sábado, 12 de setembro de 2015

Aquele menino morto na praia


Não teremos democracia em casa apoiando ditaduras alheias

Na Islândia, o governo anunciou a disponibilidade para receber 50 refugiados sírios. Indignada com a mesquinhez dos números, a escritora Bryndís Björgvinsdóttir lançou um apelo através do Facebook para que os seus compatriotas se pronunciassem sobre o assunto. Em menos de 24 horas, dez mil islandeses prontificaram-se a abrir as portas das suas casas para receber refugiados. A impressionante vaga de solidariedade levou o governo a rever a proposta original. A Islândia, importa realçar, é um pequeno país, com apenas 330 mil habitantes, metade da população de João Pessoa.
Há várias lições que se podem retirar deste episódio: a primeira tem a ver com vergonha e redenção. A enorme tragédia em curso, com vagas de refugiados, de diversas proveniências, que tentam todos os dias alcançar solo seguro, expôs ao mundo uma Europa dividida, enfraquecida e moralmente degradada. Durante décadas, os europeus orgulharam-se da sua suposta superioridade moral. É verdade que a Europa deixou de ser o centro do mundo — reconheciam eles. — É verdade que perdeu os impérios e vem perdendo, a cada dia, influência política e cultural; contudo, é ainda uma referência ética. Vemos grupos de polícias a perseguirem e espancarem velhos, mulheres, crianças, que conseguiram fugir de um país em guerra. Vemos, pois, polícias a espancarem vítimas. Vemos a seguir os cadáveres flutuando no mediterrâneo, porque ninguém os quis socorrer. A imagem do corpo de um menino de três anos, numa praia da Turquia, correu mundo com a legenda: “a Humanidade deu à costa”. Vemos tudo isto e compreendemos, horrorizados, que, afinal, os bárbaros já tomaram a Europa. Os bárbaros estão instalados no poder, na Hungria, mas também em Portugal. Os bárbaros governam o Reino Unido, a França e a Itália. Os bárbaros triunfaram.
A atitude do povo da Islândia devolve-nos alguma esperança na Humanidade, ao mesmo tempo que salva o rosto envergonhado da Europa.
Com a sua resposta rápida e generosa os islandeses mostraram-nos que a indignação, bem dirigida, ainda pode (co)mover as verdadeiras democracias. As democracias — tantas vezes nos esquecemos disto — fazem-se com o povo.
Há poucos dias a Al Jazeera entrevistou um refugiado de 13 anos, Kinan Masalmeh. “Tem alguma mensagem para os europeus?” — foi uma das perguntas. O menino não hesitou:
“Nós não queremos vir para a Europa.” — disse. — “Só queremos que ajudem a parar a guerra na Síria”.
Simples assim. Não teremos democracia em casa, apoiando ditaduras alheias. Não teremos paz, se não houver paz na casa dos vizinhos. Não haverá desenvolvimento para uns, se não houver para todos. A Hungria bem pode erguer os mais altos muros. Israel pode erguer muros. Os Estados Unidos podem erguer muros. Muros degradam sobretudo aqueles que os erguem. Além disso não têm conseguido evitar que milhares de pessoas desesperadas os ultrapassem. O desespero encontra sempre soluções para vencer os piores obstáculos.
O que virá depois dos muros? Ordena-se o fuzilamento dos migrantes? Afundam-se a tiros de canhão as pequenas embarcações que os trazem? Prendem-se os refugiados sobreviventes e todos aqueles que os procurem ajudar?
Não basta que nos horrorizemos ao ver a imagem do menino morto na praia. “Não consigo olhar para aquelas fotografias” — queixam-se centenas de pessoas nas redes sociais. Não conseguem?! Pois é bom que olhem! É bom que vejam o menino morto, e que vejam também todo o imenso horror que o trouxe até àquela praia turca. Somos todos culpados pela morte dele, seja devido à nossa cumplicidade direta, apoiando guerras, ou pela nossa inércia, sempre que desviamos o olhar. Aquele menino continuará a morrer nessa mesma praia, em outras praias do mundo, enquanto não nos mobilizarmos em conjunto para impedir que prossiga a devastação da Síria. Enquanto não nos mobilizarmos todos para que a democracia triunfe em Angola, no Zimbábue ou na China. Enquanto não nos mobilizarmos para impor modelos de desenvolvimento mais justos, que respeitem o ambiente, e ajudem a arrancar da miséria milhões de pessoas em todo o mundo.
Vale a pena recordar aqui o artigo 14 da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países”.
O menino morto, nessa famosa foto que tantos não conseguem encarar, chamava-se Aylan Kurdi. Tinha um irmão de cinco anos, Galip. A mãe chamava-se Riha. Só o pai, Abdullah, sobreviveu ao desastre. Espero que um dia ele nos consiga perdoar.
 Enviaram-me por email e não resisti à tentação de o publicar. 

5 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Parece que a tua crónica é dura,mas ela é sobretudo clara e ajuda-nos a abrir as portas com amor aos que chegam desesperados.
As falsidades políticas de uma europa moribunda.
Parabéns pelo teu trabalho.

Fê blue bird disse...

Minha amiga, a humanidade está de luto e pior, está indiferente a esta tragédia, estes casos, como dizes e bem, fazem-nos ter alguma esperança.
Tudo está a mudar rapidamente no mundo e a letargia humana continua.

Um grande beijinho

Jaime Portela disse...

O imobilismo da Europa é incompreensível.
A falta de comando tem levado à degradação económica e social o velho continente, e não é por acaso que assistimos à ausência de organização para acolher os refugiados. O que se tem passado na Hungria é mais culpa dos outros governantes do que da própria Hungria.
Quando começar a nevar para aqueles lados vai ser uma desgraça ainda maior, a menos que sejam tomadas medidas drásticas para ajudar os refugiados.
Fico angustiado ao pensar nisto, porque o povo europeu não é como o islandês.
PN, tenha uma boa semana.
Um abraço.

Evanir disse...

Eu sei que só venho correndo lhe visitar,
mas no momento é tudo que posso fazer.
È necessário saber que sua amizade é muito importante para mim
e que durante todo esse tempo fiz de tudo
para não cair no esquecimento.
Estou sempre postando a viagem os outros pode atrasar ,
mas a viagem é muito importante para mim.
Foi nele que conheci pessoas lindas de alma e coração.
O tempo nos faz entender que aquele ,
que tem carinho por mim jamais deixaram de viajar
comigo.
Que Jesus te abençoe sempre com saúde .
Uma semana de paz , alegria , amor e fé acima de tudo.
Beijos carinhosos.
Evanir.

Manuel Luis disse...

Recordo-me do que aconteceu com os Portugueses em 1975 e a ponte aérea que foi criada para que se fugisse de uma guerra sem precedentes nem razão. Amigos ou familiares desapareceram para sempre.
Bj