quarta-feira, 1 de abril de 2009

Realidades mais atrozes

Seguro no copo com Whisky
Preguiçosamente a outra mão pelo cabelo
Aliso o bigode grisalho
Tombo sobre o sofá...
Os ponteiros do relógio
contuam a sua rota...
O corpo cansado,entorpecido
um formigueiro nervoso...
uma febre metálica
O tempo encalhado
esmorece na garganta, humedecida pela bebida.
Paixões antigas atormentam-me...
Sopro a raiva ...
Aproximo-me da vidraça
Fito a roupa branca
que ansiosa troça do meu sofrer
Mas aquela visão é alento:
A mulher vulgar do prédio
em frente ao meu...
carcomida pelo tabaco
a roupa amarrotada
amante dos vícios carnais
Sempre lavando e engomando
para fora...
precisa dar de comer
aos gaiatos ranhosos...
Os garotos trepam aos telhados
atiram pedras na rua
Torcem matreiros a cauda aos gatos raquíticos
e os bicharocos vítima das maldades
respingam veneno pelas narinas
Engalfinham-se todos ...
e ela desata aos berros
Grita o nomes deles
e como eles não a escutam
Ela praguejava
amaldiçoando a sorte.
A roupa fica por lá...a tremer.
Vejo-a
quase todas as manhãs...
Sai apressada
blasfemando...
A saia balançando
Ignora o que são números
Nao sabe assinar o nome
Nunca ouviu falar de cultura
Ninguém lhe falou de sonhos
...
Abro a vidraça e ponho a cabeça de fora
Fecho as pálpebras
provo a meiguice do vento e do sol
Sou desperto por uma voz que grita de lá de baixo
"Um bom dia"
Abro os olhos e vejo a mulherzinha magra
que acena como a roupa branca.

Publicado em 87

6 comentários:

clic disse...

Muito bom, o texto, desnuda realidades que muitas pessoas nem conseguem imaginar que existem!

Pedrasnuas disse...

Isso mesmo Clic,realidades que estão a par com a nossa ...Não é necessário se deslocar a África para assitir a certos "panoramas"

Su disse...

a realidade nua e crua de tantos


jocas maradas.sempre

simplesmenteeu disse...

Gostei muito!
Um olhar que sai dum aturdimento amargo, para a observação do quotidiano de rotinas. Onde a crueldade se mistura com a pureza do branco e a fragilidade, morna da roupa...
Um ver e um sentir de mulher.

Beijo grande

O2 disse...

Não gosto de Whisky
Passo a mão pelo cabelo
Pelo meu cabelo, pelo teu cabelo
Apetece-me um sofá...
Não gosto de relógios
apesar de aceitar a rota...
ÀS vezes canso-me, entorpeço
um nervoso de matar formiguinhas
uma acordar metálico.
O tempo encalhado
esmorece na garganta,
tenho sede.
A Paixão atormenta
Grito mudo, raiva... sei lá.
Abro a janela
Não ha roupa nos varais
a ânsia
a espera...
Sem alento:
A mulher de sempre...
o odor suave de um tabaco de cachimbo
a roupa espalhada pelo chão,
a lareira apagada,
espectadora de vícios carnais.
Tenho que por a maquina de lavar a arranjar,
dar de comer ao cão.
Alguém pregado a um ecrã de computador,
torce os nariz, será pela necessidade
de movimentar alguma parte do corpo.
Engalfinham-se os gatos do vizinho ...
ele berra em chinês,
será que os gatos o compreendem?
Grita o nomes deles
não escutam
Pragueja.
amaldiçoando a sorte.
A roupa... .
Vejo-a
quase todas as manhãs,
não tarda tenho que a lavar á mão,
Sai-o apressada
Canto...
O carro arranca,
Ignoro números
Assino o nome.
Compro cultura
Sonho
...
Ponho a cabeça de fora,
Fecho os olhos
provo a meiguice do vento e do sol
Desperto com um grito,
"Bom dia"
Abro os olhos, um transito infernal,
telefono para o electricista,
Um homenzinho magro
- Senhor Carlos? Como está? Arranja-me a maquina de lavar?

Fernanda disse...

Mais um ensaio sobre a solidão dos nossos dias...
Gostei bastante de ler.
Vale a pena ler aquilo que escreves,...é sempre para reflectir e pensar.
Gosto dessa tua maneira lúcida e sem rodeios de analisares a realidade.

Tens uma sensibilidade que devias deixar vir ao de cima mais vezes...

BEIJO