segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Então é Natal...


O espírito evoca fenómenos passados
trazidos em grãos de esferovite
Omo branco de neve pura
embebido em água límpida e fresca
o líquido corriqueiro
escorre porta abaixo
corre quintal adentro
galga escadaria acima…
A frescura com cheiro
a ar próprio
arromba as portas antigas da velha casa
lambe as vidraças
em gestos vigorosos e friccionados
Os tapetes com desenhos orientais
submergem no lavadouro
O escaparate comprado ao rei D. Carlos
abre gavetas e saem prateleiras
As loiças tombam, mergulham
dentro do alguidar
num baptismo de água em bolhas coloridas
A massa da farinha incha nos tachos
ao calor da lareira
O sino da capela chama para  a missa do parto
E ao fim da noite princípios do dia
olhos pestanejam de sono por dormir
 e lábios bocejam
A faca espeta-se nas goelas do porco
E o furo jorra sangue quente
Pobre animal atraiçoado e sacrificado na festa.
E eis que surge a passo lento
Num silêncio devoto
A mãe…
Traz a criança nos braços
A seu lado, ombro com ombro
o pai numa fiel cumplicidade.
A vaca e o burro acercam-se
Cada um toma a sua posição
Como se uma fotografia os retratasse
Os pastores andam trauteando
quadras ao vento…
e ao avistarem tão lindo quadro
curvam-se e adoram maravilhados
o nascimento do menino.
O anjo chega atrasado
e revela atarantado:
- Os reis Magos vêm chegando…
A vaca molengona exclama presunçosa:
- E trazem ouro!
O burro atento completa vaidoso:
- Esqueceste o incenso e a mirra…
O pinheiro alto
rompe o telhado da sala
espeta-se numa estrela
Outros astros estremecem
resvalam de comoção
prendendo-se nos galhos
do esguio pinho.
A espiguilha enlaça-se
E a gambiarra também
O pinheiro alvoroçado
pulsa de  agitação
O canto anuncia a missa do galo
Depois
A canja é servida quente
O peru recheado jaz sobre a mesa
Ao lado a travessa de carne vinho e alhos
não faltam as sobremesas
Bolo de laranja, Bolo de família, Bolo de mel…
Broas de manteiga, broas de mel…
Licores viscosos e doces
Sumos…
Vinhos caros
O alvoroço toma conta da família
As crianças brincam sobre o soalho polido de cera
O aroma de ensaião, o aroma do alegra campo,
o aroma das manhãs de Páscoa
e o aroma dos junquilhos
 cruzam-se  e misturam-se…
O regato chorão contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra compaixão…
Cantam  rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio lembra o céu…
Àquela hora bendita a campainha ressoa
Apressam-se a atender
É a “muda”, a pobre que vem de longe
De uma outra esquina para pedir de comer
Repartem o pão e o vinho
E estendem-lhe a mão.
Saciada a fome do corpo e da alma
A pobre triste e remendada
Sai dali de alma cheia
E bem alimentada.
E o regato chorão contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra compaixão…
 cantam os rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio lembra o céu…

Dez  de 2010-12-22

PN




(Reedição; poema e ilustração)

Nota : Desejo aos Amigos e a todos os viajantes que  por cá passam, um SANTO NATAL! 
PN