sábado, 25 de abril de 2015

Abril, que seja um peixe fresco, bem fresco a saltar da rede para o mar!


No fundo, no mais fundo 
nas entranhas do funil 
há uma boca altifalante
que anuncia o fim do mundo


No fundo, no mais fundo
dos dias coxos e curtos
há uma boca altifalante
que morde o apocalíptico surto


No fundo, no mais fundo
do roubo sem piedade e sem dó
há uma boca altifalante 
que conhece um povo que morde o pó


No fundo, no mais fundo
a matança já começou
há uma boca altifalante
a dizer que muito sangue jorrou!!!

                                                 PN

terça-feira, 21 de abril de 2015

Elas ...

Repousam encarquilhadas
arrepiadas , espetadas
abobadadas , retorcidas
alçadas …desfalecidas
requebradas, inanimadas…
Ossários incinerados
Quase centauros…
Quase faunos…
Quase aves embalsamadas
Quase dinossauros fossilizados
ou em gestos de dança esticados
estrebuchados  de  acrobacia ousada
na busca desesperada e permanente de céu…
                                                               PN


sábado, 11 de abril de 2015

Tigre e Monstro

Pintura de Leonora Carrington

Casamento enigmático
Pacto mofo e oxidado
entre sonho e brutalidade
 Edificaram o vasto império
império da desgraça e do fatalismo;
paredes cobertas de mentiras
vasos apinhados de lixo;
resmunguice abominável e crua
Infortúnio terrífico
trafulhice e pulhice
O monstro
tinha sido sempre princesa de reservas caprichosas, só suas
Adulada por corresponder ao que o hospício esperava dela
escrava e cópia fiel de papéis fraudulentos e desavindos
princesa obsoleta como um camafeu
criou  tigrinhos e monstrinhos à sua semelhança; grosseiros
Megalómana, perversa, invejosa
conheceu o tigrinho assanhado
 de fato sem brio
Um palhaço sem graça
mas os neurónios estrábicos da infanta obstinada
só viam aquele ponto, ali mesmo, laterais fechadas….coitada
Confinada ao seu horizonte
lá deu o nó na escuridão breu
e foi estreitando ainda mais o campo de visão ao tigre  
valeu-lhe a ignorância do bichano usurpador
Ao contrário do que se possa imaginar
o tigre faz fitas, esperneia , range e ruge
pendura-se nos preconceitos sábios da soberana maquiavélica
e papagueia-os a toda a hora … os mais incautos
 julgam-no  profundo conhecedor de matérias várias
e ela sabida, vai manobrando o dorso da fera.
Os rebentos daquela malfadada união
meninos tigrinhos e meninas monstrinhos
Vítimas daquela maligna educação
Quem sabe….diz que de manhã à noite
“Os diabos da Tasmânia”
não cessam de faiscar;
Sem regras
Sem afectos
Sem constância de palavra;
Ora é sim , ora é não,
Ora é por ali, ora é por acolá
Não há sossego
Há tormenta
Não há rédea
Há caos
Não há caminho seguro
Há abismo
Não há verdade
Há fraude
Veredas…Atalhos arriscados
Bocados fragmentados de realidade
nesta desordem mendonha
crescem naquela moradia…
sem tranquilidade, sem rega , sem poda
Tigrinhos e monstrinhos
entre quatro paredes, bem escondidinhos
para ninguém saber, para ninguém nada ver;
O tigre embravecido e o monstro de cabelo lambido
espicaçam-se e esgrimem roncos feios de ouvir
Os filhos tigrinhos e as filhas monstrinhos ora  ficam num cantinho
Ou  também vaporizam maus odores de se ouvir;
assistem ao horror
usados quando é preciso
enganados quando é desejável
confusos e mal-formados
empacotando lides  sem qualquer jeito
tremendo com tanta altercação…
Quando o dia se fecha
E a noite se abre
o empobrecimento sentimental é igual
os tigrinhos e os  monstrinhos já padecem de insónia
Suspeitam de outros monstros e tigres desconhecidos no seu território
carregados de maus tratos corporais e espirituais…
vêm as mentiras nas paredes imiscuírem-se com eles, zombam  das suas fobias, gargalham desdenhosas,  chupam-lhes o sono…
eles gritam assustados … mas pai tigre não quer saber
a mãe monstro, coxa que é …não sabe o que fazer…
enredada na sua própria teia
Já nada corresponde às suas expectativas de princesa dos príncipes
Os sonhos e as derrapagens amalgamaram-se e não distingue nada
Antevê sombras maldosas em todo o lado, inimigos do seu império glorioso
querem destruí-la, dar-lhe ordens….torna-la insignificante
Às vezes lá vai o tigrão aninhar as crias … perpetuamente resmungão…. mal feitor, aldrabão
O tigre receia ficar sem linhagem, sem protagonismo, sem império, na condição de pobretão, condenado à sua insignificante  condição…
A mãe monstro, agarra-se  aos tigrinhos e aos monstrinhos  como jangada de salvação,
Pois, domina muito bem a arte da  manipulação …
para assim poder sair do seu reino, embevecida na falsa postura, de rainha bem sucedida.
e levar todos à loucura ….incluindo ela própria ….
Coxa, cega, louca, caprichosa, egoísta, inflexível… lá vai ela
Torna-se feia nas caricaturas que engendra no seu próprio rosto, imitando quem detesta e odeia,
 depois mostra a língua
àqueles que a chamam à ponderação….
Pobre tigre, pobre monstro
num império de estrume atolado
a cair de vazio, a cair de podre
e mormente a causar tão má impressão.  
PN