segunda-feira, 18 de junho de 2012

E ainda mais um pouco...


A avó de Vitória adoeceu gravemente. O facto perturbou-a. A tia Júlia contou-lhe que um bicho lhe carcomera o útero. Ela, na sua ingenuidade de rapariguinha de oito anos, imaginou um bicharoco cheio de pêlo, com uns dentes aguçados devorando o interior da pobre velhinha. Para ela era insuportável supor tamanha barbárie. A enfermidade atirou a avó à cama e Vitória deliciou-se com o pedido da velha senhora , em querer que a neta lhe  lavasse os pés diariamente. O ritual provocou-lhe imenso deleite. Ela baixava-se mansamente, tal como Cristo fez com os discípulos, acariciava a pele macia e branca da avó.
Uma manhã solicitara uma ida ao jardim, calculava que pudesse ser a derradeira. Haviam-na sentado num cadeirão de vime enquanto a Bíblia repousava sobre o seu regaço. A neta aproximou-se e aninhou-se a seus pés.
- A avó está a ler a Bíblia?
- Não estou a ler, Vitória.
- Hum?
- Agora é tempo de oração.
            A neta tentou erguer-se, respeitando a meditação da avó. Todavia, a velha senhora impediu-a com gestos calmos.
- Fica quietinha aqui. Não estás bem comigo?
- Estou sim senhora.
            Enquanto os dedos trémulos da idosa percorreram a cabeça da neta interrogou:
- Como vais com a tua amiguinha, Helena?
- Nem lhe sei responder…
- Porque dizes isso? - quis saber a avó.
- Vemo-nos às escondidas.
- Já tinha percebido, de qualquer forma quando estiveres com ela procura esquecer os desaguisados entre as famílias.
- A minha mãe não gosta nada daquela gente.
- Isso é a tua mãe, não és tu. Não gostas dela?
- Gosto, mas… – manifestou-se vacilante.
- De que te queixas?
- Ela é muito vaidosa e convencida…
- Vitória cospe para cima e vê se não te cai na cara! - propôs a avó.
            A rapariga obedeceu imediatamente e cuspiu depois comentou:
- Avó, a saliva caiu-me na cara. Porque me aconselhou a fazer isto?
- É mais fácil criticar os outros do que olhar para nós! Um dia entenderás bem melhor que hoje. Anda, volta para aqui.
            A pequena obedeceu.
- E se por acaso essa rapariga te incomoda com os seus defeitos, não te encontres com ela. Assim deixas de  te  lamuriar.
Entretanto uma mulher aproximou-se delas:
- O que é que essa pequena faz aqui? – interrogou enervada.