quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A princesa Feia e o Barão Bem Disposto


 A imponência do palácio era visível, no alto do morro, fortificado pelos ramos das árvores, dos arbustos e das plantas. A valsa de verdes, desde os mais esbatidos aos mais fortes e intensos. O chão coberto de musgo e de folhas molhadas pelas primeiras chuvinhas atrevidas e finas. Ali palmilhava-se com assombro o território ideal e recomendado a almas sensíveis e apaixonadas, em tudo amantes da natureza. Os ramos alvoroçados abriram alas às primeiras claridades do dia. Amanhecera. E de dentro do palácio ecoou uma voz forte:


- Quero saber dos meus filhos, tragam imediatamente a princesa Malvada!- ordenou o rei muito esticado.
A rainha Mil Faces antecipou-se à ama de quartos e chegou primeiro:

- Vá, filha, apressa-te, o pai quer ver-te agora!

- Logo agora que estou a brincar com as minhas bonecas …- replicou enervada.
- Princesa, por favor, nada de lamúrias, vamos lá!
- A mãe tem sempre que lhe obedecer.- comentou com um ar de fastio.
- Ele é o rei, o teu pai, está bem?
- Tu és a rainha, minha mãe…- argumentou astuta.
- Atenção a esses modos ou o rei manda-te cortar a língua de tão espevitada!
Segurando na criança pela mão, puxou-a e rapidamente levou-a à presença do pai.
- Aproxima-te Malvada! – disse o Mau Educador cofiando manhosamente o bigode e a barba.
A menina encrespou o rosto de enfado e deu um passo em frente.
- Que cara é essa? – quis saber o pai.
- A minha!
- Não sejas refilona – contestou brando.
- A princesa não é refilona. – acudiu a rainha.
- Ai não? – sacudiu o lenço de mão.
- Não pode levar a mal o que a minha princesinha diz…
- Deixemo-nos de arengas – apressou-se a acrescentar o Mau Educador – depois, com as pontas dos dedos ergueu  o rosto da criança:
- Já pinta os lábios, princesa?! – pronunciou com estupefação.
- Ela gosta, é menina…e há outras na corte que também fazem o mesmo…- corroborou a rainha Mil faces.
O rei ergueu as sobrancelhas e em silêncio lançou à mulher um olhar displicente, em seguida afirmou:
- Não gosto, acho que é muito cedo para isso.
- Deixai a menina ser menina.
Os olhos de sua excelência semi cerraram-se de irritação, deu um estalinho com a língua e prosseguiu estalando seguidamente os dedos:
- Vamos à lição – anunciou em voz alta e acrescentou: - Tragam-me o anão!
A menina afastou-se quando o anão entrou na sala.
- Quem é ele? – quis saber a Malvada fingindo receio e medo.
-  Um idiota ladrão – respondeu o rei
- Trapaceiro- acrescentou a rainha
- Que sentes por ele? –  perguntou o rei à filha.
- Nada. Que havia de sentir?!
- Então esbofeteia-o! - ordenou sua excelência estreitando os olhos.
A menina obedeceu, o pai riu-se:
- Isso é uma carícia!
A criança intimidou-se e recuou. Então o rei avançou:
- Vê como faço!- e exemplificou esmurrando o anão em cheio no nariz. O rapaz  foi arremessado para o ar e estatelou-se no chão como se de uma peça de vestuário se tratasse. Depois juntou-se à menina e baixou-se para ficar à altura dela.
- É óbvio que não estava à espera que fosses capaz disto…mas vou treinar-te para que um dia sejas uma bela tirana. Escuta-me, bati-lhe com a mão que tinha anéis, por isso tem o nariz a sangrar. É desta forma que deves enfrentar os teus inimigos, sem medo, sem vacilar, sem piedade, sem remorsos. Inimigos são para abater. Entendido?
- Sim, pai.
Em seguida, fitou-a sério e indagou meio ternurento:
- Amas-me?
- Sim, pai!
- Amas tua mãe?
- Sim, pai!
- Fico muito regozijado por saber isso...nunca te revoltes contra nós, amamos-te e tu amas-nos, seria trágico …! O resto do mundo não importa….desde que tenhas as tuas razões… e te defendas dos predadores…Agora vai brincar com as bonecas.
- Sim , pai!
A criança ia afastar-se, quando o Mau Educador agarrou-a pelo pulso.
- Quero o meu beijo antes de te retirares!
A princesa sorriu sem vontade e depositou no rosto do pai um beijo repenicado. O Mau Educador alegrou-se e em seguida deu uma palmadinha afetuosa no rabinho da criança:
- Vá lá…
Depois vagueou pela sala de mãos atrás das costas, enquanto a rainha se mantinha no mesmo lugar, em silêncio.
- Quero ver o rapaz – informou enquanto tocava a campainha. A Mil Faces não se moveu.
A ama surgiu e o rei pediu para trazerem o príncipe Delicado. Alguns minutos e assomou à porta.
- Meu pai? – apresentou-se  e fez vénia.
O Mau Educador observou minuciosamente o filho que se mantinha muito direito e de olhos baixos, retirou a espada da cinta, nessa ocasião a rainha estremeceu e deu dois passos em frente, temente do pior, mas recuou os mesmos passos para trás quando percebeu que o rei servia-se da espada para se apoiar. Rodou em torno do miúdo, deteve-se nas costas dele e interrogou-o:
- Tens algum assunto para me contar?
- Não senhor!
- Hum? – o rei encolheu o sobrolho.
- Que tens feito, rapaz?!
- Algumas coisas.
- Algumas coisas?! – clamou e o cenho carregou-se de aborrecimento  e perplexidade.
A criança estremeceu com o rugido do pai. E este procurando dominar-se, voltou à carga :
- Fala-me do que tens aprendido com a tua preceptora.
- Não me lembro pai…não… - O rapazinho sufocou dentro de si mesmo. Como se tivesse inchado e fosse estourar a qualquer momento.
- Não é possível, não pode ser verdade! –o pai gritou-lhe  , a mãe continuava na sombra, lançando ao filho  faíscas de raiva. Os olhos do rei direcionaram-se para os olhos da esposa, confirmando se ela partilhava da mesma indignação que ele.
- Fale! Abra a boca e diga-me o que pensa! – propôs o rei à rainha.
- Essa criança só pensa em brincar…não se concentra nos estudos, não me obedece, não sei mais o que fazer…sinto-me envergonhada com o comportamento dele.
- E agora, que tens a acrescentar ao que a senhora tua mãe acabou de dizer?
O menino permaneceu em silêncio. Então o Mau Educador não se contendo berrou-lhe aos ouvidos, fazendo-o estremecer de novo:
- És surdo? – como a criança permaneceu no mesmo estado de imobilidade, o rei baixou o tom mas proferiu extremamente impaciente :- A partir de agora estás de castigo, levas cinquentas chibatadas nas pernas e nas nádegas e ficas proibido de brincar com as outras crianças do reino.
Os lábios do príncipe tremeram e os olhos nublaram-se.
- Agora sai imediatamente da minha presença, e volta um homem! Foi para isso que te criei! E a si – dirigiu-se à rainha – cabe-lhe ter a certeza que este rapaz se torna no meu sucessor!
O rapazinho retirou-se amargurado. O Mau Educador continuou para a mulher:
- Após cumprir o castigo, quero-o em treinos para ingressar na cavalaria. Há-de ter espírito beligerante, tal como eu quero! Irá para a guerra comigo!
- Tenho sérias dúvidas que resulte …- adiantou a rainha Mil Faces.
- Porque diz isso?
- É uma criança sensível e delicada...
- Deixará de o ser! – afirmou convicto.
- Aquele rapaz precisa de  pulso firme – referiu a rainha mal humorada.
- Vai ter a partir de agora…a sua educação resultou mal… transformou-o num rapaz inexperiente, pacato, sem ação, um inútil…
- Está a atirar com as culpas para mim?! – a rainha Mil Faces  indispôs-se.
- Não, não estou a acusá-la de nada!… - rematou com ironia.
- Não é assim, então fico com as culpas todas? E a sua responsabilidade?
- Estou mais tempo na guerra do que em casa…não se esqueça disso!
O rosto da rainha Mil Faces enrubescera, dominado pela cólera:
- Não gosto desse peso nas costas …
- Com certeza minha senhora, não tornemos a falar do assunto, porque caso contrário esta noite será punida...
A rainha ergueu o rosto e numa pose de desafio retrucou:
- É bom que pense duas vezes antes de me acusar seja do que for… sei a que dá importância e do seus sentimentos por mim… tenha por isso mais respeito pela mãe dos seus filhos e esposa dedicada.
O rei levou a mão direita aos cabelos e alisou-os numa atitude de verdadeiro enjoo.
-Quero aqui a princesa Feia! – a ordem saiu num tom furioso e impaciente e não demorou muito até a filha mais velha aflorar à porta. Entrou e aguardou que o rei tomasse a palavra. Como continuava calado a rapariga adiantou-se:
- Chamou meu pai?
- Chamei porque regressei da guerra e quero ver os meus filhos, não é natural?
- Com certeza pai e cá estou eu …
O rei ficou surpreendido com a ligeireza da resposta e por isso avançou com uma pergunta:
- Qual é o teu lema de vida?
- Coloco no mesmo patamar; verdade, lealdade e bondade.
O Mau Educador alisou o bigode que por sinal até lhe assentava bem e perscrutou a rapariga com curiosidade:
- Esses lemas estão reservados a alguém especial ou são para todos?
- Para todos sem reservas – a resposta não se fez esperar.
- E quais os que se confinam à casa real?
- Nenhuns!
- Não gostei da provocação! – objectou o rei com desagrado, chegou-se para mais perto e colocou a mão esquerda sobre o ombro direito da filha.
- Princesa, minha filha, esses lemas não te levam muito longe. E a ambição onde fica?
- Mas sou comedidamente ambiciosa!
- Conversa apática, inconsistente… digamos, uma forma de pensar amorfa…. princesa, és capaz de faltar à verdade? De escarnecer? De calcar os vermes dos inimigos? De ser calculista e fria quando for necessário?
- Jamais pai!
- Jamais?! – o rei tinha perdido de novo a cabeça. – mas como julgas tu  que te irás defender dos inimigos?
- Com amor pai! – respondeu segura.
- Se pensas assim meto-te num convento! rematou vigorosamente.
Feia enrubesceu de temor. Os seus olhos divagaram assustados pelo chão da sala à procura de uma fuga rápida para aquela inquisição.
O Mau Educador ergueu o rosto pensativo, desencantado, desiludido…a íris tornou-se clara e nostálgica. A expressão acinzentada.
- Minha filha, desconheço que mundo habitas, com certeza não é o mesmo que eu, não tens a verdadeira noção do que é andar por aqui e na minha opinião já tens idade para isso. És uma sonhadora, e quem sonha é parvo, vence quem sabe viver – o rei fez uma pausa e voltou a falar – Princesa, o mundo pertence aos que têm império, aos que têm nome, aos que se eternizam pelos feitos. O resto não conta, é povo, gente escrava, ralé sem voz, gente que obedece sem contestar às minhas ordens. Discordas de mim? 
- Discordo pai!
- Atreves-te a discordar? – o rei empalideceu.
- Prefere que lhe minta?
- Sai daqui! – tão grande foi a fúria que as lágrimas transbordaram e correram em ziguezague pala face tisnada. A rapariga escapou sem olhar para trás, enfurecido lançou a espada à porta e desatou a blasfemar em voz baixa, de forma impercetível e logo a seguir :- Tão inteligente e tão parva, casa-te com um plebeu e ficas sem linhagem, sem nome e sem nada! Renego-te! – Bradou num tom rouco. Em seguida lançou-se sobre a rainha e agarrando-a pelos cabelos murmurou irado – Ela vai para um convento, ouviu?
- Sim, com certeza – respondeu a rainha Mil Faces humilhada.
Era noite, do alto do cabeço repousava o imponente palácio, por entre uivos de aves noturnas e soturnas em demanda, presas fáceis e cegas. Hora destemida dos mistérios impenetráveis, de falsos segredos cochichados e conjeturados nas sombras. Hora dos  crimes maquiavélicos e diabólicos. Hora das pontes caladas, do silêncio pesado, dos túmulos se abrirem no rugido enferrujado de ferrolhos e gonzos. Hora reparadora de sonos inquietos. Hora das estrelas exibirem os seus gorjeios cintilantes.
Mais adiante veio a luz do dia espreguiçar-se calma e serena, galgando docemente aquela manhã outonal. Inesperadamente soprou uma aragem fresca, temperada com hálito de Inverno. O grande jardim respirava profundamente a frescura dos pequenos lagos verdes, o repouso dos grilos, o despertar das flores, das árvores e do céu.
A princesa Feia desceu as escadas de mármore, passou a meio do jardim e continuou colina abaixo até desaparecer no bosque. Ali sentia-se mais livre, inspirada e mais perto da paz e da tranquilidade da sua floresta. Correu nova aragem, ainda mais fria, arrepiou-se. Os cabelos claros, lisos e leves revolveram-se uns nos outros e chegaram a cobrir-lhe o rosto, muito pacientemente afastou-os sem pressas. Veio outra aragem estranha, muito localizada, um bafo quente, então parou ligeiramente receosa e voltou-se para trás. Ninguém. Apenas ramos entrelaçados, folhas de várias espécies, troncos, alguma folhagem densa, o sol a infiltrar-se de jato em todos os espaços, buracos e orifícios… Nada que fizesse estremecer, quando ia iniciar de novo a caminhada, sentiu outra aragem situada sobre o seu ouvido, como se alguém tivesse soprado por entre os cabelos. Pressentiu que ali havia mais alguém e desatou a fugir:
- Princesa, sou eu!
Aquela voz fê-la parar e voltar-se novamente:
- Pregou-me um susto…daqueles!- declarou a arfar.
- Desculpe, não foi essa a minha intenção!- justificou-se a rir o recém chegado.
O jovem divertido apoiou-se na bengala e acercou-se da princesa:
- Menina…- tomou-lhe a mão e conduziu-a aos lábios – depois da usual vênia.
- Adoro a forma elegante que usa sempre que me cumprimenta, tão distinto…
- A melhor hora do meu dia é quando nos encontramos. – dito isto fitou-a longamente nos olhos.
Ela perturbada afastou-se meigamente e lembrou que continuassem a andar: 
- Conheço-o já há algum tempo mas nunca o vi por aqui… – estranhou entusiasmada.
- É a primeira vez que cá venho…algo me chamou…foi a sua presença oculta…- riu de novo.
- Não gosta da vida campestre?
- Confesso que não sou grande apreciador da vida campestre… vim com o propósito de desanuviar uns dias …e depois tenciono voltar à capital… fiquei mais tempo por sua causa! – e dito isto, deu alguns passos rápidos e colocou-se à frente da princesa, interditando a sua marcha. Sorriu-lhe muito matreiro, estendeu o braço esquerdo e colocando os dedos sobre o queixo da rapariga, pronunciou :
- É muito bonita; cabelos prateados, olhos vivos e profundos, boca rosada, tez pálida, rosto oval…. 
A princesa riu-se e inclinou ligeiramente a cabeça.
- Falo a sério, parece saída de um conto mágico… - pronunciou com verdade o barão Bem Disposto.- depois rumorejou   olhos nos olhos:- é a minha princesinha linda…-e ficaram assim, imóveis durante não se sabe quanto tempo…
O barão ficou muito perto dela… via-o agora tão nítido…muito maior; a massa de caracóis, desgrenhados e escuros, com arabescos à mistura, chegavam-lhe aos ombros, o rosto escuro e quadrado, a bela dentição, alva e brilhante, os olhos castanhos claros rasgados e pestanudos…
- Princesa, gostaria de celebrar esta nossa amizade? – como não houve resposta, o jovem indagou: - estou a falar consigo e não me responde, porquê?
- Sim… - parecia desconcertada.
- Não lhe parece boa ideia? – quis saber algo incomodado.
Ele procurou ler-lhe as feições e segurando-a pelos ombros, beijou-a ao de leve nos lábios, depois afastou-se para tornar a espiá-la. Foi aí que detetou uma sombrinha turvando os olhos dela. Sem mais delongas abraçou-a longamente, apertando-a com firmeza e sentimento, beijou-a uma  e outra vez. A princesa havia correspondido com alguma excitação.
- Estou a seguir por um caminho errado? – quis saber e antes  que ela pudesse responder adiantou-se -  Não gostou do beijo, é isso?
- Gostei, o sabor dos seus lábios nos meus, tem a frescura da primavera.
- Esse seu lado poético impressionou-me desde o primeiro dia em que a conheci. – elogiou-a sorridente- é um prazer quando me fala dos seus poetas favoritos e me lê a sua poesia. Como sabe, não tenho inspiração para versos mas aprecio pessoas sensíveis e munidas desse talento, sendo a princesa uma delas, deixa-me imensamente feliz!
- Eu acho-o um homem incrivelmente tentador, muito semelhante a uma escultura de uma qualquer divindade grega, um poema…Inteligente, culto, terno, ponderado…
- Hum…que beleza…as suas palavra são seda sobre mim… apetece-me cantar…- abriu os braços e cerrou as pálpebras de regozijo.
Veio um sopro agitado de vento e ela acompanhou o pormenor dos cabelos mais curtos enrolarem-se nas têmporas e na testa, a linha reta do nariz, demorou-se nos lábios carnudos e entreabertos, no queixo duro, nos tendões fortes que desenhavam o pescoço …
Aquela visão tornou-se mais real quando a encostou toda ao tronco de uma árvore e apertou o seu corpo contra o dela, agarrando-a firme pela cabeça, enquanto os cabelos esvoaçavam como asas de borboletas. Beijou-a longamente, com deleite e paixão. E arrebatado pelo desejo soltou uma das mãos para acariciá-la no ventre, nos seios redondos e fartos e quando a mão esguia atingiu as coxas, numa carícia mais ousada, ela retraiu-se e tentou escapar:
- Desculpe, não devia, sou cavalheiro e não quero forçá-la a nada…
A princesa Feia colocou o indicador sobre os lábios do barão, muito carinhosa e assim que soltou:
- Amo-a! declarou num ímpeto e os seus olhos resplandeceram a luz poderosa e intensa dos enamorados, o fogo dos que amam e desafiam os abismos do incerto…
- Amo-o também! – reconheceu tremendo de emoção.
- Está a ficar mais frio, deseja subir? não quero que se constipe, está bem?
- Vai começar a chover… – esclareceu ela, espreitando o céu por entre os ramos.
- E… já está a cair uma poalha! – exclamou surpreendido.
- Vamos?
- Sim, acompanho-a.
- Barão, há um detalhe que ainda não lhe contei…- articulou com alguma dificuldade.
- Então conte-me por favor! – ele ficou ansioso de repente
- O meu pai vai enviar-me para um convento! – declarou triste.
- Como? – gemeu chocado – e porquê? – o jovem parou de andar e ela também.
- As minhas ideias incomodam o meu pai.
- Pois, já calculava que isso viesse a acontecer, já me falou de vários episódios …e a rainha, sua mãe nunca a defende…- constatou lacónico.
- E que vamos fazer?
- Mas tem a certeza que a enviará para um mosteiro?
- Sim, de certeza, conheço muito bem o meu pai…
O jovem ficou absorto, os olhos castanhos esverdeados vaguearam em redor, como se algures houvesse uma resposta escondida.
- Estou a meditar numa alternativa, porque não vou perdê-la agora que mal a encontrei.
Entretanto a chuva começou a intensificar-se e nem um nem outro se aperceberam, concentrados na urgência de uma decisão. Ambos paralisados à espera de uma ideia que viesse salvar quele amor que ainda era semente a querer dar fruto.
- Devo voltar para a capital daqui a dois dias…
- Então estamos perdidos – atalhou angustiada.
- Não me parece. – remediou com convicção.
- Que quer dizer?
- Levo-a comigo!
- Fujo consigo?!
- Sim! A menos que não queira.
- É óbvio que quero…mas dois dias é o tempo suficiente para meu pai tomar conhecimento e acabar com o plano. O rei e a princesa Malvada tudo farão para tornar impossível a nossa fuga…
- Então terá de ser breve! Que tal amanhã?
- Aceito com uma condição!
- Qual?
- Levo comigo o príncipe Delicado…não posso deixá-lo para trás, seria devastador para o meu irmão.
- Concordo, então consegue  preparar-se e prepará-lo para amanhã?
- Sim, consigo. A que horas?
- Venham ter comigo aqui mesmo, depois seguimos na carruagem para a estação. Às nove em ponto, não se atrase por favor… - declarou conciso.
Abraçaram-se de novo, beijaram-se com voracidade e na urgência de quem não pode esperar mais.
 Subitamente acordaram e aperceberam-se que precisavam de trocar imediatamente de roupa.
- Separemo-nos aqui. Será melhor que ninguém do palácio o veja.
- Tem razão, e não se esqueça, meu amor. Nada de atrasos – enquanto corria voltava-se para trás e gritava:
- Não se esqueça, não se esqueça…não se esqueça! e o eco repercutia-se nos ouvidos  da princesa.
- Não esquecerei meu amado…murmurou e levou as pontas dos dedos aos lábios, atirou um beijo na direção onde barão já havia desaparecido e lançou-se numa corrida veloz de volta ao palácio.
Pedras Nuas Afonso 
19 de Novembro de 12

Nota: Este conto destina-se à Pastelaria Studios. Se for selecionado e  publicado  será inserido na nova coletânea . ( A quem tiver paciência de me ler, ficará aqui cerca de um mês) . Sempre grata!!! 

Nota(por razões de saúde não poderei visitar os espaços amigos, por isso as minhas sinceras desculpas)