quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Cumplicidades

Hoje, a meio da manhã, avistei Amélia numa rua … tive de correr para alcançá-la. Há algum tempo que não sabia dela. Quando lhe toquei no ombro, ela parou e voltou-se, assim que me viu, emitiu um cumprimento efusivo! Convidei-a para um café; uma esplanada à beira mar.
- Que bem que se está aqui! – comentou Amélia, mostrando a bela fileira de dentes alvos, tão bem esculpidos.
- Nem corre fresco, nada, tudo calmo! – comentei relaxada.
- Marta, sabes, é nestes momentos em que reflicto mais!
- Encontras aqui alguma serenidade?! …há gente a passar à nossa frente à nossa volta!
- … consigo… abstraio-me das gentes e entro noutra esfera…
- Mas não pensas em nada? Nem em problemas?
- Nada de nada!
- E os ruídos?
- Deixo de escutá-los…
- Tens de me ensinar como atinges esse estado…
- Desliga completamente o motor… - riu-se marota.
- Não sei se consigo… e depois de um dia de trabalho, como é?  fazes o mesmo exercício, Amélia?
- Marta, somos ambas docentes, sabemos como funciona… chegar a casa; preparar jantar para marido e filhos, mal termino, sento-me com eles, verifico a mochila de ambos, folheio os cadernos, passo os olhos na caderneta da escola dos dois… fico a par das novidades do dia…eles fazem os trabalhos de casa…xixi, lavar dentes e caminha.
- Entretanto o pai faz o quê? – questionei com um sorriso curioso
- O paizinho cuida da cozinha, arruma, lava a loiça, e estende a roupa.
- Ei, que sortuda! – exclamei com uma pontinha inofensiva de inveja
- Divisão de tarefas é isto! – declarou triunfante.
- E tu, Marta? – quis saber de mim.
- Não casei mas é como se… e já descasei – comuniquei divertida.
- Separada, é isso?
- Sim. Não cheguei a casar, vivemos juntos cerca de dez anos…
- Sem filhos? – Apressou-se a saber.
- Não posso ter filhos e nem tenho muita paciência para crianças… não causou transtorno!
- E agora? Estás só?
- Sim, estou só, p´ra aí… há uns  cinco anos!
- E isso é para manter assim ou…
- Por enquanto, estou bem! De nada me lastimo!
- Durante a semana tens a escola… sempre te distrais e aos sábados e domingos?
- Pego no carro, vou à minha mãe, depois… tenho vida social activa, dedico-me às arrumações, adoro decorar a casa, vejo pouca televisão ou opto de quando em vez por um bom cinema, sempre acompanhada…! – esclareci-a.
- Não levas trabalhos da escola para fazeres em casa?
- Julgas que não?! O problema é que os professores levam imenso trabalho para casa, mais que os próprios alunos…
- Se bem que, a avaliar pela vida escolar dos meus filhos, e dos meus alunos…nem trabalho de casa deviam fazer… afinal passam o dia na escola e como se não bastasse ainda carregam com mais trabalhos, em casa bastaria o tempo para estudar… - concluiu séria
- Eu também penso assim…mas a maioria dos professores não pensa, Amélia…
- Acredito que não! Muitos deles não têm vida própria e ensinam os filhos dos outros, em detrimento dos seus… enfim…
- Aposto que falas de cargos! – entusiasmei-me.
- Falo sim, só querem cargos e depois? Alguns ficam doentes, tanta burocracia que não abona nada em favor da nossa prática lectiva, tornamo-nos tóxicos! A perspectiva de vida afunilada, que horror… os meus fins de semana são para a família!
- Aplaudo-te por essa iniciativa! – tornei a incentivar.
- Dá-se a mão, querem o braço, depois a perna e depois o tronco e quando nos damos conta, já estamos integrados no maldito sistema!
- As escolas são núcleos muito contraditórios, enfim…abundância de lixo! – declarei convicta.
- Já fui directora de turma, delegada de grupo, coordenadora de departamento, directora de instalações, fiz parte da avaliação interna da escola e ao fim de alguns anos, perdi a minha paciência e desisti! Deixem-me ser uma simples professora!Nunca mais me apanham noutra!-confessou com uma pontinha de revolta.
- Mas todos os cargos em simultâneo? – perguntei estupefacta.
- Não! Alguns sim, outros não! Eu própria pedi a demissão!
- De todos os cargos? – volvi estarrecida
- Todos! Cansei-me, saturei-me, porque comecei a perceber que não tinha tempo nem para o marido, nem para os filhos, nem para mim mesma! Tornei-me impaciente, intolerante…intragável…prefiro esquecer o assunto.
- Isso não é saudável! – finalizei
- Nada saudável! Sabes porquê? A burocracia é informatizada e passas horas ao computador, a preencher tretas inúteis!
- Há quem goste e até sinta vaidade nisso! – acrescentei
- Há gente para tudo, Marta, coitados, são vazios, com vidas familiares destroçadas…os professores também são pais e mães.
- Por isso os miúdos são como são!
- Exactamente; instáveis, sem regras, insolentes, mal educados… tenho dois filhos, nós, eu o Rui, educamo-los da melhor forma possível, ambos cometemos erros, eles não são perfeitos…mas o que observo hoje é aterrador! 
- Noto o mesmo, e pertenço a outra escola!
- Isto vai ter de mudar, as escolas precisam tomar medidas, medidas urgentes, não podem deixar certos alunos, com comportamentos desajustados, destruírem uma turma inteira! E os pais! – exclamou – quem não tem vocação, não seja pai nem mãe!
- Já percebeste que o professor é sempre o culpado! – disse eu
- Ai, Marta – pronunciou num tom desolado, colocou a mão sobre o meu ombro! - Todos somos culpados, ninguém é totalmente inocente! Uns com mais culpas que outros…se cada qual fizesse a sua parte… afinal estamos a falar sobre a educação! Isto deveria ser diferente, não achas?
- Acho… muito melhor do que é! Educação e saúde!
- Marta, por favor, vamos mudar de assunto! Ui, não me faz bem tocar sequer nestes temas e fora do tempo lectivo, muito menos – gracejou – Olha, quero pagar a conta…
- Eu é que te convidei! – atalhei de repente
- Não importa, para a próxima pagas tu! Apetece-me pagar, aproveita a oportunidade e não te preocupes com isso!
Levantamo-nos, Amélia colocou o braço em torno da minha cintura:
- Tens programa para sábado?
- Não! Ainda não pensei nisso!
- Então vem jantar a minha casa, assim ficas a conhecer a minha família, que tal?
- Pode ser! – aceitei satisfeita.
Antes de nos despedirmos, caminhamos rente ao mar, cavaqueamos sobre as obras que decorriam à nossa frente e foi nessa altura que vi melhor Amélia; bonita, morena, cabelo comprido negro, elegante, charmosa, camiseta com decote acentuado, a saia florida e leve que lhe caía da cintura e percorria as pernas até  às sandálias finas.  Desde que a conhecera sempre notara o seu gosto aprimorado na forma de vestir, desde a cor da bolsa, ao fio que trazia ao pescoço, aos anéis, aos ornamentos nos braços! Uma perfeita Lady!
- Vou por aqui, e tu? - apontou para uma rua estreita
- Em frente!
- Ah, um pormenor importante, sabes onde moro?
- Sei!
- Então, depois das três, a tarde é tua! Aparece! Está bem?
- Com certeza! – respondi alegre
Acenamos uma à outra e eu segui devagar, deliciando os meus olhos nas ondas do mar salpicadas de brilho intenso.
 
PN
    



                                                          Pintura de Minjae Lee

1 comentário:

AC disse...

ensinar
não lectivar
persistir
não definhar
ousar
não pavloviar

Um beijinho, Pedras :)