sábado, 18 de junho de 2011

Oitava experiência

De Jorge de Lima - "Essa Negra Fulô


Ora, se deu que chegou
(isso  faz já muito tempo)
no bangüê de meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá a chamar a negra Fulô)

— Vem forrar minha cama
Vem pentear  meus cabelos,
vem abotoar meu vestido
Que estou cansada, Fulô!


Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!



Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem balançar minha rede
vem coçar minha coceira
Vem me catar cafoné
Vem me contar uma história
que eu estou sono, Fulô!
Essa negra fulo…
Era um dia uma princesa
Que vivia num castelo
Que possuía um vestido
Com os peixinhos do mar
Entrou nas pernas de um
Pato, saiu nas pernas de um pinto
O Rei- Sinhô me mandou
que contasse mais cinco


Essa negra Fulô!



Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da sinhá)
Vá botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Cadê meu terço de oiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você quem roubou!
Foi você negra Fulo
Esta negra Fulo
Esta negra Fulô

O Sinhô foi ver a negra
levar colo do feitor.
A negra se despiu toda
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).


Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulo! Ó Fulo!
Era a fala da sinhá chamando a negra Fulo
Cadê meu frasco de cheiro
Cadê meu cinto de broche,
Cadê o meu lenço de renda
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
foi você negra  Fulo
Essa negra Fullô
Essa negra Fulô


O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
arrancou o cabeção,
e dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você quem roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulo

Voz e arranjos de Pedras Nuas


6 comentários:

eu disse...

muito bem. Fez-me lembrar o Villaret.
Parabéns :)

Ana disse...

Divinal! (mas eu sou suspeita)
Beijos,

Nilson Barcelli disse...

Acho que foi a tua melhor experiência. Disseste excepcionalmente bem este poema.
Parabéns.
Querida amiga, bom resto de Domingo e boa semana.
Beijos.

Virgínia do Carmo disse...

Um verdadeiro tratado antropológico em forma de poesia muito bem exposto pela tua voz.

Beijinho grande :)

Parapeito disse...

:))
Caramba!!!!
Gostei...
ai Fulô Fulô...
brisas doces para ti Fulô*

Jorge Gonçalves disse...

Inesquecível o "dizer" do Villaret!