sábado, 28 de novembro de 2015

Sua eminência arrocha-se no trono
lembra uma construção românica;
 rude, sisudo, encorpado, baixote …
 Epiderme escura, cabelo curto grisalho
barba farta, queimada pelo fumo…
charuto atarraxado  nos lábios balofos .
O caderno, manual de explicação de Estética, tão clássico…
sempre o mesmo, desde longa data…
réplica de si mesmo;
amarelo encardido , anotações desbotadas, nem vírgula a mais, nem vírgula a menos,
nem ponto a mais, nem ponto a menos…
O génio da sabedoria, sem nenhuma evolução à vista,
enquadra a armação grossa dos óculos na fachada escura
e discursa num tom ilustre e altaneiro:
- Excluindo meia dúzia de provas, o resto é pura burrice, vão plantar batatas, dediquem-se à terra. Que fazem aqui? Como é que se lembraram de tirar um curso superior? Não percebem nada de Estética!
e vibra de riso, um regozijo escarninho, uma gargalhadinha enervante…
as suas anotações sobrepõem-se às respostas dadas
e imiscuem-se nelas, de tal forma profícuas
que não se distingue nada … não existem olhos para leituras sobrepostas…
luta titânica de grafismos
Sua eminência informa com algum enfastio:
- Quem obteve a classificação acima de oito, ainda se pode propor à oral, os outros, penso que nem vale a pena!
Imediatamente, olhos jovens debruçam-se para a folha de teste, em busca da confirmação:
Escutam-se sussurros: - Oito, virgula dois…por um triz …quase …quase que…, o meu foi nove… consigo chegar à  oral…

O dia veio, como outro qualquer, nem maior, nem mais pequeno…

Naquele castelo de muralhas já muito envelhecidas e corroídas pela traça
acontece a chamada oral;
a quem entra, a pose de Sua eminência intimida…
dois fieis escudeiros guardam
 aquela relíquia sem brilho, mais caduca que o caduco dos homens
Os cães a postos, espreitam os pupilos, um a um …
- Vai começar… – uma voz sussurra
- Somos só quatro?! – outra rumoreja
-  Que tortura… estou em frangalhos! – a seguinte suspira
- Cala-te! – ordena a quarta amedrontada
- Medricas! – galhofa uma delas
Sua eminência nomeia quem enceta o interrogatório.
À medida que questiona, zomba das respostas dadas e lança bombas de escárnio e maldizer.
Até que irritado, solta mesmo desadequado:
- Então quer dizer que um cagalhão é uma obra de arte?
- Não!...não!
- Ah! – exclama numa risota displicente.
- Diz que sim! Diz que sim! Depende do rabo que faz!
Olhos escancaram de susto, não fosse sua eminência ouvir aquela barbaridade
e tudo o que fora dito, anulado.
PN



                            Foto encontrada por mim na Internet e manipulada através do Photoshop 







2 comentários:

AC disse...

Eminências pardas, parcos desempenhos, mas os suficientes para garantir a cadeira. Da eminência, está bom de ver.

Um beijinho, Pedras :)

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, pessoalmente estou convencido que o Sr. eminencia, desapareceu num todo e tudo vai mudar para melhor.
AG