sábado, 12 de maio de 2012

Apeteceu-me continuar...


Não tinham  notado a sua ausência; nem a mãe, nem a avó.
No dia seguinte apeteceu-lhe fazer o mesmo, no entanto, precisava de um tempo para se recompor.
Volvidos alguns dias preparou-se para a fuga e pulou de novo o muro. Os batimentos cardíacos haviam moderado. De qualquer forma um aperto tomou conta dela, asfixiando-a. Notou que desta vez as mãos tremeram. Assim não valia a pena. Circundou rente ao muro, olhou à socapa para todos os lados quando deu de caras com a mesma menina. De repente parou e encheu-se de vergonha pelo seu comportamento indigno. Abeirou-se da outra até tocá-la. Ficaram quietas, caladas, mirando-se mutuamente. A outra criança levantou o braço e tocou o rosto de Vitória. Um sorriso iluminou-lhe os traços sombrios por aquele afago. Em dívida, retribuiu o gesto. Riram-se ambas de acanhamento. Ela antecipou-se:
- O meu nome é Vitória. E o teu qual é?
- Helena. 


Quando se isolou nas brincadeiras ouviu uma voz distante, longínqua, que a despertou num sopro pálido de vento. Refém daquele sossego entorpecedor não atendeu ao chamamento, até que a voz ganhou força e se aproximou. Então ela, num repelão, sacudiu-se, endireitou-se e correu na direcção de um vulto negro que se moveu ao seu encontro.
E era sempre assim, a senhora idosa, trajando luto, segurava-a pela mão, num passo miúdo e periclitante conduzia-a aos seus aposentos. A voz cansada, lembrou a Vitória que faltava pouco para chover e mostrou  com o indicador, através da vidraça da porta atarracada, as nuvens ameaçadoras que galgavam matreiras a abóbada celeste. Acomodou-se na sua cadeira e a neta aninhou-se a seus pés. Colocou os óculos pequenos e redondos endireitando-os por cima do nariz. Abriu o livro pequenino e rompeu numa voz calma e rouca. A leitura narrava a vida de Cristo. Descrevia os milagres e os discursos apoteóticos que atraíram multidões. Quando a avó enunciou as profecias e se referiu ao fogo do inferno, Vitória arrepiou-se e imaginou as chamas a crepitarem lambendo a carne pecaminosa. A entoação subiu quando relatou as ofensas de Maria Madalena, a prostituta arrependida, a meretriz, aquela a quem Jesus, na sua infinita bondade, terá esconjurado Lúcifer. Realçou os papéis de destaque das outras mulheres na vida do Criador. A voz da avó adocicou quando descreveu a Virgem Maria, a essência da pureza imaculada, um estado de alma impossível de alcançar. Vitória aconchegou-se mais às suas saias, buscando protecção e chegou-lhe às narinas o odor suave do avental fresco.
O Inverno entrava em palco, ante o olhar inquieto e contemplativo de ambas. As duas testemunhavam de perto, através da vidraça, a presença demoníaca do vento fustigando o jardim, enlouquecendo os ramos, balançando os cabelos esfiapados dos arbustos. As árvores que outrora presenteavam a casa antiga de frutos, agora agitavam-se embriagadas e estéreis.
Vitória questionou a avó acerca da direcção que o temporal seguia, começou a impacientar-se, a chuva oblíqua não cessou e os reflexos dos coriscos iluminaram a casa toda e assustaram-na.
A Invernia rigorosa chicoteou tudo à sua passagem, afundou a vida num lençol de água. A terra agradeceu e saciou, por inteiro, a sua sede. O sol caprichoso de Verão havia invadido um parco Outono e insistira em ficar por ali durante mais tempo que alguém tivera memória.
Regularmente a avó abria as portas da sua casa e sentava à mesa todos os mendigos sem favoritismo. Ali, nunca faltara alimento aos que o procuravam.
De todos os pobres, a pequena sentia particular interesse pela muda e tentava decifrar o que ela lhe transmitia por gestos, no entanto, não sabia lê-los. Era uma pobre que trazia um grande volume debaixo de um braço e no outro, uma vara, à qual se apoiava para andar. Usava lenço a cobrir o cabelo cinzento, a roupa comprida camuflava o corpo que se adivinhava ser esquelético e um rosto escuro cavado pelas intempéries e pela fome. 
A avó sentava-se com ela à mesa e ia interpretando os seus gestos enquanto a pobre saciava a miséria que a roía por dentro. Depois riam, despediam-se e na semana seguinte lá vinha ela de novo.Tornara-se um ritual assistir à entrada e saída de pobres. Qualquer mendigo tinha direito a uma refeição, a palavras de conforto e afecto e ainda levavam algo, que tanto podia ser roupa ou comida.
A generosidade da velha senhora difundira-se de tal forma que adquirira o cognome de santa.
            A Primavera havia trazido o despertar de sonhos adormecidos e inimagináveis. As paisagens gotejando a verde e rouxinóis suspensos da lua cantando às gentes estranhas e a viajantes esquecidos em viagens infindáveis e misteriosas.
            Agora esmorecera fruto de uma síncope, por isso, o Verão se antecipou ensaiando os primeiros passos de dança. A luz rompeu madrugadas adentro prolongando os dias, tornando-os mais preguiçosos e lentos e as noites aprazíveis.

Nota: Peço desculpa pelas incorrecções