domingo, 14 de abril de 2013




Mil beijos


A chave coberta de musgo verde

 rodou na fechadura da porta centenária.

A ranhura estreita, castanho ocre, oxidara,

escurecera aqui e ali,

invadida pela poalha mística dos invernos brumosos.

Quando finamente dava mostras de abrir,

eis que… emperrou, nem para um lado, nem para outro…

foi tal a insistência da mão que tentou…

que a chave na fechadura, vozeou… chorou…

a chave musgo tornou a girar

e num estalido a porta destrancou …

 a mão vagarosamente empurrou, empurrou…

os gonzos sobressaltaram,

 guincharam as frinchas por perto.

Mal a porta se tinha aberto,

nem o interior se adivinhava…

quando se ouviram risinhos.

a mão hesitou intimidada

descansou

quase  no interior  penetrou.

Se não fosse uma  lufada de vento que quase a porta fechou

 Uma eternidade  mão levou e impediu,

que a pesada porta não voltasse a  abrir…

corajosa, não deixou.

Os risinhos ficaram mais perto,

mais sonoros,

 mais densos…

assim que se vislumbrou o íntimo do quarto…

saltaram de trás da porta dezenas de deles…

todos aos gritinhos,

tão eufóricos,

 tão louquinhos por beijinhos

 e num linguajar ininteligível …

o batalhão atirou-se a beijar

os olhos,

o nariz,

os cabelos,

as mãos

a boca

……..

Para logo desmancharem-se numa nuvem de pó.

Dentro do lúgubre quarto,

jazia uma escrivaninha enfarinhada,

onde as aranhas haviam feito morada

e as teias, lençóis de linho,

 mais alvas que o próprio branquinho .

Sobre o tampo, esquecido, um tinteiro com tinta fresca,

 a pena escura ainda gotejava e num fragmento de tecido onde mal se descortinava:

“ Querida e amada Alice, encomendei mil beijinhos e são todos para si, em sinal da minha ternura e profunda admiração pela mulher que é. Há nuvens de amargura sombreando a minha cabeça, fui de novo chamado ao combate…vou sem fé, matar homens tem algum sentido?! Não há justiça neste mundo, nem paz que nos valha! Os generais, responsáveis pela guerra não dão sossego… Querida Alice, lamento não estar aqui, o meu maior anseio; abraça-la muito na hora derradeira. Mas fique certa que a levo no coração e no pensamento. Com muita amizade e carinho.

O capitão, seu para sempre…

Mil beijos

PN 14 de Abril de 2013