sexta-feira, 12 de março de 2010

"ESTE É O MAIOR FRACASSO DA DEMOCRACIA PORTUGUESA"

"Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, (Olá! camaradas Sócrates…Olá! Armando Vara…), que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido.
Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.
Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.

A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.

Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.
Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado.
Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos?

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?

Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.
Ninguém quer saber a verdade.
Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa."

Clara Ferreira Alves - "Expresso"

7 comentários:

direitinho disse...

Estou totalmente de acordo com toda a noticia publicada por Clara Ferreira Alves.
Parece-me que ainda não chegámos ao fundo da situação.
Neste país os culpados nunca serão punidos porque os magistrados e toda a classe judicial está sob a alçada do governo e tem ordens claras e concretas para tocar a música conforme o gosto de quem manda.
Estão manietados.
Hoje não há justiça que nos defenda.

Brown Eyes disse...

Pedrasnuas fiquei fascinada a ler este post que diz o que eu venho dizendo há anos mas, infelizmente, as coisas agravam-se de dia para dia. Os valores perdem-se de minuto a minuto e eu continuo sem compreender como é possível o criminoso, o mentiroso, o falsificador poder ficar impune. NÃO COMPREENDO. Admira-me que me venham desculpar um Socrates, PRIMEIRO MINISTRO, que DEVE DAR o EXEMPLO, como se tudo o que ele fez e faz seja normal. A verdade, eu e tu sabemo-la e também sabemos que os culpados não são punidos nem vão ser. Que país é este? Sabes porque nada se sabe porque uns comeram, outros vão comer e outros ainda têm esperança de comer. Há uma pequena minoria, da qual me incluo, que vive dignamente e, essa minoria é chamada de nomes porque o normal é viver às custas da política e da cunha. Pode? Pois pode e continuará a poder e pessoas como nós ou se acautela ou é calada. A mim só morta. Dizem que não há oposição por isso votaram e continuariam a votar. Num Sócrates? Concluo que além de este povo não ter já nada também perdeu a vergonha. Eu tinha vergonha de defender e aplaudir pessoas dessas. A verdade nós sabemo-la não temos é capacidade de punir os culpados e quem a tem ou tem um buraco ao fundo das costas ou quer algo em troca. Se fossemos nós como estaríamos? Atrás das grades e sem um único amigo, não? Quem tem dinheiro pode tudo? Está imune? Porquê? A mim bastou-me a história de ele ser apanhado a fumar num avião, ele, quem tem que dar o exemplo. Depois ainda vem a público dizer que desconhecia a lei. Desconhecia? Quem a faz desconhece? Se nós não podemos nunca utilizar o desconhecimento da lei como defesa pode utiliza-la quem a faz? Aí demonstrou-me quem ele era, um mentiroso compulsivo, capaz da maior mentira para desculpar os seus erros. Há quem mereça este P.M. e este país mas eu não. Por favor coloquem o lixo onde deve ser colocado. Façam justiça que de cegos não temos nada.
Beijinhhos

JPD disse...

A democracia é o único regime que poderá oferecer algum controlo válido sobre a actividade dos políticos.

Para que tal ocorra é preciso que os eleitores se organizem de modo a exercer o controlo dessa actividade sem que os partidos ou interesses instalados junto do poder se interponham.

Isso tem ocorrido em Portugal, a responsabilidade do exercício de controlo e a exigência de explicações?

A resposta é óbvia.
NÃO!

Há ânimo para inflectir?
Duvido.

A Republica está decadente, minha amiga.

Bjs

Ana disse...

Lembro-me de muita coisa, sim. Sá Carneiro, por exemplo, não consigo esquecer, por razões pessoais. Otras, já nem me lembrava. E é assim que a maor parte delas cai no esquecimento.
E tu, como está? Como está o teu Funchal?
Bj

VANUZA PANTALEÃO disse...

Minha amiga, estou totalmente solidária com a tua indignação. Embora desconheça em detalhes os casos citados, chego a pensar que se mudarmos apenas os nomes dos protagonistas, poderíamos transpor toda esse mar de lama para o Brasil. Não há como negar a máxima: O PODER CORROMPE!
Carinhosamente!!!

Fernanda disse...

Gosto dela, CFA, do pensamento critico e inteligente que tem e da forma descomplexada de dizer o que pensa, mesmo que a democracia, seja aquilo que se vê, mas é precisamente por termos liberdade que podemos contestar esta democracia de fachada...
É, bom que haja gente inteligente que faça realçar a falta de sentido democratico dentro deste país, de srs. drs.

Gostei de ler

avlisjota disse...

Não se pode atribuir fracasso a algo que nunca teve sucesso...

José