domingo, 5 de abril de 2009

A semente da Primavera

Uma sementinha andava algures perdida num campo imenso ...
Um pássaro distraído transportou-a na penugem e fê-la aterrar num jardim exótico
"Ui" gemeu ao embater contra a terra e afundou-se...
Por ali ficou , germinou, cresceu e logo mostrou ser uma simples flor reservada.
Um dia decidiu questionar em voz alta:
- Afinal onde estou?
- No Jardim da Casa Grande - responderam-lhe em uníssono.
- Quem sois vós? - Tornou a perguntar
- Somos as flores, ora essa! - a resposta foi imediata.
Após uma breve pausa, a florzinha voltou-se para outra que se encontrava nas imediações:
- E tu, quem és?
A flor rubra emitiu um tom displicente:
-Ahn? Eu sou a papoila, a flor preferida do Dono da Casa. Este jardim está repleto de rosas, cravos, orquídeas, gilbérias, crisântemos, adálias, antúrios, tulipas, magnólias, lírios e outras espécies. Tu a qual pertences?
A flor pálida balbuciou:
- Sou uma flor silvestre...
- Uma flor silvestre?! - exclamou a papoila num esgar - nunca serás como nós. Não pertences a nenhuma linhagem. Um dia estarei num dos jarrões dos aposentos da Casa...ou com um pouco mais de sorte , no salão de baile, quanta pompa! ... imagino-me envolta na festa mágica ...
- És ambiciosa! - proferiu num ímpeto a flor silvestre.
- Sou ambiciosa e vaidosa... mas tenho razões de sobra para isso - confirmou astuciosa.
Ao anoitecer surgiu no jardim o filho do Dono da Casa.
A papoila surpreendida pronunciou em voz baixa:
- O filho do Dono...quanta honra, nunca visitou este lado do jardim...normalmente quem vem é a Alice, a copeira...querem apostar como ele repara em mim!!! - rematou com alarde
- Não me importo de ser esquecida... - declarou sincera a flor silvestre -apraz-me a vida ao ar livre, tão saudável...
O rapazito aproximou-se da papoila e baixando-se cortou-a cerce à terra.
A flor não cabia sem si de contente, nem prestou atenção à sua interlocutora.
- Que comédia hilariante - comentou trocista a flor do campo.
Algumas horas mais tarde o rapazinho descia a escadaria mármore a correr...
- Que pena ter de atirá-la fora...- comentou entre dentes - e num gesto arremessou-a para longe, deu as costas e voltou a entrar.
- És tu papoila?!
- Sim, sou eu mesma! - estava sufocada em lágrimas
- Que aconteceu? - O tom soou preocupado.
- Nada ... o rapaz é inexperiente, cortou-se e sem querer furou-me de um lado a outro...
- Dói muito? - a voz saiu embargada.
- Deixa-me em paz. Estou suja de sangue...logo eu que era tão linda terminar desta forma...
- Quando a Primavera chegar vou falar de ti...da tua beleza, da tua altivez, da tua vaidade...e as andorinhas vão espalhar a novidade aos quatro cantos do mundo.
A voz da papoila ficou rouca:
-Prometes mesmo?
-Prometo.
- Afinal é uma boa amiga...- sussurrou a papoila
Publicado em 2000

8 comentários:

ADiniz disse...

O imediatismo do olhar
sabotaa mente,
cria pre conceitos
antes mesmo reconhecer
o que o pensamento nem materializou,
então se confunde
com a aparencia do comum.
Quando percebe a diferença
abandona, não sabe lidar com o desconhecido.

Muito interessante o texto.
Boa semana.

O2 disse...

Interessante, texto com mil e uma interpretações... eu diria mesmo que já fui papoila, já fui uma simples flor silvestre, uma semente perdida no vento, um grão de areia, já fui Inverno, eu já fui a primavera, caneca já até me senti cato, um ananás!!

Todos nós somos versáteis, sofremos mutações, acertamos, erramos, somos bonitos, somos feios, somos fortes, somos frágeis, somos um pouco de tudo... acho mesmo que o bom é ter a ousadia de admitir os nossos defeitos, tentar melhorar, e claro, dar valor ás nossas qualidades, sem para isso deixar-mos de respeitar quem está ao nosso lado... no entanto, ás vezes na ânsia de viver-mos isso acontece... na ânsia de nos agarrar-mos a uma bóia qualquer de salvamento nem reparamos que quem está ao lado tb luta por uma.

Por outro lado, o preconceito existe, existe pq como humanos guardamos informações, e as vezes estas informações podem-nos induzir em erro, resta, parar e perceber que podemos estar errados, voltar a traz é sempre uma possibilidade credível e louvável.

È engraçado como eu sempre gostei mais de flores silvestres. Se tivesse que me identificar com uma flor hoje, seria sem duvida um malmequer, eu adoro malmequeres!

:)
Bem, hoje é feriado por estes lados, e chove, e quando tal acontece eu escrevo!

Beijo em flor

iilógico disse...

adoro flores do campo. gostei do seu texto e das fotos, então...
amei
abraços

simplesmenteeu disse...

Bonito texto de quem quer fazer pensar...
Uma lição de amizade oferecida através do reino das flores. Uma lição de vida a retratar cada um de nós...
A vaidade e a pressa de ser notada.
A mão distraída e apressada que só vê o que se oferece à vista.
O que está para além do olhar e do visível.
A que sabe guardar-se para quem a saiba ver...

Muito e muito mais...

Abraço carinhoso

Fernanda disse...

É,...importante sabermos ser modestos.
É,...importante sabermos que somos muito pouco sozinhos.
É,...importante sabermos qual é o nosso lugar e o nosso valor, sem nunca diminuirmos os outros.
É,...importante sermos e sabermos, ser Amigos.

O teu texto,...é importante.
Gostei muito de o ler.
E já agora,...adoro Papoilas...:))

Esta tua papoila é uma excepção...:)
Como sabes,...a vaidade é incomptivel comigo.

Beijo e ofereço-te uma papoila amiga como eu...:)

Delfim Peixoto disse...

Adorei! Não tinhe vindo a este cantinho, ainda... Muito terno!
Bjnhs

Tatiana disse...

Que as boas sementes sejam regadas e alimentadas sempre em seu rico coração!

Obrigada pela visita!

Um abraço carinhoso

clic disse...

O brilho da beleza interior é aquele que permanece...