domingo, 22 de maio de 2016

Insónia efervescente

Meus olhos ardem como círios piedosos…
Ai estes olhos  escancarados em noites de todas as luas,
cobertos de resina, nuvens de mudança sinalética.
Olhos febris, retina fossilizada,
putrefacção da camada vegetal das pálpebras,
cílios sacudidos pelo desassossego de um vento interior
olhos lacrimosos, sem sorte e sem norte.
Cristalino prismático, pedrado, partido, no eixo da insónia
E as pupilas dilatadas, semáforos vermelhos, estáticos,
acesos , avariados …
Na eternidade do tempo, os ponteiros gotejam à passagem pachorrenta na curva do relógio… e derrapam até ao fundo da memória…
Sempre o mesmo cansaço, enferrujado, e as rodas da carruagem vão estalando cobertas de artrose, e a cervical vertical não dá paz ao sono que tarda.
E meus olhos, pobres olhos, à  fornalha do lixo condenados, a queimar, a queimar…
Atiram-lhes para cima com radioactividade pura, uma poeira granulada, incomodativa
Socorro-me aflita de uma baforada de ar puro, de uma qualquer boca;
um doce, um beijo sem ser enganoso, sem ser amargo, sem ser carregado, sem ser penoso.
O sono? esse, não passa à  minha cabeça descoberta, um soluço magoado sai dos meus lábios,  névoa enrolada  sobe à vista escravizada .
Debato-me, adejo e fico a aguardar enferma pela claridade da madrugada.  
                                                                                                                                    PN
                                                                                                                                           




  Pinturas de Andrew Salgado

9 comentários:

Jaime Portela disse...

Bendita a insónia que pariu tão bom poema.
Os meus aplausos, fizeste um poema genial. Parabéns.
Boa semana, querida amiga PN.
Beijo.

Carmem Grinheiro disse...

Essas noites que, às vezes, são tão compridas e escuras...
bj amg

Manuel Luis disse...

Acordar cedo com um beijo.

Jaime Portela disse...

Gostei de reler este poema magistral.
PN, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Viver é por vezes um sofrimento, mas quase tudo é suportável, quando sabemos que vamos encontrar o verbo olhos nos olhos, viver com verdade e sem sofrimento na eternidade do tempo.
As imagens são arte, são lindas, sobre o rosto das mesmas faz-me lembrar uma pessoa incrível madeirense.
Resto de boa semana,
AG

Jaime Portela disse...

Gostei ainda mais de reler o teu excelente poema. É de antologia...
Não tinha reparado nas pinturas, a tua escolha foi perfeita.
PN, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

AC disse...

Desassossego evidente
Mágoa premente
À espera do sol nascente...
Ah, pudesse eu abraçar-te
Em modo quente, quente, quente!

Um beijinho, Pedras :)

Jaime Portela disse...

Efervesço quando aqui venho, mas arrefeço com a ausência de novidades... devias escrever mais, muito mais...
Querida amiga PN, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Jaime Portela disse...

Eu estou calmo.
Eu sou calmo.
Mas a verdade é que, uma semana depois, tempo mais que suficiente para Portugal passar aos oitavos de final sem ter ganho nenhum jogo e para a Europa ficar em polvorosa com o NÃO da Inglaterra, coisa que me tem impedido de saber mais notícias, deveriam haver notícias tuas, ou seja, novidades aqui neste teu blog, que penso ser o principal. Mas eu compreendo e não reclamo, porque sei que a vida de professor é quase vida de cão. Pior mesmo só a dos alunos... eheheh...
PN, tem um bom fim de semana.
Beijo.