sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chamamento

…na pressa…pressa….os pés têm pressa…
os sapatos…os sapatos pesados e  gangrenados
puxam o passo para o fundo, fundo, fundo….
a lama viscosa trava a passada,
o sujo resvala
os pés rolam , rolam… nos sapatos apertados de solas batidas
ai os sapatos andrajosos  atiram o esqueleto à cama
e o combalido sono serve-me um chá morno,
uma chávena abocanhada e encardida
antes mesmo dos delírios nocturnos
Quando a tampa do quarto se abre…
lá por cima, volteiam pássaros sem norte… pássaros que sondam o  mistério da morte
Meus olhos doridos e pedrados de insónia
bocejam copiosos na demora,
estafados de bater na mesma tecla; em surdina, em som esbracejado,
em  gritos brandos, em brados coléricos…,
sofrida retina, estala em fissuras crispadas de pesar
sonolência tardia… o repouso que não chega
a paz desejada… remota, sempre afastada…
Os pássaros descem, percorrem o quadro, esboçam linhas curvas
voos rasos à minha volta…
Masco a poalha amarga das visões trágicas… cenas sem remédio, irremediavelmente perdidas,
outras; luzes, de grande porte, desmedidamente cintilantes;
o doce a derreter-se na saliva … uma pequena luz bruxuleante dentro da boca…
É hora… e os pássaros… os pássaros levam o meu espírito com eles…,
eles sabem, sabem onde depositar, no lugar que perpetuamente sonhei.

(Reedição)
  
PN
  




sábado, 18 de fevereiro de 2017

Tem pertinência

"Que autoridade moral tem a Europa para criticar Trump, se tem os refugiados amontoados e espalhados em tendas, a sofrerem com a falta de tudo, a morrerem de frio e não sabemos se de fome, a suicidarem-se desesperados, a darem à luz nas condições mais desumanas, e se não fossem os voluntários, que pouco melhor vivem do que eles, (mas se querem viver num apartamento, sem nada, com uns colchõezitos no chão, onde dormem, tem de o pagar) não imaginamos como seria. Eles, estes nossos irmãos, são pessoas, porque se fossem animais, já alguém se teria levantado, para reclamar os seus direitos! Porque razão não são assistidos pelo menos com os bens essênciais, e com pessoal capacitado e pago pela UE? Há campos de refugiados, onde tudo é desenrascado, pela caridade de Pessoas com letra maiúscula que, estes sim, não levantam muros, mas constroem pontes, levando amor, carinho e serviço. Quando a água congela nos canos e estes rebentam, são os voluntários quem socorrem. Quando a energia se vai abaixo com a sobre carga, são os voluntários que concertam, etc. É a caridade humana que está a desenrascar aquilo que a UE devia fazer com os fundos europeus existentes para isso. Tanto se luta para se fazer justiça a umas coisas, e está certo, mas porque outras tão importantes tão depressa são esquecidas? Porquê que as televisões não vão fazer uma reportagem a sério para mostrar à UE e ao mundo como eles vivem?"

Encontrei por aí...