terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Tu e eu...


Agora somos duas sombras pesadas e inseguras
dançando um tango frouxo, periclitante,
distantes, longínquos um do outro
E se não é uma mão ou outra que nos ampara…
Que seria de nós?
Viajamos no mesmo bote;
da cadeira para a cama e da cama para a cadeira
Os nossos dias estão contados
Não por mim, exímio contabilista
Mas por um Deus que reneguei a vida toda.
Estamos à mesa…
babete  para ambos
Em que nos tornamos…
dois tolos  inutilizados
mergulhados em irritações incessantes
Ferimo-nos tão profundamente
Escarnecemos um do outro
Discutimos tanto…, esgrimas banais e sem sentido
Torturaste-me, torturei-te
Morreste para mim, morri para ti…
Nem respeito, nem amizade
Nada sobrou! Haverá céu que nos salve…?
que herança deixamos?!
Vejo-te chorar
Rio e choro contigo
Tens pena que Deus não se lembre de ti…
Tenho pena que Deus não se lembre de mim…
Sinto-me roto, falido
maldito rebento
Um diabo em traje de gente
carneiro de um rebanho, desaparecido
O crepúsculo pôs-nos  um frente ao outro…
Que entardecer enfadonho, aflitivo, medonho
Finalmente a enfermidade  colou-me  a boca
A mesma boca que vociferou, praguejou a existência toda
Esfolamo-nos vivos… tanto ódio, tanta mágoa
Dois ressabiados.
Que amarras são estas, que me atam a língua
e me ceifam a alma?
Foi  a cobra venenosa
misturou-se  com a nossa casa
Fomos tão culpados dessa intrusão…
A bicha ganhou chão, galgou paredes
Ganhou pão, roubou-nos os filhos
Gatuna,  
Conquistou e encantou…
Enroscou-se toda em nós
Tornou-se imensa, colossal
Um peso brutal
Ainda fiz um esforço
Era tarde
Deixei-me escorregar nas piedosas intenções
E tu… tu ficaste cega
Não me vias…
Era ela … que   a teia tecia…
O mal foi esse, quando acordei  já não te conhecia
Não me conhecias…
Peçonha
Sempre ela ; sorriso matreiro, voz de imperatriz, frieza diabólica
Ordens de juiz…
Contrapus
De nada me valeu
Esmurrei  a mesa, cuspi raiva
Fraco… fraco… mais nada fiz…
Sem dar por isso, a criatura
bebeu da mesma taça
Até ao fim… o ódio entre os três
Três pedras a chocar
A colidir sem dó nem piedade
Que raio de praga foi esta?
Negra sorte
A nossa vida? um desnorte
Choras…
Comovo-me…
sou uma fonte a jorrar lágrimas
Deixem-me engasgar de riso e pranto
Mascarei os sentimentos, tinha de ser forte,
 homem não mostra a dor, ditos das gentes
mas não me lembro de ter sido feliz…
Onde é que isso ficou?
Choras e eu choro vendo-te chorar
E choro ainda mais por saber que partirás sozinha
Sem mim
E eu sozinho…sem ti…e não suporto muito a ideia
Vamos morrer juntos… eu na minha cama e tu na tua, em quartos distintos
Temo que não saibas o caminho…
E muito provavelmente não seremos os mesmos…
Dois entes voláteis, duas luzes incógnitas, meio tontas e sumidas…
por  fim, com uma delicadeza que nunca te mostrei 
Porque só me ensinaram a ser implacável e duro
Quem sabe… aí
Despidos de todas as memórias
Te possa estender a minha mão
E te guiar céu fora

Sem saber porque treme tanto o meu pobre e velho coração.

PN