domingo, 18 de dezembro de 2016

Era uma vez…um infante


Foste a visão mais inesperada que me aconteceu;
sorriso aberto
sol cheio
olhos de lua abundantemente rendilhada
lábios de flor em botão;
sem perder de vista os inesquecíveis caracóis;
fios em cachos apetecíveis;
tremeluziam
na fuga de mim …
em suaves brincadeiras
Tu a escapares em risadinhas
e eu fingir que não te alcançava…
Foram primaveras douradas
copiosas de Bom Humor e Amor Verdadeiro
E, quanto te cansavas
aninhavas-te ao meu colo
e eu aconchegava-te em braços de mãe amiga
a estimar  teu belo rosto de criança
a velar deslumbrada  teu segredo de menino.
PN

18/ Dez/ 2016

Nota: Um FELIZ NATAL a todos os que por aqui passam...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

AEVP – Associação das Empresas de Vinho do Porto - 30seg TV




Reflictam comigo, façam o paralelo com a nossa vida e talvez vão encontrar mais semelhanças do que aparentemente parece conter...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Alinhavo sobre o joelho

                                               Branca


Tia- Branca(sobrinha ) não pode continuar se comportando como uma criança birrenta, você mimou demais essa moça, Luzia. Ela agora é uma mulher mas pelos vistos se  recusa a crescer.



Pai- A sua sobrinha é voluntariosa, Alexandra!






Mãe- As jovens de hoje em dia têm muita opinião, minha cunhada!







Tia- Muita opinião e pouca educação que vem de berço.
Mãe - Branca foi educada pelos melhores tutores. Sabe ler e escrever e até fazer contas.
Pai - É !
Tia- Você não sabe cuidar da sua filha, Luzia, Branca precisa ser educada.
Pai - E...como seria essa educação, minha irmã ?
Tia - Tenho os meus métodos, vou cuidar disso.
Mãe- (melindrosa) Parece que a boa e velha Alexandra Maquet está totalmente recuperada! (tia foi vítima de rapto)
Tia- Boa nunca, velha jamais! Eu tenho a idade da experiência.


Nota ( ainda sobre Liberdade Liberdade )

domingo, 4 de dezembro de 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

Água suja para vinho doce…

Foge daquela nuvem além…
até já cheira a pólvora queimada
atropelo de cadeiras
enxofre de palavras cruzadas
vai acontecer trampa!
Abre os olhos!
não vês que se aproxima um cavalo?!
e traz com ele um alarido de mediocridade;
cenho carregado e pé pesado
carro desgovernado
vapor aterrador
desastrado e pronto a demolir
Não tarda nada abre comportas
e despeja o excremento
acautela a gabardine, num borrão se há-de tingir
e se caíres na tentação de provar
não te vai saber a água…
Ficas a conhecer outro sabor;
 a tua língua dissolve em urânio
é radioactividade, o doce veneno a te matar.
PN


                                         
                                          Foto: Pintura surrealista

domingo, 6 de novembro de 2016

Liberdade, Liberdade: abertura da novela da Globo





Ricardo Pereira é o capitão Tolentino em 'Liberdade, Liberdade' (Foto: Paulo Belote / TV Globo) 

 Nunca o vi representar de forma tão brilhante como nesta série, prestes a terminar! Já participou em outras telenovelas portuguesas mas nada comparável a este desempenho!

Provocou  conservadores, fanáticos  e religiosos, quebrou tabus e preconceitos. Vale a pena acompanhar. Actores, donos de  belíssimas interpretações; tais  como: Andreia Horta, Sheron Menezzes, Caio Blat, Bruno Ferrari,Lilia Cabral,Mateus Solano, Dalton Vigh, Maitê Proença, entre muitos outros, entre todos os outros!  Acompanho e dá-me muito prazer assistir! 
PN 

sábado, 29 de outubro de 2016

Alinhavo sobre o joelho

" Em Portugal, ao que parece, triunfam  sempre, efetivamente os porcos feios e maus."

Mário Frota  Advogado Especialista  em Direito do Consumidor



Alinhavo sobre o joelho

" Na minha casa só vive quem estuda ou trabalha,  eu não tolero preguiçosos "

Helena Sacadura Cabral

Aqui está uma medida que as escolas deveriam adotar e pelo menos levar a sério!


domingo, 23 de outubro de 2016

Alinhavo sobre o joelho

Segui atentamente o programa, com especial atenção às prestações da Drª Fátima Cardoso e o Drº Veloso.
“ Sem investigação não há avanços, sem avanços não há perspectivas novas para os doentes. Há medicação inovadora muito boa, há outra que não presta, é lixo! “
Há profissionais que trabalham em más condições e encontram-se em situação de depressão(40%) ??? “É também um problema de organização, falta pôr a casa em ordem, até agora nunca se pôs a casa em ordem. É tudo igual mas…Os alicerces de um SNS são os cuidados primários.”
Muito foi dito, apontado, esclarecido. Houve assuntos que me chocaram, que me deixaram estupefacta. Enfim… As desigualdades são gritantes, tal como nos outros sectores…
É uma doença que exige prevenção! Exames e análises periódicas.

Mencionou-se que algumas das causas do cancro é falta de hábitos de vida saudável; que se traduz em não fumar, não beber, não ter uma vida sedentária , não ser obeso, não se deixar arrastar pelo stress, o esforço… etc mas há muito mais que isto… e  não foi mencionado, fiquei com a ideia que o cancro, principalmente o da mama, acontece, vai tornar-se mais frequente, e a justificação é que teremos de lidar com essa fatalidade. Na minha opinião, se é fatalidade, foi criada pelo próprio homem, lamentavelmente, não acredito que surjam porque é assim. E então, as porcarias que os pais deixam os filhos comprar? Desde pequeninos? E a alimentação cada vez com mais químicos em cima? Até a agricultura biológica não é 100% saudável, embora seja uma alternativa melhor. Isso não tem efeito? Toda a alimentação, legumes, verduras, frutas, peixe… isto faz-nos o quê? Nada é NATURAL! E os produtos de higiene íntima? Que ingredientes? Altamente cancerígenos! Desde pasta dentífrica, shampoo, desodorizantes, gel de banho… quando confrontei a senhora da farmácia para a pasta que era cara e como se não bastasse continha uma substância perigosa ela respondeu-me, mas vai ligar a isso? É tudo assim. Ela tem razão, é tudo assim! E outras situações muito anómalas que desconhecemos. Além da poluição do ar, do mar, do peixe que sufoca com plástico e que depois nós ingerimos… Admiram-se do cancro duplicar??? E as infecções hospitalares, 12 pessoas por dia??? Que diabo é isto??? Em que mundo vivemos? Fala-se a boca cheia na vida e aposta-se na morte?  
( Faltou falar sobre as bebidas,sumos de garrafa, o café de máquina que as pessoas tomam-no em copos de plástico, ingerem café com toxinas, o plástico aquecido liberta toxinas, quer seja líquido ou comida sólida... 
Até o espaço também encontra-se poluído... onde o homem passa deixa LIXO atrás de si...e há mais ) 
PN
O programa Prós e Contras RTP1- Transmitido dia 17 de Outubro de 2016

Breve apontamento

Segui atentamente o programa, com especial atenção às prestações da Drª Fátima Cardoso e o Drº Veloso.
“ Sem investigação não há avanços, sem avanços não há perspectivas novas para os doentes. Há medicação inovadora muito boa, há outra que não presta, é lixo! “
Há profissionais que trabalham em más condições e encontram-se em situação de depressão(40%) ??? “É também um problema de organização, falta pôr a casa em ordem, até agora nunca se pôs a casa em ordem. É tudo igual mas…Os alicerces de um SNS são os cuidados primários.”
Muito foi dito, apontado, esclarecido. Houve assuntos que me chocaram, que me deixaram estupefacta. Enfim… As desigualdades são gritantes, tal como nos outros sectores…
É uma doença que exige prevenção! Exames e análises periódicas.

Mencionou-se que algumas das causas do cancro é falta de hábitos de vida saudável; que se traduz em não fumar, não beber, não ter uma vida sedentária , não ser obeso, não se deixar arrastar pelo stress, o esforço… etc mas há muito mais que isto… e  não foi mencionado, fiquei com a ideia que o cancro, principalmente o da mama, acontece, vai tornar-se mais frequente, e a justificação é que teremos de lidar com essa fatalidade. Na minha opinião, se é fatalidade, foi criada pelo próprio homem, lamentavelmente, não acredito que surjam porque é assim. E então, as porcarias que os pais deixam os filhos comprar? Desde pequeninos? E a alimentação cada vez com mais químicos em cima? Até a agricultura biológica não é 100% saudável, embora seja uma alternativa melhor. Isso não tem efeito? Toda a alimentação, legumes, verduras, frutas, peixe… isto faz-nos o quê? Nada é NATURAL! E os produtos de higiene íntima? Que ingredientes? Altamente cancerígenos! Desde pasta dentífrica, shampoo, desodorizantes, gel de banho… quando confrontei a senhora da farmácia para a pasta que era cara e como se não bastasse continha uma substância perigosa ela respondeu-me, mas vai ligar a isso? É tudo assim. Ela tem razão, é tudo assim! E outras situações muito anómalas que desconhecemos. Além da poluição do ar, do mar, do peixe que sufoca com plástico e que depois nós ingerimos… Admiram-se do cancro duplicar??? E as infecções hospitalares, 12 pessoas por dia??? Que diabo é isto??? Em que mundo vivemos? Fala-se a boca cheia na vida e aposta-se na morte?  
( Faltou falar sobre as bebidas,sumos de garrafa, o café de máquina que as pessoas tomam-no em copos de plástico, ingerem café com toxinas, o plástico aquecido liberta toxinas, quer seja líquido ou comida sólida... 
Até o espaço também encontra-se poluído... onde o homem passa deixa LIXO atrás de si...e há mais ) 
PN
O programa Prós e Contras RTP1- Transmitido dia 17 de Outubro de 2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Aquela mulher é seca…

                               Desenho elaborado a lápis de carvão sobre Papel - PN




Os seios murcham a olhos vistos
tombam e bamboleiam …
sacos de fruta bolorenta.
Cabelos desalinhados, ásperos,
galhos de árvore mirrada,
ressequidos de lixo
Tisnados de precoce velhice
Da boca; lascas de pedra,
Maus modos, respingona, praga na ponta da laminosa língua
Lábios inchados e gretados, roxos, mal tratados,
Hálito frio, azedo, água sulfurosa…
Aquela mulher é tão seca…
Teve realidade dura, e sonho nem houve,
Em algum atalho, quero acreditar que se deslumbrou, não sei…
Talvez não! Os olhos, única beleza rara, pela cor clara …
rios matinais, verdes azulados vitrais…
Grandes, distantes …húmidos
Prefiro imaginar que ali passou um brilhozinho qualquer, um parco encantamento
é menos triste…
Cedo, muito cedo, os ombros arquejaram com pesos
e a cabeça transportou cargas
e os joelhos sangraram dobrados para o poço.
Bocas raivosas ladraram-lhe, espremeram-na
Humilharam-na, escarneceram dela…
ficou uma fera, um bicho insurrecto
empurraram-na para caminhos sinuosos, tortos, ansiosos…
Cresceu fanhosa, ranhosa, atormentada,
destemperada , descalça, filha do  sentencioso azar.

PN



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ventos de monarquia

Diálogo entre Intendente ( tem a seu cargo a direcção ou administração de alguma coisa)  e Coronel

I – Que diabos é isso?
C – São as contas do mês, senhor.
I – Novecentos mil reis de “francho batalhão”!
C – A gente precisa comer e se vestir.
I – Que exagero, parece-me que agora é tudo seda tafetá!
C – A carestia é geral, todos os géneros são mais caros, é claro, o melhor vai para a corte. São doze mil homens a mais no Rio de Janeiro, desde a chegada da família real.
I – Precisamos de mais impostos!
C – Mais impostos, senhor? Tudo já está tão taxado. Depois o Intendente não tem poder…
I – O poder sou eu! Precisamos de dinheiro para a Intendência, taxas! Teremos impostos para as prostitutas, para as galinhas, para as aves de arribação. Você tem o meu aval!...nem que tenhamos que taxar o ar que esse povo respira! Está esperando o quê, Coronel?
C – Sim, senhor! 

Série brasileira  “ Liberdade Liberdade”

                       Intendente                                                    Coronel 

domingo, 14 de agosto de 2016

Não posso deixar em branco


Peço desculpa pelo texto longo e algo violento, mas é o que me vai na alma e na memória:

Um grito de revolta contra o que se vive nestes dias.
Mais uma vez se lida com a tragédia dos incêndios com irresponsabilidade usual. Mais uma vez ouvimos líderes a apelar a calma, a solidariedade e a oferta de produtos.
No entanto nem um,nos explica de forma sincera o porquê de sempre ter havido :
- Dinheiro para estádios e os bombeiros a venderem rifas para construírem quartéis.
- Dinheiro para o clube da terra (mesmo que as bancadas se mantenham vazias) e alguns bombeiros a pagarem as próprias botas.
- Rotundas luxuosas, pavilhões em tudo o que é freguesia e os bombeiros a pedirem dinheiro no Natal.
- Benefícios fiscais para hotéis e campos de golfe e os bombeiros excluídos das isenções nas taxas moderadoras de acesso a Saúde.
- Parte das Forças Armadas com centenas de oficiais gordos, caros e inúteis e muitos comandantes dos bombeiros a trabalharem em part-time.
- Frotas automóveis dos ministérios, luxuosas e renovadas a cada quatro anos e os bombeiros a terem de receber doações de ambulâncias e viaturas de combate de emigrantes, diversas associações, rotários e por aí fora.
- Portugal a receber aviões de Espanha e de Itália e os sucessivos ministros da Defesa a bloquearem a acção da Força Aérea no combate aos fogos.
- Líderes a insultarem o povo que "atira beatas" e "faz churrascadas",enquanto se mantém incapazes de montar uma política de prevenção e um plano de gestão territorial.
- Sucessivos governos a assinarem contratos com empresas privadas de meios aéreos. Contratos milionários,corruptos e quase inúteis. E aquele casal da A1 a gastar 800 euros para oferecer água, porque a BRISA coitada, não tem que chegue da sua choruda PPP.
- Bombeiros a tombarem mortos e incendiários a serem postos em liberdade !!
Não me peçam por isso que apenas acenda velas, ofereça leite ou reze pais nossos a Deus. Sou crente e não ponho em causa a solidariedade. As vezes rezo e sou solidário conforme posso.
Mas rejeito alinhar mais uma vez em prantos, lamentos e campanhas fofas que não resultarão em nada a não ser na sua repetição no Verão de 2017. Não questiono a solidariedade, exijo isso sim prioridade.
Se queremos ajudar os bombeiros teremos que estar prontos para exigir mudanças, manifestarmo-nos por elas.
E neste momento cabe ao Estado pagar tudo o que os bombeiros precisam.Porque o dinheiro do Estado é nosso!
Ganhei nojo a este repetitivo ciclo de hipocrisia. Para mim acabou.
Em nome do respeito pelos nossos bombeiros e também respeito por nós enquanto contribuintes. A solidariedade deve ser usada enquanto apoio perante algo inevitável ou cuja falha, nós seres humanos falíveis, possamos entender. Aí sim, todos nós nos unimos em solidariedade. Já o fizemos e continuaremos a fazê-lo.
Mas quando aceitamos que a solidariedade seja substituto a dignidade e eficácia do Estado, então não somos solidários, somos otários. E até Deus já perdeu a pachorra para otários.”

( Através do Facebook) 


sábado, 30 de julho de 2016

Boas férias, amigos!


Fiquem bem! Sejam felizes na medida do possível, tal como eu ... Até ao regresso! Beijinhos, abraços e cumprimentos a todos!
Sempre grata pela vossa presença!
PN

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A visita habitual




                               Surrealista - Tomasz Alen Kopera

A casa grande roda na curva da tarde,
a  única árvore a sudeste resvala lânguida no centro do jardim.
É domingo, chapéu em bico cinza
cinza nostálgico, um abraço sem enlace,
um choro de menino,
compasso rodado do dia, dentro de um cestinho, um deserto longínquo
sem perigo e sem destino…
A casa cerrada, sem gente, sem nada,
cílios colados, entorpecidos,
A dona enferma, maleita bicuda, foi embora, dizem que partiu…
para o céu dos bonzinhos
E nunca mais a casa grande se abriu…
ficou assim, cismada, silêncio surdo
não dá por nada!
É domingo, chapéu em bico cinza,
uma promessa resignada, em vigília demorada…
e a casa sobe calada , tão penosamente…
Rente à parede encostada, só há uma flor incendiada…
as outras, as outras … estão-se a ir caladinhas
Não há bebedouro… não há sacio…
Apenas a sombra pesada da idosa vizinha, espreita debruçada a moradia,
outrora acordo de paz amigável entre as duas…
Antigamente cheia de gente, farta de tudo… agora sem nada…
Alguém podou a árvore com copa carregada…
as flores maduras  já se haviam atirado para o pátio exterior, 
para a estátua do rapaz de pedra branca,
 para a rua, atropelando-se nos pneus dos automóveis…
 Vinham surgindo outras lâmpadas nas pontas dos ramos…
A velha senhora apraz-lhe ficar ali,
observando minuciosamente  o que se vai lentamente finando
…e o muro a esfriar-se
Ela fica assim; extasiada com a ideia de um paraíso próximo,
depois, alegre com a visão, afasta-se; os passinhos morosos, picados,
desconcertados, desacertados;
escadas rolantes confusas, a mão trémula sentada… sobre uma tarde
que não pára de carpir de tão mal amada.

PN











terça-feira, 28 de junho de 2016

Convida-me e vou contigo...


Convida-me e vou contigo
Hoje sim, hoje, mais que ontem… há sol,
colossal, descomunal , fartura, teimosia de claridade.
As sombras marcam compasso…
ainda não se levantam do chão
nem turvam a nossa visão!
Embarco contigo, agora.
Partamos, dia adentro, noite fora
 sigamos e despertemos os sentidos quase murchos
e desaprendidos...
Bebamos a água fresca da velha bilha;
ainda há céu para nós…
Atentos ao pincel espetado na atmosfera...
as nuvens tingidas...
 a abóboda lambida de uma ponta à outra daquele azul perfeito,
espevitado
espelhado em nós…
Um azul desperto e aberto como o meu coração.

 PN

domingo, 22 de maio de 2016

Insónia efervescente

Meus olhos ardem como círios piedosos…
Ai estes olhos  escancarados em noites de todas as luas,
cobertos de resina, nuvens de mudança sinalética.
Olhos febris, retina fossilizada,
putrefacção da camada vegetal das pálpebras,
cílios sacudidos pelo desassossego de um vento interior
olhos lacrimosos, sem sorte e sem norte.
Cristalino prismático, pedrado, partido, no eixo da insónia
E as pupilas dilatadas, semáforos vermelhos, estáticos,
acesos , avariados …
Na eternidade do tempo, os ponteiros gotejam à passagem pachorrenta na curva do relógio… e derrapam até ao fundo da memória…
Sempre o mesmo cansaço, enferrujado, e as rodas da carruagem vão estalando cobertas de artrose, e a cervical vertical não dá paz ao sono que tarda.
E meus olhos, pobres olhos, à  fornalha do lixo condenados, a queimar, a queimar…
Atiram-lhes para cima com radioactividade pura, uma poeira granulada, incomodativa
Socorro-me aflita de uma baforada de ar puro, de uma qualquer boca;
um doce, um beijo sem ser enganoso, sem ser amargo, sem ser carregado, sem ser penoso.
O sono? esse, não passa à  minha cabeça descoberta, um soluço magoado sai dos meus lábios,  névoa enrolada  sobe à vista escravizada .
Debato-me, adejo e fico a aguardar enferma pela claridade da madrugada.  
                                                                                                                                    PN
                                                                                                                                           




  Pinturas de Andrew Salgado

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Alinhavo sobre o joelho

Alguém muito próximo e com raízes católicas presentes , disse-me isto em conversa:
" O inferno está calcetado com cabeças de padres"
Foto:NET

Alinhavo sobre o joelho


Uma escola que não defende os seus professores, é como um pai que não defende os seus filhos, é como um governo que não defende o seu povo
                                                                                                                                                          PN

domingo, 24 de abril de 2016

Depois de mim


                                        "A morte de Marat" por Jacques - Louis David 1793 
                                         ( Outra versão encontrada na NET) 

Depois de mim, máquinas  e homens
hão-de rasgar novas estradas
novos caminhos e outros abismos.
No lugar dos postes de luz
santos mártires de braços abertos
olhos enfermos, fixados em nós
confusos  e desorientados…
…cordões ao pescoço com santas desoladas,
cabeças erguidas,  em oração lavadas
Alguém me há-de atraiçoar
desamparada, nos  tropeções da queda ,
 por fim, o corpo há-de terminar
na fundura do pó e do nada;
a alma, se destinada a se salvar, buscará o tal sagrado lugar…
    
( Inspirado num sonho)
                                                                                   Delta Nascimento (através do Facebook)
Nota: a fotografia seleccionada é da autoria da pessoa que escreveu o poema

domingo, 10 de abril de 2016

Alinhavo sobre o joelho

                            
                                                                                                              Imagem- NET

Trata-se do meu comentário  a um  programa "Prós e Contra", colocado no Facebook, já há algum tempo.  

     O tema é mesmo muito complexo e por ser embaraçoso merece uma reflexão profunda e séria. Não entendo como é que se consegue tomar logo partido. As pessoas aqui funcionam muito em manada, uma histeria colectiva. Hoje, não se gosta de pensar, de reflectir, de repensar. Há muita pressa em decidir, em mostrar que entendemos de todos os assuntos, que não temos dúvidas sobre questões pertinentes e difíceis, e a pressa de expor o pensamento, ser mais rápido que o pensamento do outro. É a competição desenfreada da vida real, depois enxovalham-se uns aos outros, espicaçam-se, roçam a má educação… descarrega-se a raiva…Eu continuo sem certezas de coisa nenhuma. Os argumentos religiosos, éticos, políticos e sociais têm perspectivas diferentes do tema em questão. Eu ainda não sei… Gostei do programa, compreendi alguns pontos de vista e subscrevo. Eutanásia passiva, eutanásia activa, suicídio assistido… com algumas diferenças mas desemboca na tal rua… Depois do programa dei comigo a pensar… Quando se nasce, chora-se, ninguém impede um bebé de chorar… afinal ele vem de um mundo para outro! É um drama, tal como a partida, é outro drama. A nossa vida está cheia de pequenos, grandes dramas! O sofrimento faz parte da vida! Crescemos com ele, amadurecemos com ele! E quem não quer sofrer, desengane-se. Ouvi falar de boa morte. E o que é uma boa morte? Alguns entendem que a eutanásia é uma boa morte porque retira o a dor ao ser humano. Vamos recuar, ao tempo de Jesus Cristo! Só para estabelecermos um  confronto!  Jesus Cristo, morreu na Cruz, o Filho de Deus podia ter tido uma boa morte, podia ter fugido; “ Afasta de mim este cálice, Pai!”. Também vacilou perante a agonia da morte! Mas, atenção, “ Seja feita a Vontade de Meu Pai e não a minha”.


O que se passa com a sociedade de hoje, antecipar a morte para não sofrer? E alguém regressou da morte para nos contar se gostou que tivesse sido assim? E se sentiu arrependimento? E o estado de coma é bom ou mau? E quem disse que morrer com dignidade é através da eutanásia? Eu apostaria mais na qualidade dos cuidados paliativos. Também se disse e bem que ser deficiente não é um peso, que ser paraplégico não é sinónimo de incómodo ou fardo. O problema é que as pessoas estão cada vez mais sós! muitas morrem sozinhas, são encontradas mortas! Nos hospitais, nos lares, já se pratica uma espécie de eutanásia, todos conhecemos de casos, alguns bem gritantes. E se estamos a confundir liberdade de decidir sobre a vida, com depressão? Então o homem já é senhor de comandar o desfecho da sua própria vida? Morre quando sente que a vida não faz sentido? Fiquei em estado de choque quando ouvi que na Bélgica morrem 3 mil pessoas por ano, por eutanásia?! O que é isto?! 3% por depressão, 13 % recorrem à eutanásia e não se encontravam em fase terminal?! E o ritmo tem acelerado! Querem legalizar? Para quê? Já existem tantos suicídios! Ou é só para lavar a consciência de que é medicamente assistido?... 
                                                                                                                                                     PN

quarta-feira, 30 de março de 2016

A ENTREVISTA III

E para terminar, qual a sua opinião quanto ao papel da Grã Bretanha na U.E?

     “A Grã Bretanha está francamente descontente com a prática do euro e com a prática da União Europeia como ideal e como projecto de todos nós, tem a sua razão de ser. Nós estamos uns viciados no nada, nós, União Europeia, estamos uns preguiçosos, estamos uns burocratas, uns eurocratas que dependemos de milhares de decisões, hiper lentas, pesarosas, e muito custosas para decidir o que quer que seja e para encobrir imensas tendências financeiras. E portanto, é natural que um país que ainda acredita que pode se autónomo e que tem uma força económica grande, diga que se é para sofrer, para demorar a tomar decisões, se é para não mexer verdadeiramente no que está errado, então mais vale ir sozinho, não podemos achar que estes são os horríveis que nos vão deixar sozinhos agora, os monstros, mais uma vez, há dois lados desta moeda, infelizmente é da moeda que falamos, obviamente que será terrível e nocivo para a União Europeia perder a Grã Bretanha mas não é só por causa da moeda, a economia é tudo, é o projecto político, que é um projecto social. É aí que eu dizia que engloba todos os outros temas que nós tínhamos eventualmente na manga, os refugiados, as migrações, tal como elas estão a acontecer na Europa, obviamente que tem a ver com isto. Tem a ver com a nossa economia, com a maneira como nos fechamos em eurocracia e numa burocracia de que Portugal está ser francamente também vítima.

     Ser órfã, órfão é não ter já! E nós não temos? Nós temos, há imensa gente boa por aí, há imensa gente boa a pensar, há imensa gente boa a querer agir, não necessariamente em lugares de grande poder porque estão desacreditados, ou porque têm medo do que vão fazer à vida, mas existem pessoas muito capazes e bons pensadores em Portugal, já nem é preciso ir para a Europa, existe na minha esperança.

     Compete-nos a nós, todos os dias, não podemos dizer eles, a população portuguesa vai votar, por exemplo, como é que a gente diz eles… e, metade não vai votar, o voto devia ser obrigatório como no Brasil.


     Por último queria chamar à atenção de todos os pais, professores e alunos do 5º ao 12º ano. Chama-se; “Escolas Solidárias”, podem simplesmente ir à Net e procurar no facebook ou site, “Escolas Solidárias”; é um programa que se propõe ao longo do ano lectivo ensinar as escolas, os alunos dentro das escolas com os seus professores, com a sua comunidade, a criar projectos sociais que respondam à sua comunidade, a fazer a diferença, a mudar, é um movimento de cidadania. “
Dra M.P.C

terça-feira, 29 de março de 2016

A ENTREVISTA II

    " E quanto às eleições nos EUA?"

    " É tão inacreditável…há coisas …Só de pensar neste nome; Donald Trump, só de pensar que pode ser uma solução…porque quem está à frente dos Estados Unidos, está também muito à frente de grande parte do que se passa no mundo. Não sei se o mundo inteiro não deveria ter voto a dar nas eleições norte americanas, porque de facto o impacto que tem é brutal. 

E o que o Donald Trump tem dito publicamente e aplaudido publicamente por milhares de pessoas, é criminoso. É francamente pouco inteligente, é de uma feira, estão todas as pessoas lá, e, como nós sabemos a multidão entusiasma-se duma maneira animal, aí sim, ele consegue isso nas pessoas, ele diz uma alarvidade qualquer, e toda a gente repete. É onomatopeico. Andamos todos a dizer; Temos que deitar abaixo muralhas, deitar abaixo muros e construir pontes. E, há um homem que aparece com uma imensa multidão à volta, a dizer; “Nós vamos construir uma muralha melhor que a dos outros, paga pelos mexicanos” … é tudo extraordinariamente absurdo, lado a lado com uma figura que de facto nos veio devolver, independentemente da religião, uma confiança no futuro e uma esperança na hipótese de se tomarem decisões, de se darem passos, que é o Papa Francisco. Não tem que ser cristão para acreditar neste nome, no sentido de; É um homem com uma coragem enorme. É um homem que veio da rua, da calha, trabalhou nas ruas argentinas, nas paróquias, com as suas pessoas, de acordo com a sua fé, mas trabalhou essencialmente num projecto que julgo social, um projecto para reconstruir comunidades, quebrar ciclos de exclusão e pobreza e isso é tudo o que nós queremos. É um homem do bem. E, teve essa nova coragem, aí sim, perante a igreja católica é redobrada, de começar já há uns tempos, não foi agora esta declaração, tem vindo a aceitar, a acolher;

 Vamos todos para dentro desta casa, que eu digo que é do Pai, vamos todos para este colo, que eu digo que é o da nossa comunidade. Eu, Papa, e começou a aceitar; mas as mães solteiras, mas os divorciados, mas os homossexuais…Nenhuma cultura muda com facilidade, fala sobre o preservativo, fala sobre as freiras que trabalham em zonas de crise. Começa a desmistificar uma ferramenta de saúde pública que foi ensinada nas escolas, no mundo ocidental como é fundamental prevenir, é fundamental prevenir as doenças. Obviamente que falamos em escola primária, não estamos à espera que as crianças comecem a ter uma vida sexual activa, mas a vida sexual existe desde que nós nascemos, vida sexual não quer dizer, sexo à brava.

 É fundamental ter um homem com esse poder, vestido de branco,e, poder de influência, poder de catarse, de convencer as pessoas a pensar, que diga, mesmo os que são mais fundamentalistas e são contra mim, sou eu que estou a dizer isto, punham-se lá a pensar, punham lá aí uma reserva na vossa firmeza e no vosso conservadorismo. Na verdade está a ir além do que lhe é permitido, e, onde é que esta escrito o que é que lhe está permitido? Teoricamente a igreja católica é seguidora de um homem que não estava representado em lado nenhum até aparecer. Como todos os outros grandes homens da história." 
Drª M.P.C.
(Cont)
Fotos:NET


terça-feira, 22 de março de 2016

A ENTREVISTA I


"Buscas continuam no Tejo pelo corpo da segunda criança que desapareceu na noite de segunda feira. Foto:DR

    " Vamos começar com um caso em Caxias que não deixou ninguém indiferente, com a morte de duas crianças:"

     “Eu gosto mais de pensar na miséria do que na maldade. É muito perigoso e muito grave julgarmos à priori uma coisa que não conhecemos, que não conseguimos perceber, que não temos os dados todos, nenhum de nós tem ainda hoje os dados todos e mesmo quando tivermos, provavelmente não vamos saber de facto o que se passava ou se passou naquela família.

     A relação dos pais nunca foi muito saudável, não ouvimos a mãe, a mãe está detida para interrogatório e ouvimos várias coisas …vamos ter imenso cuidado sobretudo porque não é uma brincadeira, são vidas…são vidas de pessoas que passam ao nosso lado, o dia inteiro. Nós passamos todos por imensas vidas de pessoas que estão a sofrer profundamente e não imaginamos, e, muitas vezes fingimos não ver, não é? Esse é o primeiro pensamento que nós devemos ter; como é que nós estamos a olhar para as pessoas? Olhar umas para as outras, nós, cada um de nós, na nossa responsabilidade de todos os dias. O estado em geral nas suas ferramentas e nos seus instrumentos. O que é que estamos a fazer para que não se chegue a este extremo? E porque estamos a chegar a estes extremos? Essa é a grande pergunta e é o que pode ser a nossa conversa, até conversa de café, Portugal parou, toda a gente falava sobre isto…


     Ficamos cegos e nós não nos podemos esquecer, digo muitas vezes isto e não me canso de dizer, o simples olhar para a outra pessoa nos olhos, devolve existência e nós fazemos questão de não ver imensas coisas, na rua, no trabalho, nos sítios onde estamos, e com o desespero que foi acumulando nos últimos anos em Portugal, existe muita gente desesperada, algumas pessoas a disfarçar muito bem, outras pessoas a não disfarçar de todo, outras pessoas a abusar e a aproveitar-se disso para se fazer de desesperado, mas nós não devemos nunca esquecer desta coisa extraordinária que é diferença de sermos humanos em relação aos outros animais, não é a inteligência, é a dignidade. É a forma como nós podemos interligar-mo-nos uns aos outros, acrescentando raciocínio a isso.

      Eu acredito que quando as pessoas estiverem a falar do que se passou esta semana, temos sempre que pensar em dignidade, e no outro, e não somos animais isolados, somos animais gregários e vamos ter cuidado com o julgamento… e sobretudo isto alerta-nos e há sempre coisas para aprender quando nós detectamos e já nos detectamos com vários, com dramas sociais que não nos dizem respeito, no sentido que não é ninguém que a gente conheça mas aconteceu, aconteceu aqui, aconteceu em Portugal em 2016. 
     Então se calhar isto deve-nos servir pura e simplesmente para pormos a mão cá dentro e começarmos a pensar, o que é que eu estou a fazer em relação às pessoas que eu conheço? O que é que eu estou a fazer em relação aos ruídos que ouço? Em relação às imagens que vejo? Em relação aos outros? Não estou a perguntar à minha vizinha se aquilo que ouço é animação lá em casa ou não? Até que ponto nós nos devemos meter…intrigar ou prestar atenção? São coisas diferentes. E nós temos uma enorme dificuldade em distingui-las porque somos um povo que gosta de saber, gosta de comentar, é cusco, é curioso, mas, não podemos também ignorar. "
M.P.C.
(Cont)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ode às Mulheres





Ode às mulheres

"Ode às Mulheres. (Ler embalado ao
som da música que vem aqui escondida)
Mulheres cor café com leite,
 misturadas
,  mulheres de face encardida que caminham nas ruas
obscuras,  mulheres anorécticas que escondem maças verdes nas
algibeiras e pesam os sonhos,   mulheres redondas que dão
gargalhadas gulosas por entre os sacos transparentes barulhentos
recheados de gomas coloridas,  mulheres compridas com
pernas esbeltas de gazela que fazem os olhos parar,  mulheres pequenas portuguesas,
 mulheres enrugadas
 que escrevem no rosto cada página, mulheres-menina ansiosas,
reluzentes e vivas, mulheres com muitos anosmulheres-vendidas, orfãs
de si mesmas, mulheres de pés descalços, encardidos, duros,
cicatrizados,  mulheres de saltos agulha que ecoam num
caminhar frenético pelos corredores de tecto alto, mulheres-chefe imponentes, mulheres
de saia
 a bater nos pés, mulheres despidas, sem
pudores, mulheres da terra,com mãos calejadas pela enxada e unhas
sujas, mulheres da casa que salpicam o avental já desbotado de
água quente fervilhante das panelas de todos os dias.
Mulheres-prisoneiras de sonhos
rasgados, débeis, pálidas, mulheres do mundo que riem por
entre outras mulheres numa tarde de esplanada, mulheres curiosas que
sussurram a vida de outras mulheres, mulheres mesquinhas que
se escondem atrás das lentes escuras dos óculos de sol, mulheres
sonhadoras
 que pintam nuvens no tecto do quarto, mulheres
pobres
 que gritam sozinhas.

Mulheres-professoras que desenham sublimemente as letras do
abecedário com pau de giz, mulheres-carteiras que debaixo de
chuva deixam um pedaço de vida em cada caixa do correio, mulheres-cozinheiras que
têm braços fortes de remexer a sopa, mulheres-prostitutas que
abanam a alma em troca de uma nota, mulheres-presidente que marcham
à frente dos homens, mulheres-surfistas que se deitam nas
ondas e se encostam no colo da areia...
Mulheres de si mesmas, mulheres dos
homens, mulheres dos filhos, mulheres dos filhos dos
filhos, mulheres de outras mulheres, mulheres dos outros.
Mulheres há muitas... (como já
alguém dizia)

Às Mulheres-Maria, Mulheres-Rita,
Mulheres-Ana, Mulheres-Sofia e a todas as mulheres que conheço, que não conheço
e talvez vá conhecer, e às que jamais irei conhecer.
À Mulher-menina que trago comigo, que
seja um pouco de tudo..."



quinta-feira, 3 de março de 2016

Sem título

Atrás de mim, uns passos?
um alvoroço…sem ser alto, sem ser baixo
assim…provocador.
Passou por mim uma baforada de ar,
vinha lenta, pela frente, bem fininha
senti e voltei a sentir aquele friozinho…
De novo, a mesma farfalhada?
Voltei-me, nada de nada!
A rua deserta, na hora certa…
Segui mais ligeira
movida pela inclinação da descida…
Outra vez? o som de alguém?
De quem?
Quem seria quem me seguia
no encalço das minhas pegadas?
Os cabelos puseram-se de pé
no arrepio do caminho,
outra baforada do mesmo arzinho
diria mesmo; 
uma serrinha cortante, um canivete afinadinho
  um pouco mais que fresquinho…
Troquei a passada larga por outra ainda mais apressada
Agora, no fim do declive, início da recta do caminho,
subitamente, a tal ramalhada; um ruidozinho de tecidos? uma arranhada ?
Que raio de bicho me perseguia?!
Quando a baforada cessou, voltei-me sempre eriçada
foi então, que se me deparou
uma folha seca, que comigo brincou…
Uma simples folha que me assustou e na traquinice
à minha frente passou!
PN    

                                             Foto: Net









domingo, 28 de fevereiro de 2016

                                                       A ENTREVISTA

“Marta, quase o rosto da bandeira de tanta insensibilidade”


 “ Um misto de sentimentos, por um lado, uma tristeza profunda, por ver uma mulher tão bonita nestas circunstâncias e por outro, profundamente envergonhado, enquanto jurista, se visse esta reportagem antes de ir para direito, se calhar tinha ido para outra coisa qualquer. Actualmente, nós temos um sistema legal que é uma autêntica vergonha nesta matéria, trata as pessoas basicamente como lixo, como é o caso desta senhora. Esta senhora diz uma coisa que é importante, pode estar nesta situação por ter sido obrigada a trabalhar num local que tinha amiantos, toda a gente sabe perfeitamente que havia muitas escolas e que ainda há muitas escolas, que tem nas suas infraestruturas peças de amianto, uma senhora que é vítima do seu próprio trabalho, devia-se haver por parte do estado outro tipo de atenção e não merece. Vamos tentar perceber o enquadramento legal disto; no séc 19 houve um filólogo alemão Diefen Bier que disse isto; “O trabalho liberta”, para esse filólogo alemão uma pessoa deve trabalhar até ao fim, independentemente das circunstâncias de estar a morrer ou não estar a morrer, tem de trabalhar até morrer, porque o trabalho é libertador, liberta o espírito para uma coisa superior, é o auto sacrifício de nós termos capacidade de trabalhar até ao fim. Diefen Bier, foi depois aproveitado por quem? pelos nazis! Em auschwitz, e noutros campos de concentração. Se bem se recordam, é muito visto nos filmes e documentários, quando aquela gente desgraçada chegava aos campos de concentração tinham um letreiro a dizer; “ o trabalho liberta” o que é que isto quer dizer? vais trabalhar até ao fim, até à morte, é isto que este sistema legal promove. Esta senhora está obrigada a trabalhar até à morte. E nós temos um sistema legal, que considera uma pessoa cancerosa em último grau, que tenha resistido a todas as tentativas de cura, já com um período de vida muito curto para viver, a lei não considera isto, com 100% de incapacidade para trabalhar. Não considera, está lá escrito. Situam entre 80 e 95 de incapacidade para trabalhar. O que dá margem a estes senhores das juntas médicas para vir dizer, não tem 100% de incapacidade, ainda tem condições para trabalhar. Isto é vergonhoso. Eu tenho vergonha do estado em que vivo. Isto é uma lógica nazi. Isto é uma lógica numérica. Eu vou recuperar aqui uma frase que foi dita por uma senhora professora de Ovar, que em 2007 se viu envolvida numa circunstância desta natureza. Esta senhora professora de Ovar, não tinha metade da língua, tinha cancro na língua, era professora e a junta médica apesar da senhora só ter metade da língua, considerou que ela tinha de trabalhar. Esta senhora veio para a comunicação social dizer o seguinte;” É muito mais barato para a Caixa Geral de Aposentações que eu morra do que estar a aceitar a aposentação”. Esta é a lógica numérica. O estado mama. E esta senhora que em 2007 se viu nestas circunstâncias, de ter que ser obrigada a trabalhar como professora. Eu não percebo o que estes senhores da junta médica percebem disto, porque uma professora precisa da língua para falar. É o seu instrumento, é uma coisa que não pode ser mais óbvia. Até dizia que fazia um esforço para falar e lhe saía sangue pela boca na frente dos alunos. O governo na altura sensibilizou-se com a situação e foi perguntar à junta médica” Mas ouça lá isto, não é um bocado de exagero, estarem a obrigar esta senhora a trabalhar?”E a resposta da junta médica; havia um papelinho onde dizia, capaz para trabalhar ou incapaz para trabalhar? Sim ou não? E parece que o senhor doutor na altura veio explicar que se enganou. Eram muitos papéis que estavam à frente dele e então pôs a cruzinha no sítio errado. As juntas médicas são integralmente da responsabilidade da Caixa Geral de Aposentações, até 2007 não eram médicos. Era uma composição mista, em que havia um presidente da junta que não era médico, agora são todos médicos. E os médicos não se sensibilizam com esta questão, porque são pessoas muito felizes, estes senhores doutores que tomam uma decisão destas, são felizes, porque nunca tiveram de trabalhar depois de fazer uma sessão de quimioterapia ou radioterapia. Se tivessem a infelicidade de serem obrigados a trabalhar, atenção, que não estou a fazer um ataque à classe médica, depois de fazerem uma sessão de quimioterapia ou radioterapia, se calhar tinham uma opinião completamente diferente. Estes senhores têm uma lei que é permissiva. Bastava haver uma lei que dissesse a estes senhores em concreto o seguinte; “ Doentes como esta senhora, nestas circunstâncias; três cancros, a serem submetidas a radioterapia e quimioterapia, são obrigados a mandar as pessoas para a aposentação”. Estas pessoas não têm condição, tem de ter uma dignidade enquanto seres humanos que a lei não lhes dá, e depois agravado pelo facto desses senhores das juntas médicas, não terem a sensibilidade para perceber que têm na sua mão o poder de dar a aposentação a estas pessoas e não o dão, porque sai caro ao estado, como é óbvio. Assisti a um caso, de um senhor que estava a sair de uma junta médica, em muletas, que não tinha as duas pernas. O senhor estava revoltado e estavam a insultar os médicos porque o senhor sem as duas pernas foi considerado apto para trabalhar. Aquilo que digo é basicamente isto, isto, é uma linha de extermínio, isto é nazi, por isso tens de trabalhar até às últimas, porque se não trabalhares até as ultimas, tiramos-te o pão para a boca. Estas pessoas que são consideradas aptas para trabalhar se não aparecem no trabalho no dia seguinte, ficam automaticamente, por lei, debaixo de um regime, de licença sem vencimento. Há limites de prazo, no caso desta senhora, depois foi a várias juntas médicas que lhe renovaram sistematicamente uma baixa, até ao limite previsto na lei. A seguir tem que se apresentar obrigatoriamente a uma junta médica da Caixa Geral de Aposentações, sob pena de ir automaticamente para os regimes de licença sem vencimento. E as pessoas podem perguntar “ E uma pessoa nestas circunstâncias, o que é que pode fazer, para reagir a uma situação destas?” Antes de 2007, foi criada a junta de recurso, esta pessoa pode pedir a realização de uma nova junta médica, em recurso da decisão da primeira, que vai ser integrada por médicos diferentes daqueles que apreciaram a 1ª vez o caso, com excepção do médico privado que pode estar na junta médica e esse pode ser o mesmo, mas depois se houver uma reconfirmação da decisão, se o caso for obviamente de incapacidade, e atenção senhores da segurança social, se for um caso permanente, então a senhora pode recorrer aos tribunais administrativos, e dizer, há uma acção específica que é muito utilizada; uma acção de intimação para a defesa dos direitos, liberdades e garantias de cada um, e os tribunais o que é que dizem? Quando são casos tão crassos, tão evidentes que mesmo para um leigo, se perceba que não há condições para esta senhora continuar a trabalhar, o tribunal, decreta efectivamente a aposentação. Noutros casos o tribunal diz basicamente que foi uma decisão discricionária dos médicos, é uma decisão técnica, científica e o tribunal não se mete. O tribunal só se mete quando há casos tão gritantes, tão grosseiros. Esta senhora tem de lutar pelos seus direitos e lamentar uma vez mais, nós vivemos num estado em que as pessoas ou tem de trabalhar até a ultima ou então são condenadas à fome.
Apelo aos senhores políticos que estão no governo, lembrem-se que temos uma lei que só dá duas alternativas às pessoas que estão nestas circunstâncias “ Ou trabalham ou morrem à fome”, escolham!
Drº P.P.
(A Marta foi avaliada pela junta médica da Caixa Geral de Aposentações e, mesmo sem a docente ter estado presente no encontro, determinou que ela estaria apta para desempenhar funções como professora, apesar de se sentir incapaz para trabalhar. Marta não foi considerada absolutamente incapaz para o exercícios das suas funções. Os responsáveis pelo programa de TV, pediram esclarecimentos à Caixa Geral de Aposentações e ate ao fim da entrevista, não obtiveram qualquer resposta).