sexta-feira, 11 de julho de 2014

Coisas de "Moscas"



O asfalto inclina
a Mosca reduz o andamento
depois…
pela frente quilómetros de estrada lisa, alongada…
indefinidamente a direito
…. ao comprido.
Lá vai ela ao volante do seu volvo….
Maxilares a torcer,
numa mastigação lenta de qualquer porcaria encontrada…
acelera, liga o rádio, desagradada da musica tocada
desliga num gesto agressivo.
Mais à frente encontra um desvio
um largo conspurcado de latas vazias,
de papéis surrados , plásticos adiposos e os outros em circunstâncias iguais…
Puxa o freio rapidamente, a máquina derrapa, treme, guincha.
A Mosca, numa elegância desmesurada
apeia-se, contorce-se molemente.
Traje negro, transparente e justo, decote marcado
Sorriso habilidoso quase sobranceiro.
Atira a cabeça para o alto
os cabelos finos e escorridos descrevem uma curva
olhos escuros breu, cor do carvão
mortíferos como punhais frios
destilam uma maligna sedução.
Caminha sem pressa, as coxas bamboleiam roliças
Saltam fartas e roçam-se uma na outra.
Aguarda-a a rainha Vareja;
tacão altíssimo e verniz estilhaçado.
A Anã antecipa apressadamente o abraço
mas o cumprimento não desmancha a imperturbável “Vareja”.
Insolente, vaidosa imperatriz do lixo costurado
solta um grunhido descrente, o rosto incha de tão pérfida maldade
Por ali, além do suspense, as fumarolas arrotam baixinho
pressentindo a esgrima da cena.
A” Vareja” de mãos à cintura, a Anã de lábios espremidos
Sua majestade de peruca desgrenhada, palácio da furna…
A rasteira, rosto altivo, cabelo empapado, nariz empoado.
Toma a palavra a suprema hierarquia:
Voz forte, altifalante ligado,
estrídula , sibilante
e áspera…
Treme o deserto e a mosca Anã a “desaparecer”….
esmagada e triturada, escancara as narinas
baixa os cílios no auge da exaltação ,
Plagia a postura da mandante e ligeiramente nervosa
altaneira e contrafeita
tom esganiçado , rápido
lamuria-se em falsete:
- Eu sou sempre a má da fita, a falsa, a embusteira, logo eu que me esmero tanto…
Sua alteza, torna-se sombria e desfia metálica:
- Aborto mal parido
Cigarro apagado
Dente furado
Não tomas a palavra sem antes consultar a minha!
A mosca Anã desafia as alturas:
- Dizem por aí que não passas de um monte de estrume!
Mais endoidecida e afogueada que nunca
aponta canhões
dispara espingardas
viola fronteiras
A raiva em faúlhas a coser por dentro
o dedo em riste:
- Sai daqui indigente, este lugar é meu, por sufrágio
universal direto!
Excomungada, coisa tirana, leva as tuas coisas, busca outra casa,
Aqui não entras mais!
Humilhada no mais fundo de si, a mosquinha recompôs-se da ira e em pranto se desfaz:
- Não acredito que me estás a expulsar! Eu sempre te defendi….sempre! e é assim
que pago pelo mal que não fiz?!
Dobra-se toda em altos soluços…
- Ai meu deus, que mal fiz eu?…são as outras…não vês que são as outras …
que fazem tudo e te colocam contra mim?!
Rosnando algo condoída, revoltada por sentir-se a retroceder….
Remói, salpica a salada da vida, mexe muito bem, rala tudo mental mente …
espia a outra; continua prostrada, lavada em pranto
Indecisa e confusa, desata irrefletida:
- Chega de carpir, levanta-te!…. A culpa não é só tua… ficas cá mas livra-te
de me enfrentares mais !
- Alteza ….- ia começar a Anã.
- Vá, deixa-te de lábias, tenho assuntos mais importantes a tratar!
Enquanto a mosquinha se dirige ao carro, a Vareja, fixa-a inquieta,
desconfiada das suas boas intenções…
Mal se ajeita no assento do volvo, limpa o rosto, liga a ignição, já distante, ri-se,
primeiro baixinho, mas livre e longe da outra, gargalha e até uiva;
por fim murmura raivosa:
-Velhaca! Um dia lixo-te!
Lá atrás, no descampado, parada, fica a Vareja
a cogitar, com  os olhos pregados  na estrada por onde partira
a anã:
“ Vai para o diabo, se julgas que vais longe, estás enganada… aqui, não voltas nunca mais!”  

PN 11 de Julho 2014

Nota- Fotos da Internet que foram algo tratadas por mim através do photoshop.

5 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Imaginativo quanto basta.
Detesto moscas, vespas, varejeira e afins...

Nilson Barcelli disse...

Moscas e varejas é o que há mais por aí...
E não há sheltox que as faça desaparecer.
Magnífico texto, muito criativo.
Bom fim de semana.
Beijo.

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Fui remetido um pouco para o Kafka, neste exercício metafórico da escrita...

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Um retrato fiel de uma sociedade corrupta que sem dó nem piedade pisa quem tiver ideias próprias.
É difícil comentar um texto que vai para além das palavras.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Anónimo disse...
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