sábado, 3 de julho de 2010

Clarisse disparou

Clarisse sentada à mesa escrevia uma carta
falava ao amante
e em versos de amor gritava...
Uma rajada de vento soprou
a janela abriu-se
a cortina enfunou
A rapariga apressou-se e a janela cerrou...
e à escrivaninha voltou ...
- Bom dia meu amor
A voz num tom calmo cumprimentou
Clarisse sobressaltou...
e depois receosa em torno...olhou...olhou
e das sombras gigantes do quarto
alguém assomou...
A chama da vela hirta no candelabro
bruxuleou
Os olhos da jovem faiscaram de pavor:
- Que fazes aqui se meu marido te matou?
- As saudades foram tais...
- E as minhas meu querido David foram brutais...
- Vim do outro mundo ...pois o meu paraíso incendiou...
- Que quereis dizer com isso?
- Ardo por vós senhora...e não encontro paz...
- Como vos compreendo...
- E vosso marido nao pagou pelo que me fez...
- Roubou-lhe a mulher...a ditosa senhora ...em que ele me tornou...
- Será razão forte...e vós senhora alguma vez de verdade me amou?
- Amei e amo muito...mas o meu marido é nobre... e em senhora de respeito me transformou...e a minha vida com esses benefícios também ganhou...
- E comigo senhora?
- Contigo fui boa amante mas nunca disso passou...
- Pois , sei que sou pobre...
- Pobre ,desempregado e sem garantias de futuro...
- Mas senhora ...vamos continuar assim?!
- Não David .... não vamos continuar assim,espero um filho de meu marido, assim vou assegurar a continuação de sangue puro
- Então não devo voltar mais aqui?!
- Não será prudente ser visitada por uma alma que meu marido tanto odiou...
- Vós falais como se fosséis uma senhora ditosa...
- Aos olhos de todos sou...
- Sim porque vosso marido julgou que de violação se tratou...
- E vai continuar a pensar assim...
- Até quando Clarisse?
- Até eu matá-lo como ele fez a si...
- Como senhora, que loucura...irás presa...
- Não sou tola David, terá sido assalto...acontece depois da casa ter estado acesa...
A porta abriu-se de rompante ...
- Senhor meu marido?!
- Clarisse, que história é essa?!
- Que é isso...uma arma?!
- Falais com ele,onde está ?
- Dai-me essa arma, vais matá-lo pela segunda vez?!
- Pois farei isso...agora será de vez...
- Não posso permitir...
- Sois louca,uma louca sem juízo, nem merece que por si vá esgrimir...
Clarisse e o marido pela posse da arma lutaram...lutaram até Clarisse cair...
A arma disparou , sem ninguém perceber ...quem de facto iria morrer...
Então o marido tombou e ficou de bruços sobre a carta que a mulher escrevia ao amante...
Ela assustada questionou...
- David , estás aí?
O amante não respondeu
Clarisse lamentou:
- Ai e agora sem amante e com marido morto que será de mim?
para : Fábrica- tema : "Disparou"

12 comentários:

legalmente loira... disse...

amiga,
que bela escrita!! de uma narrativa
de ficar sem folego.
clarisse disparou??
deveria ficar com os dois.
para não ter que disparar....triste...
Beijo e bom fim de semana.
até segunda-feira...

Luís Coelho disse...

Fez-me lembrar aqueles folhetos cantados nas feiras nos anos 40/60.
Desculpe-me esta sinceridade.Havia muitos(alguns) que iam cantando e pedindo. As pessoas depois iam cantarolando essas cantilenas com mais vida aqui pelos campos enquanto trabalhavam.

A história tem um misto de pessoas e anjos o que lhe confere uma característica diferente.

OUTONO disse...

Fica-se calado...uma espécie de sede...um sentir natural de bem estar...
Obrigado pela partilha.
Beijinho.

Ana disse...

Escolhas...
Bj

Louise disse...

Que escrita tão engraçada e apelativa. Gostei muito.

Vera, a Loira disse...

A tua participação, apesar de tudo fez-me sorrir.

Nilson Barcelli disse...

Fabuloso texto, minha amiga.
Li do princípio ao fim quase sem respirar.
Brilhante, excelente, surpreendente, etc., etc.
Encantou-me este teu texto.
PARABÉNS!!!!
Boa semana, beijos.

Poetic GIRL disse...

E no fim ficou sem nenhum... tantas vezes que isso acontece... gostei. bjs

AC disse...

Gostei, fez-me lembrar uma ópera bufa! :)

beijo

Helga disse...

Lembrou-me a história de Laurinda, da canção de Vitorino. Adorei cada palavra!

Beijinho e obrigada pelas palavras de carinho sempre constantes :)

Santa Cruz disse...

Amiga Que belo Texto linda narrativa para não dizer fabulosa, apesar de ser um pouco triste Adorei.
um beijo
Santa Cruz

Brown Eyes disse...

Pedras aqui está o retrato da sociedade em que vivemos onde a aparência e a hipocrisia continuam a ter mais força que a feliciade.
Aos olhos de todos ela era ditosa e continuaria a ser porque ela sabia como esconder a sua verdadeira natureza. Beijinhos