domingo, 17 de agosto de 2014

Daniela e o poeta


Sentou-se à secretária;
Gestos indolentes
folhearam o caderno de notas
Caligrafia quase ilegível
imperceptível
meio apagada
No percurso, alguma nota esborratada
outra rabiscada
ou levada pelo entusiasmo; rasurada.
Dedos curtos, níveos, papudos
Sólidos,
cegos tactearam as imediações…
ergueu o bloco.
Estalinho da língua no céu da boca
denunciou certa impaciência…
Levantou-se,
 analisou pormenorizadamente  cada canto do santuário,
as mãos semiabertas baixaram e tactearam os bolsos do casaco;
regozijou-se
A caneta; o achado da tarde.
Tranquilizou-se de novo e retomou a tarefa costumeira;
deixar correr a tinta sobre uma folha de mar….e nuvens a cavalgar
Embrenhou-se na floresta dos  vocábulos; ora densos , ora diáfanos… encharcados, húmidos, secos, tísicos…
Parou desnorteado;
borboletas saltavam
do prédio em frente e vinham ter com ele.
Algumas, laços brancos, outras, lenços a acenar…
Saltitantes, frescas, escamadas, azuladas,
esvoaçantes, calmas, atrevidas
Umas exaltadas, outras mais contidas….
Todas entraram janela adentro…
desvairadas,
agitadas…
Fizeram-lhe cócegas;
desmanchou-se em risos
puxaram a gravata
os bolsos das calças
desgrenharam-lhe a cabeleira grisalha e farta…
“Doidas”- murmurou  rindo.
Tanta mariposa de papel !
Um rancho delas …
Com o mesmo alvoroço com que tinham vindo, foram…
 Silêncio .
E os olhos dele ficaram pregados no edifício do outro lado da rua
 Os sons haviam cessado na escola de música… terminara a animação.
Ficou assim; alienado … até que avistou uma jovem a sair.
Seguiu-a, debruçou-se para a rua até vê-la desaparecer.
Ficou pensativo….
No dia seguinte permaneceu mais atento, no outro, no outro e mais o outro…
Dava-lhe um gozo tremendo vê-la chegar, vê-la partir… meio despida, meio vestida…
Jovial, feminina, descontraída… ora só, ora acompanhada …
-Rómulo, hoje temos visitas, não te esqueceste, pois não?
-Sim…não, é verdade…! - tartamudeou distante .
Sentado na cadeira, braços abertos
 dobrados pelos cotovelos,  apoiados no peitoril da janela
 e dedos entrelaçados, o queixo fincado no ponto médio do cruzamento das mãos anafadas.   
- Senhor doutor, o pequeno almoço já está na mesa.
-Sim? Obrigada, Vou já. – outra resposta  distante.
Logo cansou-se daquele deslumbre;
“ Hoje vamos nos encontrar!”
Um nervosismo miudinho tomou conta dele;
desceu as escadas a correr,
matreiro esperou que a garota saísse.
Havia muita gente na rua àquela hora.
Tomara que a mulher não o chamasse
nem a empregada o atormentasse.
Lá vinha ela; as short´s  não muito curtas
assentavam-lhe bem, a mochila ao ombro
a túnica rococó acompanhava o tamanho dos calções
Cabelos louros e lisos flutuantes, óculos de sol Ray Ban. Sandálias turcas
Bijutaria ao peito, nos pulsos, nos dedos….nas orelhas
Primeiro deteve-se  a  uma certa distância,
o resto  do mundo eclipsou-se… esfumara-se
Desesperado, simulou distracção fortuita e chocou com ela.
Alguns livros caíram, ele prontamente apanhou-os
e desculpando-se entregou-lhos.
A  jovem sorriu e o reflexo dos dentes alvos e simétricos
estontearam-no.
Atarantado convidou-a a tomar café.
Ela amavelmente rejeitou …outro dia…quem sabe
mas sugeriu-lhe que fossem até ao parque,
Ponto de encontro com alguém. ..
Perguntou-lhe logo o nome:
-Daniela.
Enalteceu o bom gosto dos  pais dela.
Apresentou-se com uma vénia:
-Rómulo, um admirador discreto e secreto.
A rapariga, de repente, em gestos sensuais libertou o rosto dos óculos
Rómulo fitou -a com pasmo e estupefacção; que semblante completo e fresco!
Os olhos ramalhudos, que perdição…, amêndoa avelã, ou ocre mel.
- Como bailarina deve ser excepcional!
Um jovem chamou-a e desfez-lhe a curiosidade de saber coisas… mais e mais ….
- Tenho de ir, Sr. Rómulo.
– Já?! Outro pormenor, trate-me apenas pelo nome, agradecido.
- Volto amanhã, encontramo-nos por aqui!
Atordoado com um raio de sol agudíssimo que lhe manchou a face
ou a promessa de voltar a vê-la
rodou nos calcanhares e o rosto voltado para o céu numa bebedeira de inspiração.
E passaram a encontrar-se com regularidade, ali, no parque
enquanto a jovem aguardava a chegada do mesmo rapaz.
 Foi assim durante  algum tempo, sob o sol e a chuva da mesma estação que trocaram impressões, riram, conjecturaram, desabafaram….
 Feitiço certeiro aniquilou a realidade do poeta
e deu a beber uma taça de cegueira pura.
Certo dia anunciaram:
- Senhor doutor, há um rapaz que lhe quer falar.
- Um rapaz? Mande entrar.
A senhora saiu sem fazer ruído e o jovem entrou
Rómulo, ergueu o rosto sem prestar atenção ao estranho,
atafulhava o caderno e a caneta dentro da gaveta.
- A que devo a sua presença?
Foi  quando prestou mais atenção que tudo nele  lhe pareceu familiar:
Alto, imberbe, olhos grandes e brilhantes
pele sedosa, cabelo médio,  
espadaúdo….descontraído
garboso… brioso
- Já nos conhecemos… ? questionou o poeta
- Sou o namorado da Daniela.
Rómulo pôs-se de pé num ápice;
- Que deseja de mim?
- É muito simples, ainda não se cansou de a tentar seduzir?
- Que insinua?
- Poupe-me ao seu cinismo, todos os dias no parque à espera dela, eu observo e vejo-o
como um animal a farejar a presa.
- Atenção rapaz, haja respeito, cuidado com a língua, sabe a quem se dirige?
- O senhor é que me deve respeito; não se meta na minha vida privada. A  Daniela tem apenas dezassete anos e é minha namorada. Podia ser um parente longínquo dela…um avô …
- Que história sem graça…
- Sei que é poeta de renome mas isso não me afecta, nem me compra por aí, as mulheres rendem-se e confundem o homem e o vate, tem fama , glória e o mundo aos seus pés…
- Está com inveja?!
- Não! Quantas vezes o que escreve nem se harmoniza com o que pensa, diz e faz…
-Não vou ser insultado na minha própria casa!
- A Daniela é minha namorada!
- Mas ela sente prazer em estar comigo…receia que a roube?
- Não tenho nenhum medo, conheço-a bem  e falta pouco para esses “encontrozinhos” terminarem. Ela simpatiza consigo, admira-o,  apenas e só, essa mania de erotizar tudo…
 como se todas as mulheres quisessem envolver-se consigo…
- Mas ela deseja-me, sinto isso!
- Velho tonto, não confunda  as coisas…
 - Rua, rua !- bradou de olhos esbugalhados
O jovem retirou-se e bateu a porta.
- Rua , desparece, fedelho nojento! Morde-te  de inveja, grande burro,
 não és nada, eu figuro na História, na intemporalidade
sou imortal e tu parvo? – praguejou  encrespado
- Senhor, que aconteceu? Está a tremer ! Já lhe trago água com açúcar.
Assaz perturbado, decidiu  que teria de falar com a rapariga o mais urgente possível.
Não seria qualquer Joãozinho que o intimidaria, se o outro queria braço de ferro, iria tê-lo!
Sem mais delongas, foi ter ao lugar habitual, esperava-a impaciente
Consultou o relógio, faltava tanto tempo…. Voltar para casa não, nem pensar!
Girou por ali, passeou, tentou distrair-se, esquecer que uma boca
mordia-o por dentro, angustiado voltou ao banco.
Perscrutou de novo o relógio, ainda faltavam cinco minutos… mais uma eternidade.
Tentou aquietar-se, porém, não parava de mexer nos bolsos  do casaco….
Ajeitou a gravata inúmeras vezes, os colarinhos da camisa, escovou com as mãos
as calças…. Examinou os sapatos brilhantes , revirou os pés, aparentemente estava pronto.
- Olá, bom dia!
Levantou-se abruptamente
- Bom dia Daniela.
Cumprimentaram-se com dois beijos, ele não cabia em si de contente.
- Gosta mesmo deste parque!? E tem razão para isso. Um lugar apaziguador, relaxante, vem muito aqui buscar inspiração para escrever…
- Não é só a paisagem que me inspira aqui…
- Não?
- É mais por si…- desatou o nó da gravata
- Também sirvo de inspiração?!
- Nem sabe o quanto….
- Diga-me o quanto…
- Estou apaixonadíssimo  por si - declarou de chofre
e segurou a mão dela.
- Rómulo, tenha  calma, você está a confundir tudo!
- Que quer dizer? Não sente nada por mim?!
- Não é bem assim, sinto por si um carinho especial, uma amizade pura e verdadeira…
- E desejo?
- Não! Nem podia, amo o João!
- O João é um rapaz sem interesse ….
- Está enganado, não julgue sem conhecer primeiro.
- Desculpe. Fui precipitado. Não considere este meu lapso.
- Com certeza, somos  amigos.
- Amigos… – pronunciou num tom murcho.
- Quando nos voltaremos a ver? Quero visitar museus, cafés, conhecer outros lugares na sua companhia, estou farto deste parque…
- Lamento mas hoje vim  despedir-me de si, eu e o João vamos sair do país.
O João foi convidado para desenvolver um trabalho de pesquisa estrangeiro, acerca de textos bíblicos. Eu vou acompanhá-lo, o que faço aqui, posso continuar a fazer lá.
O poeta estremeceu de desencanto, petrificou e clareou marmóreo.
Daniela abraçou-o e comentou rindo:
-Não fique assim, por favor, prometa que vai cuidar de si e nada de se deixar enredar nas malhas de qualquer oportunista. Fique bem, eu também vou ficar, darei notícias. Adeus.
- Adeus menina linda, que pena …
Daniela saiu do parque apressada, o poeta esperou que ela acenasse pela última vez,
 só depois  tornou a sentar-se pesado no banco,
 curvou-se ,
 apoiou os cotovelos nos joelhos ,
e enterrou a cabeça nas mãos abertas.


PN