvores baloiçavam-se trémulas de comoção.
Eu observava-os, imóvel...e deliciava-me com toda aquela Beleza.
Porém, um fatídico cataclismo desabou sobre o pequeno paraíso... O sol caminhava alto , eles os dois desfrutavam o esplendor das água mansas e cristalinas , banhavam-se no rio...
Monstros gigantes e humanos acorrentaram-nos, um de cada vez...ninguém mais os viu na Floresta. O reino entristeceu, a felicidade murchou.
A minha alma seguiu-os, não podia abandoná-los à sua triste condição... muito menos ficar imperturbável ao destino dos fundadores da Vida na Floresta .
Foram enjaulados num sítio desterrado...cada um na sua cela. Lançavam um ao outro um olhar aflitivo, de dor e sofrimento.
A porta de uma jaula foi aberta e um deles foi deportado para longe dali.
A mão atroz e perniciosa do homem nao comprendeu o crime de separá-los.
E agora que iria acontecer? Como iriam resistir à distancia?
Ela quedou-se estática ,inerte, recusou alimentar-se...
Ele insurgiu-se contra quem lhe havia roubado, o que de mais precisoso tinha.
Sacudia violentamente as grades, atirava-se numa fúria de se ferir e sucumbir em sangue.
Gritava e o eco rouco repercutia-se no céu dos passarinhos.
Só eu soube o quanto sofreram e via-os morrer de Amor e nada podia fazer para tornar a uni-los.
Public em 99

domingo, 5 de abril de 2009

A semente da Primavera

Uma sementinha andava algures perdida num campo imenso ...
Um pássaro distraído transportou-a na penugem e fê-la aterrar num jardim exótico
"Ui" gemeu ao embater contra a terra e afundou-se...
Por ali ficou , germinou, cresceu e logo mostrou ser uma simples flor reservada.
Um dia decidiu questionar em voz alta:
- Afinal onde estou?
- No Jardim da Casa Grande - responderam-lhe em uníssono.
- Quem sois vós? - Tornou a perguntar
- Somos as flores, ora essa! - a resposta foi imediata.
Após uma breve pausa, a florzinha voltou-se para outra que se encontrava nas imediações:
- E tu, quem és?
A flor rubra emitiu um tom displicente:
-Ahn? Eu sou a papoila, a flor preferida do Dono da Casa. Este jardim está repleto de rosas, cravos, orquídeas, gilbérias, crisântemos, adálias, antúrios, tulipas, magnólias, lírios e outras espécies. Tu a qual pertences?
A flor pálida balbuciou:
- Sou uma flor silvestre...
- Uma flor silvestre?! - exclamou a papoila num esgar - nunca serás como nós. Não pertences a nenhuma linhagem. Um dia estarei num dos jarrões dos aposentos da Casa...ou com um pouco mais de sorte , no salão de baile, quanta pompa! ... imagino-me envolta na festa mágica ...
- És ambiciosa! - proferiu num ímpeto a flor silvestre.
- Sou ambiciosa e vaidosa... mas tenho razões de sobra para isso - confirmou astuciosa.
Ao anoitecer surgiu no jardim o filho do Dono da Casa.
A papoila surpreendida pronunciou em voz baixa:
- O filho do Dono...quanta honra, nunca visitou este lado do jardim...normalmente quem vem é a Alice, a copeira...querem apostar como ele repara em mim!!! - rematou com alarde
- Não me importo de ser esquecida... - declarou sincera a flor silvestre -apraz-me a vida ao ar livre, tão saudável...
O rapazito aproximou-se da papoila e baixando-se cortou-a cerce à terra.
A flor não cabia sem si de contente, nem prestou atenção à sua interlocutora.
- Que comédia hilariante - comentou trocista a flor do campo.
Algumas horas mais tarde o rapazinho descia a escadaria mármore a correr...
- Que pena ter de atirá-la fora...- comentou entre dentes - e num gesto arremessou-a para longe, deu as costas e voltou a entrar.
- És tu papoila?!
- Sim, sou eu mesma! - estava sufocada em lágrimas
- Que aconteceu? - O tom soou preocupado.
- Nada ... o rapaz é inexperiente, cortou-se e sem querer furou-me de um lado a outro...
- Dói muito? - a voz saiu embargada.
- Deixa-me em paz. Estou suja de sangue...logo eu que era tão linda terminar desta forma...
- Quando a Primavera chegar vou falar de ti...da tua beleza, da tua altivez, da tua vaidade...e as andorinhas vão espalhar a novidade aos quatro cantos do mundo.
A voz da papoila ficou rouca:
-Prometes mesmo?
-Prometo.
- Afinal é uma boa amiga...- sussurrou a papoila
Publicado em 2000

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Realidades mais atrozes

Seguro no copo com Whisky
Preguiçosamente a outra mão pelo cabelo
Aliso o bigode grisalho
Tombo sobre o sofá...
Os ponteiros do relógio
contuam a sua rota...
O corpo cansado,entorpecido
um formigueiro nervoso...
uma febre metálica
O tempo encalhado
esmorece na garganta, humedecida pela bebida.
Paixões antigas atormentam-me...
Sopro a raiva ...
Aproximo-me da vidraça
Fito a roupa branca
que ansiosa troça do meu sofrer
Mas aquela visão é alento:
A mulher vulgar do prédio
em frente ao meu...
carcomida pelo tabaco
a roupa amarrotada
amante dos vícios carnais
Sempre lavando e engomando
para fora...
precisa dar de comer
aos gaiatos ranhosos...
Os garotos trepam aos telhados
atiram pedras na rua
Torcem matreiros a cauda aos gatos raquíticos
e os bicharocos vítima das maldades
respingam veneno pelas narinas
Engalfinham-se todos ...
e ela desata aos berros
Grita o nomes deles
e como eles não a escutam
Ela praguejava
amaldiçoando a sorte.
A roupa fica por lá...a tremer.
Vejo-a
quase todas as manhãs...
Sai apressada
blasfemando...
A saia balançando
Ignora o que são números
Nao sabe assinar o nome
Nunca ouviu falar de cultura
Ninguém lhe falou de sonhos
...
Abro a vidraça e ponho a cabeça de fora
Fecho as pálpebras
provo a meiguice do vento e do sol
Sou desperto por uma voz que grita de lá de baixo
"Um bom dia"
Abro os olhos e vejo a mulherzinha magra
que acena como a roupa branca.

Publicado em 87