sábado, 19 de janeiro de 2013

Bicadas da minha pena

Daniel Oliveira - "O texto que escrevi aqui ontem no Facebook, com alguns acrescentos, no site do Expresso. Os insultos de ontem, se pretendiam ser pedagógicos sobre este assunto, até foram. Disseram-me muito sobre o fanatismo e sobre como algumas coisas que julgamos adquiridos - que a vida humana é um valor absoluto, abstracto e que não depende das avaliações que fazemos de cada pessoa, por exemplo - não o são."

Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Um cão de uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Foi decidido o seu abate. mais de 20 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma decisão de evidente bom senso. Segundo fonte do Instituto de Medicina Legal ao jornal "Público", "a autópsia, realizada quarta-feira, concluiu que a morte se deveu a ferimentos provocados pela mordedura do cão".

Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". A ver se nos entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça (por isso os motivos pouco interessam), mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado" de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por segurança.

Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!" A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Eu sou contra a pena de morte. Eu como carne de animais que foram abatidos. Serei incoerente ou limito-me a não comparar o incomparável? Os animais não têm, para os humanos, o mesmo estatuto das pessoas. E quem acha que têm não percebe porque consideramos a vida humana um valor absoluto e indiscutível.

Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. Tendo tido (e continuando a ter) quase sempre animais domésticos (de que gosto imenso), parece-me haver em muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais um discurso que relativiza os direitos humanos. Porque não compreendem a sua absoluta excepcionalidade.

Sobre o "relatório" do FMI escreverei para a edição do "Expresso" em papel. 

Concordo com a opinião de Daniel Oliveira.

4 comentários:

Mz disse...

O mais perigoso de todos os conteúdos e manifestações impressas nas petições em relação a casos deste género, é não se ter a noção de que os animais domésticos não são pessoas e quando se misturam todos os sentimentos, o perigo aumenta.

Bj*

Nilson Barcelli disse...

No essencial, também concordo com o Daniel Oliveira.
E não percebo como é que ainda são permitidas algumas raças de cães, criadas artificialmente pelo Homem para fins pouco ortodoxos.
PN, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
Beijo.

SANTA CRUZ DIÁCONO GOMES disse...

Pedrasnuas: Estou de acordo que vida vale mais a de uma criança ou dum cão? A vida humana sem dúvidas, apesar de eu não gostar que tratem mal os animais, mas uma criança acima de tudo é um ser humano.
Beijos
Santa Cruz

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

OLa!
Chegando agora pra te ler e ainda me envolvendo em seus escritos.
Volto log opara comentar de fato.
Mas tudoi aqui é belo.
Ja seguindo
Bjins
Catiaho Reflexo d'Alma