domingo, 30 de agosto de 2015

Criou-se um frio_ PN





Criou-se um frio
Não um bafo tépido
Ou leve aragem
Outra coisa
As nossas bocas tornaram-se secas
Metálicas
Os lábios cinza, chumbo
O som da nossa voz pesado
Não há doce murmurado
Nem ternura que nos valha
Foi um frio…um frio gelado
Até arrepia… dói nos dedos
água sólida, vítrea
que insensibilidade nos aconteceu…
a indiferença instalou-se entre nós…
não demos por nada
que constrangimento…
nem tu, nem eu soubemos derreter esta espessa muralha!
Foram muitos anos sem limar arestas, sem polir sentimentos
Atafulhamos tudo para dentro…
Não sei onde guardas
as relíquias da tua mãe… as fotografias do teu pai…
As minhas memórias? …andam por aí, em alguma gaveta esburacada
nas casas onde morei…
Sei lá …
Somos dois tontos incompreendidos
Há uma eternidade que não sabes de mim
Há uma eternidade que não sei de ti…
Dois corpos juntos e as almas distantes … que raio havia de nos
calhar
Não há volta a dar … e o gelo já não derrete!
e mesmo que derretesse ficaríamos um frente ao outro… os
mesmos tontos;
sem palavras, olhos sem se enfrentar
lábios mudos e odores desconhecidos…
olha,  se alguma vez
te quis de verdade…
ficou tão longe, mas tão longe a lembrança, que não lembro
mais ….
PN


 Pinturas de Jean Frederic? Imagens manipuladas pelo Photoshop 

Arranjo de Rui Diniz da página; Inversos

3 comentários:

Existe Sempre Um Lugar disse...

Olá, lindo o que escreve, "Não há volta a dar … e o gelo já não derrete" porque o amor não é cor, altura e peso, amor é sentimento.
AG

Jaime Portela disse...

Uma história meio trágica num excelente poema.
Brilhante, como sempre.
Beijinhos.

Manuel Luis disse...

Ouvir-te é outro arrepio que sinto.
Bj