quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A princesa Feia e o Barão Bem Disposto


 A imponência do palácio era visível, no alto do morro, fortificado pelos ramos das árvores, dos arbustos e das plantas. A valsa de verdes, desde os mais esbatidos aos mais fortes e intensos. O chão coberto de musgo e de folhas molhadas pelas primeiras chuvinhas atrevidas e finas. Ali palmilhava-se com assombro o território ideal e recomendado a almas sensíveis e apaixonadas, em tudo amantes da natureza. Os ramos alvoroçados abriram alas às primeiras claridades do dia. Amanhecera. E de dentro do palácio ecoou uma voz forte:


- Quero saber dos meus filhos, tragam imediatamente a princesa Malvada!- ordenou o rei muito esticado.
A rainha Mil Faces antecipou-se à ama de quartos e chegou primeiro:

- Vá, filha, apressa-te, o pai quer ver-te agora!

- Logo agora que estou a brincar com as minhas bonecas …- replicou enervada.
- Princesa, por favor, nada de lamúrias, vamos lá!
- A mãe tem sempre que lhe obedecer.- comentou com um ar de fastio.
- Ele é o rei, o teu pai, está bem?
- Tu és a rainha, minha mãe…- argumentou astuta.
- Atenção a esses modos ou o rei manda-te cortar a língua de tão espevitada!
Segurando na criança pela mão, puxou-a e rapidamente levou-a à presença do pai.
- Aproxima-te Malvada! – disse o Mau Educador cofiando manhosamente o bigode e a barba.
A menina encrespou o rosto de enfado e deu um passo em frente.
- Que cara é essa? – quis saber o pai.
- A minha!
- Não sejas refilona – contestou brando.
- A princesa não é refilona. – acudiu a rainha.
- Ai não? – sacudiu o lenço de mão.
- Não pode levar a mal o que a minha princesinha diz…
- Deixemo-nos de arengas – apressou-se a acrescentar o Mau Educador – depois, com as pontas dos dedos ergueu  o rosto da criança:
- Já pinta os lábios, princesa?! – pronunciou com estupefação.
- Ela gosta, é menina…e há outras na corte que também fazem o mesmo…- corroborou a rainha Mil faces.
O rei ergueu as sobrancelhas e em silêncio lançou à mulher um olhar displicente, em seguida afirmou:
- Não gosto, acho que é muito cedo para isso.
- Deixai a menina ser menina.
Os olhos de sua excelência semi cerraram-se de irritação, deu um estalinho com a língua e prosseguiu estalando seguidamente os dedos:
- Vamos à lição – anunciou em voz alta e acrescentou: - Tragam-me o anão!
A menina afastou-se quando o anão entrou na sala.
- Quem é ele? – quis saber a Malvada fingindo receio e medo.
-  Um idiota ladrão – respondeu o rei
- Trapaceiro- acrescentou a rainha
- Que sentes por ele? –  perguntou o rei à filha.
- Nada. Que havia de sentir?!
- Então esbofeteia-o! - ordenou sua excelência estreitando os olhos.
A menina obedeceu, o pai riu-se:
- Isso é uma carícia!
A criança intimidou-se e recuou. Então o rei avançou:
- Vê como faço!- e exemplificou esmurrando o anão em cheio no nariz. O rapaz  foi arremessado para o ar e estatelou-se no chão como se de uma peça de vestuário se tratasse. Depois juntou-se à menina e baixou-se para ficar à altura dela.
- É óbvio que não estava à espera que fosses capaz disto…mas vou treinar-te para que um dia sejas uma bela tirana. Escuta-me, bati-lhe com a mão que tinha anéis, por isso tem o nariz a sangrar. É desta forma que deves enfrentar os teus inimigos, sem medo, sem vacilar, sem piedade, sem remorsos. Inimigos são para abater. Entendido?
- Sim, pai.
Em seguida, fitou-a sério e indagou meio ternurento:
- Amas-me?
- Sim, pai!
- Amas tua mãe?
- Sim, pai!
- Fico muito regozijado por saber isso...nunca te revoltes contra nós, amamos-te e tu amas-nos, seria trágico …! O resto do mundo não importa….desde que tenhas as tuas razões… e te defendas dos predadores…Agora vai brincar com as bonecas.
- Sim , pai!
A criança ia afastar-se, quando o Mau Educador agarrou-a pelo pulso.
- Quero o meu beijo antes de te retirares!
A princesa sorriu sem vontade e depositou no rosto do pai um beijo repenicado. O Mau Educador alegrou-se e em seguida deu uma palmadinha afetuosa no rabinho da criança:
- Vá lá…
Depois vagueou pela sala de mãos atrás das costas, enquanto a rainha se mantinha no mesmo lugar, em silêncio.
- Quero ver o rapaz – informou enquanto tocava a campainha. A Mil Faces não se moveu.
A ama surgiu e o rei pediu para trazerem o príncipe Delicado. Alguns minutos e assomou à porta.
- Meu pai? – apresentou-se  e fez vénia.
O Mau Educador observou minuciosamente o filho que se mantinha muito direito e de olhos baixos, retirou a espada da cinta, nessa ocasião a rainha estremeceu e deu dois passos em frente, temente do pior, mas recuou os mesmos passos para trás quando percebeu que o rei servia-se da espada para se apoiar. Rodou em torno do miúdo, deteve-se nas costas dele e interrogou-o:
- Tens algum assunto para me contar?
- Não senhor!
- Hum? – o rei encolheu o sobrolho.
- Que tens feito, rapaz?!
- Algumas coisas.
- Algumas coisas?! – clamou e o cenho carregou-se de aborrecimento  e perplexidade.
A criança estremeceu com o rugido do pai. E este procurando dominar-se, voltou à carga :
- Fala-me do que tens aprendido com a tua preceptora.
- Não me lembro pai…não… - O rapazinho sufocou dentro de si mesmo. Como se tivesse inchado e fosse estourar a qualquer momento.
- Não é possível, não pode ser verdade! –o pai gritou-lhe  , a mãe continuava na sombra, lançando ao filho  faíscas de raiva. Os olhos do rei direcionaram-se para os olhos da esposa, confirmando se ela partilhava da mesma indignação que ele.
- Fale! Abra a boca e diga-me o que pensa! – propôs o rei à rainha.
- Essa criança só pensa em brincar…não se concentra nos estudos, não me obedece, não sei mais o que fazer…sinto-me envergonhada com o comportamento dele.
- E agora, que tens a acrescentar ao que a senhora tua mãe acabou de dizer?
O menino permaneceu em silêncio. Então o Mau Educador não se contendo berrou-lhe aos ouvidos, fazendo-o estremecer de novo:
- És surdo? – como a criança permaneceu no mesmo estado de imobilidade, o rei baixou o tom mas proferiu extremamente impaciente :- A partir de agora estás de castigo, levas cinquentas chibatadas nas pernas e nas nádegas e ficas proibido de brincar com as outras crianças do reino.
Os lábios do príncipe tremeram e os olhos nublaram-se.
- Agora sai imediatamente da minha presença, e volta um homem! Foi para isso que te criei! E a si – dirigiu-se à rainha – cabe-lhe ter a certeza que este rapaz se torna no meu sucessor!
O rapazinho retirou-se amargurado. O Mau Educador continuou para a mulher:
- Após cumprir o castigo, quero-o em treinos para ingressar na cavalaria. Há-de ter espírito beligerante, tal como eu quero! Irá para a guerra comigo!
- Tenho sérias dúvidas que resulte …- adiantou a rainha Mil Faces.
- Porque diz isso?
- É uma criança sensível e delicada...
- Deixará de o ser! – afirmou convicto.
- Aquele rapaz precisa de  pulso firme – referiu a rainha mal humorada.
- Vai ter a partir de agora…a sua educação resultou mal… transformou-o num rapaz inexperiente, pacato, sem ação, um inútil…
- Está a atirar com as culpas para mim?! – a rainha Mil Faces  indispôs-se.
- Não, não estou a acusá-la de nada!… - rematou com ironia.
- Não é assim, então fico com as culpas todas? E a sua responsabilidade?
- Estou mais tempo na guerra do que em casa…não se esqueça disso!
O rosto da rainha Mil Faces enrubescera, dominado pela cólera:
- Não gosto desse peso nas costas …
- Com certeza minha senhora, não tornemos a falar do assunto, porque caso contrário esta noite será punida...
A rainha ergueu o rosto e numa pose de desafio retrucou:
- É bom que pense duas vezes antes de me acusar seja do que for… sei a que dá importância e do seus sentimentos por mim… tenha por isso mais respeito pela mãe dos seus filhos e esposa dedicada.
O rei levou a mão direita aos cabelos e alisou-os numa atitude de verdadeiro enjoo.
-Quero aqui a princesa Feia! – a ordem saiu num tom furioso e impaciente e não demorou muito até a filha mais velha aflorar à porta. Entrou e aguardou que o rei tomasse a palavra. Como continuava calado a rapariga adiantou-se:
- Chamou meu pai?
- Chamei porque regressei da guerra e quero ver os meus filhos, não é natural?
- Com certeza pai e cá estou eu …
O rei ficou surpreendido com a ligeireza da resposta e por isso avançou com uma pergunta:
- Qual é o teu lema de vida?
- Coloco no mesmo patamar; verdade, lealdade e bondade.
O Mau Educador alisou o bigode que por sinal até lhe assentava bem e perscrutou a rapariga com curiosidade:
- Esses lemas estão reservados a alguém especial ou são para todos?
- Para todos sem reservas – a resposta não se fez esperar.
- E quais os que se confinam à casa real?
- Nenhuns!
- Não gostei da provocação! – objectou o rei com desagrado, chegou-se para mais perto e colocou a mão esquerda sobre o ombro direito da filha.
- Princesa, minha filha, esses lemas não te levam muito longe. E a ambição onde fica?
- Mas sou comedidamente ambiciosa!
- Conversa apática, inconsistente… digamos, uma forma de pensar amorfa…. princesa, és capaz de faltar à verdade? De escarnecer? De calcar os vermes dos inimigos? De ser calculista e fria quando for necessário?
- Jamais pai!
- Jamais?! – o rei tinha perdido de novo a cabeça. – mas como julgas tu  que te irás defender dos inimigos?
- Com amor pai! – respondeu segura.
- Se pensas assim meto-te num convento! rematou vigorosamente.
Feia enrubesceu de temor. Os seus olhos divagaram assustados pelo chão da sala à procura de uma fuga rápida para aquela inquisição.
O Mau Educador ergueu o rosto pensativo, desencantado, desiludido…a íris tornou-se clara e nostálgica. A expressão acinzentada.
- Minha filha, desconheço que mundo habitas, com certeza não é o mesmo que eu, não tens a verdadeira noção do que é andar por aqui e na minha opinião já tens idade para isso. És uma sonhadora, e quem sonha é parvo, vence quem sabe viver – o rei fez uma pausa e voltou a falar – Princesa, o mundo pertence aos que têm império, aos que têm nome, aos que se eternizam pelos feitos. O resto não conta, é povo, gente escrava, ralé sem voz, gente que obedece sem contestar às minhas ordens. Discordas de mim? 
- Discordo pai!
- Atreves-te a discordar? – o rei empalideceu.
- Prefere que lhe minta?
- Sai daqui! – tão grande foi a fúria que as lágrimas transbordaram e correram em ziguezague pala face tisnada. A rapariga escapou sem olhar para trás, enfurecido lançou a espada à porta e desatou a blasfemar em voz baixa, de forma impercetível e logo a seguir :- Tão inteligente e tão parva, casa-te com um plebeu e ficas sem linhagem, sem nome e sem nada! Renego-te! – Bradou num tom rouco. Em seguida lançou-se sobre a rainha e agarrando-a pelos cabelos murmurou irado – Ela vai para um convento, ouviu?
- Sim, com certeza – respondeu a rainha Mil Faces humilhada.
Era noite, do alto do cabeço repousava o imponente palácio, por entre uivos de aves noturnas e soturnas em demanda, presas fáceis e cegas. Hora destemida dos mistérios impenetráveis, de falsos segredos cochichados e conjeturados nas sombras. Hora dos  crimes maquiavélicos e diabólicos. Hora das pontes caladas, do silêncio pesado, dos túmulos se abrirem no rugido enferrujado de ferrolhos e gonzos. Hora reparadora de sonos inquietos. Hora das estrelas exibirem os seus gorjeios cintilantes.
Mais adiante veio a luz do dia espreguiçar-se calma e serena, galgando docemente aquela manhã outonal. Inesperadamente soprou uma aragem fresca, temperada com hálito de Inverno. O grande jardim respirava profundamente a frescura dos pequenos lagos verdes, o repouso dos grilos, o despertar das flores, das árvores e do céu.
A princesa Feia desceu as escadas de mármore, passou a meio do jardim e continuou colina abaixo até desaparecer no bosque. Ali sentia-se mais livre, inspirada e mais perto da paz e da tranquilidade da sua floresta. Correu nova aragem, ainda mais fria, arrepiou-se. Os cabelos claros, lisos e leves revolveram-se uns nos outros e chegaram a cobrir-lhe o rosto, muito pacientemente afastou-os sem pressas. Veio outra aragem estranha, muito localizada, um bafo quente, então parou ligeiramente receosa e voltou-se para trás. Ninguém. Apenas ramos entrelaçados, folhas de várias espécies, troncos, alguma folhagem densa, o sol a infiltrar-se de jato em todos os espaços, buracos e orifícios… Nada que fizesse estremecer, quando ia iniciar de novo a caminhada, sentiu outra aragem situada sobre o seu ouvido, como se alguém tivesse soprado por entre os cabelos. Pressentiu que ali havia mais alguém e desatou a fugir:
- Princesa, sou eu!
Aquela voz fê-la parar e voltar-se novamente:
- Pregou-me um susto…daqueles!- declarou a arfar.
- Desculpe, não foi essa a minha intenção!- justificou-se a rir o recém chegado.
O jovem divertido apoiou-se na bengala e acercou-se da princesa:
- Menina…- tomou-lhe a mão e conduziu-a aos lábios – depois da usual vênia.
- Adoro a forma elegante que usa sempre que me cumprimenta, tão distinto…
- A melhor hora do meu dia é quando nos encontramos. – dito isto fitou-a longamente nos olhos.
Ela perturbada afastou-se meigamente e lembrou que continuassem a andar: 
- Conheço-o já há algum tempo mas nunca o vi por aqui… – estranhou entusiasmada.
- É a primeira vez que cá venho…algo me chamou…foi a sua presença oculta…- riu de novo.
- Não gosta da vida campestre?
- Confesso que não sou grande apreciador da vida campestre… vim com o propósito de desanuviar uns dias …e depois tenciono voltar à capital… fiquei mais tempo por sua causa! – e dito isto, deu alguns passos rápidos e colocou-se à frente da princesa, interditando a sua marcha. Sorriu-lhe muito matreiro, estendeu o braço esquerdo e colocando os dedos sobre o queixo da rapariga, pronunciou :
- É muito bonita; cabelos prateados, olhos vivos e profundos, boca rosada, tez pálida, rosto oval…. 
A princesa riu-se e inclinou ligeiramente a cabeça.
- Falo a sério, parece saída de um conto mágico… - pronunciou com verdade o barão Bem Disposto.- depois rumorejou   olhos nos olhos:- é a minha princesinha linda…-e ficaram assim, imóveis durante não se sabe quanto tempo…
O barão ficou muito perto dela… via-o agora tão nítido…muito maior; a massa de caracóis, desgrenhados e escuros, com arabescos à mistura, chegavam-lhe aos ombros, o rosto escuro e quadrado, a bela dentição, alva e brilhante, os olhos castanhos claros rasgados e pestanudos…
- Princesa, gostaria de celebrar esta nossa amizade? – como não houve resposta, o jovem indagou: - estou a falar consigo e não me responde, porquê?
- Sim… - parecia desconcertada.
- Não lhe parece boa ideia? – quis saber algo incomodado.
Ele procurou ler-lhe as feições e segurando-a pelos ombros, beijou-a ao de leve nos lábios, depois afastou-se para tornar a espiá-la. Foi aí que detetou uma sombrinha turvando os olhos dela. Sem mais delongas abraçou-a longamente, apertando-a com firmeza e sentimento, beijou-a uma  e outra vez. A princesa havia correspondido com alguma excitação.
- Estou a seguir por um caminho errado? – quis saber e antes  que ela pudesse responder adiantou-se -  Não gostou do beijo, é isso?
- Gostei, o sabor dos seus lábios nos meus, tem a frescura da primavera.
- Esse seu lado poético impressionou-me desde o primeiro dia em que a conheci. – elogiou-a sorridente- é um prazer quando me fala dos seus poetas favoritos e me lê a sua poesia. Como sabe, não tenho inspiração para versos mas aprecio pessoas sensíveis e munidas desse talento, sendo a princesa uma delas, deixa-me imensamente feliz!
- Eu acho-o um homem incrivelmente tentador, muito semelhante a uma escultura de uma qualquer divindade grega, um poema…Inteligente, culto, terno, ponderado…
- Hum…que beleza…as suas palavra são seda sobre mim… apetece-me cantar…- abriu os braços e cerrou as pálpebras de regozijo.
Veio um sopro agitado de vento e ela acompanhou o pormenor dos cabelos mais curtos enrolarem-se nas têmporas e na testa, a linha reta do nariz, demorou-se nos lábios carnudos e entreabertos, no queixo duro, nos tendões fortes que desenhavam o pescoço …
Aquela visão tornou-se mais real quando a encostou toda ao tronco de uma árvore e apertou o seu corpo contra o dela, agarrando-a firme pela cabeça, enquanto os cabelos esvoaçavam como asas de borboletas. Beijou-a longamente, com deleite e paixão. E arrebatado pelo desejo soltou uma das mãos para acariciá-la no ventre, nos seios redondos e fartos e quando a mão esguia atingiu as coxas, numa carícia mais ousada, ela retraiu-se e tentou escapar:
- Desculpe, não devia, sou cavalheiro e não quero forçá-la a nada…
A princesa Feia colocou o indicador sobre os lábios do barão, muito carinhosa e assim que soltou:
- Amo-a! declarou num ímpeto e os seus olhos resplandeceram a luz poderosa e intensa dos enamorados, o fogo dos que amam e desafiam os abismos do incerto…
- Amo-o também! – reconheceu tremendo de emoção.
- Está a ficar mais frio, deseja subir? não quero que se constipe, está bem?
- Vai começar a chover… – esclareceu ela, espreitando o céu por entre os ramos.
- E… já está a cair uma poalha! – exclamou surpreendido.
- Vamos?
- Sim, acompanho-a.
- Barão, há um detalhe que ainda não lhe contei…- articulou com alguma dificuldade.
- Então conte-me por favor! – ele ficou ansioso de repente
- O meu pai vai enviar-me para um convento! – declarou triste.
- Como? – gemeu chocado – e porquê? – o jovem parou de andar e ela também.
- As minhas ideias incomodam o meu pai.
- Pois, já calculava que isso viesse a acontecer, já me falou de vários episódios …e a rainha, sua mãe nunca a defende…- constatou lacónico.
- E que vamos fazer?
- Mas tem a certeza que a enviará para um mosteiro?
- Sim, de certeza, conheço muito bem o meu pai…
O jovem ficou absorto, os olhos castanhos esverdeados vaguearam em redor, como se algures houvesse uma resposta escondida.
- Estou a meditar numa alternativa, porque não vou perdê-la agora que mal a encontrei.
Entretanto a chuva começou a intensificar-se e nem um nem outro se aperceberam, concentrados na urgência de uma decisão. Ambos paralisados à espera de uma ideia que viesse salvar quele amor que ainda era semente a querer dar fruto.
- Devo voltar para a capital daqui a dois dias…
- Então estamos perdidos – atalhou angustiada.
- Não me parece. – remediou com convicção.
- Que quer dizer?
- Levo-a comigo!
- Fujo consigo?!
- Sim! A menos que não queira.
- É óbvio que quero…mas dois dias é o tempo suficiente para meu pai tomar conhecimento e acabar com o plano. O rei e a princesa Malvada tudo farão para tornar impossível a nossa fuga…
- Então terá de ser breve! Que tal amanhã?
- Aceito com uma condição!
- Qual?
- Levo comigo o príncipe Delicado…não posso deixá-lo para trás, seria devastador para o meu irmão.
- Concordo, então consegue  preparar-se e prepará-lo para amanhã?
- Sim, consigo. A que horas?
- Venham ter comigo aqui mesmo, depois seguimos na carruagem para a estação. Às nove em ponto, não se atrase por favor… - declarou conciso.
Abraçaram-se de novo, beijaram-se com voracidade e na urgência de quem não pode esperar mais.
 Subitamente acordaram e aperceberam-se que precisavam de trocar imediatamente de roupa.
- Separemo-nos aqui. Será melhor que ninguém do palácio o veja.
- Tem razão, e não se esqueça, meu amor. Nada de atrasos – enquanto corria voltava-se para trás e gritava:
- Não se esqueça, não se esqueça…não se esqueça! e o eco repercutia-se nos ouvidos  da princesa.
- Não esquecerei meu amado…murmurou e levou as pontas dos dedos aos lábios, atirou um beijo na direção onde barão já havia desaparecido e lançou-se numa corrida veloz de volta ao palácio.
Pedras Nuas Afonso 
19 de Novembro de 12

Nota: Este conto destina-se à Pastelaria Studios. Se for selecionado e  publicado  será inserido na nova coletânea . ( A quem tiver paciência de me ler, ficará aqui cerca de um mês) . Sempre grata!!! 

Nota(por razões de saúde não poderei visitar os espaços amigos, por isso as minhas sinceras desculpas)
























16 comentários:

Manuela Freitas disse...

Li-te com todo o interesse, a tua escrita é muito fluente e capta o interesse, pelo crescente interesse da situação. Se inicialmente tudo parecia irreversível num ambiente inóspito e agressivo, sempre há uma volta a dar e um outro caminho percorrer!
Parabéns Pedras, escreves muito bem|
Beijos...

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Uma estória linda que li do princípio ao fim sem perder o interesse.
De certeza que vai ser seleccionada...eu adorei e espero que ela não chegue atrasada ao encontro.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Nilson Barcelli disse...

Isto é muito mais que um conto.
Parece mais o início de um romance, dada a trama que foi estabelecida e o teu fôlego, que é evidente na narrativa.
Eu até gostava que continuasses a história, já que tens várias portas abertas...
Resumindo, gostei muito, é um excelente conto.
Beijo, querida amiga.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Passando para agradecer as tuas palavras...nem eu sabia que conseguia escrever poemas de desejo e paixão.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Silenciosamente ouvindo... disse...

Estou de acordo com o que o meu
amigo Nilson disse.
Adorei ler.
Parabéns.
Bj.
Irene Alves

José Sousa disse...

Amiga Pedras!
Faz muito tempo que não posto e não vesito os postes dos meus amigos! Problema de depressão levou-me a essa situação. Já me encontro recuperado, um pouco, mas espero que agora eu volte de vez até estas andanças que eu tanto gosto (Os blogues). Como sempre gostei da sua escrita e do tema!

Desejo-lhe um feliz Natal e um ano de 2013 cheio de felicidades, um beijinho!

Vá até ao meu: www.minhaalmaempoemas.blogspot.com

Sissym disse...

Querida amiga,

Adoro ler historias. Este conto é envolvente.

Aproveito para desejar a voce e aos nossos amigos BOAS FESTAS. Desejo que todos nós tenhamos as bençãos para otimos 365 anos juntos, compartilhando idéias e emoções.

PAZ

Nilson Barcelli disse...

Querida amiga, desejo que tenhas um Feliz Natal, extensivo aos que te são mais queridos.

Beijo.

SANTA CRUZ DIÁCONO GOMES disse...

Pedras Nuas; lindo texto adorei, desejo-te um Santo e feliz Natal.
Beijos
Santa Cruz

AC disse...

A eterna luta do amor, contra ventos e marés...
Boa narrativa, Pedras!

Beijo :)

Petrus Monte Real disse...

Pedras,

Bela história, com um rico enredo
que não esquece a crítica social!
Representa muito bem uma determinada época da nossa sociedade, não muito distante no tempo.
Retrata fielmente os erros de educação que se cometiam em nome de falsas virtudes.
Enquanto lia, por vezes imaginei que estava a assistir a uma representação teatral!
Gostei muito.

Grato pela visita e simpáticas palavras ditas no meu blog.
E, como não podia deixar de ser, faço votos de Festas Felizes e um novo ano que alimente o sonho e a esperança.
Um beijo e
abraço.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Que neste ano de 2013 que agora se inicia possamos com uma palavra de apoio e fraternidade fazer que o mundo seja melhor e que a esperança de realizar todos os sonhos seja presente sempre nos nossos corações...que a paz o amor e a felicidade seja o alvorecer de um novo tempo de amor e fraternidade.
E obrigada por me abrirem o vosso coração para eu entrar e alimentar a minha alma de carinho neste caminho que é feito por nós...mas que depende de quem nos acompanha e nos ajuda a ultrapassar dias menos bons e que estão sempre presentes com uma palavra de conforto...que secam as nossas lágrimas e sorriem com as nossas alegrias.

FELIZ ANO NOVO
Um beijinho com carinho
Sonhadora

rosa-branca disse...

Lindo conto que adorei. Uma faceta tua muito interessante e que gostei muito.
Amiga, passei para lhe desejar um Feliz Ano Novo com muita saúde, paz e muito amor. Beijos com carinho

Fê blue bird disse...

Amiga desejo-te as melhoras e que continues a nos encantar com os teus contos.

beijinho

Fê blue bird disse...

Amiga desejo-te as melhoras e que continues a nos encantar com os teus contos.

beijinho

joaquimdocarmo disse...

Pedras Nuas
Um conto envolvente, com um ritmo que mantém o leitor preso!
Gostei muito e penso que este texto bem pode ser o começo de um projecto mais longo!
Abraço de parabéns com votos de Feliz Ano Novo.
Joaquim