Vamos começar com o caso Caxias que não deixou ninguém
indiferente, com a morte de duas crianças:
“Eu gosto mais de pensar na miséria do
que na maldade. É muito perigoso e muito grave julgarmos à priori uma coisa que
não conhecemos, que não conseguimos perceber, que não temos os dados todos,
nenhum de nós tem ainda hoje os dados todos e mesmo quando tivermos,
provavelmente não vamos saber de facto o que se passava ou se passou naquela
família.
A relação dos pais nunca foi muito
saudável, não ouvimos a mãe, a mãe está detida para interrogatório e ouvimos
várias coisas …vamos ter imenso cuidado sobretudo porque não é uma brincadeira,
são vidas…são vidas de pessoas que passam ao nosso lado, o dia inteiro. Nós
passamos todos por imensas vidas de pessoas que estão a sofrer profundamente e
não imaginamos, e, muitas vezes fingimos não ver, não é? Esse é o primeiro
pensamento que nós devemos ter; como é que nós estamos a olhar para as pessoas?
Olhar umas para as outras, nós, cada um de nós, na nossa responsabilidade de
todos os dias. O estado em geral nas suas ferramentas e nos seus instrumentos.
O que é que estamos a fazer para que não se chegue a este extremo? E porque
estamos a chegar a estes extremos? Essa é a grande pergunta e é o que pode ser
a nossa conversa, até conversa de café, Portugal parou, toda a gente falava
sobre isto…
Ficamos cegos e nós não nos podemos
esquecer, digo muitas vezes isto e não me canso de dizer, o simples olhar para
a outra pessoa nos olhos, devolve existência e nós fazemos questão de não ver
imensas coisas, na rua, no trabalho, nos sítios onde estamos, e com o desespero
que foi acumulando nos últimos anos em Portugal, existe muita gente
desesperada, algumas pessoas a disfarçar muito bem, outras pessoas a não
disfarçar de todo, outras pessoas a abusar e a aproveitar-se disso para se
fazer de desesperado, mas nós não devemos nunca esquecer desta coisa
extraordinária que é diferença de sermos humanos em relação aos outros animais,
não é a inteligência, é a dignidade. É a forma como nós podemos interligar mo
-nos uns aos outros, acrescentando raciocínio a isso.
Eu acredito que quando as pessoas
estiverem a falar do que se passou esta semana, temos sempre que pensar em
dignidade, e no outro, e não somos animais isolados, somos animais gregários e
vamos ter cuidado com o julgamento… e sobretudo isto alerta-nos e há sempre
coisas para aprender quando nós detectamos e já nos detectamos com vários, com
dramas sociais que não nos dizem respeito, no sentido que não é ninguém que a
gente conheça mas aconteceu, aconteceu aqui, aconteceu em Portugal em 2016.
Então se calhar isto deve-nos servir pura e simplesmente para pormos a mão cá
dentro e começarmos a pensar, o que é que eu estou a fazer em relação às
pessoas que eu conheço? O que é que eu estou a fazer em relação aos ruídos que
ouço? Em relação às imagens que vejo? Em relação aos outros? Não estou a
perguntar à minha vizinha se aquilo que ouço é animação lá em casa ou não? Até
que ponto nós nos devemos meter…intrigar ou prestar atenção? São coisas
diferentes. E nós temos uma enorme dificuldade em distingui-las porque somos um
povo que gosta de saber, gosta de comentar, é cusco, é curioso, mas, não
podemos também ignorar. "
M.P.C.
(Cont)
M.P.C.
(Cont)
Eu também prefiro pensar mais na miséria do que na maldade... e há tantas misérias à nossa volta. Mas também há maldade. Mas acho que a maldade anda mais de mãos dadas com o poder e a força, porventura em esferas mais altas da sociedade...
ResponderEliminarNo final, quer da miséria quer da maldade, quem sofre as consequências são sempre os mais débeis e desprotegidos, e quem devia proteger tantas vezes se revelam como os seus carrascos.
É muito difícil avaliar situações ou meter-se... cada caso é um caso, e lidar com pessoas é muito complicado.
Mas não podemos ficar indiferentes.
Beijinhos.