segunda-feira, 3 de abril de 2017

Fénix purificada



O tempo que demorámos frente a frente…

um tempo só nosso!

Anos e anos a fio;

pacientemente, a puxar nós

na mais completa escuridão.

Um imbróglio sufocado em lixo tóxico,

a garganta apertada, urze áspera

Tinhas tanto para me ensinar

e eu tanto a escutar,

a minha concentração;

um tecido esponjoso

a absorver ; cada sílaba,  cada gesto

cada silêncio,cada sorriso

cada riso,cada provocação.

Ganhei asas; experimentei voos rasos e outros altos

Espantei os torpes, os deselegantes

Espantei os ambiciosos, os altivos

Espantei os covardes, os maliciosos

Espantei os intriguistas, os inimigos

Despertei iras, cobiças e ciúmes

Rasguei-me nos espinhos, piquei-me na sarça

E nesta tortura desencantada

masquei travo, vomitei azedume

Sangrei por dentro, chorei fundo e num frio leito me deitei

Baixei aos invernos e busquei salvação; tua chegada,

a mão estendida, carinhosamente compreensiva

Uma dádiva dos céus;…

ora navegando na vaga alterosa,

ora submergindo na profundidade da dor

a estrebuchar aflita e a querer respirar

E neste penoso agitar-se, contra galés invencíveis

com cordas a apertar, a sufocar as abdominais…

soltei-me das amarras!

Depois, depois falhaste, manobraste o destino da barca;

primeiro chegaram os atrasos, raramente prontidão…

Vinha sempre colada nos teus lábios sorridentes uma nota de arrependimento,

 trazias sempre uma desculpa engendrada

pronta a enfiar,

e eu mesmo a explodir, fingia que em mim não crescia uma fúria colossal

Não me quiseste dar a independência, teria de permanecer cega, de olhos

postos em ti, só em ti… Tinhas a ilusão que estaríamos uma para a outra até ao fim dos nossos dias…

Deusa, dona e senhora do meu destino, tu sabias tudo;

Panaceia dos iluminados,

queimámos etapas, ora podia ser, ora não podia ser.

farta do jogo de ilusionismo, manipulada até ao tutano,

depois de muito conjecturar, mudei de rumo.

Agora vou navegar sem ti,

não  sozinha, vou errar, vou acertar,

levo comigo tudo o que de ti aprendi!

PN 




Feliz Páscoa a todos os que me visitam! 










3 comentários:

Petrus Monte Real disse...

Pedrasnuas:

(...)"Soltei-me das amarras!" - que bela mensagem neste período pascal!
A vida é um calvário, uma via-sacra que exige uma luta permanente, bem alimentada pela chama da esperança que um dia chegará o momento da libertação!
Santa e feliz Páscoa.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Olá, soltar as amarras é como mudar o rumo do distinto ambicionado, ninguém é de ninguém.
AG

Fernanda Maria disse...

Um caminho árduo, tortuoso e solitário mas que no final te ensinou a ser livre.

Gostei muito muito deste ensaio.

Um beijinho

O Toque do coração