sábado, 18 de março de 2017

Coisa de “Moscas”



O asfalto inclina. A Mosca Anã reduz o andamento. Mais à frente; um largo conspurcado de latas vazias, de papéis surrados, plásticos adiposos. Puxa o freio, a máquina derrapa.Apeia-se.Aguarda-a a rainha Vareja; a do verniz estilhaçado. A Anã, antecipa apressadamente o abraço, o cumprimento não desmancha a imperturbável majestade, vaidosa imperatriz do lixo costurado, solta um grunhido displicente, o rosto incha de tão pérfida maldade. A mosquinha indignada, escancara as narinas, em tom esganiçado:” Sou sempre a má da fita, a embusteira, logo eu que me esmero tanto”. Sua alteza, torna-se sombria e desfia metálica: “Aborto mal parido, cigarro apagado, dente furado, não tomas a palavra sem antes consultar a minha!” Faúlhas de raiva a coser por dentro, o dedo em riste:”Sai daqui indigente, este lugar é meu, por sufrágio universal direto! Excomungada, coisa tirana, busca outra morada.” A Anã, em pranto se desfaz: “Não acredito que me estás a expulsar! sempre te defendi! assim pago pelo mal que não fiz!? São as outras, não vês que são as outras, que te colocam contra mim?!”.”Chega de carpir, sai daqui!”- ordena sua alteza. A mosquinha dirige-se ao carro, a Vareja fixa-a inquieta, desconfiada. Mal se ajeita no assento do volvo, liga a ignição, já distante, ri-se baixinho, gargalha e até uiva; por fim, raivosa: “Velhaca! Um dia lixo-te!”A Vareja cogita:“Vai para o diabo, o meu trono nunca o ganharás!”  
( Recriação de um poema já editado)

PN 

1 comentário:

Manuel Luis disse...

Entrei dentro da mosca por breves momentos, achei que é uma boa condutora, antevê os acidentes.
Bjs