domingo, 6 de dezembro de 2009

Prova de amor em tempo de Natal

Já há algum tempo que os grandes olhos do maroto fixavam a vitrina. Ninguém prestara atenção à criança ali parada, empedernida. Do lado de dentro da loja, a menina de olhos negros sorria-lhe e o garoto de pupilas dilatadas esticou-se e pôs-se em bicos de pés para observá-la melhor.
Piscou os olhos e soprou num assobio matreiro, mordendo com força o lábio inferior.
- Ah…Linda boneca! Gostava tanto de poder brincar com ela…- atraíam-no os cachos de caracóis emoldurando o rosto trigueiro tornando-a praticamente real. Se ele pudesse tocá-la…ainda hesitou antes de entrar. Respirou fundo, encheu o peito de coragem e com um ar destemido de cavaleiro arrojado, colocou-se à socapa junto da boneca e acariciou-a timidamente. Viu o preço afixado mas ainda não conseguia descodificar a importância, embora tivesse aprendido na escola.
Amava profundamente a dança, por isso corria muito, trepava muros, saltava por cima dos bancos…os pés ganhavam asas e ele voava como os pássaros. Era um rapazinho sensível e inteligente. Sonhava com o dia em que iria pisar um palco e ser aplaudido por multidões de fãs. Quando bailava sentia-se livre como ninguém… Livre de preconceitos, livre de livros maçudos que a mãe obrigava-o a ler, dos números intermináveis, mesquinhos e das palavras agudas e esdrúxulas …livre da escola que o amarrava a uma mesa quase todo o dia. Era no ar, quando bebia aquela sensação de paz infinita, inigualável e de entrega absoluta à natureza que o seu coração irrompia de regozijo e satisfação.
- Oh miúdo, que fazes aí?- questionou o empregado da loja.
O rapaz ficou mudo, quieto e tenso. Então o empregado continuou:
- Que queres daí? Uma boneca?! Isso é para meninas. Vai atrás da bola … isso é que é para homens…
- Que preconceito o seu! – comentou um homem alto que acabara de entrar .
- Não é preconceito senhor… sempre ouvi dizer que as bonecas são para as meninas e a bola para os rapazes, é como as cores…
- Que quer dizer?
- Azul para homem, cor-de-rosa para senhoras.
- O seu mundo é muito limitado, para si resolve tudo com duas cores e simplifica tudo.
- Não sou o único…
- Pois, mas sabe, eu faço a diferença… uso várias cores no vestuário e não me importo com o que possam pensar.
- O senhor é que sabe…eu ainda sou à antiga como meu pai e meu avô, eles ensinaram-me assim e é assim que eu sou.
- Com certeza, faça-me o favor de embrulhar a boneca. - pediu o cliente.
- É para dar de presente à sua filha?
- Não, é para o menino, eu não tenho filhas, tinha um rapaz por certo muito parecido com aquele.
- Tinha, já não tem?!
- Morreu o ano passado no Natal.
- Lamento, deve ter sido duro…
- Uma tragédia… depois disso passei a contemplar a vida com outras lentes…
- Olhe, aqui tem a sua boneca.
O homem alto, recebeu o pacote, pagou-o, virou-se devagar para o menino, inclinou-se, olhou-o nos olhos com profundidade e carinho e indagou:
- Querias a boneca, não querias?
- Sim, queria…
O empregado que ficara a presenciar a cena acrescentou para o menino:
-Oh, miúdo dá essa boneca à tua irmã…
- Eu sou sozinho, não tenho irmãs.
- Então entrega a uma prima, dá-lhe de prenda.
- Não, esta boneca é para eu fazer de conta que é minha irmã.
- Não tens amigos?
- Tenho mas é diferente…
- Alegra-te meu rapaz, toma a tua prenda e vai brincar. – acrescentou o homem alto.
O garoto segurou no embrulho e precipitou-se para a saída.
-Ei, oh, miúdo, agradece ao senhor! – lembrou o empregado.
- Obrigado - balbuciou apressado.
O garoto, à saída voltou-se para trás, contraiu os lábios e subitamente os olhos ficaram mais brilhantes e húmidos.
Ajeitou a boina para dissimular a vergonha que sentia e correu num alvoroço avenida abaixo com o pacote na mão.
Lá ao fundo, antes de virar a esquina, retrocedeu e alegremente acenou ao homem alto que continuava à porta da loja.

Pedras nuas Dezembro de 91

http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/




11 comentários:

Teresa disse...

Gostei muito do texto. Os estereotipos não desaparecem porque é Natal.
Bjs

Irene Moreira disse...

Bela História e um exemplo de entrega e amor... Pedrasnuas é assim como assinas vim aqui te visitar e parabenizar pelo premio de Destaque do GB como tb o ganhei e no ituito de não só conhecer o seu blog e trabalho mas interagir com essas criaturas tão especiais que encontramos nessa Blogosfera e cada uma com sua maneira de ser. Já estou te seguindo e virei mais vezes para ler suas histórias. Beijos e um bom domingo

Ana Cristina Cattete Quevedo disse...

Que bela historia!
Amor e compaixão emanados dela nos mostra o verdadeiro sentido do Natal.

Gostei por demais

=)

Gingerbread Girl disse...

eh eh eh

Há que convir, que a situação não é muito habitual. =D

Ninguém acha estranho ver miúdas a jogar à bola, agora ver miúdos com bonecas...

*

Nilson Barcelli disse...

Que conto tão bonito querida amiga.
E com mensagens claras...
Beijos.

meldevespas disse...

Era um menino bastanteeee sensivel convenhamos...mas pronto, nada de etiquetas.
Bonito o teu conto de Natal.
Beijinho e boas Festas

Pedrasnuas disse...

AS ETIQUETAS,OS RÓTULOS, AS CRÍTICAS ÀS VEZES É QUE SÃO O VERDADEIRO PROBLEMA...AÍ QUANDO SE DÁ ÊNFASE A UMA FASE DA INFÂNCIA...PODE-SE NATURALMENTE ARRANJAR UM PROBLEMA QUE NÃO EXISTIA SE TUDO FOSSE OLHADO DE FORMA NATURAL

OS MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS PELOS COMENTÁRIOS

Brown Eyes disse...

Temos demasiados preconceitos e afinal eles não nos levam a lado nenhum. Seria fácil se os esquecêssemos e pudéssemos fazer alguém feliz. Esse menino teve sorte encontrou quem soube ler a sua vontade: pena que haja pouca gente assim.
Beijinhos

AnaMar (pseudónimo) disse...

Uma bela maneira de sensibilizar os preconceituosos, que se prendem nas frustrações de não saberem SER.
Bj

ADiniz disse...

Um limitador do processo evolutivo de autoconhecimento é preconceito, e se hj ele se manifesta é que outrora foi interrompido, que resultou na dificuldade de lida com as diferenças de seu universo, causando em si o desequilíbrio.

Molti baci con affetto a vc Pedrasnuas e um belo final de semana.

Parapeito disse...

Gostei :)
Que venha depressa o dia em que seja "normal"..um rapazito " poder" gostar de ter bonecas :)
Um abraço*********