sábado, 17 de junho de 2017

Alinhavo sobre o joelho



As gaivotas ziguezagueiam sob uma abóbada alta, volteiam-se aladas em pontos brancos e cinzas…
Quando os nossos olhos descem, decifram curiosos a construção erigida sobre o monte.
Uma capela, ali, solitária, suspensa, numa onda alterosa, coberta de verde manto; verde mocidade, espevitado, pujante.
Depressa, aquele lugar, atiça o meu interesse. Lá em baixo, no sopé da montanha, no vale, gargalo apertado, raras habitações dispersas. Por aqui, há vestígios, resquícios de ruínas, de rochas estéreis, e, ainda assim, por entre as fendas e aberturas, refila alguma vegetação exuberante, copiosa; É o prodígio da vida.
“ A senhora perdeu-se?”
“Não, estou a apreciar a paisagem.”
“ Ah, sim?! Já avistou a capelinha no alto daquele monte?”
“ Já”
“Mais logo haverá uma procissão, começa lá em baixo, sobe até lá acima, por aquele carreiro e depois da Celebração, voltamos a descer até à praia, os barcos esperam-nos, navegamos rente à costa e depositamos flores no mar.”
“ Celebram o quê?”
“O Senhor dos Milagres, a vida, minha senhora, e não se pasme; é fúria de viver!”
“Fúria de viver?”
“Sim, senhora, fúria de viver, esta terra admirável é nossa, herdada dos nossos antepassados, como tem uma bela vista e boa situação geográfica, querem-nos daqui para fora, para quê? Construir hotéis e outras infra-estruturas… julgam que podem tomar conta do que é nosso…”
“ Compreendo a vossa indignação”
“Então, fique por cá, seja testemunha da linda procissão que aqui se faz, eu sou um dos transportam o andor, tenho de ir, se quiser subir connosco…”
“ Subir? Não sei, parece-me demasiado íngreme e sinuoso”
“ Não tenha medo, de qualquer forma, o convite está feito, vai gostar! Boa tarde”
“Boa tarde”
O sol farto, o mar ali mesmo; frente aos meus olhos… a terra lateja, o meu coração goteja …

PN

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Alinhavo sobre o joelho



Terrorismo? Não sentir medo?! Não mostrar insegurança?! Como? Impossível! Quem envia armas para a Arábia Saudita? França e EUA ?! Combater estes grupos? Como? Começa por aí mesmo. Cortar definitivamente o comércio de armas . Ou vamos continuar a apanhar sustos valentes!Mortes e mais mortes, feridos, gente assustada, confusa e desorientada ! Façamos uma MARCHA, como aquela pelo Charlie Hebdo! Todos Unidos pela mesma Causa! É inaceitável que países atacados, voltem a ajudar os terroristas para que repitam as mesmas barbáries. É o mesmo que vender a chave da sua própria casa a um estranho perigoso!  
PN
Ilustração  do cartunista   Vasco Gargalo

sábado, 27 de maio de 2017

“Salete do céu”



Foto :NET

A chave roda na fechadura. A porta abre-se:
- Salete, minha querida Salete!
- A recém chegada baixa-se e toma o rosto da velha senhora nas mãos:
- Bom dia, D.Teresa, com paz e alegria!
Abraçam-se, Salete senta-se a seu lado e pergunta-lhe pela noite, pelo sono e depois lá ficam ambas a conferenciar, numa lógica que só as duas sabem decifrar; sorrisos, risos, gargalhadas; imensa cumplicidade.
A mais jovem levanta-se calmamente e vai preparar o banho da idosa senhora. Lá dentro, tudo igual; conversas muito divertidas.
Após o pequeno almoço, a senhora pede:
- Salete, leve-me lá fora se faz favor!
- Com certeza D. Teresa! Segure o meu braço!
Cá fora, o dia esplendoroso, o casario estendido, não rouba a visão ao cais, como pano de fundo, barcos, navios, céu e mar… a senhora idosa aperta a mão da mais jovem. Entreolham-se com extremosa simpatia:
- Nunca me deixe, Salete! Se me deixa, eu morro!
- Jamais vou abandoná-la!  é uma mãe para mim! Não se fala em morrer, diante desta beleza toda, concentre-se  na vida!
- Tem razão! a Salete é como uma filha para mim. Uma filha dedicada! Vamos regar as minhas flores?
- Com certeza, eu ajudo! - assim é, um bocadinho de água dentro do regador, Teresa vai matando a sede às rosas e azáleas que tanto estima. No fim, satisfeita da tarefa cumprida, entrega o regador nas mãos da outra mulher, que vai imediatamente colocá-lo no sítio habitual; enfrentam-se e entrelaçam-se novamente por entre risos engraçados.
- Linda manhã de sol! Rica coisa. - ergue o rosto ainda formoso, apesar da idade avançada e exclama com vivacidade: - Salete do céu!
A outra não se contém e remata, muito efusiva:
- Só a D. Teresa para me fazer rir!
De mão dada, numa dedicação amorosa, muito lentamente, entram as duas dentro de casa.

PN

sábado, 13 de maio de 2017

Alinhavo sobre o joelho






O homem de branco
 
Francisco, é o peregrino da Humildade, de Esperança, da Paz, do Amor, da Verdade, etc. 
Revela um grande apreço por aqueles que são os estigmatizados ou excluídos da sociedade; os pobres, os desempregados, os abandonados, os marginalizados, os presos, os perseguidos, os doentes…

É polémico nas intervenções ao seio da igreja; 
inovador, carismático, revolucionário, compreensivo, tolerante, inteligente …

Francisco é o homem das multidões! 



A minha admiração 
PN 
 Fotos: NET

domingo, 7 de maio de 2017

Teresa



Teresa tem os dias trocados;
os ponteiros fugiram das horas,
as datas desprenderam-se do calendário
as estações vagueiam desgovernadas
e desconhece as figuras de estado.
Teresa ficou à margem
sorriso em jardim de sol aberto
incêndio em lábios de espuma
Ora tempestade, ora tranquilidade…
Basta aquiescer
amenizar os sons desarticulados
Vocábulos exasperados, vacilantes
bêbedos, por entre lentes individuais
Teresa, assaz palradora, quando menos se espera
saltam termos imprevisíveis, numa lógica atinada,
colorida, ritmada, bem timbrada e bem humorada.
Num estalar de dedos, eis que, rebenta provocação…
e Teresa desprevenida não se contém;
Os olhos não distinguem fronteira entre bem e mal,
certo ou errado; polido ou desengonçado
Resta um embaralho amalgamado …
memória míope resvala por ali abaixo, num tropel sem refreio
sem tino, a partir cascalho, trovejando penedos;
Uma fera a cuidar das crias, com tantos receios…
Ninguém atice a sua ira! É imperioso aplacar a raiva
Não lhe mostrem que é preto o que afinal aos olhos dela, é branco;
Momentos ensombrados, momentos surreais, momentos cruciais
Teresa não encolhe a língua
acérrima devota da espontaneidade
Teresa quer apenas o doce de um abraço, um terno beijo, uma palavra quente e branda.
Teresa já tem a idade lá mais para o fim da tarde
onde o ocaso cresce dentro do quarto, desliza tecto acima e lembra o céu…
E a claridade divina abre-se compreensiva ante os olhos febrosos;
sem sombra de mentira, ou fingimento, ou brilhos adulterados
ou maquiavelismos pintados
E se alguma vez aprendeu, já esqueceu
Há quem se ofenda
com as profícua exactidão
Quem a acuse de ser astuta e intragável
aquela que atira tudo à cara; mas…;
“A sra Dra é formosa como uma rosa” ou
“ A sra está gorda como uma porca”
Teresa não segura nada, … às vezes rajadas de metralhadora
chovem em todas as direcções e ai de quem tenta
açaimar -lhe a boca…
Se porventura, alguém lhe coloca a mão no coração
Teresa rende-se, derrete-se … põe-se um luzeiro
Sensata, prudente, confiável
pertinente, humor refinado,
perspicaz
gargalhada sonora e escancarada.
Teresa aprecia as plantas, flores e árvores de fruto e cães mansos…
fachadas de prédios grandes e antigos…
Teresa, ela mesmo, é a mais linda rosa, a menina de um qualquer jardim florido
PN
7 de Maio



                           NET