segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Aquela mulher é seca…

                               Desenho elaborado a lápis de carvão sobre Papel - PN




Os seios murcham a olhos vistos
tombam e bamboleiam …
sacos de fruta bolorenta.
Cabelos desalinhados, ásperos,
galhos de árvore mirrada,
ressequidos de lixo
Tisnados de precoce velhice
Da boca; lascas de pedra,
Maus modos, respingona, praga na ponta da laminosa língua
Lábios inchados e gretados, roxos, mal tratados,
Hálito frio, azedo, água sulfurosa…
Aquela mulher é tão seca…
Teve realidade dura, e sonho nem houve,
Em algum atalho, quero acreditar que se deslumbrou, não sei…
Talvez não! Os olhos, única beleza rara, pela cor clara …
rios matinais, verdes azulados vitrais…
Grandes, distantes …húmidos
Prefiro imaginar que ali passou um brilhozinho qualquer, um parco encantamento
é menos triste…
Cedo, muito cedo, os ombros arquejaram com pesos
e a cabeça transportou cargas
e os joelhos sangraram dobrados para o poço.
Bocas raivosas ladraram-lhe, espremeram-na
Humilharam-na, escarneceram dela…
ficou uma fera, um bicho insurrecto
empurraram-na para caminhos sinuosos, tortos, ansiosos…
Cresceu fanhosa, ranhosa, atormentada,
destemperada , descalça, filha do  sentencioso azar.

PN



2 comentários:

Jaime Portela disse...

Dois excelentes retratos. E muito bem combinados.
O poema, de uma crueza profunda e verdadeira, é soberbo.
Parabéns, minha querida amiga, fizeste mais uma obra notável.
PN, tem um bom domingo.
Beijo.

Roselia Bezerra disse...

Boa noite, querida PN!
Uma mulher asim recebeu um nada diante da vida e exprime com o corpo o que a alma se resente... Poema muito bem escrito!
Parabéns por captar a dor da alma...
Bjm muito fraterno