quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A minha vida





Porque é que aquele homem nunca morre?!
Ainda não chegou a hora dele?
e para meu castigo 
Deus havia de se esquecer do desgraçado
Um arteiro, um demónio a infernizar os meus últimos anos…,
merecia melhor sorte, eu, a mulher doente,
aquela que nenhum homem
lhe pôs a vista em cima,
de qualquer forma, a minha mãe bem me dizia
que eu não teria
qualquer futuro casada com aquele estafermo,
mas esta minha cabeça torta…
apesar de tudo tinha uma ambição;
queria uma casinha à beira mar…
a flutuar na água verde, os pés mergulhados na areia branca e tépida…
também queria um jardim…
muitos nenúfares a boiarem nas águas calmas, claras e límpidas como cristais…
e algas marinhas, nem todas pequenas , nem todas verdes ,
a subirem as paredes da casa até se espetarem no telhado….
algumas vermelhas, castanhas e douradas …
E queria mais …
uma cadeira igual a de meu pai, santo homem, que Deus lhe ponha a alma no céu,
uma cadeira de balanço… braços de Morfeu …
e evocar a infância… outros tempos… a minha mãe, santa mulher, minha querida mãe
… se há céu…eles estão lá… tão amiga dos pobres, tão casta, tão atenciosa com todos,
tão religiosa, devota de Nossa Senhora… menina rica … casou com meu pai,
um homem igualmente nobre e rico mas coitado não teve sorte,
caíram-lhe imensas nódoas de vinho sobre os negócios …
as pratas e os mármores foram lentamente desaparecendo do aparador
da sala grande… da casa antiga…
O álcool bebeu-lhes tudo… trouxe desgostos e a viuvez precoce de minha mãe.
… como senhora de bem, ficou sozinha até ao fim…honrou a morte de meu pai.
Todo o património repartido entre os filhos,
esses sim, abutres, frios e ambiciosos, ávidos dos bens materiais.…
nenhum deles foi inteiramente feliz…
Agora estão os dois à minha espera …
com certeza reservaram-me um cantinho…
um lugarzinho sossegado onde vou descalçar os pés e andar assim,
sem preocupações …de dores, bastam-me as terrenas …
...Ando tão cansada deste mundo … o que me vale são os filhos,
os bons filhos que Deus me deu…
Não sei o que fazes vivo…morre,
leva contigo essa sombra, vai-te daqui…
tartamudo, trôpego, simplório, contemplas os ricos, pobretão!
… Velho tonto…
Muito dedicado ao patrão…
A minha sina?!
Este imbecil, inútil,
longe daquele que em tempos conheci e sonhei…
já nem sei se tive sonhos…não me lembro
Perdi-me deles…ou eles perderam-se de mim…
Embarquei naqueles falsos olhos,
ora céu , ora mar…. dois barquinhos navegando…
e mal o sol havia se levantado….
nuvens espessas escureceram o ninho onde fomos habitar …
Vieram as proibições;
nem uma cor nos lábios, nem os botões abertos para mostrar
um clarão de feminilidade, nem trabalhar fora, nem luzes acesas, nem alegrias efusivas,
nem amigas, nem passeios, nem gastar água nas plantas …um tormento, um pesadelo
…depois do laço dado, era muito tarde para fugir,
subira ao altar e confessara o meu “sim”,
coloquei o avental e comecei a preparar refeições,
ao fim do dia esperava-o .
Ele regressava muito tarde do trabalho,
mal humorado e cansado , a comida sobre a mesa, pronta, sem fumo
… sem enganos de cozedura mas naquela casa havia sempre discussão;
sal a mais , sal a menos, o arroz muito quente, cru, mal cozido….
E eu vencia o sono… para aguardar a sua chegada…
fui perdendo repouso e sossego,
a cabeça rolando sobre o peito, contra a parede
e lentamente a insónia
nunca mais me devolveu o sono….
Fizera não um pacto com Deus mas com o diabo,
fui meter-me na clausura.
Mesmo assim, nem tudo é mau
Deus deu-me filhos amigos… mas estraguei-lhes as vidas…
tornei-me seca, amarga, gargalhada forçada, enlouquecida.
Cometi imensas atrocidades;
não compreendi, não tolerei, vinguei-me, revoltei-me…
e agora quero que esse homem morra, esse que de extremoso nada tem…
Não te cases minha filha, os homens não valem nada,
fica só,
não cometas os meus enganos….
É matares-te em vida… os homens traem, mentem e nada sentem.
Amor? Só o de mãe…
os homens não amam… são urze do campo…
ele nunca foi de mulheres, isso não,
nunca faltou pão em casa,
nem gota de álccol….
nunca passamos fome…
A mania de ser amigo do patrãozinho …
era coisa que me enraivecia…
nunca foi ladrão…
o trabalhador exemplar e o patrão a roubar …
as férias, o salário …e ele sempre submisso…
a comprar tudo ao rico, fruta doente…grande doido!
Um paspalho louco sem nenhuma ambição…
dentro do manicómio daquela casa…
A sorte não bateu à minha porta …
A minha tia , aquela diaba, a maldita velha roubou-me parte da herança…
essa já foi dar contas a Deus…
caçadora de dotes, deve estar sentada à esquerda do próprio Belzebu …
se há justiça, ficou no purgatório, a irmã dela, outra ladra…essa ainda anda por cá…
mas um dia hão-de se juntar as duas e ranger os dentes …vão assar no fogo do inferno
Não me apiedo, duas déspotas, merecem.
Eu…? lamentavelmente estou casada com este atado…
Houvesse esquecimento para tanta tirania…
um branqueador para as memórias, muitas delas …
Não quero esquecer a minha querida mãe, nem o meu querido pai…
nem os meus queridos filhos…o resto…o resto que importa?
O resto que descanse em paz, amortecido no fundo do tempo…
num poço sem fundo.
Pudesse eu regressar de outro tempo, rosto enxaguado
num tanque a transbordar de água limpa
Não gosto deste palato fel, é chumbo pesado na língua,
as narinas secas, sem nenhum odor a flores…
logo eu que adoro flores…minhas ricas meninas…
vasos cheios delas, o meu quintal, o meu tesouro…
apesar de velha, gasta e cansada ainda lhes chego de regador…
um mimo para lhes matar a sede, sei o nomes de todas,
sempre bem tratadas, com cuidado e carinho…
depois chegou o fumo, o maldito comeu tudo…
não ficou nada para meu desgosto… ah, até ma dá para chorar….
Ninguém compreendeu nada do meu sofrer,
apenas os meus filhos, o meu amparo.
Dizem que o meu mal é estar debruçada para trás…
e vejo o lume a crepitar, as florinhas ceifar…
o meu corpo lavrar … consumido por esta revolta …
e ardo em ira!
O meu coração é um deserto … doido, aflito, perdido e triste…
se houvesse um cantinho para plantar uma florzinha ,
uma cor, um aroma…estou ressequida
Caminho claudicante, vacilante, sentada ao esmorecer da tarde.
Já quase sem nenhum sol… e se Deus se lembrasse de mim?
Seria um descanso… Que Deus perdoe …os meus pecados,
não sei do meu virtuosismo,
Nem uma brisa para refrescar,
estou tão mortificada… aquele homem só me faz pecar…
Uhhh…. Coisa do demo, cada vez mais calcinada pela raiva, pelo ódio…
A minha voz ainda não perdeu a força de gritar, de urrar, de bradar justiça…
valham-me certos laivos de sol…
um sol sem destino, sem nascente, nem poente …
ai aquele homem que me deixa louca… julgas-te um Deus?
Ardes num altar em ruínas, ditador,
abres os braços e traças a clivagem entre o bem e o mal…
és um condenado ao fogo do teu e do meu inferno.
Não haverá devir para mim, nem para ti…
estamos ambos à beira do inevitável fim…
não há consolo para nós…
só o exílio da nossa própria condição…
afundaste e arrastaste-me contigo…
Enviaram-me sinais de aviso, de alerta….gesticularam,
tentaram poupar-me a esta desgraça, cega e louca …
ai esta cabeça torta …não soube reconhecer nada….
Hoje, o meu discurso é pesado, duro, áspero,
crítico, acusatório, ríspido, contundente …
não consigo refrear a minha língua,
este estado de consciência…
não me corrijas…não vale a pena,
Só o cansaço vence e a cabeça pende sobre o peito…
e vou a correr para os braços de minha mãe….
refugio-me no colo dela,
às vezes não me apetece voltar…
Deus é quem sabe da minha hora…
Quando acordo,
O diabo provoca-me e não posso segurar a brutalidade dos modos,
não resisto à irritação, dentro de mim há uma força descomunal, uma fera….
Meu velho, a tua pobre alma ébano …
Entre nós há um abismo imenso,
afastaste-me…estás podre, tens mau hálito,
o nariz que nunca curaste, eu muito insisti, a tua teimosia de mula apalermada …
és mau e ranhoso… Está bem , não sou santa…
no entanto, consigo ser melhor que tu…
um dia chegará o estertor, sei que irei, tal como tu.
Perdão? E tu?
Nem penses, se eu for para o inferno …tu também vais….
porém, fica longe de mim…que nem te veja , nem te ouça….
nem o teu respirar…nem o teu bocejar…
Passamos os últimos anos a esboroar a porcaria do passado,
como objetos soltos, sem valor, a esgravatar o pouco que havia ,
desfizemos tudo em migalhas ,
arruinamos as edificações humanas que procriamos.
Ainda consegues grasnar?!
Tornamo-nos insensíveis …
ainda assim,
por entre gravetos, os rebentos semeados
continuamente buscamos alívio para amortecer a dor deste nosso drama,
culpa nossa, se bem que és mais culpado que eu.
A tua alma indigente remove-se no lixo que calas e não confessas,
o tormento que também te morde….
que Deus me leve depressa para os braços de minha mãe…
PN

4 comentários:

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, li e reli texto com muita atenção, é possível tirar várias conclusões, refiro somente uma, " a vida nunca tem o equilíbrio certo. tem sal a mais ou sal a menos" pergunto, " será que o ódio é a quantidade de sal certo?"
Sou apreciador da sua criatividade, parabéns pelo sem dom criativo.
AG

Nilson Barcelli disse...

Com este excelente texto, fizeste-me lembrar do monólogo de "Os Malefícios do tabaco" do Anton Tchekhov. Não pelo conteúdo, mas sim porque o teu texto dá perfeitamente para ser representado no teatro.
O teu texto é brilhante, minha querida amiga. Gostei imenso.
Beijo.

AC disse...

Sepultada em Vida poderia ser um bom título, mas deixas tantas pistas que, em boa verdade, há aqui matéria para um romance.
(Que frenesim vai nessa cabeça, Pedras!)

Beijo :)

Manuel Luis disse...

Teatro arrepiante, consequências dos vícios.
Bj