terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Nem sei...

Eu tinha a vontade aqui mesmo…
As palavras na mão
O rebuçado desembrulhado
Pronto para ser provado…
Que estúpida distracção
Iludi-me tanto
Enfrasquei-me de sonhos
Todos fresquinhos …
Peixe-espada, sardinhas…tanto faz…
E não sabia
O quanto me perdia
Foi tudo desencantamento
Descalabro completo
Drama ou comédia?
O fogo apagou!
Nem chegou a ser um tormento!!!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Então é natal...




O espírito evoca fenómenos passados

trazidos em grãos de esferovite

Omo branco de neve pura

embebido em água límpida e fresca

o líquido corriqueiro

escorre porta abaixo

corre quintal adentro

galga escadaria acima…

A frescura com cheiro

a ar próprio

arromba as portas antigas da velha casa

lambe as vidraças

em gestos vigorosos e friccionados

Os tapetes com desenhos orientais

submergem no lavadouro

O escaparate comprado ao rei D. Carlos

abre gavetas e saem prateleiras

As loiças tombam, mergulham

dentro do alguidar

num baptismo de água em bolhas coloridas

A massa da farinha incha nos tachos

ao calor da lareira

O sino da capela chama para a missa do parto

E ao fim da noite princípios do dia

olhos pestanejam de sono por dormir

e lábios bocejam

A faca espeta-se nas goelas do porco

E o furo jorra sangue quente

Pobre animal atraiçoado e sacrificado na festa.

E eis que surge a passo lento

Num silêncio devoto

A mãe…

Traz a criança nos braços

A seu lado, ombro com ombro

o pai numa fiel cumplicidade.

A vaca e o burro acercam-se

Cada um toma a sua posição

Como se uma fotografia os retratasse

Os pastores andam trauteando

quadras ao vento…

e ao avistarem tão lindo quadro

curvam-se e adoram maravilhados

o nascimento do menino.

O anjo chega atrasado

e revela atarantado:

- Os reis Magos vêm chegando…

A vaca molengona exclama presunçosa:

- E trazem ouro!

O burro atento completa vaidoso:

- Esqueceste o incenso e a mirra…

O pinheiro alto

rompe o telhado da sala

espeta-se numa estrela

Outros astros estremecem

resvalam de comoção

prendendo-se nos galhos

do esguio pinho.

A espiguilha enlaça-se

E a gambiarra também

O pinheiro alvoroçado

pulsa de agitação

O canto anuncia a missa do galo

Depois

A canja é servida quente

O peru recheado jaz sobre a mesa

Ao lado a travessa de carne vinho e alhos

não faltam as sobremesas

Bolo de laranja, Bolo de família, Bolo de mel…

Broas de manteiga, broas de mel…

Licores viscosos e doces

Sumos…

Vinhos caros

O alvoroço toma conta da família

As crianças brincam sobre o soalho polido de cera

O aroma de ensaião, o aroma do alegra campo,

o aroma das manhãs de Páscoa

e o aroma dos junquilhos

cruzam-se e misturam-se…

O regato chorão contorna

rochas de papelão

o luar solene sopra compaixão…

Cantam rouxinóis hinos de louvor

e assim o presépio lembra o céu…

Àquela hora bendita a campainha ressoa

Apressam-se a atender

É a “muda”, a pobre que vem de longe

De uma outra esquina para pedir de comer

Repartem o pão e o vinho

E estendem-lhe a mão.

Saciada a fome do corpo e da alma

A pobre triste e remendada

Sai dali de alma cheia

E bem alimentada.

E o regato chorão contorna

rochas de papelão

o luar solene sopra compaixão…

cantam  rouxinóis hinos de louvor

e assim o presépio lembra o céu…

Destina-se ao Espaço Aberto - Tema: Então é natal...




sábado, 11 de dezembro de 2010

Quarta experiência


Poema de Nilson Barcelli

Ao tocar a tua luz



Há, em certas coisas que me assaltam,

uma intriga de átomos

na procura quântica da sua órbita

que nem eu próprio sei esclarecer.



A cada passo,

visito esse covil de nevoeiros,

onde florescem as dúvidas

edificadas em raízes engordadas pelo diabo

ou em destemperos, que

[à falta de melhor ideia]

atribuo a deuses brincalhões.



Vacilo no indagar e penso,

mas ao meu ânimo é abismo

o patamar onde o palpável do ser

se confunde com a miragem.



Mas tudo fica claro ao tocar a tua luz,

talvez porque os átomos girem ao contrário

quando chegas até mim

com a nudez de uma pedra preciosa.


Voz de Pedras Nuas

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Bicadas da minha pena II

FILHOS DE NINGUÉM

Tudo o que ainda se possa acrescentar, à já tão famigerada problemática que envolve a Casa Pia, não considero ultrapassado, nem é demais, ao contrário do que alguns afirmam. Nada é mais importante que a vida de uma criança. Quem tem filhos e ama-os de verdade sabe isso!


Existem outros assuntos com cobertura televisiva exagerada e nenhum português se sentiu lesado por isso, porque é que desta vez tinha de ser diferente? Parece-me que os meios justificam os fins. Ainda bem que se gastou muito tempo com os filhos de ninguém! Mereceram-no! Não era para menos! São recordados hipocritamente no Natal ou quando a fatalidade cai-lhes em cima. Nefasto e perverso foram os constantes abusos sexuais, os maus-tratos, as perseguições, a total falta de respeito pela dignidade de seres humanos indefesos! Felizmente surgiram as reportagens e debateu-se o que foi durante anos repisado, oprimido, proibido, tabu. As entrevistas chocaram porque finalmente falou-se de factos abomináveis mas consumados. As imagens mostraram ao mundo a imundície que escondiam. Fui uma telespectadora atenta e nem por isso me sinto doente! Muito provavelmente os excessos contribuíram para o caso não cair em saco roto, ou no total esquecimento!


De quem é a culpa que hajam pessoas consumidoras inveteradas de tudo o que a TV.passa? Se são menores a responsabilidade não é dos pais? É consumidor quem quer! A vida tem outros prazeres! Imagens chocantes?! Os noticiários transmitem isso mesmo diariamente, imagens chocantes, às vezes uma forma de acordar consciências adormecidas. Isto não é só pedofilia, é crime organizado, a rede tem de ser desmantelada. Eu também prefiro imagens bonitas, coloridas, artísticas, com estética! Porém o mundo ultimamente é-nos transmitido a preto e branco: a violência, o absurdo, o abominável…A verdade crua e nua deste mundo. Não vale a pena fugir para não ver, para não pensar, os acontecimentos estão aí! Os pormenores foram factos vividos por crianças brutalmente violentadas no mais íntimo do seu ser! Esta calamidade reporta-me aos campos de concentração nazi e àquele período da história igualmente vestido de roupagens escuras; a inquisição, para não lembrar outros!... Descubra-se as diferenças e as semelhanças!...


Os colarinhos brancos têm as suas vidas arrumadas e nada pior que uma denúncia para desestabilizar os seus confortáveis tronos! Não lhes pesa na moral as vidas que deixaram para trás desarrumadas! Penso que foi positivo a acção desencadeada pelos meios de comunicação social. Os actos sórdidos não podem nem devem permanecer “refugiados” no próprio termo que designa e define esta maldita demência. Finalmente o silêncio foi quebrado! Sacudiu-se a estrutura inabalável de um mal que vem de longe, mas que tem rostos, nomes e actos obscenos praticados. Que se faça justiça para que a justiça deixe de ficar tão mal na história!


No que concerne à prescrição, é ridícula, como dizem alguns e com razão, o crime compensa. Esta gente nunca foi julgada nem será?! Permanecerá impune? Se apagarmos o passado pura e simplesmente, quem vai apagar o sofrimento destes homens cuja meninice foi roubada precocemente? A infância é muito importante, é a pedra basilar para o desenvolvimento, progresso, realização e bem-estar de qualquer adulto Todos foram culpados, de um lado ficam os criminosos do outro os cúmplices, quem cala consente! Costuraram os olhos para não ver, amordaçaram a boca para não denunciar, ensurdeceram para não ouvir! Continuaram as suas vidas impávidas e serenas como se nada estivesse a acontecer. Tanta sujidade num país de brandos costumes! Irónico, não é?! Só espero que os culpados sentem no banco dos réus, que é o tratamento aplicado a todo e qualquer cidadão! Quer sejam: doutores, professores, jornalistas, actores, apresentadores, embaixadores, filósofos, humoristas, membros do clero…Faça-se justiça num país onde impera a corrupção; é no futebol, na GNR, na PSP, no caso Moderna…são escândalos atrás de escândalos. A vergonha Nacional! Mas infelizmente há quem ainda se ponha a comparar os nossos erros com os da vizinha Europa, pensando que desta forma desculpam as nossas asneiras, é mais fácil ver o cisco no olho do outro do que ver o nosso!


A verdade deve ser apurada e o BEM triunfar sobre o MAL, doa a quem doer.Durante dois anos leccionei numa escola considerada de risco, sei como são estas crianças, sofrem de abusos e ofensas corporais, de muitas privações, de torturas, de abandono, normalmente dormem cinco, dez, doze no mesmo quarto, o pai acoólico, a mãe alcoólica, droga pelo meio, enfim…, o rendimento escolar é quase nulo, contudo, qual de nós pode criticar e exigir mais, é tudo o que podem dar! Esse pouco necessita do nosso incentivo porque a sua auto – estima é fraca.Temos, até de lhes ensinar a receber um elogio, pois nunca receberam!


A pedofilia tem de ser combatida, é uma doença perigosa porque a principal vítima é a criança, que quase sempre é ameaçada e coagida a permanecer em silêncio, e atenção, o pedófilo pode estar ao nosso lado, sob o mesmo tecto. Não vivamos constantemente desconfiados, porém, quando um menor vem narrar um episódio estranho, devemos dar-lhe crédito e procurar descobrir se é ou não verídico.Quem ama tem o dever de proteger.Nós é que sabemos o que desejamos para os nossos filhos!


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Bicadas da minha pena

“O corpo”




Vi e foi numa recta final de sábado, um desses que já passaram...estava curiosa e de repente uma amiga surgiu na hora certa com um estojo recheado deles...lembro que nesse dia não me sentia lá muito bem!!! Aquelas crises de meia idade que nos batem à porta sem pré aviso! E lá chovem uma série de dúvidas, receios, medos, frustrações e constatações...não muito agradáveis... subitamente somos assaltados por uma vontade insuportável de chorar e de não querer ter ninguém por perto... Ficamos então a curtir aquela sensação de náufrago que resvala nos meandros de uma depressão, que sem grandes dramas morre um ou dois dias depois …

Retomando o fio à meada, nesse fim de tarde...segurei o estojo e sem mais delongas tirei um filme para visionar no computador...A película intitulava-se; “O corpo” com António Banderas, interpretando o papel de padre! Sem querer entrar em pormenores, porque a ideia não é recontar a história, pois isso não faria sentido e seria enfadonho! Tudo começou quando uma arqueóloga descobriu um túmulo e as ossaturas de um homem que tudo indicava serem as de Jesus Cristo!!! A polémica instalou-se, e é naturalíssimo que gerasse grande confusão entre as partes envolvidas: israelitas, palestinianos, Vaticano… Um dos padres amedrontado com a ideia, suicidou-se, e essa morte remeteu-me para a morte colectiva da humanidade crente numa fé cultivada durante séculos....! Seria realmente trágico se hoje a ciência provasse que a ressurreição de cristo nunca acontecera ... Que tremendo abalo para todos aqueles que acreditam no Filho de Deus! Penso que a igreja tudo faria para que a verdade fosse calada e poupada a escândalos… O final é realmente surpreendente, quando António banderas deixa cair o engenho explosivo, correndo, ele próprio risco de vida, contudo, impediu assim que soubessem o que quer que fosse acerca da identificação do ossos. Depois ele deixa o Vaticano porque apercebe-se que foi usado pelos membros do clero para esconder os factos, e sobretudo, chega à conclusão que não necessita da igreja para ser um homem de fé.

 8 de Março de 2006



sábado, 13 de novembro de 2010

Terceira Experiência


Poema de André Martins (à memória do meu avô)

Não fujas

A esferográfica com que opero o parto
bal bu ci an te
pode vir a falhar, o café arrefecer,
a manteiga coalhar,o calendário mudar
e nisso tudo há a ameça dum relógio que nos usa.

Entro no quarto deserto do cimo da vida :
A poeira deitada como um beijo nos móveis
o teu retrato, o chapéu, a gabardina,
as folhas agrafadas
onde lavraste com diligência ciúrgica, o sentido da tua vida:
as teorias de doutor de lareira com que
entretias a solidão

Tudo isso é tão caro como se saltasses do retrato
donde me olhas do fundo do tempo,
tudo isso é tão caro
como se voltasses a ocupar o vazio côncavo do chapéu
e o forro da gabardina engelhado ( o coração engelhado?),
tudo isso é tão caro
como se as tuas mãos acariciassem de novo o papel

de que valem as promessas da superstição
se mergulhaste nesse lago de fome eterna
e raízes de gelo?
de que valem as promessas da superstição
se os sonhos valem o mesmo que o pó que mordes?
os grilos não desistem de ferir liras,
oa rios cantam novamente
e os tapetes de flores desdenham os viajantes extintos?

A minha memória é Deus na capela sistina:
tu voltarás rondando as palavras e as coisas
e eu te renovo o sopro no coração gelado,
porque o que realmente és vive ainda
dentro daquilo que te chama em nós.

Acompanha-me a História dos sonhos e dos desastres
do anjo mutilado, as argumentações e contra argumentações
das gerações apodrecidas e a indefinição do enigma?
A filosofia? A poesia? quem ultrapassa os limites?

é tudo tão inútil como pronunciar o teu nome
António Francisco Alves Martins
repito mas em vão
António Francisco...
para sempre

(*citação de Herman Broch)

Voz : Pedras nuas

domingo, 7 de novembro de 2010

Prémios Dardos

Os meus ensaios  receberam o prémio Dardos, pela primeira vez, vindo directamente do SHE
"Acho que é coisa importante, cá para as bandas da blogosfera..."


Reza que «O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideiais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»


Os nomeados estão no sei_lá...se por acaso não se encontra na lista,as minhas sinceras desculpas.
 
Porque no meu coração e na minha mente está com certeza e faz-me falta a sua presença.
 
Muito Obrigada à Ana...do SHE
 
UM BRINDE A TODOS!!!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ver mais além,ver mais fundo,ver melhor...


 Na pureza do ser, o ideal sonhado, na pureza do vidro ver a verdade...sem mentiras,sem embustes ,sem delírios ,sem loucas fantasias...Simplesmente ver o óbvio.Ver com os olhos,com os ouvidos,com a boca cheia de sol. Ver com as mãos,apalpar ,sentir o fresco...e incendiar toda de frio...

 Particpação na blogagem colectiva da Fábrica de Letras e Palavras

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um conto de fadas mal contado

Acordo, encontro-me numa sala linda...Uma beleza rara...que causa tédio...Apaga a inspiração de uma  musa bem intencionada.
Os meus olhos vislumbram uma construção  antiga. Reporta-me imediatamente a um filme de terror...Um túmulo sem um raio de sol, a própria morgue!? Feito de pedra dura com uma arcada românica,bem atarracada...até já rocei ali os meus cornos...
Lá mais adiante edifica-se majestosamente um templo pré-fabricado, muito apropriado para os pupilos...eficaz para a distracção, sem infra-estruturas próprias...
Mas em compensação muito ventilado...tão arejado que o vento quando sopra louco... rouco, prolongado e forte galga, trepa a galope para dentro e levanta folhas, roupas e cabelos...
Os cortinados curtos afunilam no rosto da criançada...e do lado de fora outros meninos bem comportados,instruídos, educados...muito intrometidos metem o nariz na ceara alheia,que é como quem diz...onde não são chamados....
Assim perturbam a lição aos rugidos, numa autêntica arruaça...numa linguagem ininteligível!
Fazemos uma , duas, três ...pausas forçadas.
Dentro há os que mordem a língua,porém, tentam refilar.
Chovem advertências e chamadas de atenção!
Entretanto, perdemo-nos todos...e encontrar o fio à meada?
Mas somos todos mestres na arte de compreender, de educar...actores fabulosos,substitutos dos criadores e até conseguimos mostrar dotes que não possuímos; desde bons psicólogos,excelentes pedagogos, educadores exímios... heróis à força...forçados a entrar numa guerra que negamos, que não desejamos, que não compramos, sem sentido,cruel e injusta...

E qual é o principal culpado, o arguido,o acusado de todos os crimes?

sábado, 23 de outubro de 2010

Uma certa Lady...

Minha bela   senhora
penteada de azul
é chegada a hora
de remar para sul

Convido-a a sentar na carrugem
apesar das suas contradições...
venha tomar comigo uma aragem
na chama das minhas ilusões

Que os meus discursos não a façam adormecer
nesta  tarde que nos enche de emoções
mas tudo depende do seu querer...
nas longas claridades de platónicas paixões

acompanhe o trajecto da verdade
depressa encontrará meu sentimento
levará com certeza no bolso a saudade
e a recordação de um bafo quente

Menina... vós sois uma andorinha
Conservai então  essa frescura para mim
pois sou tão digno  de vós...
e quero-a toda   purinha
porque sou seu  amor primeiro.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Clube dos Homens Imortais



Vamos?

Talvez diga como José Régio ...Não,não vou por aí! Só vou por onde me levam os meus próprios passos.

Desde muito cedo sonhei em galgar a linha do horizonte, sim,como se ela fosse um fio ténue. Apenas uma linha onde se espelha a beleza das nuvens, Mas a grande proeza é ir  mar adentro e ver de perto mar e  céu unidos por um fio. O desafio à capacidade imaginativa e inventiva. O fascínio do lado de lá...o mistério de terras inventadas...teci e preparei viagens,ergui cidades,criei roteiros e depois mergulhei nas folhas dos livros que me proporcionaram as maiores descobertas...cresci com eles...sonhei com eles...lembro-me como foi bom descer às profundezas com A menina do mar. Entrei em A Floresta   ....na quinta toda cercada de muros...onde morava Isabel...e ali nasceu a nossa  grande amizade. Escondi-me no jardim secreto com O rapaz de Bronze. Depois com o passar dos anos dei de caras com a Fada Oriana  e logo a seguir com o Cavaleiro da Dinamarca e os Contos exemplares .
 Sophia de Mello foi sem sombra de dúvida muito importante no meu crescimento a todos os níveis.

 A idade mudou e outras  preferências começaram também a surgir; experimentei navegar nos braços de Fernão Capelo Gaivota, e fui ao deserto deliciar-me com o Principezinho, depois uma mão amiga colocou-me no regaço E tudo o vento levou de Margaret Mitchell,foi a viagem mais interessante e incrível que realizei. Conheci imensa gente maravilhosa.Inesquecível...
Mais tarde ,por volta de 1988 travei conhecimento com Os irmãos Karamazov... e outras viagens seguiram-se, algumas perderam-se na memória...mas voltando a Portugal,mais especificamente à ilha, fui a uma livraria e comecei a encontrar pessoas muito agradáveis e curiosas nas prateleiras, destaco estes nomes sobejamente conhecidos:
 Branquinho d' Afonseca, Miguel torga, Fernando Pessoa, Augusto Gil, Florbela Espanca, Matilde Rosa Araújo, Manuel Alegre, Eugénio de Andrade, Antero de Quintal, José Régio, Gomes Pereira, Almeida garret, Eça de Queiroz, Soeiro Pereira Gomes, Alves redol, Cecília Meireles, David Mourão Ferreira, Vergílio Ferreira, Maria Judite de Carvalho,Oscar Wilde entre outros...e nomes mais recentes ...destaco um  a não perder A princesa que acreditava em contos de fadas de Márcia Grad...mas a lista continua. Veja, pense e meta-se num combóio. A escolha é sua:

Foi Eder Ribeiro do blogue Gotas de Prosias que me convidou a fazer esta viagem

Quero então que se ligue a nós:

Vanuza Pantaleão 
Tatiana
Wilson
Momentos
Verseiro
Sanzinha

 A todos uma excelente viagem!

"Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas."


Cecília Meireles

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A minha segunda experiência


Poesia de Delfim Dias

Não passei por aqui

Ó poetas parai!
Quebrai as canetas !
Deixem-se de filosofias baratas
que não passam de tretas
Perdoai-me o que já escrevi
Mas vale mais uma pequenina descoberta científica
Que todas as quadras que já li!
A minha caneta não parte!
A ciência não é o meu forte!
Se de nada perceber também é arte
Sou um homem de sorte.
Não pensem que ando à deriva no mundo
Por muito mudar de direcção
Correm diferentes caminhos as veias do meu corpo
Todas vão dar ao coração
Não me preocupa o ser original
Nem procuro o primeiro lugar
Quero ser uma "catana"
Na selva onde eu passar!

Voz de : Pedras Nuas

sábado, 2 de outubro de 2010

No êxtase da chuva

Inspiro a bruma
o peito sobe...
a névoa pálida
leva-me ao céu
A meio do Inverno
em taças de espuma
sorvemos a bebida
pura,cristalina...
Num rumorejar perene
o nevoeiro galga-me a boca
rendido...entra em mim
Sem pudor...
toma-me por fim
Em gestos bruscos
 deixa-me louca...
O vento morde-se de inveja
assaltado por visões imortais
A nostalgia enterra a vergonha na grama
Os reflexos escondem mil cristais
Então o tempo muda
afasta o nevoeiro
e exibe as mãos alvas e esguias
Toma-me de assalto,causa-me arrepios
Sacode os cabelos longos e ondulados
enlaça-me num abraço frio
nos olhos...um fulgor maroteiro
Rasga-me as vestes em tiras de papel
indefesa entrego-me assim...nua
E no desvario da sua expressão
cala-me o pensamento
ruidoso suga-me os mamilos
com total sofreguidão
A chuva penosa chora baixinho
a sua triste canção
 As flores  encharcadas de água
bocejam com um ar resmungão
Os pinheiros altos
esguedelhados
ondulam excitados
roçam-se contra o ar
esfiapados...
A floresta lúgubre
e embevecida
escoa em sussurros e gemidos
O tempo tomba sobre mim
vencido pelo cansaço
pelo fluído solto
A terra surpreendida palpita docemente
povoada no corpo por biliões
de gotículas minúsculas
com o aroma delicioso.

Destina-se à Fábrica de Letras e o tema de Outubro é "O cheiro da chuva"





quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A minha primeira experiência



Destina-se à Blogagem Colectiva Espaço Aberto-Tema: Uma Música para quem amamos.

Poema de Emanuel Gomes:"Página em Branco"

Vocalista: Pedras nuas

Esta página em branco...
Quero enchê-la de palavras
que em silêncio murmurarei ao teu ouvido.
Quero fazer dela um leve zumbido que te toque na alma.
E com ela...
Sermos dois amantes...Duas noites...Duas vidas...
a dormir na tarde calma.
Fazer com que o sangue da tua face
seja o sangue da nossa face!
Ai!...Eu quero o nosso mundo à parte!
Um mundo fora das restrições deste mundo
onde as azáleas e os jasmins
brilhem no nosso jardim.
Havemos de fazer da nossa vida um rio...
Donde os prantos...As lágrimas ...As mágoas
tenham partido num pequeno navio!
Ah!...Afagar os teus cabelos louros ao vento.
Folhear as páginas brancas e puras do livro que és...
E sonhar contigo à noite!
Não!...À noite não!
Porque no nosso mundo não haverá noite...
Haverá o orvalho da tarde a entardecer.
Ouve...Escuta!...
As aves já nos fazem o ninho
e numa grande copa de alto pinho
já vejo a minha página em branco.
Que já não é choro nem pranto
... um leve e belo lençol de linho!
Emanuel Faria Gomes

domingo, 19 de setembro de 2010

Inúteis palavras?

Não sei mais nada!
não saberei mesmo?...
talvez devia saber
Provavelmente é muito tarde
para revelar o que não posso dizer...


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nem ouses...

Diz-me que os rios cantam e confluem para o mar
as andorinhas cruzam o céu
e as velas enfunadas se enchem de ar
'
Diz-me que hás-de trazer as manhãs
calar as noites escuras como breu
e comigo caminhar sempre a par
'
E sobretudo não me mintas
E sobretudo não me enganes
pois farei...
Silêncio!
silêncio dos inocentes
silêncio dos que não perdoam
Silêncio dos que não calam nem consentem
nas atrocidades de Alguém ausente
E farei maior silêncio
dos que mordem a alma
pois tendo perdido tudo
sangra a mágoa e morre a calma
'
Entrei descalça
percorri o lago
não havia murmúrios
incauta dancei uma valsa...
'
Queria que estivesses aqui
corresses para mim
e num gesto doce me enlaçasses
'
Diz-me que em ti existe a pureza da espuma
que o teu sorriso
raio de sol
não se converterá em bruma
'
Diz-me que a tua boca é honesta
porque apenas sei o que me contas
Não tornes este Amor uma manhã funesta
nem me tomes por uma daquelas meninas tontas

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A noite, testemunha ocular

Foram dias de demora
puxados num ápice
Línguas trocadas
roçadas
Saliva de uivos
salpicadas de ternura...
Noite adentro
corpos orvalhados
paisagem serena
amena
o aconchego do abraço
terno sossego
Uma estrela acende ...
e o desejo roça
acorda
A água mansa
rola nas pedras
num burburinho
inaudível
Solta-se o soluço
e o caudal
transborda
O turbilhão resvala
a pressa da ânsia
arrasta os poros
desprende-se
do leito
e cavalga frenética
A lua gulosa
tão prenha
tão redonda
tão sequiosa
tão fogosa...
O incêndio aviva-se
O quarto é pequeno
a vontade não cabe
naquela cama
É urgente ir mais longe
trepar paredes
cadeiras
mesas
sofas
sem pudor
sem receio
sem medo
de sentir...
Respirar sofregamente
em perfeito movimento
ora louco
ora rouco
arquejante
o momento...
Gemido dorido
Soluço abafado
convulsão
espasmo...
O fluído impaciente
desemboca
na tua boca...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Passei por lá... vi...e senti o calor...




O INFERNO DE ALMAS PRESUMIVELMENTE ENCANTADAS...

domingo, 1 de agosto de 2010

Agora só as sombras do caminho por onde passei...




Amigos, o tal Abraço de sempre...Volto

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quem diria...



Sou muito amigo,sempre muito amigo do copinho cheio,não dispenso os cigarrinhos e mais ainda ...as mulheres...não se riam...é verdade...mulheres, sempre muitas mulheres...Quando Deus criou o mundo...fez a coisa muito bem feita...bendito barro...de um lado o homem e do outro a mulher...Há lá coisa melhor para um homem do que ter uma mulher ou ...várias mulheres para si a vida toda?!...

Destina-se à Blogagem Colectiva do Espaço Aberto - Tema: "Sempre Amigos"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Nesta ânsia...

HOJE
NÃO ONTEM
TALVEZ AMANHÃ
SABEREI...
O SALGADO DAS LÁGRIMAS
QUE CULTIVEI
NO CANTEIRO
E AS FLORES HÃO-DE GERMINAR
E TU SERÁS UMA PAPOILA
DE OLHOS VARDES
E CABELOS VIOLETA
E PELE LARANJA
E SORRISO FÁCIL...
E RISO DESPRENDIDO
NO ALVORECER
SUBMERSO
EM DESEJO SACIADO

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Da Insana dos Gritos e Sussurros



Nem sei que dizer...mas vou passar por cima de algumas regras...lamento

O MEU SINCERO RECONHECIMENTO PELO PRÉMIO

NOMEIO:

JPD

MANUELA

EM@

MARY BROWN

FERNANDA

LILÁS

HELGA

VANUZA

ANA OLIVEIRA E COSTA

ANA DINIZ

Barbara

Valéria Sorohan

E PARA TODOS OS OUTROS QUE NÃO ESQUEÇO MAS SÓ É PERMITIDO NOMEAR 10

GRATA SEMPRE A QUEM ME LÊ

COM CARINHO E AMIZADE

PN

sexta-feira, 9 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

Clarisse disparou

Clarisse sentada à mesa escrevia uma carta
falava ao amante
e em versos de amor gritava...
Uma rajada de vento soprou
a janela abriu-se
a cortina enfunou
A rapariga apressou-se e a janela cerrou...
e à escrivaninha voltou ...
- Bom dia meu amor
A voz num tom calmo cumprimentou
Clarisse sobressaltou...
e depois receosa em torno...olhou...olhou
e das sombras gigantes do quarto
alguém assomou...
A chama da vela hirta no candelabro
bruxuleou
Os olhos da jovem faiscaram de pavor:
- Que fazes aqui se meu marido te matou?
- As saudades foram tais...
- E as minhas meu querido David foram brutais...
- Vim do outro mundo ...pois o meu paraíso incendiou...
- Que quereis dizer com isso?
- Ardo por vós senhora...e não encontro paz...
- Como vos compreendo...
- E vosso marido nao pagou pelo que me fez...
- Roubou-lhe a mulher...a ditosa senhora ...em que ele me tornou...
- Será razão forte...e vós senhora alguma vez de verdade me amou?
- Amei e amo muito...mas o meu marido é nobre... e em senhora de respeito me transformou...e a minha vida com esses benefícios também ganhou...
- E comigo senhora?
- Contigo fui boa amante mas nunca disso passou...
- Pois , sei que sou pobre...
- Pobre ,desempregado e sem garantias de futuro...
- Mas senhora ...vamos continuar assim?!
- Não David .... não vamos continuar assim,espero um filho de meu marido, assim vou assegurar a continuação de sangue puro
- Então não devo voltar mais aqui?!
- Não será prudente ser visitada por uma alma que meu marido tanto odiou...
- Vós falais como se fosséis uma senhora ditosa...
- Aos olhos de todos sou...
- Sim porque vosso marido julgou que de violação se tratou...
- E vai continuar a pensar assim...
- Até quando Clarisse?
- Até eu matá-lo como ele fez a si...
- Como senhora, que loucura...irás presa...
- Não sou tola David, terá sido assalto...acontece depois da casa ter estado acesa...
A porta abriu-se de rompante ...
- Senhor meu marido?!
- Clarisse, que história é essa?!
- Que é isso...uma arma?!
- Falais com ele,onde está ?
- Dai-me essa arma, vais matá-lo pela segunda vez?!
- Pois farei isso...agora será de vez...
- Não posso permitir...
- Sois louca,uma louca sem juízo, nem merece que por si vá esgrimir...
Clarisse e o marido pela posse da arma lutaram...lutaram até Clarisse cair...
A arma disparou , sem ninguém perceber ...quem de facto iria morrer...
Então o marido tombou e ficou de bruços sobre a carta que a mulher escrevia ao amante...
Ela assustada questionou...
- David , estás aí?
O amante não respondeu
Clarisse lamentou:
- Ai e agora sem amante e com marido morto que será de mim?
para : Fábrica- tema : "Disparou"

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Queria ser teu...

Fiz-me homem
lua cheia
Teu olhar....
Hummmmmmmm
lascivo olhar
.............
Segui-te
Foi logo...
aperto arremessado
Soltou-se o beijo
Faminto
Louco
Sôfrego
Trôpego
.............
Atirei-te
à esquina
e ali mesmo
devorei-te...
cheio de chama
sem alma
perdido e sem calma
.................
Murmurei-te...
frases loucas
sei que uma a uma
saboreaste
pois um grande gemido soltaste
..................
Fiquei sério
Bravio ...
em gestos impetuosos
investi...investi
Queria estar
Ardentemente
Desesperadamente
dentro de ti ...

Para o Espaço Aberto cujo tema é:


"O que você faria se, por um dia, se tornasse alguém do sexo oposto?"

sábado, 19 de junho de 2010

Sou um monstroooooooooo

A- Queres brincar comigo?
L- Pode ser...
A- E vamos brincar a quê?
L- Não sei...
A- Dá-me uma ideia..
L- Apetece-te o quê?
A- Qualquer coisa!
L- Às escondidas?
A- Não!
L- Deixa ver...Às corridas?
A- Não sei...
L - Se não sabes...
A- Tu sabes sim...
L- E o que é que eu sei?
A- Que estás dentro desta casa...
L- Pois estou.
A- A casa é grande!!!
L- E tu estás comigo.
A- Pois estou...
L- E que mais?
A- Estamos os dois sozinhos...
L- Só nós os dois?
A- Sim...
L- E então?
A- Tu és enorme...enorme ...és uma mulher gorda..gorda
L- Ui...não sei se gosto disso...(rimo-nos os dois)
A- Mas tu és gorda mas tão gorda que não cabes nesta casa...
L- Pior ainda ...(rimo-nos de novo)
A- E tens barba ...
L- Eu com barba?!(gargalhadas) - isso é estranho...
A- Sim...uma barba quadrada...
L- E fico bonita de barba quadrada?
A- Ficas lindo...(risos)
L- Agora já sou homem?
A -Sim, agora és homem...de barba quadrada...
L- E quem cortou quadrada?
A - O aparador de relva...a máquina de cortar relva!
L- Mas porquê essa máquina?
A - Ora tu és gorda ...ou já te esqueceste?
L- Para além disso que mais tenho?
A- Pêlos no corpo (nova gargalhada)
L- Ai...sou homem peludo?
A- Sim ,és...
L- Então sou macaco?! (rimos ambos)
A- Sim, um macacão!!! (nova gargalhada)
L- Estou a ficar peluda ,escura e feia!!!
A -E gorda!!!
L- Ei...uma desgraça nunca vem só...
A - E não cabes nesta casa...
L - Porquê?
A - Tens uma cauda grande...grande...
L - Isso já é um monstro... (rio)
A - Um monstro lindo!!!
L- Bem...pelo menos é lindo...mas só se for aos teus olhos...
A- Para mim sim...
L- E o que se segue?
A- O monstro rebenta a casa....de tão grande...
L - Até já começo a ter medo de mim mesma...(rimos os dois)
A- Não precisas...eu não tenho...
L- Assim fico mais animada.
A- Depois cais de tão pesada...
L - Ai
A - Pois...
L- Então não me mexo com esse peso todo em cima?!
A - ....(gargalhada)...depois...

sábado, 12 de junho de 2010

Meu jeito de dizer que te amo

Marquei encontro contigo entre os lençóis
e logo...logo
tua boca um beijo pedia
a minha correu de desejo
e palpitando tremia ...tremia
'
Marquei encontro contigo entre os lençóis
e logo...logo
as minhas mãos, asas de gaivota
agitadas ...delicadas
apertaram as tuas
'
Marquei encontro contigo entre os lençóis
e logo...logo
uma fonte jorrava das nossas bocas
e na bebedeira da saliva
tuas mãos ligeiras e cada vez mais loucas
regaram meu corpo de azeite Oliva
'
Marquei encontro contigo entre os lençóis
e logo...logo
tua língua o regato incendiou
e em frémitos desmedidos
avançou...avançou
'
Marquei encontro contigo entre os lençóis
logo ...logo
meu corpo estremeceu
em espasmos delirantes
e tua boca rompeu em estrondosos gemidos...
'
Marquei encontro contigo entre os lençóis
e logo...logo
Endereçado a Espaço Aberto

segunda-feira, 7 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

O vazio do presente

Nos tempos que correm...não existe direita nem esquerda. Os partidos políticos não interessam para nada. Não possuem qualquer peso...A economia controla, comanda,ordena...Somos um anão perante um gigante "adamastor"...um reles monstro impiedoso, ameaçador ...criado por homens...uma criação aberrante...é caso para dizer"Os deuses estão loucos..."
É urgente inventar um novo modelo de economia......estamos num autêntico beco sem saída...
Nesta selva cada um procura a sua bóia de salvação...
Para:http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com
A propósito do comentário da Helga...ainda bem que me lembraste...obrigada

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ilusão partida


Encanto quebrado
romance sinuoso
lençol rasgado
ósculo sulfuroso
'
Boca deserta
voz calada
gelosia aberta
Fome aperta
'
Cais de maldição
navega barquinho
louca ondulação
ali pertinho...
'
Destina-se a Espaço Aberto

sábado, 15 de maio de 2010

Libertação

- Mãe, não chore, daqui a algum tempo estarei de volta…
- Oh filha, eu sei, mas isto não deixa de ser uma despedida…
- Mãe nem sei como hei-de agradecer tudo o que tem feito por mim…
- Tolinha, a minha recompensa é ver-te feliz na vida!
- Espere mãe, diga-me, ambas estamos a ver o Johnny aqui?!
- Não acredito, talvez veio despedir-se de algum familiar! Ignora-o simplesmente!
- Ele está parado a observar-me…hum, que pretende agora?
- Esquece-o, nem repares nele, não merece!
- Bem mãe, tenho mesmo que ir… ei… Nós prometemos não chorar, senão eu começo também…
- Vai lá, boa viagem! Qualquer coisa não me poupes…
- Para onde é a ida, Jackie?
- Já há algum tempo que a minha vida não te diz respeito!
- Para mim diz, casamos pela igreja, isso quer dizer que a relação é insolúvel!
- A igreja também fala das obrigações e deveres do marido para com a esposa, e judicialmente estamos separados…
- A culpa foi, é e será sempre minha, eu nunca tenho razão! Tu sabes tudo…
- Agora não, a minha paciência já se esgotou, deixa-me passar, está bem?
- Isso, foge, foge para longe das tuas obrigações! Um dia voltas e eu vou estar aqui para te lembrar…
- Eu não estou fugindo de nada e muito menos de ti, pretendo realizar o meu trabalho de investigação, vou continuar os estudos, uma vez que os interrompi por tua causa…

- Mulheres que pensam como tu não vão longe, pensas que és superior a mim…
- Tenho pressa, não me faças perder mais tempo…
- O teu lugar é a meu lado…
- Outras coisas muito mais importantes esperam-me, mãe adeus, até à volta…
- Adeus querida filha, vai em paz!

O avião descolou rasgando o ventre da manhã com tanta força, que desfez tufos de nuvens à sua passagem, para depois perder-se dentro delas.
Jackie acomodou-se no assento, e recostou-se para trás; todas as ligações cerebrais enfileiravam-se para o pretérito. Agora podia reflectir pausadamente, sobre o que sucedera nos últimos anos da sua vida. Fora feita prisioneira de quem? Daquele paranóico ou de si própria? Por mais que pensasse e repensasse naquele momento, não encontrava lógica para tamanho sacrifício. Tudo em nome da paixão ou obsessão? O receio do escândalo, a vizinhança galhofando, as compaixões, o seu nome e o da família pela lama.Ela, filha única, ligada àquela criatura que viria a estragar o sangue da raça, cobrira a sua casa de vexame. Então em nome do medo calou-se, sem um grito de furor ou revolta, mordendo a cólera. Lamentava naquele instante, as sucessivas discussões, as injúrias, e, pior, as pancadas, os murros…Quando a mãe soube, chorara também, nem queria imaginar que aquele corpo que ela outrora embalara nos seus braços, era brutalmente espancado. Então arremetida de uma natural complacência aconselhara logo a filha a separar-se daquele “animal”. Depois vieram as chamadas telefónicas com ameaças, as perseguições, as provocações em público…Acordara tão tarde! Gastara energias em vão! Porque não se decidira mais cedo? A máquina do tempo é implacável, a vida é tão breve…que urge aprendermos a saber vivê-la.
Um dia olhamos para trás com nostalgia, à procura dos momentos ditosos como prémio de consolação, por termos envelhecido e estarmos a chegar à meta.

Que razão poderia justificar uma união baseada na mentira, na hipocrisia, no egoísmo, na falta de respeito, no ódio… Se pelo menos tivesse sido por uma questão material, mas não, o comodismo amarrara-a e deixara-se agrilhoar a um homem que a mantinha como um objecto, neutralizara os sentidos para não ver, não ouvir, não racionalizar, não enfrentar a situação que se agravava dia a dia. Ela que fora uma mulher inteligente e perceptiva. Ou a menos que aquele homem representasse alguém do passado…quem então? Muito provavelmente um fantasma da infância, talvez um dia essa misteriosa personagem aflorasse à superfície para ajudar a esclarecer aquela fase da sua vida. Parecia-lhe a forma mais viável de se conhecer um pouco melhor. As queixas, as lamúrias são próprias das crianças. Felizmente não optara por esse papel, de qualquer forma também não agira. Algum sentimento reprimido tinha-a acorrentado.
Cerrou as pálpebras e rememorou num eco longínquo, as últimas palavras proferidas pelo marido, no dia anterior à separação:
- Podes ter a certeza que não te vou dar descanso! Não me deste o filho que desejava ter…como amante vales zero…estúpida!
A voz da hospedeira despertou-a:
- Senhores passageiros, o avião não pode seguir directamente para Roma, o voo não foi alterado, demoraremos mais algum tempo no ar, a situação está sob controlo, por isso continuação de boa viagem e obrigada pela atenção.

Jackie voltou-se para o passageiro do lado e observou sorrindo que este dormia profundamente, expelindo o ar pela boca carnuda. Enquanto roncava, o bigodinho curto de mosca pousado no lábio superior, saltava ao ritmo cadenciado dos roncos. A cabeça parcialmente calva pendia para o lado dela. O nó da gravata asfixiava-o inchando o rosto vermelhusco.

Ela arqueou as sobrancelhas surpreendida com a tranquilidade que aquele homem lhe transmitia, para depois regressar logo de seguida às suas reflexões; valeria a pena virar-se tão integralmente para o pretérito? Já meditara o suficiente, analisara fio a fio no consultório da terapeuta. Para quê perder mais tempo a carpir as mágoas que o tempo encarregar-se-ia de apagar. O mais sensato seria preparar-se para renascer e ser de novo amada. Um dia as feridas cicatrizariam e ficaria em paz, restaria apenas a textura do rasgão, algo áspero e inesquecível mas que a tinham ajudado a crescer, fortalecendo-a. Havia-se humanizado e compreendido uma série de acontecimentos que de outra forma seria impossível assimilá-los.
A voz da hospedeira ouviu-se de novo um tanto apreensiva:
- Senhores passageiros preparem-se para uma aterragem de emergência, apertem os cintos de segurança, por favor mantenham-se calmos, coloquem a cabeça entre os joelhos e as mãos por cima para se protegerem. Obrigada e cumpram rigorosamente as instruções.
Gerou-se uma onda de pânico, os passageiros entreolharam-se assustados e comentavam uns com os outros sobre o local de aterragem, pois alguns até sabiam que por perto não existia nenhum aeroporto, portanto esta descida acarretava muitos riscos.Jackie partilhava do mesmo sentimento de pânico das outras pessoas, porém, surpreendeu-se quando reparou que o indivíduo vermelhusco continuava a dormir e a leste dos acontecimentos. Então resolveu sacudi-lo:
- Acorde, o senhor tem de se proteger!
Os seus apelos foram inúteis, pois este deu-lhe uma cotovelada e resmungou:
- Deixe-me em paz e não me chateie…
Baixou-se deveras indignada e enterrou a cabeça entre os joelhos conforme as instruções.

Os minutos que se seguiram apagaram-se numa amálgama de gritos, gemidos, sons metálicos estranhos, tudo rodopiou com fortes impactos, mergulhando num silêncio infernal e lúgubre.
Quando Jackie abriu os olhos e reparou perplexa no manto branco, justo e acetinado que trazia no seu corpo. Mal conseguia suster-se de pé devido ao peso das asas, cuja penugem alvacenta estremecia com o roçar da brisa que corria. Em seguida, viu como a relva fresca, húmida e verde crescia sob os seus pés descalços. Boquiaberta e confusa pôs-se a andar devagar. A determinada altura encontrou um pequeno lago azul que espelhava fielmente as nuvens de um branco puro. Cuidadosamente enterrou os pés na água fria e límpida, inclinou-se para a frente e estremeceu com a própria imagem reflectida. Mal podia acreditar que esta imagem flutuante era a sua! Que estranha beleza?! Nunca tinha notado?! Nunca parara para olhar para si! Baixou-se para se ver melhor…Examinou minuciosamente os olhos garços, as pestanas negras, compridas e enroladas, a pele de tez amarelada, a cabeleira com fios negros e sedosos escorregavam pelas costas. Devagarinho acariciou o rosto oval e deliciou-se nesse gesto. Uma onda de prazer invadiu o ego embriagando-a. Viu-se semelhante a uma dessas deusas gregas de que narra a História.
De súbito um grupo de aves surgiu no horizonte… Depressa esqueceu-se de si, para prestar atenção àquele espectáculo! Mas nos instantes seguintes franziu o sobrolho, porque notou qualquer coisa de estranho; elas vinham a grande velocidade e amontoadas como se formassem um esquadrão… Jackie desconcertada esqueceu-se das suas asas, gelou toda e petrificou.Num pestanejar entreviu os pés nus e negros de um ser humano! Lutou contra todas aquelas sombras alucinatórias, todavia, desiquilibou-se e tombou pesada na parte mais funda do lago, provocando um ruído estrondoso, libertando milhares de jactos de água. Submergiu e ficou encalhada no fundo, uma ponta do manto rasgou-se e ficara presa a um montículo de rochas escarpadas. Numa aflição doida tentou desenvencilhar-se. Contudo, ficou assustada quando se deparou com umas mãos de cor, gigantes?!...Aquelas mãos faziam-na sentir minúscula! Porém, foi o poder mágico dessas mesmas mãos que arrastaram o seu corpo até à superfície. Jackie tossia incessantemente e tiritava até à raiz dos cabelos. Olhou em redor à procura da personagem misteriosa, no entanto, ali, reinava só a presença do sol, coalhando o chão, indo espetar-se de rompante no horizonte. Ergueu-se num esforço doloroso, sacudiu as asas, já que molhadas tornavam-se um fardo difícil de carregar. Apercebeu-se que estava praticamente nua, então, pensou seriamente em fugir dali voando. Seria capaz de usá-las? Em escassos segundos pôs-se a reflectir sobre a sua existência naquele lugar, não compreendia a lógica, teria mesmo morrido? Se tinha asas…então transformara-se num anjo! Portanto tinha chegado ao paraíso! Durante a infância a avó materna incutira-lhe no espírito a fantasia de que a morte era alguém que tomando-a nos braços lhe traria um sono doce e repousado, para de seguida transportá-la ao Assento Eterno. Ali marcaria o seu encontro com Deus, Jesus Cristo, os anjos, os arcanjos…Haveria árvores viçosas, pássaros a cantarolar, rios frescos, claros e um céu azul sem nuvens tormentosas. O mal não teria mais lugar. O único poder deste reino seria o amor, o verdadeiro e sublime amor.
Ela lançou um grito ao vento, mas foi o eco que voltou como resposta. Este silêncio incomodava-a e parecia sufocá-la. Desesperada desatou a chorar:
- Avó, onde estás? Aqui não encontro a tal paz! Estou só, triste e abandonada…Meu Deus, onde estou?
Apertou os braços contra si, num gesto de auto protecção, sentia-se completamente desamparada. Era mesmo como se fosse uma cega em busca de luz, um facho que lhe indicasse uma direcção. Respirou fundo e resolveu não se deixar dominar pelo medo. Tinha forçosamente de encontrar um caminho, por isso, encheu-se de coragem e determinação; principiou por experimentar as asas, quando ensaiou o primeiro voo, milhares de salpicos de água saltaram para todos os lados e descontrolada caiu para trás. Repetiu a operação diversas vezes sem sucesso, depois lamuriou-se:
- Para que me servem estas asas se não sei voar…
No auge da fúria soltou um gemido abafado e por fim lá conseguiu subir desengonçada num voo rasante, ficou tão entusiasmada! ... Uma alegria esfuziante entonteceu-a e lançou-se a toda a força na busca de outro voo um pouco mais alto…Que sensação extraordinária! Então recordou-se de que já ouvira algo semelhante sobre a arte de executar voos. Aprendera que no íntimo de cada um existe uma vontade de ir mais além, então, pôs-se a cantarolar para espantar o receio.
- Acorde por favor! -Exclamou uma voz masculina.
- Eu já morri…-Lamuriou-se
- Não morreu coisíssima nenhuma!
As pálpebras cerradas moveram-se delirantes numa curiosidade insaciável, pois tinha urgência em terminar com aquele jogo infantil de cabra cega. Meneou a cabeça, todavia nada!
- Sossegue, o pior já passou! -Segredou-lhe ao ouvido com doçura.
Havia feito um tremendo esforço para no último instante abandonar-se e resvalar pelo inconsciente abaixo:

- Mamy! Mamy! Onde estás, tenho medo?!...
- Estou aqui querida, psiu, fica tranquila…
- Eu tive um sonho mau, ficas comigo esta noite?
- Fico meu amor!
Numa aliança envolta em carinho mãe e filhota adormeceram abraçadas.
- Mãe, perdi a minha boneca!
- Oh filha, não fiques assim, fazemos outra!
- Mas eu queria a outra!
- Até lhe podemos pôr o mesmo nome, que achas?
- Está bem, e vamos encher a cabeça dela com aqueles fios de lã amarelos, como fizeste com a outra?
- Tudo igual, queres apostar?

- Isto de ser filha única é uma chatice!
- Não refiles comigo que eu não gosto!
- Eu fui convidada…
- Podes ir com a condição de não ultrapassares a hora que já determinamos, da última vez falhaste…
- Prometo que desta vez chego à hora marcada!
- Outra coisa, nada de álcool!
- Oh mãe, que exagero, só bebi um copo, mas está bem, nem uma gota!
- Cuidado com os rapazinhos…
- Mãe! Por Deus!
- Vai-te lá embora!
- Até logo!

- Jackie, já te conheço, para onde foi a tua alegria?
- Impressão sua…
- Não sou cega! Disfarças mal, não me enganas! É o casamento, não é?
- As confusões de sempre…
- Ele maltrata-te? O que é que está a acontecer?
- Para ser franca as coisas têm corrido mal, mas nada importante…
- Havemos de ter uma conversinha para esclarecer isso, sinto-te muito diferente! Sou tua mãe e preocupo-me contigo…


- Jackie, adoeces e ninguém me avisa! Se não fosse a tia Angie não sabia de nada!
- Não se trata de doença, estou de cama porque o Diego me bateu.
- Santo Deus, desde quando?
- Desde o início.
- Porque não me contaste?
- Não queria preocupá-la ainda mais, a mãe desconfiava e eu procurei esconder, receava um confronto entre vocês! Penso que mesmo depois de tudo não sou capaz de sair disto!...
- Tu és capaz, mereces mais e melhor, vou levar-te já daqui, se tu não consegues fazer-lhe frente eu faço-o por ti! Nunca te vi assim…
- Tenho medo por si e por mim!
- Ele vai matar-nos às duas, é? Tenho o carro lá fora, levo-te para casa da tia, a ideia de dirigir durante a noite não me agrada, pela manhã vamos para o nossa casa.
- Ui! Dói-me o corpo todo…
- Pudera! Estás toda marcada! Fico zangada por me teres escondido a gravidade da situação.
- Mãe…
- Não digas mais nada!

Jackie resvalava num precipício, o obscuro arrastava-a e absorvia-a nas suas entranhas lúgubres.
- Diga como se sente?
Novamente aquela voz, parecia realmente querer acordá-la, contudo, misturava-se com outras, todas juntas acabavam por confundi-la…
- Regresse à vida! – Insistiu a mesma voz.
Piscou os olhos apressada e finalmente deu de caras com um homem negro, debruçado.A primeira reacção foi de susto, parecia-lhe inimaginável estar a ver no paraíso um homem de cor, nunca fora racista, a mãe sempre lhe ensinara a gostar das pessoas independentemente do sexo, do credo, da raça, da cor da pele…mas sempre imaginara que lá no céu fosse tudo de raça branca!
- Eu conheço-o? -perguntou num foi de voz.
- Não-Respondeu ele – no entanto fiquei aqui muito tempo consigo, assisti aos seus delírios…Os seus ferimentos apresentavam sinais de gravidade, cheguei a pensar que iria perdê-la, teve temperatura muito alta, passou mesmo um mau bocado, felizmente os meus tratamentos resultaram e está salva!
- Estou no planeta terra, na companhia de um padre!? -Indagou com alguma dificuldade.
- Exactamente senhorita!
- No continente africano, agora deixe as questões de lado e procure repousar, cada coisa a seu tempo, está bem assim?
- O senhor é que sabe.
Jackie foi recuperando gradualmente nos dias que se seguiram, até ficar quase totalmente restabelecida. O período de convalescença fora longo, porém, física e psicologicamente estava ilesa.
Por uma ocasião, ela aproximou-se do sacerdote e perscrutou mansamente:
- Sam, como foi que me encontrou e que sítio é este?
- Em relação à primeira pergunta, como a encontrei, foi provavelmente obra do acaso, na ocasião regava a horta, de repente faltou a água, aborrecido decidi ir até ao poço grande, para saber do que se tratava. Descobri que o cano à saída do poço tinha problemas de obstrução, apesar de aparentar simples não foi fácil de resolver. No regresso dei consigo, em muito mau estado. Respondendo à segunda pergunta, esclareço-a de que se encontra na Namíbia. -Ele foi lacónico na sua descrição.
- Pelo menos fala inglês, o que facilita a comunicação!
- Você só podia ser britânica, pelo sotaque…
- Não compreendo como é que não está a par de nada do acidente!? -Observou deveras admirada Eu não surgi do nada…
- É lógico que não, mas não esqueça que isto aqui é o fim do mundo! Espero por uma avioneta de tempos a tempos, é ela que me traz as notícias do mundo, materiais e mantimentos de que necessito…depois do que lhe sucedeu a si a avioneta não voltou, às vezes acontecem atrasos, tempestades pelo caminho, recuos…
- E quando vier posso ir embora?
- É óbvio! Não é minha prisioneira! -Rematou sério
- Sam, porquê este lugar tão isolado?
- Talvez seja uma fuga…
- Está fugindo do quê ou de quem?
- De mim próprio.
- É padre por convicção?
- Mais ou menos!...
- Estranha resposta, essa, “mais ou menos”!...
Sam elevou ligeiramente o tom de voz:
- Não julgue as pessoas sem primeiro as conhecer, diga francamente que fantasias tem a meu respeito.
- Pelo menos vilão não deve ser, a sotaina pode querer dizer ou não alguma coisa, se me quisesse matar tê-lo-ia já feito, nem faria sentido salvar-me a vida para depois roubá-la…Não deixa de ser misterioso…, a não ser…
- A não ser o quê?
- Você pode ser um fugitivo, por acaso apareci no seu caminho, salvou-me a vida e em troca vai exigir o meu silêncio, se denunciá-lo não terá pejo em aniquilar-me. Certo?
- Não vai denunciar ninguém, sua mal agradecida! - Ele bramiu encolerizado e os seus olhos irradiaram faíscas de raiva. Num movimento brusco puxou-a pelo braço, até fazê-la soltar um gemido. -Pensando bem, faça isso, até me faz um favor-Pronunciou num tom mais calmo e rouco, depois afastou-se desaparecendo na mata. Ela foi-lhe no encalço, quando chegou perto:
- Sam, você é procurado pela polícia?
- Sou.
- Não me quer explicar o motivo? -Inquiriu num tom complacente
- Matei o meu pai! -Respondeu numa lamúria.
- Quer falar disso?
- O meu pai batia sistematicamente na minha mãe, eu odiava-o por isso, um dia regressava da faculdade e perdi a cabeça quando percebi que ele estava a violá-la, não fui capaz de ficar quieto e atirei-me, rolamos ambos para o chão. A minha mãe tentou apartar-nos, depois ele agarrou-a e apertou-lhe o pescoço, culpava-a dos meus grossos modos, julguei que ele ia matá-la ali mesmo, e foi isso mesmo que aconteceu, possesso fui à cozinha, agarrei numa faca das grandes e quando voltava à sala numa correria louca, não imaginei que meu pai pudesse ter ido ao meu encontro, chocamos um contra o outro de frente e a faca meteu-se toda nas entranhas dele, foi uma sensação pavorosa! a minha ideia não era a de cometer o crime, mas apenas assustá-lo, no entanto…
- E a sua mãe?
- O malvado matou-a por estrangulamento!
- É melhor irmos, está a escurecer - sugeriu Jackie.
- Também acho, vamos!
Já no quarto, estendeu-se no leito pensativa, um nervosismo invadiu-a; uma história de vida semelhante à sua, só que esta terminara de forma trágica. Aquele homem falara-lhe com o coração, dera-lhe um voto de confiânca, merecia como prémio tolerância e compreensão. Não podia supô-lo lá fora, abandonado, triste e machucado…Abriu a porta devagar e fitou-o à distância. Sentado sobre o muro que dava para o jardim, recortado na luz frouxa da lua, imóvel e perdido em pensamentos. Aproximou-se receosa, em bicos de pés para não incomodar muito e perguntou timidamente:
- Posso fazer-lhe companhia?
- Se quiser…
- Quer falar de algum assunto especial, ou prefere ficar calado?
- Pergunte o que entender.
- Veio para cá porque razão? -Indagou curiosa.
- Vim na busca de um refúgio, a polícia tentou deitar-me a mão mas não conseguiu, morreria dentro de uma cela, contudo, a culpa por um pecado não expiado atormenta a minha consciência. Resolvi ficar exilado aqui, esta é a minha clausura, sob o disfarce de sacerdote. -Ela escutava-o atenta -A minha religião é da minha conta e de mais ninguém, creio em Deus, admiro muito Jesus Cristo por ter sido um guerreiro manso…sei que gostaria de estar mais activo, infelizmente não é possível, ele está comigo, perdoa-me, e é isso que me interessa! Não acredito na justiça dos homens, Deus dará a sua sentença. O que vem de cima não me assusta…satisfeita?
- Lamento sinceramente por tudo o que passou, e o que ainda sofre…
- Já não sofro, sinto-me calmo e sereno, estou aqui há dez anos, e pretendo continuar, trata-se de uma opção, aqui purifico-me a cada dia…encontrei um outro Sam dentro de mim.
- Curiosa a história dos seus pais, é tão semelhante à minha! O meu ex-marido também resolvia tudo à estalada, e quando bebia ia mais longe, olhe que esta droga do álcool atinge toda a gente, é mesmo uma maldição, ele nunca reconheceu que estava doente, nem procurou qualquer tipo de ajuda! Além disso tinha um feitiozinho dos diabos, enfim…naquela altura eu olhava para mim com muita pena e vergonha, pois pensava ser a única a sofrer. Quando entrei para o grupo de apoio aos familiares de alcoólicos, percebi quantos mais passavam pelo mesmo, foi ali que me descobri, quis saber quem era na verdade, depois iniciei um tratamento individual de terapia, num consultório privado. E você Sam teve algum tipo de apoio?
- Sim, um professor da faculdade com quem tive grandes conversas, uma vez por outra vem até aqui, viaja para estar comigo, é um homem com muitas qualidades! Sabe, nós sofremos muito, você e eu, isso está escrito nos seus olhos, nos meus olhos, todos temos as nossas feridas, umas mais rasgadas e fundas, finja que não lhe dói. Olhe para o futuro, o que se quebrou, quebrou…Agarre-se aos pensamentos positivos …ouça música relaxante, dance, vá ao cinema, esteja com amigas, realize-se como profissional e como mulher. Confie nos seus dons, na sua beleza interior…procure fazer o que lhe dá mais prazer! Valorize-se!
- Oh, Sam, você é demais!...Já sinto pena de me ir embora!...-Exclamou com ternura.
- Vamos dormir, amanhã tenho uma longa jornada pela frente!
- Posso ficar mais um pouco?
- O bicho papão pode aparecer e raptá-la, mais sentimentos de culpa não!
Riram ambos e entraram na casa
Pela madrugada foi bater-lhe à porta do quarto:
- Jackie, já acordou?
- Já, dormi muito pouco!
- Por causa do bicho papão?
Sorriram, ele chegou-se para mais perto dela, e, devagarinho pronunciou:
- A avioneta chegou, a Mary veio com o piloto…
- Quem é a Mary?
- Uma velha amiga, dei-lhe guarida há alguns anos, vivia com o marido numa casa perto desta, entretanto ele faleceu, como estava só, sem ninguém, convidei-a a ficar cá! Um dia foi embora porque queria conhecer o mundo antes de morrer, regressou hoje!
Fitaram-se mutuamente, encararam-se de forma profunda:
- Estou fascinada consigo Sam…
Não se contendo mais, ela lançou-se num beijo e ele sem hesitar correspondeu de forma intensa e apaixonada. Como dois adolescentes, de olhos nos olhos, tomaram o café da manhã juntos para de seguida receberem Mary e o piloto. O material que Sam aguardava não viera, burocracias! Motivo que o deixara aborrecido.Nao faltaram os enlatados e produtos de limpeza, entre outros bens de primeira necessidade. Almoçaram os quatro entusiasmados com as novidades que Mary, a negra, contava na sua voz nasalada, sorria quando falava, a fisionomia pachorrenta nunca se alterava. O piloto tinha de ir mais cedo do que era habitual, motivos de ordem profissional forçavam-no a partir logo após o almoço, Mary já tinha visto muitas coisas e sentia-se demasiado cansada, por isso decidira ficar ali mesmo.Sam e Jackie trocaram um olhar angustiado, sabiam que a hora da despedida tinha chegado; ela trémula de nervosismo saiu para a rua, despediu-se da velha negra pedindo-lhe que olhasse por ele. De seguida dirigiu-se a Sam que estava visivelmente ansioso:
- Agradeço de coração tudo o que fez por mim! Foi uma bênção que caiu do céu, conhecê-lo foi sem dúvida a coisa mais bonita que me aconteceu na vida, eu volto para…
- Psiu! -Ele colocou ao de leve as pontas dos dedos sobre os lábios dela - hei-de ir ter consigo, a nossa história começa agora, por nada deste mundo iria perdê-la. Encontrei-a e nada nem ninguém ma vai roubar…
Abraçaram-se e beijaram-se longamente, como se quisessem eternizar aquele momento para sempre. Quando se separaram tinham ambos lágrimas nos olhos. Ela soltou-se de repente e ele agarrou-a pela mão e puxou-a de novo a si, tornando a beijá-la para finalmente a soltar, enquanto via-a subir velozmente para a avioneta.
Entretanto, um carro da polícia chegou, Sam estremeceu, Mary imobilizou-se perplexa e como que acordando bruscamente de um sonho, gritou mais do que a sua força podia:
- Fuja, fuja Sam, depressa!
- Não minha doce Mary. - Proferiu tranquilamente enquanto tomava as mãos dela nas suas e levava-as ao peito. Observou o semblante estupefacto da velha senhora e esclareceu-a:
- Mary, não vou fugir mais da justiça dos homens, quero começar uma vida nova, está na hora de saldar dívidas, falarei com aquele professor amigo e tenho a certeza que me arranjará um bom advogado. A verdade triunfa sempre! Quanto a si minha querida amiga, conheço uma pessoa que não se importará de lhe fazer companhia, que me diz?
- Sempre tão bom, o senhor doutor…- a voz quebrou-se embargada e os seus olhos, duas luas cheias brilhavam como pedras preciosas, num mar branco de esperança.
- Senhor Sam, tenho uma ordem de captura contra si, faça o favor de me acompanhar.
Pedras- 2002