terça-feira, 28 de junho de 2011

Um tesouro

A memória atraiçoou…
os dedos frágeis e trémulos
não conseguiram suportar o peso
das sílabas, da rima…
o poema afundou…
procurou no quarto dos brinquedos…
mas nessa altura
a alma andava perdida
algures metida
muito recolhida
sem inspiração
sempre pensativa
quase muda
o sol nasceu…
e o calor incendiou
a casa dos sonhos
a água bebeu
a terra prometida
e …
depois
impelido do novo brilho
procurou outra vez o quarto dos brinquedos
mas desta vez encontrou
um quarto de estrume…
só que  agora
a  alma
descobriu novo fôlego
trouxe na sacola alento
nos cabelos a paz
no coração a glória
o cavaleiro de espada à cinta
fez-se então à merda
lutou
chorou
uivou
sangrou
depois
assobiou
riu
cantou
conquistou
e um verdadeiro  tesouro encontrou…

sábado, 18 de junho de 2011

Oitava experiência

De Jorge de Lima - "Essa Negra Fulô


Ora, se deu que chegou
(isso  faz já muito tempo)
no bangüê de meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá a chamar a negra Fulô)

— Vem forrar minha cama
Vem pentear  meus cabelos,
vem abotoar meu vestido
Que estou cansada, Fulô!


Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!



Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem balançar minha rede
vem coçar minha coceira
Vem me catar cafoné
Vem me contar uma história
que eu estou sono, Fulô!
Essa negra fulo…
Era um dia uma princesa
Que vivia num castelo
Que possuía um vestido
Com os peixinhos do mar
Entrou nas pernas de um
Pato, saiu nas pernas de um pinto
O Rei- Sinhô me mandou
que contasse mais cinco


Essa negra Fulô!



Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da sinhá)
Vá botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Cadê meu terço de oiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você quem roubou!
Foi você negra Fulo
Esta negra Fulo
Esta negra Fulô

O Sinhô foi ver a negra
levar colo do feitor.
A negra se despiu toda
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).


Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulo! Ó Fulo!
Era a fala da sinhá chamando a negra Fulo
Cadê meu frasco de cheiro
Cadê meu cinto de broche,
Cadê o meu lenço de renda
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
foi você negra  Fulo
Essa negra Fullô
Essa negra Fulô


O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
arrancou o cabeção,
e dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você quem roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulo

Voz e arranjos de Pedras Nuas


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sétima experiência

Poema de António Feijó


"Ideal"



Onde moras? Onde moras?
Se adivinhasse onde moras 
¾ Em frente da tua porta, 
Olhando a tua janela, 
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas. 
Sem ti a vida que importa? 
A vida, nem penso nela... 
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas, 
Em frente da tua porta, 
Olhando a tua janela...
Onde moras? Onde moras?
É num castelo roqueiro?
Se é num castelo roqueiro, 
Erguido na penedia,
Sobre o rochedo mais alto 
À beira-mar sobranceiro, 
Com a minha fantasia
Irei tomá-lo de assalto, 
Esse castelo roqueiro, 
Erguido na penedia,
Sobre o rochedo mais alto, 
À beira-mar sobranceiro...
É nos abismos do mar?
Se é nos abismos do mar, 
Sob a múrmura corrente, 
No teu leito de amaranto
Irei também descansar, 
Ficando perpetuamente 
Naquele perpétuo encanto 
Do Rei Hárald Horfagar... 
No teu leito de amaranto 
Irei também descansar, 
Naquele perpétuo encanto 
Do Rei Hárald Horfagar.
É numa estrela, ilha de ouro?

Se é numa estrela, ilha de ouro, 
¾A Via-láctea é uma ponte, 
Subirei por ela ao céu...
Para achar o meu tesouro
Não há remoto horizonte,
Nem Sagitário ou Perseu...
Onde moras? Onde moras?
Se adivinhasse onde moras
¾ Em frente da tua porta, 
Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas. 
Sem ti a vida que importa? 
A vida, nem penso nela... 
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas, 
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela 
Numa extasiada emoção. 
Dize-me pois onde moras, 
Se porventura não moras 
Dentro do meu coração...


Autor: António Feijó
Editado por: nicoladavid
Voz- P.N.