sábado, 4 de julho de 2015

Radiografia do quotidiano



No decurso de uma aula prática, a vozearia subiu para lá do limite tolerável; Amélia, a docente, já havia chamado à atenção várias vezes, inclusive, dirigira-se em particular aos mais perturbadores e nada. Advertiu que iria usar a caderneta, as respostas não se fizeram esperar; - “O que é que eu estou a fazer?!”  - Meta recado, pensa que me importo”, “- Faça isso e levo mais uma tareia.”
Amélia voltara para junto de um rapazinho que sentia imensas dificuldades, após uns cinco minutos, decidiu que se tornara imperativo fazer uma pausa.
- Ei, turma, vamos acalmar, parou por aqui, sentem-se todos no seu lugar. Isto não é um circo, é uma sala de aula. Não podem ir todos lavar pincéis e paletas. Saibam esperar pela vossa vez. Lembrem-se das regras! – apelou.“- Esta professora é uma chata…” A frase chegou aos ouvidos de Amélia que a ignorou. Sabia que naquele momento precisava disciplinar a turma, apenas isso.
- Já posso ir?- Não, tem calma.- Assim, assim nunca mais vou lavar o que é meu!
- Victor, todos vão fazer essa tarefa mas a pia só tem lugar para duas pessoas. Quantas lá estavam?- Sei lá!
- Tu não sabes mas eu sei! contei sete! … e sabem que só podem ir a par, caso contrário pintam-se uns aos outros, brincam, zangam-se, machucam-se e depois choram…
-Não sou dos que choram! – lastimou-se galhofeiro.Algumas risadas.- Acabou, Victor!Ainda com algum ruído perturbador:- Toda a gente sentada, se faz favor!Amélia cruzou os braços e esperou que o ambiente regressasse à normalidade:- Eu própria vou nomear quem vai à pia, de forma ordeira, compreendido?Quando todos se tinham sentado, e o ruído baixara, um aluno pôs-se de pé a meio da sala e levantou o dedo:- Diz, António!
- O meu trabalho está borrado!- Como foi que isso sucedeu?
- Estava na pia a lavar os pincéis … - pronunciou com voz trémula, quase a chorar – quando voltei, vi isto….Amélia, encaminhou-se ao lugar do aluno e pôde constatar que haviam sujado o trabalho do mais aplicado da turma. Ficou incrédula:- Quem fez isto?!
- “Não fui eu!”;  - “Não vi nada! “- Parem imediatamente, isso não me interessa, quero saber  quem sujou o trabalho do António!
De novo o alarido, todos comentava o sucedido, outros riram e acharam graça:- Coitadinho do bonzinho….- Por favor, silêncio! – ordenou enervada.
- Outra vez? Ei…nunca mais chego à pia! – os olhos do  Paulo deambulavam trocistas pela turma procurando cumplicidade. – Não pode ser agora? Olhe, não está lá ninguém! É a minha oportunidade…não percebe professora?- Senta-te e cala-te!
- Olha, senta-te e cala-te?! Está lindo! – repetiu as palavras da professora - O que é que eu fiz agora?
- Paulo, deixa de ser o meu eco, ocupa o teu lugar até esclarecermos este assunto!- Está bem, a senhora é que sabe! – proferiu num tom folgazão enquanto se ria para os colegas.- Agora  que os ânimos acalmaram, quero saber rapidamente a verdade.
- Qual verdade? – tornou Paulo.Amélia não lhe prestou qualquer atenção, já que a maioria  havia feito o mesmo.António, sentado, ar desolado. Não queria acreditar no estado em que ficara a tarefa que já tinha sido iniciada na semana anterior ….Paulo levantou-se muito atabalhoado, encaminhou-se desarticulado para junto de António e da professora e falou num tom jocoso:
- Deixe-me ver professora! – Paulo, era um aluno que já contava com várias participações pelo mau comportamento; pai alcoólico, desempregado, mãe prostituta. Vivia aos cuidados da avó, como esta trabalhava e o resto do tempo ninguém sabia ao certo onde se metia, Paulo, passava a maior parte do tempo sozinho, entregue a si próprio, sem  regras nem afecto.
Novamente uma risada geral e alguns gritos à mistura.
Amélia sentia-se muito desgastada para reagir às provocações constantes daquele estudante.- Olhe professora, a tinta é a que o Duarte está a usar! Veja, tenho razão!  – e apontou o dedo para o colega imediatamente a seguir.Duarte elevou-se no auge da raiva e contestou de forma muito agressiva:- Não fui eu, parvo! Queres que te parta esses dentes todos que tens na boca!? Mentiroso do caneco! – ainda tentou aproximar-se de Paulo com o punho cerrado, prestes a esmurrá-lo. Duarte vivia com os avós, não conhecia o pai, a mãe abandonara-o e fugira com um amante para a Inglaterra, levando o filho mais novo com ela.
- Calma Duarte, não é assim que se resolve coisa alguma! – Amélia colocou-se entre os dois rapazes.- E eu tenho medo de ti, não? – desafiou o outro.- Paulo, ocupa o teu lugar. Fica quieto!- Eu quero lanchar…tenho fome! – lastimou-se com um sorriso matreiro – vai tocar e estamos nisto…! – enquanto puxava a t-shirt, e mostrava o abdómen .Outra risada geral.- Vá, por favor, acalmem-se! Pela última vez, apelo ao bom senso! Vou levar este caso à direcção da escola! Quem foi que se acuse, pede desculpa ao colega e terminamos por aqui!- Foi o Luís! – acusou de novo o Paulo.
Luís levantou-se muito sereno e declarou:- Estás enganado, a tinta até podia ser a minha… uso uma igual …. No entanto, seria incapaz de borrar o trabalho de um amigo!- E desde quando tu e o António são amigos – voltou Paulo à carga.-Já percebi que não saímos daqui! – comentou a professora- Posso mexer no telemóvel? – inquiriu uma aluna
- É óbvio que não! – esclareceu Amélia.- Isto nunca mais acaba! Assim vou jogando…- riu-se descaradamente.- Margarida, não dificultes mais as coisas ….certo?- A senhora já mete nojo! – exclamou a mesma.Ouviu-se: “Oh…”em uníssono e um silêncio perturbador caiu como uma bomba.Amélia aproximou-se da rapariga e estendeu-lhe a mão:- A caderneta se faz favor!Em silêncio, Margarida, aluna sinalizada pela Comissão de Protecção de Menores, como sendo violenta, mal educada e perigosa, vivia com os pais e mais sete irmãos, toda a família com um historial de desacatos e furtos. 
Depois recuou, sentou-se na sua mesa, enquanto escrevia a mensagem na caderneta da aluna, ia indicando quem deveria lavar os materiais de pintura e arrumar a mochila.  Entretanto, a turma tinha acalmado mais, mal tinha terminado de escrever o recado, começou a indicar quem deveria sair.Foi o caos, a maioria incitava a professora a ser o próximo: apontavam as mais diversas razões: Uns tinham fome, outros aludiam que precisam de tempo para carregar o cartão, outros inventavam que os Encarregados de Educação esperavam-nos.- Se continuam com essa postura, ficam mesmo para o fim!De repente estalou a campainha… os que ainda faltavam, levantaram-se à pressa, arrastaram as cadeiras e empurraram-nas para debaixo da mesa, provocando um ruído medonho e correram como doidos para a porta, Amélia assistiu impotente à algazarra, os berros, os assobios, os atropelos, pretendiam sair todos em simultâneo por uma porta demasiado estreita.
Entretanto, um aluno permaneceu, a professora colocou-lhe a mão no ombro:António, não te preocupes, vou agora mesmo  ao director.- Obrigada, professora!Saíram ambos, cá fora, Tiago, o mais tímido, aproximou-se de Amélia quando esta ficara só:- Posso falar consigo?- Sim!- Eu sei quem sujou o trabalho do António!- Viste?- Sim, vi, foi o Luís!- Não disseste nada…?!- Tenho medo do pai dele! – declarou.
- Porquê?
- O meu pai conhece o pai dele e diz que ele é mau.
- Já te aconteceu algum episódio com esse senhor?- Comigo não, mas sei de outros casos com alunos desta escola…
- Está bem, obrigada por me teres dito!
No gabinete do director, Amélia explicou o sucedido:- Esquece, Amélia! O pai do Luís é meu amigo e vai dar confusão!
- Mas…- Tu não sabes com quem te estás a meter! É gente complicada! Não vale a pena, conheço bem a pessoa.- E que digo ao António?- Ele que tenha paciência, acontece… faz outro trabalho! Para todos os efeitos não sabes quem foi. Ponto final!- E o Luís não vai ter nenhuma repreensão, ele mentiu na aula…- Vai à tua vida! – atalhou de repente o director e sem lhe prestar mais atenção, concentrou-se na papelada sobre a secretária.
- Bom dia – Amélia despediu-se frustrada, revoltada e atormentada com tanta injustiça à sua volta.

PN

Desejo Boas Férias para quem vai ou já se encontra  a descansar!



  


2 comentários:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva disse...


Pois é só muda o país. Por cá está vergonha também.

Manuel Luis disse...

Férias em Novembro.
Bj