segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A ENTREVISTA

Pela pertinência do tema, foi uma entrevista que assisti há muito tempo, julgo que é bom lermos e reflectirmos, não era aqui, neste espaço que tencionava colocar mas não posso deixar de o fazer. 

Vamos começar com o caso Caxias que não deixou ninguém indiferente, com a morte de duas crianças:


“Eu gosto mais de pensar na miséria do que na maldade. É muito perigoso e muito grave julgarmos à priori uma coisa que não conhecemos, que não conseguimos perceber, que não temos os dados todos, nenhum de nós tem ainda hoje os dados todos e mesmo quando tivermos, provavelmente não vamos saber de facto o que se passava ou se passou naquela família.
A relação dos pais nunca foi muito saudável, não ouvimos a mãe, a mãe está detida para interrogatório e ouvimos várias coisas …vamos ter imenso cuidado sobretudo porque não é uma brincadeira, são vidas…são vidas de pessoas que passam ao nosso lado, o dia inteiro. Nós passamos todos por imensas vidas de pessoas que estão a sofrer profundamente e não imaginamos, e, muitas vezes fingimos não ver, não é? Esse é o primeiro pensamento que nós devemos ter; como é que nós estamos a olhar para as pessoas? Olhar umas para as outras, nós, cada um de nós, na nossa responsabilidade de todos os dias. O estado em geral nas suas ferramentas e nos seus instrumentos. O que é que estamos a fazer para que não se chegue a este extremo? E porque estamos a chegar a estes extremos? Essa é a grande pergunta e é o que pode ser a nossa conversa, até conversa de café, Portugal parou, toda a gente falava sobre isto…
Ficamos cegos e nós não nos podemos esquecer, digo muitas vezes isto e não me canso de dizer, o simples olhar para a outra pessoa nos olhos, devolve existência e nós fazemos questão de não ver imensas coisas, na rua, no trabalho, nos sítios onde estamos, e com o desespero que foi acumulando nos últimos anos em Portugal, existe muita gente desesperada, algumas pessoas a disfarçar muito bem, outras pessoas a não disfarçar de todo, outras pessoas a abusar e a aproveitar-se disso para se fazer de desesperado, mas nós não devemos nunca esquecer desta coisa extraordinária que é diferença de sermos humanos em relação aos outros animais, não é a inteligência, é a dignidade. É a forma como nós podemos interligar mo -nos uns aos outros, acrescentando raciocínio a isso.
Eu acredito que quando as pessoas estiverem a falar do que se passou esta semana, temos sempre que pensar em dignidade, e no outro, e não somos animais isolados, somos animais gregários e vamos ter cuidado com o julgamento… e sobretudo isto alerta-nos e há sempre coisas para aprender quando nós detectamos e já nos detectamos com vários, com dramas sociais que não nos dizem respeito, no sentido que não é ninguém que a gente conheça mas aconteceu, aconteceu aqui, aconteceu em Portugal em 2016. Então se calhar isto deve-nos servir pura e simplesmente para pormos a mão cá dentro e começarmos a pensar, o que é que eu estou a fazer em relação às pessoas que eu conheço? O que é que eu estou a fazer em relação aos ruídos que ouço? Em relação às imagens que vejo? Em relação aos outros? Não estou a perguntar à minha vizinha se aquilo que ouço é animação lá em casa ou não? Até que ponto nós nos devemos meter…intrigar ou prestar atenção? São coisas diferentes. E nós temos uma enorme dificuldade em distingui-las porque somos um povo que gosta de saber, gosta de comentar, é cusco, é curioso, mas, não podemos também ignorar. "
M.P.C.
(Cont)


1 comentário:

Fá menor disse...

Eu também prefiro pensar mais na miséria do que na maldade... e há tantas misérias à nossa volta. Mas também há maldade. Mas acho que a maldade anda mais de mãos dadas com o poder e a força, porventura em esferas mais altas da sociedade...
No final, quer da miséria quer da maldade, quem sofre as consequências são sempre os mais débeis e desprotegidos, e quem devia proteger tantas vezes se revelam como os seus carrascos.
É muito difícil avaliar situações ou meter-se... cada caso é um caso, e lidar com pessoas é muito complicado.
Mas não podemos ficar indiferentes.

Beijinhos.