quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A princesa Feia e o Barão Bem Disposto


 A imponência do palácio era visível, no alto do morro, fortificado pelos ramos das árvores, dos arbustos e das plantas. A valsa de verdes, desde os mais esbatidos aos mais fortes e intensos. O chão coberto de musgo e de folhas molhadas pelas primeiras chuvinhas atrevidas e finas. Ali palmilhava-se com assombro o território ideal e recomendado a almas sensíveis e apaixonadas, em tudo amantes da natureza. Os ramos alvoroçados abriram alas às primeiras claridades do dia. Amanhecera. E de dentro do palácio ecoou uma voz forte:


- Quero saber dos meus filhos, tragam imediatamente a princesa Malvada!- ordenou o rei muito esticado.
A rainha Mil Faces antecipou-se à ama de quartos e chegou primeiro:

- Vá, filha, apressa-te, o pai quer ver-te agora!

- Logo agora que estou a brincar com as minhas bonecas …- replicou enervada.
- Princesa, por favor, nada de lamúrias, vamos lá!
- A mãe tem sempre que lhe obedecer.- comentou com um ar de fastio.
- Ele é o rei, o teu pai, está bem?
- Tu és a rainha, minha mãe…- argumentou astuta.
- Atenção a esses modos ou o rei manda-te cortar a língua de tão espevitada!
Segurando na criança pela mão, puxou-a e rapidamente levou-a à presença do pai.
- Aproxima-te Malvada! – disse o Mau Educador cofiando manhosamente o bigode e a barba.
A menina encrespou o rosto de enfado e deu um passo em frente.
- Que cara é essa? – quis saber o pai.
- A minha!
- Não sejas refilona – contestou brando.
- A princesa não é refilona. – acudiu a rainha.
- Ai não? – sacudiu o lenço de mão.
- Não pode levar a mal o que a minha princesinha diz…
- Deixemo-nos de arengas – apressou-se a acrescentar o Mau Educador – depois, com as pontas dos dedos ergueu  o rosto da criança:
- Já pinta os lábios, princesa?! – pronunciou com estupefação.
- Ela gosta, é menina…e há outras na corte que também fazem o mesmo…- corroborou a rainha Mil faces.
O rei ergueu as sobrancelhas e em silêncio lançou à mulher um olhar displicente, em seguida afirmou:
- Não gosto, acho que é muito cedo para isso.
- Deixai a menina ser menina.
Os olhos de sua excelência semi cerraram-se de irritação, deu um estalinho com a língua e prosseguiu estalando seguidamente os dedos:
- Vamos à lição – anunciou em voz alta e acrescentou: - Tragam-me o anão!
A menina afastou-se quando o anão entrou na sala.
- Quem é ele? – quis saber a Malvada fingindo receio e medo.
-  Um idiota ladrão – respondeu o rei
- Trapaceiro- acrescentou a rainha
- Que sentes por ele? –  perguntou o rei à filha.
- Nada. Que havia de sentir?!
- Então esbofeteia-o! - ordenou sua excelência estreitando os olhos.
A menina obedeceu, o pai riu-se:
- Isso é uma carícia!
A criança intimidou-se e recuou. Então o rei avançou:
- Vê como faço!- e exemplificou esmurrando o anão em cheio no nariz. O rapaz  foi arremessado para o ar e estatelou-se no chão como se de uma peça de vestuário se tratasse. Depois juntou-se à menina e baixou-se para ficar à altura dela.
- É óbvio que não estava à espera que fosses capaz disto…mas vou treinar-te para que um dia sejas uma bela tirana. Escuta-me, bati-lhe com a mão que tinha anéis, por isso tem o nariz a sangrar. É desta forma que deves enfrentar os teus inimigos, sem medo, sem vacilar, sem piedade, sem remorsos. Inimigos são para abater. Entendido?
- Sim, pai.
Em seguida, fitou-a sério e indagou meio ternurento:
- Amas-me?
- Sim, pai!
- Amas tua mãe?
- Sim, pai!
- Fico muito regozijado por saber isso...nunca te revoltes contra nós, amamos-te e tu amas-nos, seria trágico …! O resto do mundo não importa….desde que tenhas as tuas razões… e te defendas dos predadores…Agora vai brincar com as bonecas.
- Sim , pai!
A criança ia afastar-se, quando o Mau Educador agarrou-a pelo pulso.
- Quero o meu beijo antes de te retirares!
A princesa sorriu sem vontade e depositou no rosto do pai um beijo repenicado. O Mau Educador alegrou-se e em seguida deu uma palmadinha afetuosa no rabinho da criança:
- Vá lá…
Depois vagueou pela sala de mãos atrás das costas, enquanto a rainha se mantinha no mesmo lugar, em silêncio.
- Quero ver o rapaz – informou enquanto tocava a campainha. A Mil Faces não se moveu.
A ama surgiu e o rei pediu para trazerem o príncipe Delicado. Alguns minutos e assomou à porta.
- Meu pai? – apresentou-se  e fez vénia.
O Mau Educador observou minuciosamente o filho que se mantinha muito direito e de olhos baixos, retirou a espada da cinta, nessa ocasião a rainha estremeceu e deu dois passos em frente, temente do pior, mas recuou os mesmos passos para trás quando percebeu que o rei servia-se da espada para se apoiar. Rodou em torno do miúdo, deteve-se nas costas dele e interrogou-o:
- Tens algum assunto para me contar?
- Não senhor!
- Hum? – o rei encolheu o sobrolho.
- Que tens feito, rapaz?!
- Algumas coisas.
- Algumas coisas?! – clamou e o cenho carregou-se de aborrecimento  e perplexidade.
A criança estremeceu com o rugido do pai. E este procurando dominar-se, voltou à carga :
- Fala-me do que tens aprendido com a tua preceptora.
- Não me lembro pai…não… - O rapazinho sufocou dentro de si mesmo. Como se tivesse inchado e fosse estourar a qualquer momento.
- Não é possível, não pode ser verdade! –o pai gritou-lhe  , a mãe continuava na sombra, lançando ao filho  faíscas de raiva. Os olhos do rei direcionaram-se para os olhos da esposa, confirmando se ela partilhava da mesma indignação que ele.
- Fale! Abra a boca e diga-me o que pensa! – propôs o rei à rainha.
- Essa criança só pensa em brincar…não se concentra nos estudos, não me obedece, não sei mais o que fazer…sinto-me envergonhada com o comportamento dele.
- E agora, que tens a acrescentar ao que a senhora tua mãe acabou de dizer?
O menino permaneceu em silêncio. Então o Mau Educador não se contendo berrou-lhe aos ouvidos, fazendo-o estremecer de novo:
- És surdo? – como a criança permaneceu no mesmo estado de imobilidade, o rei baixou o tom mas proferiu extremamente impaciente :- A partir de agora estás de castigo, levas cinquentas chibatadas nas pernas e nas nádegas e ficas proibido de brincar com as outras crianças do reino.
Os lábios do príncipe tremeram e os olhos nublaram-se.
- Agora sai imediatamente da minha presença, e volta um homem! Foi para isso que te criei! E a si – dirigiu-se à rainha – cabe-lhe ter a certeza que este rapaz se torna no meu sucessor!
O rapazinho retirou-se amargurado. O Mau Educador continuou para a mulher:
- Após cumprir o castigo, quero-o em treinos para ingressar na cavalaria. Há-de ter espírito beligerante, tal como eu quero! Irá para a guerra comigo!
- Tenho sérias dúvidas que resulte …- adiantou a rainha Mil Faces.
- Porque diz isso?
- É uma criança sensível e delicada...
- Deixará de o ser! – afirmou convicto.
- Aquele rapaz precisa de  pulso firme – referiu a rainha mal humorada.
- Vai ter a partir de agora…a sua educação resultou mal… transformou-o num rapaz inexperiente, pacato, sem ação, um inútil…
- Está a atirar com as culpas para mim?! – a rainha Mil Faces  indispôs-se.
- Não, não estou a acusá-la de nada!… - rematou com ironia.
- Não é assim, então fico com as culpas todas? E a sua responsabilidade?
- Estou mais tempo na guerra do que em casa…não se esqueça disso!
O rosto da rainha Mil Faces enrubescera, dominado pela cólera:
- Não gosto desse peso nas costas …
- Com certeza minha senhora, não tornemos a falar do assunto, porque caso contrário esta noite será punida...
A rainha ergueu o rosto e numa pose de desafio retrucou:
- É bom que pense duas vezes antes de me acusar seja do que for… sei a que dá importância e do seus sentimentos por mim… tenha por isso mais respeito pela mãe dos seus filhos e esposa dedicada.
O rei levou a mão direita aos cabelos e alisou-os numa atitude de verdadeiro enjoo.
-Quero aqui a princesa Feia! – a ordem saiu num tom furioso e impaciente e não demorou muito até a filha mais velha aflorar à porta. Entrou e aguardou que o rei tomasse a palavra. Como continuava calado a rapariga adiantou-se:
- Chamou meu pai?
- Chamei porque regressei da guerra e quero ver os meus filhos, não é natural?
- Com certeza pai e cá estou eu …
O rei ficou surpreendido com a ligeireza da resposta e por isso avançou com uma pergunta:
- Qual é o teu lema de vida?
- Coloco no mesmo patamar; verdade, lealdade e bondade.
O Mau Educador alisou o bigode que por sinal até lhe assentava bem e perscrutou a rapariga com curiosidade:
- Esses lemas estão reservados a alguém especial ou são para todos?
- Para todos sem reservas – a resposta não se fez esperar.
- E quais os que se confinam à casa real?
- Nenhuns!
- Não gostei da provocação! – objectou o rei com desagrado, chegou-se para mais perto e colocou a mão esquerda sobre o ombro direito da filha.
- Princesa, minha filha, esses lemas não te levam muito longe. E a ambição onde fica?
- Mas sou comedidamente ambiciosa!
- Conversa apática, inconsistente… digamos, uma forma de pensar amorfa…. princesa, és capaz de faltar à verdade? De escarnecer? De calcar os vermes dos inimigos? De ser calculista e fria quando for necessário?
- Jamais pai!
- Jamais?! – o rei tinha perdido de novo a cabeça. – mas como julgas tu  que te irás defender dos inimigos?
- Com amor pai! – respondeu segura.
- Se pensas assim meto-te num convento! rematou vigorosamente.
Feia enrubesceu de temor. Os seus olhos divagaram assustados pelo chão da sala à procura de uma fuga rápida para aquela inquisição.
O Mau Educador ergueu o rosto pensativo, desencantado, desiludido…a íris tornou-se clara e nostálgica. A expressão acinzentada.
- Minha filha, desconheço que mundo habitas, com certeza não é o mesmo que eu, não tens a verdadeira noção do que é andar por aqui e na minha opinião já tens idade para isso. És uma sonhadora, e quem sonha é parvo, vence quem sabe viver – o rei fez uma pausa e voltou a falar – Princesa, o mundo pertence aos que têm império, aos que têm nome, aos que se eternizam pelos feitos. O resto não conta, é povo, gente escrava, ralé sem voz, gente que obedece sem contestar às minhas ordens. Discordas de mim? 
- Discordo pai!
- Atreves-te a discordar? – o rei empalideceu.
- Prefere que lhe minta?
- Sai daqui! – tão grande foi a fúria que as lágrimas transbordaram e correram em ziguezague pala face tisnada. A rapariga escapou sem olhar para trás, enfurecido lançou a espada à porta e desatou a blasfemar em voz baixa, de forma impercetível e logo a seguir :- Tão inteligente e tão parva, casa-te com um plebeu e ficas sem linhagem, sem nome e sem nada! Renego-te! – Bradou num tom rouco. Em seguida lançou-se sobre a rainha e agarrando-a pelos cabelos murmurou irado – Ela vai para um convento, ouviu?
- Sim, com certeza – respondeu a rainha Mil Faces humilhada.
Era noite, do alto do cabeço repousava o imponente palácio, por entre uivos de aves noturnas e soturnas em demanda, presas fáceis e cegas. Hora destemida dos mistérios impenetráveis, de falsos segredos cochichados e conjeturados nas sombras. Hora dos  crimes maquiavélicos e diabólicos. Hora das pontes caladas, do silêncio pesado, dos túmulos se abrirem no rugido enferrujado de ferrolhos e gonzos. Hora reparadora de sonos inquietos. Hora das estrelas exibirem os seus gorjeios cintilantes.
Mais adiante veio a luz do dia espreguiçar-se calma e serena, galgando docemente aquela manhã outonal. Inesperadamente soprou uma aragem fresca, temperada com hálito de Inverno. O grande jardim respirava profundamente a frescura dos pequenos lagos verdes, o repouso dos grilos, o despertar das flores, das árvores e do céu.
A princesa Feia desceu as escadas de mármore, passou a meio do jardim e continuou colina abaixo até desaparecer no bosque. Ali sentia-se mais livre, inspirada e mais perto da paz e da tranquilidade da sua floresta. Correu nova aragem, ainda mais fria, arrepiou-se. Os cabelos claros, lisos e leves revolveram-se uns nos outros e chegaram a cobrir-lhe o rosto, muito pacientemente afastou-os sem pressas. Veio outra aragem estranha, muito localizada, um bafo quente, então parou ligeiramente receosa e voltou-se para trás. Ninguém. Apenas ramos entrelaçados, folhas de várias espécies, troncos, alguma folhagem densa, o sol a infiltrar-se de jato em todos os espaços, buracos e orifícios… Nada que fizesse estremecer, quando ia iniciar de novo a caminhada, sentiu outra aragem situada sobre o seu ouvido, como se alguém tivesse soprado por entre os cabelos. Pressentiu que ali havia mais alguém e desatou a fugir:
- Princesa, sou eu!
Aquela voz fê-la parar e voltar-se novamente:
- Pregou-me um susto…daqueles!- declarou a arfar.
- Desculpe, não foi essa a minha intenção!- justificou-se a rir o recém chegado.
O jovem divertido apoiou-se na bengala e acercou-se da princesa:
- Menina…- tomou-lhe a mão e conduziu-a aos lábios – depois da usual vênia.
- Adoro a forma elegante que usa sempre que me cumprimenta, tão distinto…
- A melhor hora do meu dia é quando nos encontramos. – dito isto fitou-a longamente nos olhos.
Ela perturbada afastou-se meigamente e lembrou que continuassem a andar: 
- Conheço-o já há algum tempo mas nunca o vi por aqui… – estranhou entusiasmada.
- É a primeira vez que cá venho…algo me chamou…foi a sua presença oculta…- riu de novo.
- Não gosta da vida campestre?
- Confesso que não sou grande apreciador da vida campestre… vim com o propósito de desanuviar uns dias …e depois tenciono voltar à capital… fiquei mais tempo por sua causa! – e dito isto, deu alguns passos rápidos e colocou-se à frente da princesa, interditando a sua marcha. Sorriu-lhe muito matreiro, estendeu o braço esquerdo e colocando os dedos sobre o queixo da rapariga, pronunciou :
- É muito bonita; cabelos prateados, olhos vivos e profundos, boca rosada, tez pálida, rosto oval…. 
A princesa riu-se e inclinou ligeiramente a cabeça.
- Falo a sério, parece saída de um conto mágico… - pronunciou com verdade o barão Bem Disposto.- depois rumorejou   olhos nos olhos:- é a minha princesinha linda…-e ficaram assim, imóveis durante não se sabe quanto tempo…
O barão ficou muito perto dela… via-o agora tão nítido…muito maior; a massa de caracóis, desgrenhados e escuros, com arabescos à mistura, chegavam-lhe aos ombros, o rosto escuro e quadrado, a bela dentição, alva e brilhante, os olhos castanhos claros rasgados e pestanudos…
- Princesa, gostaria de celebrar esta nossa amizade? – como não houve resposta, o jovem indagou: - estou a falar consigo e não me responde, porquê?
- Sim… - parecia desconcertada.
- Não lhe parece boa ideia? – quis saber algo incomodado.
Ele procurou ler-lhe as feições e segurando-a pelos ombros, beijou-a ao de leve nos lábios, depois afastou-se para tornar a espiá-la. Foi aí que detetou uma sombrinha turvando os olhos dela. Sem mais delongas abraçou-a longamente, apertando-a com firmeza e sentimento, beijou-a uma  e outra vez. A princesa havia correspondido com alguma excitação.
- Estou a seguir por um caminho errado? – quis saber e antes  que ela pudesse responder adiantou-se -  Não gostou do beijo, é isso?
- Gostei, o sabor dos seus lábios nos meus, tem a frescura da primavera.
- Esse seu lado poético impressionou-me desde o primeiro dia em que a conheci. – elogiou-a sorridente- é um prazer quando me fala dos seus poetas favoritos e me lê a sua poesia. Como sabe, não tenho inspiração para versos mas aprecio pessoas sensíveis e munidas desse talento, sendo a princesa uma delas, deixa-me imensamente feliz!
- Eu acho-o um homem incrivelmente tentador, muito semelhante a uma escultura de uma qualquer divindade grega, um poema…Inteligente, culto, terno, ponderado…
- Hum…que beleza…as suas palavra são seda sobre mim… apetece-me cantar…- abriu os braços e cerrou as pálpebras de regozijo.
Veio um sopro agitado de vento e ela acompanhou o pormenor dos cabelos mais curtos enrolarem-se nas têmporas e na testa, a linha reta do nariz, demorou-se nos lábios carnudos e entreabertos, no queixo duro, nos tendões fortes que desenhavam o pescoço …
Aquela visão tornou-se mais real quando a encostou toda ao tronco de uma árvore e apertou o seu corpo contra o dela, agarrando-a firme pela cabeça, enquanto os cabelos esvoaçavam como asas de borboletas. Beijou-a longamente, com deleite e paixão. E arrebatado pelo desejo soltou uma das mãos para acariciá-la no ventre, nos seios redondos e fartos e quando a mão esguia atingiu as coxas, numa carícia mais ousada, ela retraiu-se e tentou escapar:
- Desculpe, não devia, sou cavalheiro e não quero forçá-la a nada…
A princesa Feia colocou o indicador sobre os lábios do barão, muito carinhosa e assim que soltou:
- Amo-a! declarou num ímpeto e os seus olhos resplandeceram a luz poderosa e intensa dos enamorados, o fogo dos que amam e desafiam os abismos do incerto…
- Amo-o também! – reconheceu tremendo de emoção.
- Está a ficar mais frio, deseja subir? não quero que se constipe, está bem?
- Vai começar a chover… – esclareceu ela, espreitando o céu por entre os ramos.
- E… já está a cair uma poalha! – exclamou surpreendido.
- Vamos?
- Sim, acompanho-a.
- Barão, há um detalhe que ainda não lhe contei…- articulou com alguma dificuldade.
- Então conte-me por favor! – ele ficou ansioso de repente
- O meu pai vai enviar-me para um convento! – declarou triste.
- Como? – gemeu chocado – e porquê? – o jovem parou de andar e ela também.
- As minhas ideias incomodam o meu pai.
- Pois, já calculava que isso viesse a acontecer, já me falou de vários episódios …e a rainha, sua mãe nunca a defende…- constatou lacónico.
- E que vamos fazer?
- Mas tem a certeza que a enviará para um mosteiro?
- Sim, de certeza, conheço muito bem o meu pai…
O jovem ficou absorto, os olhos castanhos esverdeados vaguearam em redor, como se algures houvesse uma resposta escondida.
- Estou a meditar numa alternativa, porque não vou perdê-la agora que mal a encontrei.
Entretanto a chuva começou a intensificar-se e nem um nem outro se aperceberam, concentrados na urgência de uma decisão. Ambos paralisados à espera de uma ideia que viesse salvar quele amor que ainda era semente a querer dar fruto.
- Devo voltar para a capital daqui a dois dias…
- Então estamos perdidos – atalhou angustiada.
- Não me parece. – remediou com convicção.
- Que quer dizer?
- Levo-a comigo!
- Fujo consigo?!
- Sim! A menos que não queira.
- É óbvio que quero…mas dois dias é o tempo suficiente para meu pai tomar conhecimento e acabar com o plano. O rei e a princesa Malvada tudo farão para tornar impossível a nossa fuga…
- Então terá de ser breve! Que tal amanhã?
- Aceito com uma condição!
- Qual?
- Levo comigo o príncipe Delicado…não posso deixá-lo para trás, seria devastador para o meu irmão.
- Concordo, então consegue  preparar-se e prepará-lo para amanhã?
- Sim, consigo. A que horas?
- Venham ter comigo aqui mesmo, depois seguimos na carruagem para a estação. Às nove em ponto, não se atrase por favor… - declarou conciso.
Abraçaram-se de novo, beijaram-se com voracidade e na urgência de quem não pode esperar mais.
 Subitamente acordaram e aperceberam-se que precisavam de trocar imediatamente de roupa.
- Separemo-nos aqui. Será melhor que ninguém do palácio o veja.
- Tem razão, e não se esqueça, meu amor. Nada de atrasos – enquanto corria voltava-se para trás e gritava:
- Não se esqueça, não se esqueça…não se esqueça! e o eco repercutia-se nos ouvidos  da princesa.
- Não esquecerei meu amado…murmurou e levou as pontas dos dedos aos lábios, atirou um beijo na direção onde barão já havia desaparecido e lançou-se numa corrida veloz de volta ao palácio.
Pedras Nuas Afonso 
19 de Novembro de 12

Nota: Este conto destina-se à Pastelaria Studios. Se for selecionado e  publicado  será inserido na nova coletânea . ( A quem tiver paciência de me ler, ficará aqui cerca de um mês) . Sempre grata!!! 

Nota(por razões de saúde não poderei visitar os espaços amigos, por isso as minhas sinceras desculpas)
























domingo, 28 de outubro de 2012

Teu corpo...


O teu corpo…
Bátega que balança
ao  som do riacho
molhado
humedecido de verde…
Baluarte
delícia dos deuses boquiabertos
Sinuosidades fartas bruxuleiam
sob  o buril de mãos esculturais
Cálidas e esguias
desbravam interstícios  misteriosos e encobertos.
Assombro  …despudorado
Desafio à imaginação da humana raça…
Olhos abobadados
Sedutores…côncavos
Perdição …
e, na convexidade macia
minha boca à deriva perde-se
na busca de outeiros arrepiados
 sob a língua macia
tão afogados … texturados
sugados no mortífero deleite
Ó fome impaciente e ávida
As trigueiras coxas
insinuam-se
Arquejantes
qual floresta
gotejante
a  tal nascente …
fonte de todas as  bêbadas  claridades ofegantes…

P.N.

domingo, 14 de outubro de 2012

Produto vendível


Tens  imensa copa…
Fios desgrenhados
Tentáculos poderosos
antídoto
De outros sóis gigantes
Que grandeza
Que espessura
Que calibre…
Morro de espanto!
Um astro frágil?!
Bem me parecia!
De falso encanto…
Inspiras-me
Narciso tolo
Cego
Abominável arrojo
Invenção dispensável
Aleivoso
Afluente rico de si mesmo…apenas e só…
Patético nas acutiladas locuções
Adágio sem prodígio…sombra fingida
De um ventre mal parida
Sorriso boçal
Sem nenhuma bizarria…
Chispas nos imberbes
Parca figura
Paupérrima humanista.

P.N.

Nota: Foto retirada da Net e posteriormente manipulada por mim.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Bicadas da minha pena

Os "insetos" mexem com a minha paciência...grande poluição sonora...cacos a encher-me os olhos...a picar-me a boca ...o espaço é meu...e vós sabidos emprenhais por todos os orgãos de tão estúpidos que sois ....e nem sabeis que a matéria que vos compõe é papel pardo.... tosco, bronco, fosco....

Em dia de desabafo 

P.N.

sábado, 8 de setembro de 2012

Pleno Agosto


Chove … o para-brisas
pestaneja
uma dor de cão …intensa
esbraveja
O mar é imenso
Sem caravela , sem glória
Nu, despido …avança sozinho
Tarde adentro
O aguaceiro aperta o passo
As pupilas correm
céu fora…
O firmamento é denso
Escuro
Desbotado
Sem futuro…
Sem resposta
A dor estende-se
Estica-se
Devasta …
Apetece ser mau…
Ser cru
Bater no cimento
Dar murros
Furar a parede
Ir rio abaixo
e....
perder o  medo.
PN 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Quando eu morrer

video
INTERDITO A MENORES!!!_ 
Poema e voz_ P.N.
Fotografias _Não São minhas
Da minha autoria_ Fotografia e recriação das mesmas
Fonte: Diversas revistas — em Terra do Nunca.

PAUSA___ Amigos, desejo-vos um Excelente Agosto! Sempre grata pela vossa presença. Sei que estou em falta com muitos de vós...quando regressar tentarei não esquecer de visitá-los um a um. Beijos e Abraços__Té lá...

domingo, 15 de julho de 2012

" A Condessa"



Estas são as palavras de um jovem que se apaixonou pela viúva Isabel  Báthory… o filme é baseado nas suas palavras:
“ A História é um conto narrado pelos vencedores. Quem são os vencedores? Guerreiros bárbaros, reis loucos, traidores gananciosos. Talvez a maior parte da nossa História seja feita de fábulas fabricadas pelos guerreiros vencedores.
Esta é a história da Condessa Isabel Báthory. Não apenas como a História a recorda mas também como eu a recordo.
( Quando o pai do jovem apaixonado rapta o filho a fim de impedir que fuja com Isabel)
- Ela está à minha espera desde ontem…
- Eu soube do seu insensato plano de fuga. Ela tem inúmeros servidores. Meu filho, seria apenas mais um.
- Não creio que ela sinta por mim o que sente pelos outros amantes.
-Conseguiu dela o que queria, tudo o que é conquistado é destruído.
-Conquistado? Se o objetivo  era honrar a condessa Báthory , sim, o objetivo foi alcançado mais uma vez. Mas ao contrário do pai, não vejo nada destrutivo no ato do amor. Não falamos de conquistas de terras ou de um rival que tem de ser abatido. Falamos de uma mulher gentil e dos nobres sentimentos que partilhamos .
- O mesmo nobre sentimento que partilha com a Baronesa Von Kraj?
- Sabe bem que não voltei a vê-la desde que conheci  Isabel. Eu amo-a pai!
- O amor é um mito para manter as mentes de jovens camponesas e das virgens ocupadas com um sonho. Não tem lugar no nosso mundo.
- No seu mundo ; Mas não compreendo. Seria benéfico para si se eu casasse com Isabel.
- Para me dar uma pequena parte da terra dela? Ela nunca casará consigo. O seu sangue não é suficientemente nobre.

Carta que  Darvulia deixa depois de ter morrido(uma aia  apaixonada por Isabel )que tem a perfeita noção de que o amante da condessa  não passa de um vil traidor.
“ Meu amor, não deixes outro estranho entrar no teu castelo . deste-lhe as armas que destruirão tudo o que criaste. Apenas de uma coisa sentirei falta do teu mundo que já não é meu.  Os teus suaves beijos . Sempre te amei, Isabel, foste demasiado longe. Tudo o que vive tem de morrer. E tu também, faças o que fizeres. Há beleza em deixar o tempo cumprir o seu dever”
Depois de ler a mensagem, Isabel tem um rebate de consciência  sobre os atos praticados mas quando se olha ao espelho não consegue controlar a sua obsessão de voltar a banhar-se no sangue das virgens.
Quando o jovem é enviado com outro homem da corte para investigarem a  veracidade dos  crimes de Isabel;  Não resiste e dorme com ela:
-“  Perdeu o juízo ? Está aqui para investigar os crimes dela, não para dormir com ela. Não deixe que  a sereia  o encante . Ela comê-lo-á vivo.
- Talvez se o coração dela não tivesse sido destroçado , ela não se teria transformado no que é.
- Ninguém é culpado . Deus fê-la assim ou o Diabo, provavelmente. Aquela mente malvada foi assim forjada à nascença.
- E se eu tivesse desobedecido ao meu pai e tivesse fugido ?
- Mas não o fez. Portanto nunca saberemos. “

No fim, emparedada no quarto, o pensamento de Isabel Báthory:
“ Deus, abandonaste-me. Na guerra centenas são mortos e torturados e são ali deixados a apodrecer para os abutres . Todavia, glorificamos os nossos guerreiros. Damos-lhes folhas de louro e honras. Tudo o que recebo é tormento . Não posso ser humilhada assim. Dá-me uma doença que me mate depressa. Não posso fazê-lo  eu mesma. Tenho de ir para o céu. Amém.
Deus, talvez estejas a testar a minha fé, talvez me punir porque o amava mais do que a Ti. (em criança aprendera que amar só a Deus e respeitar os homens). O homem criou Deus á sua imagem, o que lhes dá domínio sobre todas as coisas; aves, leões, árvores e mulheres. Gostava de ter nascido homem. Teria matado milhares em combate, conquistado países, queimado bruxas , teria sido herói. É isso. És apenas um mito, os gregos criaram deuses para tudo, pois não conseguiram compreender o porquê do mar, da morte. Nós criamos-te a Ti, para apaziguar e alimentar medo e ignorância. Pois temos tantas perguntas e tão poucas respostas. Tenho-te usado nas orações, para me perdoar dos meus horríveis pecados. Um funeral condigno ou alimentar os lobos é a mesma coisa. A água benta é apenas água suja. Porque tenho tanto medo de morrer? Porque não acredito em Ti nem na eternidade da alma. Quando eu morrer , apodrecerei e nada sobrará de mim. O amor é a adaga que me apunhalou nas costas. Se não fores um mito, absolve-me dos meus pecados e dá-me sangue para me manter jovem. Agradeço-te Senhor”

Palavras do jovem apaixonado :
A História é um conto de fadas narrado pelos vencedores e isto foi o que sobrou dela. Um conto duma assassina louca, de um demónio sanguinário, Era ela realmente culpada de todos os crimes, se de algum? Ou fabricou o meu pai a maior parte das provas? Se nada neste mundo podemos ter a certeza. Tudo o que sei é que, fosse o que ela fosse, fossem quais fossem os seus crimes, eu amei-a profundamente e acredito que ela me amou.” 

Nota: Dá que pensar...pense você também e diga aqui...:)

Um filme a não perder! 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Principio do fim




...Que dizer-te? Não encontro nenhuma palavra...
nem certa, nem errada...apenas este desconsolo 
um imenso desconsolo...
e o peso do madeiro 
a naufragar em mim...
agulhas ferruginosas 
tortas ...como eu
não me sustento de pé
bamboleio...periclitante...
O que fui e o que sou?
Em que me tornei...?
Uma amálgama de ossos oxidados
e a minha boca?
sabe a seco... 
língua desarticulada 
num quarto estranho
tão perto da morte...
Que dizer-te? Não sei...não sei ...
Amanhã vem mais cedo e leva-me contigo!

P.N.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

E ainda mais um pouco...


A avó de Vitória adoeceu gravemente. O facto perturbou-a. A tia Júlia contou-lhe que um bicho lhe carcomera o útero. Ela, na sua ingenuidade de rapariguinha de oito anos, imaginou um bicharoco cheio de pêlo, com uns dentes aguçados devorando o interior da pobre velhinha. Para ela era insuportável supor tamanha barbárie. A enfermidade atirou a avó à cama e Vitória deliciou-se com o pedido da velha senhora , em querer que a neta lhe  lavasse os pés diariamente. O ritual provocou-lhe imenso deleite. Ela baixava-se mansamente, tal como Cristo fez com os discípulos, acariciava a pele macia e branca da avó.
Uma manhã solicitara uma ida ao jardim, calculava que pudesse ser a derradeira. Haviam-na sentado num cadeirão de vime enquanto a Bíblia repousava sobre o seu regaço. A neta aproximou-se e aninhou-se a seus pés.
- A avó está a ler a Bíblia?
- Não estou a ler, Vitória.
- Hum?
- Agora é tempo de oração.
            A neta tentou erguer-se, respeitando a meditação da avó. Todavia, a velha senhora impediu-a com gestos calmos.
- Fica quietinha aqui. Não estás bem comigo?
- Estou sim senhora.
            Enquanto os dedos trémulos da idosa percorreram a cabeça da neta interrogou:
- Como vais com a tua amiguinha, Helena?
- Nem lhe sei responder…
- Porque dizes isso? - quis saber a avó.
- Vemo-nos às escondidas.
- Já tinha percebido, de qualquer forma quando estiveres com ela procura esquecer os desaguisados entre as famílias.
- A minha mãe não gosta nada daquela gente.
- Isso é a tua mãe, não és tu. Não gostas dela?
- Gosto, mas… – manifestou-se vacilante.
- De que te queixas?
- Ela é muito vaidosa e convencida…
- Vitória cospe para cima e vê se não te cai na cara! - propôs a avó.
            A rapariga obedeceu imediatamente e cuspiu depois comentou:
- Avó, a saliva caiu-me na cara. Porque me aconselhou a fazer isto?
- É mais fácil criticar os outros do que olhar para nós! Um dia entenderás bem melhor que hoje. Anda, volta para aqui.
            A pequena obedeceu.
- E se por acaso essa rapariga te incomoda com os seus defeitos, não te encontres com ela. Assim deixas de  te  lamuriar.
Entretanto uma mulher aproximou-se delas:
- O que é que essa pequena faz aqui? – interrogou enervada.

sábado, 12 de maio de 2012

Apeteceu-me continuar...


Não tinham  notado a sua ausência; nem a mãe, nem a avó.
No dia seguinte apeteceu-lhe fazer o mesmo, no entanto, precisava de um tempo para se recompor.
Volvidos alguns dias preparou-se para a fuga e pulou de novo o muro. Os batimentos cardíacos haviam moderado. De qualquer forma um aperto tomou conta dela, asfixiando-a. Notou que desta vez as mãos tremeram. Assim não valia a pena. Circundou rente ao muro, olhou à socapa para todos os lados quando deu de caras com a mesma menina. De repente parou e encheu-se de vergonha pelo seu comportamento indigno. Abeirou-se da outra até tocá-la. Ficaram quietas, caladas, mirando-se mutuamente. A outra criança levantou o braço e tocou o rosto de Vitória. Um sorriso iluminou-lhe os traços sombrios por aquele afago. Em dívida, retribuiu o gesto. Riram-se ambas de acanhamento. Ela antecipou-se:
- O meu nome é Vitória. E o teu qual é?
- Helena. 


Quando se isolou nas brincadeiras ouviu uma voz distante, longínqua, que a despertou num sopro pálido de vento. Refém daquele sossego entorpecedor não atendeu ao chamamento, até que a voz ganhou força e se aproximou. Então ela, num repelão, sacudiu-se, endireitou-se e correu na direcção de um vulto negro que se moveu ao seu encontro.
E era sempre assim, a senhora idosa, trajando luto, segurava-a pela mão, num passo miúdo e periclitante conduzia-a aos seus aposentos. A voz cansada, lembrou a Vitória que faltava pouco para chover e mostrou  com o indicador, através da vidraça da porta atarracada, as nuvens ameaçadoras que galgavam matreiras a abóbada celeste. Acomodou-se na sua cadeira e a neta aninhou-se a seus pés. Colocou os óculos pequenos e redondos endireitando-os por cima do nariz. Abriu o livro pequenino e rompeu numa voz calma e rouca. A leitura narrava a vida de Cristo. Descrevia os milagres e os discursos apoteóticos que atraíram multidões. Quando a avó enunciou as profecias e se referiu ao fogo do inferno, Vitória arrepiou-se e imaginou as chamas a crepitarem lambendo a carne pecaminosa. A entoação subiu quando relatou as ofensas de Maria Madalena, a prostituta arrependida, a meretriz, aquela a quem Jesus, na sua infinita bondade, terá esconjurado Lúcifer. Realçou os papéis de destaque das outras mulheres na vida do Criador. A voz da avó adocicou quando descreveu a Virgem Maria, a essência da pureza imaculada, um estado de alma impossível de alcançar. Vitória aconchegou-se mais às suas saias, buscando protecção e chegou-lhe às narinas o odor suave do avental fresco.
O Inverno entrava em palco, ante o olhar inquieto e contemplativo de ambas. As duas testemunhavam de perto, através da vidraça, a presença demoníaca do vento fustigando o jardim, enlouquecendo os ramos, balançando os cabelos esfiapados dos arbustos. As árvores que outrora presenteavam a casa antiga de frutos, agora agitavam-se embriagadas e estéreis.
Vitória questionou a avó acerca da direcção que o temporal seguia, começou a impacientar-se, a chuva oblíqua não cessou e os reflexos dos coriscos iluminaram a casa toda e assustaram-na.
A Invernia rigorosa chicoteou tudo à sua passagem, afundou a vida num lençol de água. A terra agradeceu e saciou, por inteiro, a sua sede. O sol caprichoso de Verão havia invadido um parco Outono e insistira em ficar por ali durante mais tempo que alguém tivera memória.
Regularmente a avó abria as portas da sua casa e sentava à mesa todos os mendigos sem favoritismo. Ali, nunca faltara alimento aos que o procuravam.
De todos os pobres, a pequena sentia particular interesse pela muda e tentava decifrar o que ela lhe transmitia por gestos, no entanto, não sabia lê-los. Era uma pobre que trazia um grande volume debaixo de um braço e no outro, uma vara, à qual se apoiava para andar. Usava lenço a cobrir o cabelo cinzento, a roupa comprida camuflava o corpo que se adivinhava ser esquelético e um rosto escuro cavado pelas intempéries e pela fome. 
A avó sentava-se com ela à mesa e ia interpretando os seus gestos enquanto a pobre saciava a miséria que a roía por dentro. Depois riam, despediam-se e na semana seguinte lá vinha ela de novo.Tornara-se um ritual assistir à entrada e saída de pobres. Qualquer mendigo tinha direito a uma refeição, a palavras de conforto e afecto e ainda levavam algo, que tanto podia ser roupa ou comida.
A generosidade da velha senhora difundira-se de tal forma que adquirira o cognome de santa.
            A Primavera havia trazido o despertar de sonhos adormecidos e inimagináveis. As paisagens gotejando a verde e rouxinóis suspensos da lua cantando às gentes estranhas e a viajantes esquecidos em viagens infindáveis e misteriosas.
            Agora esmorecera fruto de uma síncope, por isso, o Verão se antecipou ensaiando os primeiros passos de dança. A luz rompeu madrugadas adentro prolongando os dias, tornando-os mais preguiçosos e lentos e as noites aprazíveis.

Nota: Peço desculpa pelas incorrecções 

domingo, 15 de abril de 2012

Apeteceu-me partilhar ...:)


Vitória cerrou as pálpebras e percorreu o jardim da sua meninice. Os dedos tacteando as pétalas sedosas das flores e os troncos encarquilhados das árvores. Inspirou os aromas e mexeu os lábios saboreando-os. Abriu os braços e rodopiou, as pregas da saia curta abriram-se formando uma corola. A natureza pulsou, trespassando o corpo ainda franzino como se de um vitral se tratasse. A miscelânea de verdes, castanhos, amarelos invadiu-a e provocou-lhe vertigens. Embriagada pela voracidade do redemoinho, cambaleou estonteada com tanto brilho e cor resvalando para o chão. E assim ficou toda colada à terra, numa reciprocidade quase perfeita. Os olhos abertos esgazeados, apontados ao céu. O coração frenético arremessado a alta velocidade. Deixou-se afundar na terra molhada e fofa submergindo lentamente. As brincadeiras da garota não ultrapassavam os muros altos do jardim, temeu os castigos da mãe e respeitou os conselhos da tia.
No entanto, a curiosidade por novas brincadeiras levou-a a trepar as árvores e espreitar para o lado de fora. Depois cresceu uma vontade insuportável de saltar o muro, ela resistiu ao sabor da aventura e voltou a casa imensamente frustrada. Já fatigada por tantas tentativas goradas, um dia resolveu pôr termo aos receios. Subiu a árvore como sempre e pela primeira vez colocou o pé sobre o muro. A emoção vibrou de tal forma que a fez arrepender do passo dado, receava que o coração estilhaçasse e morresse de forma trágica, sentiu pena da avó, o desgosto matá-la-ia com certeza. Mas atreveu-se e finalmente escorregou para o exterior. Agora não sabia o que fazer, o pânico aturdiu-a. Reconheceu aquele lado da rua, já o tinha atravessado com a mãe e a tia. Julgou que a sensação de liberdade fosse outra. Aquela impressão não lhe agradou. Principiou a escalada quando subitamente uma menina se aproximou para espiá-la. Surpreendida desistiu de subir e acercou-se da outra criança. Questionou-a sobre a sua presença ali e não obteve resposta. Vitória pensou que aquele silêncio poderia ser sinónimo de conspiração. Começou a impacientar-se. Ameaçou agredi-la se abrisse a boca. De nada lhe valeram as injúrias maldosas. Vitória achou-se demasiado ansiosa e descontrolada. Por fim, a outra afastou-se e ela galgou o muro de regresso a casa.

(Excerto do romance a publicar)
Nota explicativa :(Peço imensa desculpa pelas incorreções, pois a versão colocada não é a final) Grata pela compreensão.
P.N.