terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Espírito de Natal




O céu desce
numa pálida nuvem
O dia amanhece
dentro da gruta
Os anjos bocejam
num trejeito ingénuo
Os sinos bamboleiam   
Num   tom  alegre…
É chegada a hora
da  luz cobrir
o que de trevas
está para vir…
ó  Salvador surge agora
salva os bons do poço sem  fundo
e condena os maus a um mar de chumbo
As fontes cantam de rosto lavado
água benta corre o prado
  lágrimas rebentam
dos olhos varados
E das alturas,… das alturas
vem um gesto desejado….
PN
 
 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A folha branca



Não é no tecto que encontrarás as linhas curvas, ondulantes, as linhas retas, as linhas finitas e infinitas, as linhas quebradas,ziguezagueadas, mastigadas, esticadas, sinuosas, majestosas, espiraladas, curtas,compridas, grossas e finas.... é na tua folha de papel.... deixa a tua mão correr, nesse diálogo firme , vigoroso e aventureiro e se porventura uma dessas linhas sair fora dos teus planos , do percurso traçado,segue-a, até onde for possível...quem sabe se não te mostrará outro caminho possível,um atalho que fará toda a diferença e poderá mudar o rumo do teu desenho...
PN

Perdoem-me a ausência nos vossos espaços...a seu tempo marcarei presença com o mesmo prazer de sempre. Abraço.

sábado, 9 de novembro de 2013

Passa o som e deixa um espaço...


_________________________
A distância percorrida é leve, fina espessura,
Resistente, persistente
Nesta suspensão algo demorada
O borrão afogueado e rubro
Invade a toalha alva.
Embebeda-se…
encharca-se de pureza.
O vazio estende-se, pendura-se no estendal
da roupa e redemoinha  nas guitas
quase enforcado no gesto colérico, brusco…desmedido
e o sangue espicha, guincha  na tranqueta, solta-se e
espeta-se na camisa … a denúncia !
Um sopro, ar sorvido  e expelido com abundância …a caravela
periclitante foge primeiro de mansinho…depois  corre doida mar acima, mar abaixo…
apanhada no susto sem tamanho…
o horizonte desalinha-se, inquieta-se
da tinta que se desencontrou do suporte…
forma meandros sinuosos
longos…estradas apertadas
nostalgias largas
e no momento da derrapagem  o sono trai o controlo
a caneta falha
e rola desesperada  para fora das orlas
tudo perdido…ou quase…
vislumbra-se na distancia o lenço branco
a vela rasgada e sem esperança …
e a  mão mecânica persegue
insistente o sofrido algemado
nas veredas do que mói e até dói
no fundo do poço a aliança
para sempre restabelecer
a digna confiança…
PN
9/11/13




domingo, 13 de outubro de 2013

Morro de amor por ti...

Se alguma vez fui pecador 
Foste tu que me empurraste 
me puxaste 
mil vezes tentaste o fraco homem 
louca mulher!
Urdiste intrigas 
Verborreia oca e frívola
Ser vagante,
Fantasma reencarnado num elefante
Poderosa bruxa deliciosamente elegante
Usurpadora dos meus delicados sentimentos
Vacilo… tropeço entre a verdade e a miragem
Falsa imagem
Fera que me faz uivar de tesão…
Coisa torta
Titubas e desconcertas –me…desconcentras-me….
Roubas-me as mãos, os braços, o peito , os cabelos
E ardo num fogo lento, demorado
masoquismo adorado
Barco encalhado
Num mar sinuoso;
Seio nu que me chama ondulante, redondo
Farto, fofo…
Curvo e trigueiro
E a minha boca sequiosa 
mata a sede na fonte venenosa 
Vencido, morto argumento, sou!
troças de mim
e rumorejas aos meus ouvidos
num tom doce e confuso
Tolo…enraiveço-me
preso 
numa armadilha de pássaros
pudesse eu bater em revoada
salvo pelas aves…
o céu está distante,
nem sombra de bando…
Estou perdido…
Acordo…
Afasto o vício 
Imploras em risadas que fique
Que me alimente
Da mentira, da traição…
de tudo aquilo em que não acredito
Não!…não!...não!...
Seguras-me, tropeço em ti
Fujo…abalo…arrastas-te 
Pesas-me, fardo obstinado
Deixa-me, não queiras seguir-me
Liberta-me!
Distraído resvalo no obscuro
Rolam pedras sob meus pés…
Sozinho …
Volto-me a tempo de ver o teu 
gelado riso…. deleitado e triunfante
A visão tolda, enevoa-se 
Na queda há um anjo
Sacudo-me aflito e impaciente! 
asas?!
… mas sou eu ?!
PN

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sem possibilidade de denúncia ...

 A mais triste ironia é não poder lançar os dados , ter um  jogo limpo e transparente, ser forçado a lacrar os lábios , atar os punhos _____________________________________________________
e engolir a verdade como se fosse pó escuro!

PN

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O sonho das gaivotas...

Amigos, peço imensa desculpa pela minha constante ausência....mas há acontecimentos e compromissos dos quais não se pode fugir, nem adiar. Agradeço a vossa compreensão.. Boas férias a todos e até já! Um abraço!
PN

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Estou aqui !

Aos poucos perdi o pé...arranhei as cordas que me prendiam a ti...desiquilibrei-me e fui arrastada nos lençóis frios e pesados da maré....Não,não me perdi... nem tão pouco morri... Ando a boiar e  espero uma luz ...uma luz que me diga que acreditas em mim...

PN

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Lê-me aos poucos...lentamente, acompanho os teus passos...

Porque não suavizas a tua dor nas horas que te dedico?


PN

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Indicado a pais , professores e todos os que convivem com situações descritas no artigo.

Postado em: 20 mai 2013 às 19:28

Como é que a epidemia do Déficit de Atenção, que tornou-se firmemente estabelecida em vários países do mundo, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?
déficit atenção crianças
Déficit de Atenção em crianças francesas é inferior a 0,5% (Foto: Ilustração)
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.
Leia também
Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre – que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.
Marilyn Wedge, em Psichology Today Tradução: Equilibrando

sábado, 1 de junho de 2013

A culpa não é dos meninos de cristal, de quem será?

"No Blog Assobio Rebelde” da autoria de Maria dos Anjos, foi publicado o texto que de seguida transcrevo e que erradamente tem circulado pela internet atribuído (arbitrariamente por quem não sabia e não tem nada melhor para fazer…) a outros autores mais ou menos conhecidos do público."
"Sem mais comentários, deixo o texto que, na minha opinião, não explica tudo mas resume muito bem alguns dos argumentos que aparecem na discussão dopost anterior."
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem  Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde  uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dosqualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a  informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem  são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim."
O Bom
Nota minha: O texto não é novidade, circula há muito na Net, não recordo se já o publiquei...  mas  convém relembrar certas e determinadas verdade e  realidades.

sábado, 18 de maio de 2013

Ponta Afiada


Um mundo de Plástico.

O plástico invadiu a nossa vida de forma avassaladora. Um fenómeno como nunca antes visto. Basta olhar à nossa volta; começa logo no biberão das crianças (atenção, o plástico liberta toxinas por ação do calor e o bebé ingere leite misturado com essas toxinas. O plástico é altamente tóxico, a sua origem é o petróleo, que após um tratamento específico, é separado dando origem a um derivado que se chama; nafta, que por sua vez é a matéria prima do plástico. Algumas substâncias desprendem-se e entram no organismo, causando sérios problemas, como : febre em bebés, diminuição da produção de espermatozoides e várias outras patologias),  os brinquedos, as embalagens dos alimentos, as cadeiras dos automóveis, o teclado do computador, o calçado. O plástico é abundantemente utilizado na Medicina. Se cada um de nós fizesse um levantamento de todos os objetos de plástico que se encontram em cada dependência da casa, provavelmente surpreender-se-ia com o número que iria encontrar. Consequentemente deparamo-nos com uma geração que não vive sem plástico, come plástico (dizem que o peixe é mais saudável que a carne, porém, quem aconselha desconhece que certas espécies, tal como o polvo, o camarão, o peixe e outros animais marinhos, confundem resíduos de plástico, atirados ao mar ou na praia pelos negligentes humanos, e, ingerem-no confundindo com plâncton. E esse plástico volta ao nosso estômago. É caso para dizer, o feitiço volta-se contra o feiticeiro mas paga o justo e o pecador. A poluição é devastadora e trágica para o meio ambiente e consequentemente para nós. A ilha de plástico no Pacífico aumentou desmesuradamente, possui mais de 586 mil quilómetros quadrados e está alterando o ecossitema marinho. De acordo com o Programa das nações Unidas para o meio ambiente, o problema do lixo plástico é mais grave a norte do oceano Pacífico mas repete-se por todo o ambiente marinho do planeta. Segundo o Instituto de Macromoléculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi encontrada na floresta Amazónica, uma bactérica que pode comer resíduos de plástico, incluindo os mais resistentes, aparentemente contribuirá de forma positiva para o meio ambiente. Esperemos que seja assim, de qualquer forma não sei se não será já um pouco tarde, investe-se muito nisso? Há anos que os ambientalistas têm feito apelos, aos cuidados a ter com a Natureza, casa comum de nós mortais mas a poluição não pára de aumentar. Além dos atentados perpetrados pelos humanos (incêndios, etc). O mais degradante dentro do contexto é assistirmos à plastificação da humanidade. A alegria é plástica, os sorrisos são de plástico, as palavras são de plástico. o amor é plástico…  a política nunca foi tão plástica, a verdade anda nua, vazia e nada inteira, mente-se e volta-se a mentir com um ar de verdade, a mentira já não choca, é natural mentir, toda a gente mente. Não há honra, não há verdade, não há seriedade, não há autenticidade.  Um bom político pode ser vigarista, mentiroso, arrogante,despesista,cínico, aplicar reformas contra o povo, oprimi-lo, empobrecê-lo, conduzi-lo à loucura e à morte  mas tem o condão de exprimir-se bem….de proferir umas verdadezinhas aqui e ali….numa mistura que ludibria os mais incautos e até mesmo os mais ilustres. Não há como uma boa “narrativa”.  E pode-se confiar numa “narrativa” tendênciosa, pouco esclarecedora, uma mistura de verdade e mentira? Um discurso voltado para si mesmo, incapaz de assumir deslizes e fracassos como se isso fosse mau ou diminuitivo de um ser humano. E as várias narrativas que se podem encontrar  numa obra de arte   são sempre bem vindas, e quanto mais abstratas e subjetivas melhor mas em política, a visão do país não pode ser enviesada. Um país não é um quadro, nem um texto literário que se pode virar a página por não gostar de um capítulo. Haja compromisso, confiança e caráter.
As redes sociais são elucidativas de quantos querem ser famosos a troco de nada; é que nem esforço fazem para mostrar o quanto valem.
As religiões são todas elas de plástico, baseadas na aparência plástica do ser. Não existe profundidade, importa ficar bem na fotografia!
A cultura tem vindo a se plastificar, tudo é descartável, tempo de vida zero.
Continuando nesta  linha, muitas mulheres e homens optam por plásticas, tudo pela imagem exterior! A aparência conta imenso, muito mais que o interior mas as pessoas usam slogans do contrário…porque fica bem.
“ Ai de mim que estou perdido! Porque sou um homem de plástico e habito no meio de um povo de pástico” – Profeta Isaías .
PN 

domingo, 14 de abril de 2013




Mil beijos


A chave coberta de musgo verde

 rodou na fechadura da porta centenária.

A ranhura estreita, castanho ocre, oxidara,

escurecera aqui e ali,

invadida pela poalha mística dos invernos brumosos.

Quando finamente dava mostras de abrir,

eis que… emperrou, nem para um lado, nem para outro…

foi tal a insistência da mão que tentou…

que a chave na fechadura, vozeou… chorou…

a chave musgo tornou a girar

e num estalido a porta destrancou …

 a mão vagarosamente empurrou, empurrou…

os gonzos sobressaltaram,

 guincharam as frinchas por perto.

Mal a porta se tinha aberto,

nem o interior se adivinhava…

quando se ouviram risinhos.

a mão hesitou intimidada

descansou

quase  no interior  penetrou.

Se não fosse uma  lufada de vento que quase a porta fechou

 Uma eternidade  mão levou e impediu,

que a pesada porta não voltasse a  abrir…

corajosa, não deixou.

Os risinhos ficaram mais perto,

mais sonoros,

 mais densos…

assim que se vislumbrou o íntimo do quarto…

saltaram de trás da porta dezenas de deles…

todos aos gritinhos,

tão eufóricos,

 tão louquinhos por beijinhos

 e num linguajar ininteligível …

o batalhão atirou-se a beijar

os olhos,

o nariz,

os cabelos,

as mãos

a boca

……..

Para logo desmancharem-se numa nuvem de pó.

Dentro do lúgubre quarto,

jazia uma escrivaninha enfarinhada,

onde as aranhas haviam feito morada

e as teias, lençóis de linho,

 mais alvas que o próprio branquinho .

Sobre o tampo, esquecido, um tinteiro com tinta fresca,

 a pena escura ainda gotejava e num fragmento de tecido onde mal se descortinava:

“ Querida e amada Alice, encomendei mil beijinhos e são todos para si, em sinal da minha ternura e profunda admiração pela mulher que é. Há nuvens de amargura sombreando a minha cabeça, fui de novo chamado ao combate…vou sem fé, matar homens tem algum sentido?! Não há justiça neste mundo, nem paz que nos valha! Os generais, responsáveis pela guerra não dão sossego… Querida Alice, lamento não estar aqui, o meu maior anseio; abraça-la muito na hora derradeira. Mas fique certa que a levo no coração e no pensamento. Com muita amizade e carinho.

O capitão, seu para sempre…

Mil beijos

PN 14 de Abril de 2013


sábado, 23 de março de 2013

JoanaManuel_Actriz_youtube

http://youtu.be/t3bwfURSztA

Clique por favor sobre o nome da Actriz e não perca o seu conteúdo porque vale muito a pena ouvi-la!!!

Boa Páscoa

quinta-feira, 21 de março de 2013

Crianças do 1.º ciclo "trabalham" tanto ou mais do que os adultos

Lusa / EDUCARE | 2012-10-01
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Muitas crianças portuguesas entre os seis e os dez anos trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas.
"A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta Maria José Araújo, investigadora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto.

Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 e 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora, em declarações à agência Lusa.

Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária".

O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado.

"A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer.

Trata-se sobretudo da forma como as atividades são estruturadas, já que mesmo as atividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização.

"O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de atividade letiva, é preciso descansar e brincar. As outras atividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende. 

Atualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância".

Repetir em casa o que se fez na escola, prolongando o tempo de trabalho escolar, é um dos erros que se tem vulgarizado, defende.

"Os TPC [trabalhos para casa] são muitas vezes repetitivos e inúteis. Meninos de seis e sete anos andarem a repetir letras e fichas, com o argumento de que eles gostam e precisam, devia ser proibido, como acontece já nalguns países", sustenta Maria José Araújo.

Contudo, a investigadora diz que é necessário distinguir entre estudar e fazer TPC: "Estudar é importantíssimo e deve ser ensinado e incentivado. Deve ser mostrado isso às crianças.

Mas estudar tem de ter a adesão voluntária de quem o faz. Já os TPC repetitivos podem ajudar a mecanizar, mas afastam a criança do sentido e do valor do conhecimento." 

Para Maria José Araújo, os TPC, a existirem, devem ser feitos na escola, eventualmente no apoio ao estudo e nada mais, até porque "representam muito em termos de tempo que ocupam, mas muito pouco em termos de estímulos cognitivos".

"Na verdade, se os TPC, tal como os conhecemos, ajudassem as crianças a ter sucesso escolar já se teria notado", indica, sugerindo que se deve antes ajudar as crianças a compreender o significado do conhecimento e das diferentes formas de aprendizagem.

"Saber não é só repetir e há muitos educadores que apostam mais nesta versão", defende.

Também para o pediatra Mário Cordeiro, a escola, onde os meninos permanecem tanto tempo, tem a obrigação de ensinar "sem invadir o espaço-casa, onde as crianças devem estar sem pressões".

"Os TPC diários, na versão 'mais do mesmo', são uma invasão da privacidade, na pior hora possível para a família e quando o aluno não tem capacidade de resposta, originandostress familiar e pessoal. Deviam ser abolidos", defende Mário Cordeiro.

Crise aumenta pressão sobre as crianças para serem "alguém no futuro"A crise está a fazer com que pais e professores aumentem a pressão que exercem sobre as crianças para serem "alguém no futuro", sufocando-as com exigência e contribuindo para desencadear perturbações obsessivo-compulsivas, constata a investigadora Maria José Araújo.

"A maioria das crianças tem imensos trabalhos para casa (TPC) para fazer depois do horário escolar e sentem-se sufocadas com a pressão dos pais, da escola, mas também dos centros de estudo e do ATL (atividades de tempos livres), que não compreendem que depois das aulas elas precisam de brincar. Com a crise, a pressão está a aumentar imenso", afirma à agência Lusa a investigadora com experiência de trabalho com crianças nesta área.

Maria José Araújo considera que é necessário refletir sobre a angústia dos pais, sobre o que significa a excelência e o sucesso, já que as crianças são diferentes e têm ritmos de vida que devem ser respeitados. 

A ideia de que se as crianças trabalharem muito hoje vão ser alguém no futuro não tem, no contexto atual, grande sustentação, além de se ter tornado numa pressão social, refere, em entrevista à agência Lusa.

"O discurso é todo à volta do sucesso, sem se explicar muito bem de que sucesso estamos a falar. E isto exerce uma pressão enorme. Os pais pressionam os filhos, os professores pressionam os alunos e a sociedade pressiona as crianças", diz.

Segundo a especialista, alguns pediatras e psicólogos têm mostrado muita preocupação com esta situação, relatando atitudes de cansaço e angústia nas crianças e comportamentos de grande mal-estar que desencadeiam stress ou depressão.

"O receio alimentado pelo espetro do desemprego e pela incerteza económica tem aumentado brutalmente. E aumenta a pressão sobre os pais, que exercem mais pressão sobre as crianças", nota Maria José Araújo.

O pediatra Mário Cordeiro defende que o objetivo do sistema de ensino não deve ser "começar a formar cavalos de corrida para a retoma económica".

"O objetivo deve ser ensinar, dar informação que permita formar conhecimento, transmitir sabedoria, dar instruções práticas para situações concretas, desenvolver a capacidade de pensar, raciocinar, refletir, dialogar", declarou à Lusa.

O sistema, diz Mário Cordeiro, deveria tentar que cada aluno sinta brio e vontade de ser melhor e não, como nos quadros de honra e rankings, o melhor de todos.

Nota: Desejo Feliz Páscoa a todos os Amigos. Prometo retribuir as visitas. Sempre Grata pela vossa prsença aqui. As minhas sinceras desculpas a quem estou em falta e com certeza serão muitos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Ry Cooder Paris, Texas


http://youtu.be/X6ymVaq3Fqk


Nota: Desejo Feliz Páscoa a todos os Amigos. Prometo retribuir as visitas. Sempre Grata pela vossa prsença aqui. As minhas sinceras desculpas a quem estou em falta e com certeza serão muitos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Princesa e Pedras


Princesa- O menino está só?! Não! O menino não está só! Não vês a água que corre? E o cágado mesmo ali? O raio de sol que o beija e o reflexo que brinca com os seus cabelos ondulados?
Pedras – Vejo tudo isso…e aquele vaso perdido no jardim, de quem será?
Princesa- Não sei mas quase aposto que foi atirado pelo menino do riacho, aquele sonso está sempre a fazer marotices às escondidas
Pedras- Não fales assim do menino…as suas marotices são tão inofensivas….
Princesa-Hum? Não sei. Porque o faz? Até o mocho, o professor da floresta já me falou sobre este menino….
Pedras- Porque faz marotices? A resposta é óbvia, trata-se de uma criança!
Princesa -O professor tem experiência e apesar das lentes embaciadas e ver muito mal… nada lhe escapa.
Pedras- Admito que sim.
Princesa- Digo-te, este menino está “apaixonado” por ti e faz de tudo para chamar a tua atenção, aposto que seguirás por este trilho, verás a bilha e espreitarás, tirando de lá alguns doces e flores que ele te deixou…  
Pedras- Também sou “apaixonada” por ele, se fosse meu filho não o amaria mais… a terra aguarda sedenta o alimento que transborda daquele pote, é água salpicada de lantejoulas, há-de arrastar as impurezas dos olhos da rainha e deste rei…um dia ele vai querer voar e os pássaros levá-lo-ão para longe…
Princesa- Não sentirás a sua falta?
Pedras- Naturalmente que sim…bastar-me-á saber que foi mais além e é feliz … ele tem todos os sonhos por compor e um mundo para conquistar… os laços que nos unem nunca mais se desfazem…são como as raízes das árvores.
Princesa- O amor é assim; primeira espreita, depois estala, mesmo sem querermos ou esperarmos…a certa altura, estala em dor.
Pedras- Não existe amor sem dor…
Princesa- O menino maroto não perdoa, se te afastares muito, sentirá ciúmes e quando crescer parte-te o vasilhame, retira os doces e as pétalas que te tinha ofertado … e quando acordares verás que lá estão só as tuas lágrimas …
Pedras- As minhas e as dele, unidas, para juntas renascerem e seguirem distintos caminhos, sem nunca se esquecerem. Quando o menino faz maldades vem ter comigo, o lábio gordo a tremer de emoção, pede desculpas, abraçamo-nos comovidos e o nosso amor estreita-se ainda mais.
Princesa- Ele ainda é muito verdinho… tentas ampará-lo mas um dia, constatarás que é em vão…
Pedras- Nada é em vão…se houver sentimento e verdade.
Princesa- Após oferecer-te o vasilhame de amor, um dia cansa-se e o jardim deixará de ser zen, estarás mais velha, o sorriso apagado e murcho e as tardes cinza escuras, desgostos da vida … então ambos aperceber-se-ão que amadurecer é sofrer os desaires do amor e seguir por carreiros errantes e distantes.
Pedras- Escuta o som da natureza, não antecipes as fatalidades, a seu tempo, elas chegarão e nessa altura eu e ele saberemos lidar com as adversidades. Agora escuta a voz da água a correr, de uma ave a cantar…tudo é movimento, ação, queda de risco, saltar, correr, voar ou simplesmente caminhar, cuidadosamente ou inadvertidamente … eu prefiro nem sempre pensar se vou cair, porque se caio, posso magoar-me ou não…a queda pode surgir como uma oportunidade de me refrescar e aprender mais …sinto a mão do menino na minha, é força que me ampara e sorri, que me fala e me segreda palavras de afeto. Continuo vigilante e observo com desvelo as suas brincadeiras e repousos.
Princesa- Preocupas-te tanto com ele! Esqueces que a rainha, minha mãe pediu ao feiticeiro para transformá-lo em pedra e dessa forma castigá-lo pela desobediência.
Pedras- Pois, ao transformá-lo em pedra, aproximou-o de mim…
Princesa- Um dia o feitiço quebra-se… e ao tornar-se humano, abandonar-te-á.
Pedras- Há memórias que perduram… nada foi plantado em vão! É altura de protege-lo dos fantasmas, das bruxas, dos maus olhados, das invejas, das poções diabólicas… e sobretudo ensiná-lo a defender-se.
Princesa- E como pensas livrá-lo de todo o mal?
Pedras- Tenho aqui um livro, o livro do amor. Foi uma fada boa que me deu. Já comecei a escrever nele as minhas memórias, espera, deixa procurar a página que ela me indicou…
Princesa- Porque repetes baixinho o número mil oitocentos e trinta….?
Pedras- Para não esquecer a surpresa que esta página me reserva…cá está!
Princesa- O quê? Em branco?! Que assombro! Ficaste pálida…e agora que me dizes?
Pedras – Não sei…ou…é isso mesmo, observa, o livro está todo em branco, sou eu que terei de escrever a minha história.
Princesa- Fazes-me rir, porque raio havia uma fada boa de oferecer-te um livro em branco, e indicar-te uma página igualmente em branco!?
Pedras- Tu não compreendes, a fada deu-me uma lição; não há setas, nem pistas. Encontra tu própria o caminho.
Princesa- Se for seguro…. Vai e arrisca. Delicio-me a passear por aqui, todos os dias, eu e o meu príncipe dragão, claro está, sentimos a energia deste lugar… que me deixa a alma limpa, fico mais leve, livre e acabo sempre por suspirar da escalada de emoções… diz-me, afinal por que razão o feiticeiro obedeceu cegamente às ordens da rainha? Que recebeu em troca?
Pedras- Não sei, a rainha é mãe…e foi com o consentimento do rei…não sei mais nada.
Princesa- tudo isto me intriga e me confunde…se a rainha é mãe…onde ficou o instinto maternal, a compaixão, o amor…?
Pedras- A rainha adora o seu filho, embora a olho nu, não pareça, está doente e afetada, em muitos aspetos incapacitada, noutros  irresponsável e ainda noutros infantil.
Princesa- Infantil?!
Pedras- Infantil, quando se coloca ao colo do filho e pede-lhe proteção…quando se esconde nas costas dele com um escudo …os papéis invertem-se.
Princesa- Como sabes tudo isso? Nunca me apercebi dessas coisas…
Pedras- Fui ama da casa real durante muitos anos ou já esqueceste?
Princesa- É óbvio que não esqueci…
Pedras- Nem podes, quando nasceste, eu já lá estava.
Princesa- És muito perspicaz.
Pedras- …Podias salvar o teu irmão, porque não o fazes?
Princesa- Estás doida! Neste momento sou a favorita, a que corresponde às expectativas dos reis. A herdeira da coroa sou eu e não abdico desse privilégio por nada.
Pedras- Princesa…por favor.
Princesa- Não! Não tentes. Lamento, no entanto já tomei a minha decisão.
Pedras- É pena que não sintas o mesmo que eu pelo teu irmão, o teu único irmão, mais novo que tu. Eu  faço deste canto, encanto e da pureza, purificação. A voz da criança é conto de fadas, castelo flutuante, prado verdejante, jardim florido… moinho que produz vento…não queres ouvi-lo? Aqui é o lugar mágico do sol e da água límpida e corrente…
Princesa- Não creio nas tuas palavras, estás enfeitiçada. Vou embora, até porque se faz tarde.
Pedras-Adeus!
Princesa- Adeus!
Uma tarde, cansada de esperar, Pedra, decidiu procurar o mago, não suportou mais a indiferença dos reis em relação ao menino. O castelo tinha-o esquecido definitivamente. Tornara-se inadiável socorre-lo. Após longas horas de diálogo, entre ela e o feiticeiro, haviam chegado finalmente a um consenso. O mago quebraria o bruxedo com uma condição; desposaria Pedra, torná-la-ia humana e adotariam o rapaz. A ideia foi bem recebida. O bruxo não era feio, a sua graça andava furtiva nos escombros da maldita bruxaria, merecia uma oportunidade para conhecer o novo sentimento e deixar advir das profundezas um homem renovado. O menino tinha treze anos quando se tornou de novo humano. Prepararam-se para a viagem. Um estalo de dedos do mágico e raiou no céu um robusto pássaro mecânico, movido por rodas, ferro e outras geringonças. Os três subiram uma escada desengonçada e meteram-se na barriga da ave. De repente, ouviu-se um ruído feroz e a cauda do bicharoco expeliu uma fumarada, os enormes membros inferiores iniciaram uma corrida veloz, por fim a ave arremessou-se de novo no céu… e as asas abrindo e fechando na ânsia de chegar ao lugar prometido. Pedras sorriu por se lembrar que a viagem iniciara-se precisamente no ano de mil oitocentos e trinta.

PN 20 de Fevereiro de 13

Nota: Peço desculpa pelas gralhas que poderão encontrar.




Um abraço a todos os Leitores Amigos

sábado, 19 de janeiro de 2013

Bicadas da minha pena

Daniel Oliveira - "O texto que escrevi aqui ontem no Facebook, com alguns acrescentos, no site do Expresso. Os insultos de ontem, se pretendiam ser pedagógicos sobre este assunto, até foram. Disseram-me muito sobre o fanatismo e sobre como algumas coisas que julgamos adquiridos - que a vida humana é um valor absoluto, abstracto e que não depende das avaliações que fazemos de cada pessoa, por exemplo - não o são."

Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Um cão de uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Foi decidido o seu abate. mais de 20 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma decisão de evidente bom senso. Segundo fonte do Instituto de Medicina Legal ao jornal "Público", "a autópsia, realizada quarta-feira, concluiu que a morte se deveu a ferimentos provocados pela mordedura do cão".

Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". A ver se nos entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça (por isso os motivos pouco interessam), mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado" de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por segurança.

Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!" A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Eu sou contra a pena de morte. Eu como carne de animais que foram abatidos. Serei incoerente ou limito-me a não comparar o incomparável? Os animais não têm, para os humanos, o mesmo estatuto das pessoas. E quem acha que têm não percebe porque consideramos a vida humana um valor absoluto e indiscutível.

Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. Tendo tido (e continuando a ter) quase sempre animais domésticos (de que gosto imenso), parece-me haver em muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais um discurso que relativiza os direitos humanos. Porque não compreendem a sua absoluta excepcionalidade.

Sobre o "relatório" do FMI escreverei para a edição do "Expresso" em papel. 

Concordo com a opinião de Daniel Oliveira.