terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Nem sei...

Eu tinha a vontade aqui mesmo…
As palavras na mão
O rebuçado desembrulhado
Pronto para ser provado…
Que estúpida distracção
Iludi-me tanto
Enfrasquei-me de sonhos
Todos fresquinhos …
Peixe-espada, sardinhas…tanto faz…
E não sabia
O quanto me perdia
Foi tudo desencantamento
Descalabro completo
Drama ou comédia?
O fogo apagou!
Nem chegou a ser um tormento!!!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Então é natal...




O espírito evoca fenómenos passados

trazidos em grãos de esferovite

Omo branco de neve pura

embebido em água límpida e fresca

o líquido corriqueiro

escorre porta abaixo

corre quintal adentro

galga escadaria acima…

A frescura com cheiro

a ar próprio

arromba as portas antigas da velha casa

lambe as vidraças

em gestos vigorosos e friccionados

Os tapetes com desenhos orientais

submergem no lavadouro

O escaparate comprado ao rei D. Carlos

abre gavetas e saem prateleiras

As loiças tombam, mergulham

dentro do alguidar

num baptismo de água em bolhas coloridas

A massa da farinha incha nos tachos

ao calor da lareira

O sino da capela chama para a missa do parto

E ao fim da noite princípios do dia

olhos pestanejam de sono por dormir

e lábios bocejam

A faca espeta-se nas goelas do porco

E o furo jorra sangue quente

Pobre animal atraiçoado e sacrificado na festa.

E eis que surge a passo lento

Num silêncio devoto

A mãe…

Traz a criança nos braços

A seu lado, ombro com ombro

o pai numa fiel cumplicidade.

A vaca e o burro acercam-se

Cada um toma a sua posição

Como se uma fotografia os retratasse

Os pastores andam trauteando

quadras ao vento…

e ao avistarem tão lindo quadro

curvam-se e adoram maravilhados

o nascimento do menino.

O anjo chega atrasado

e revela atarantado:

- Os reis Magos vêm chegando…

A vaca molengona exclama presunçosa:

- E trazem ouro!

O burro atento completa vaidoso:

- Esqueceste o incenso e a mirra…

O pinheiro alto

rompe o telhado da sala

espeta-se numa estrela

Outros astros estremecem

resvalam de comoção

prendendo-se nos galhos

do esguio pinho.

A espiguilha enlaça-se

E a gambiarra também

O pinheiro alvoroçado

pulsa de agitação

O canto anuncia a missa do galo

Depois

A canja é servida quente

O peru recheado jaz sobre a mesa

Ao lado a travessa de carne vinho e alhos

não faltam as sobremesas

Bolo de laranja, Bolo de família, Bolo de mel…

Broas de manteiga, broas de mel…

Licores viscosos e doces

Sumos…

Vinhos caros

O alvoroço toma conta da família

As crianças brincam sobre o soalho polido de cera

O aroma de ensaião, o aroma do alegra campo,

o aroma das manhãs de Páscoa

e o aroma dos junquilhos

cruzam-se e misturam-se…

O regato chorão contorna

rochas de papelão

o luar solene sopra compaixão…

Cantam rouxinóis hinos de louvor

e assim o presépio lembra o céu…

Àquela hora bendita a campainha ressoa

Apressam-se a atender

É a “muda”, a pobre que vem de longe

De uma outra esquina para pedir de comer

Repartem o pão e o vinho

E estendem-lhe a mão.

Saciada a fome do corpo e da alma

A pobre triste e remendada

Sai dali de alma cheia

E bem alimentada.

E o regato chorão contorna

rochas de papelão

o luar solene sopra compaixão…

cantam  rouxinóis hinos de louvor

e assim o presépio lembra o céu…

Destina-se ao Espaço Aberto - Tema: Então é natal...




sábado, 11 de dezembro de 2010

Quarta experiência

video

Poema de Nilson Barcelli

Ao tocar a tua luz



Há, em certas coisas que me assaltam,

uma intriga de átomos

na procura quântica da sua órbita

que nem eu próprio sei esclarecer.



A cada passo,

visito esse covil de nevoeiros,

onde florescem as dúvidas

edificadas em raízes engordadas pelo diabo

ou em destemperos, que

[à falta de melhor ideia]

atribuo a deuses brincalhões.



Vacilo no indagar e penso,

mas ao meu ânimo é abismo

o patamar onde o palpável do ser

se confunde com a miragem.



Mas tudo fica claro ao tocar a tua luz,

talvez porque os átomos girem ao contrário

quando chegas até mim

com a nudez de uma pedra preciosa.


Voz de Pedras Nuas

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Bicadas da minha pena II

FILHOS DE NINGUÉM

Tudo o que ainda se possa acrescentar, à já tão famigerada problemática que envolve a Casa Pia, não considero ultrapassado, nem é demais, ao contrário do que alguns afirmam. Nada é mais importante que a vida de uma criança. Quem tem filhos e ama-os de verdade sabe isso!


Existem outros assuntos com cobertura televisiva exagerada e nenhum português se sentiu lesado por isso, porque é que desta vez tinha de ser diferente? Parece-me que os meios justificam os fins. Ainda bem que se gastou muito tempo com os filhos de ninguém! Mereceram-no! Não era para menos! São recordados hipocritamente no Natal ou quando a fatalidade cai-lhes em cima. Nefasto e perverso foram os constantes abusos sexuais, os maus-tratos, as perseguições, a total falta de respeito pela dignidade de seres humanos indefesos! Felizmente surgiram as reportagens e debateu-se o que foi durante anos repisado, oprimido, proibido, tabu. As entrevistas chocaram porque finalmente falou-se de factos abomináveis mas consumados. As imagens mostraram ao mundo a imundície que escondiam. Fui uma telespectadora atenta e nem por isso me sinto doente! Muito provavelmente os excessos contribuíram para o caso não cair em saco roto, ou no total esquecimento!


De quem é a culpa que hajam pessoas consumidoras inveteradas de tudo o que a TV.passa? Se são menores a responsabilidade não é dos pais? É consumidor quem quer! A vida tem outros prazeres! Imagens chocantes?! Os noticiários transmitem isso mesmo diariamente, imagens chocantes, às vezes uma forma de acordar consciências adormecidas. Isto não é só pedofilia, é crime organizado, a rede tem de ser desmantelada. Eu também prefiro imagens bonitas, coloridas, artísticas, com estética! Porém o mundo ultimamente é-nos transmitido a preto e branco: a violência, o absurdo, o abominável…A verdade crua e nua deste mundo. Não vale a pena fugir para não ver, para não pensar, os acontecimentos estão aí! Os pormenores foram factos vividos por crianças brutalmente violentadas no mais íntimo do seu ser! Esta calamidade reporta-me aos campos de concentração nazi e àquele período da história igualmente vestido de roupagens escuras; a inquisição, para não lembrar outros!... Descubra-se as diferenças e as semelhanças!...


Os colarinhos brancos têm as suas vidas arrumadas e nada pior que uma denúncia para desestabilizar os seus confortáveis tronos! Não lhes pesa na moral as vidas que deixaram para trás desarrumadas! Penso que foi positivo a acção desencadeada pelos meios de comunicação social. Os actos sórdidos não podem nem devem permanecer “refugiados” no próprio termo que designa e define esta maldita demência. Finalmente o silêncio foi quebrado! Sacudiu-se a estrutura inabalável de um mal que vem de longe, mas que tem rostos, nomes e actos obscenos praticados. Que se faça justiça para que a justiça deixe de ficar tão mal na história!


No que concerne à prescrição, é ridícula, como dizem alguns e com razão, o crime compensa. Esta gente nunca foi julgada nem será?! Permanecerá impune? Se apagarmos o passado pura e simplesmente, quem vai apagar o sofrimento destes homens cuja meninice foi roubada precocemente? A infância é muito importante, é a pedra basilar para o desenvolvimento, progresso, realização e bem-estar de qualquer adulto Todos foram culpados, de um lado ficam os criminosos do outro os cúmplices, quem cala consente! Costuraram os olhos para não ver, amordaçaram a boca para não denunciar, ensurdeceram para não ouvir! Continuaram as suas vidas impávidas e serenas como se nada estivesse a acontecer. Tanta sujidade num país de brandos costumes! Irónico, não é?! Só espero que os culpados sentem no banco dos réus, que é o tratamento aplicado a todo e qualquer cidadão! Quer sejam: doutores, professores, jornalistas, actores, apresentadores, embaixadores, filósofos, humoristas, membros do clero…Faça-se justiça num país onde impera a corrupção; é no futebol, na GNR, na PSP, no caso Moderna…são escândalos atrás de escândalos. A vergonha Nacional! Mas infelizmente há quem ainda se ponha a comparar os nossos erros com os da vizinha Europa, pensando que desta forma desculpam as nossas asneiras, é mais fácil ver o cisco no olho do outro do que ver o nosso!


A verdade deve ser apurada e o BEM triunfar sobre o MAL, doa a quem doer.Durante dois anos leccionei numa escola considerada de risco, sei como são estas crianças, sofrem de abusos e ofensas corporais, de muitas privações, de torturas, de abandono, normalmente dormem cinco, dez, doze no mesmo quarto, o pai acoólico, a mãe alcoólica, droga pelo meio, enfim…, o rendimento escolar é quase nulo, contudo, qual de nós pode criticar e exigir mais, é tudo o que podem dar! Esse pouco necessita do nosso incentivo porque a sua auto – estima é fraca.Temos, até de lhes ensinar a receber um elogio, pois nunca receberam!


A pedofilia tem de ser combatida, é uma doença perigosa porque a principal vítima é a criança, que quase sempre é ameaçada e coagida a permanecer em silêncio, e atenção, o pedófilo pode estar ao nosso lado, sob o mesmo tecto. Não vivamos constantemente desconfiados, porém, quando um menor vem narrar um episódio estranho, devemos dar-lhe crédito e procurar descobrir se é ou não verídico.Quem ama tem o dever de proteger.Nós é que sabemos o que desejamos para os nossos filhos!