quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Inês, Amaro, Alice


Foi a meados de Agosto e o sol caía  a pique,
apesar do intenso calor,  o cais apinhado de gente;
gente de mão  dada, gente numa tagarelada,
gente de olhos postos no sossego das ondas.
Alguns passeavam, outros sentados em grupo, ou
solitários, um; cabeça pendida, a dormitar a sesta...
As gaivotas, desenlaçadas, soltavam ânsias de gritos
Entrou no cais, um homem alto, bem  apessoado,
 massa de  cabelo escura, densa, corte moderno.
Sem bigode, barba grisalha, fato impecável,
Óculos graduados, com armadura fina,
a equilibrar  com o formato do rosto.
Mãos  nos bolsos das calças , descontraído ...
Subitamente voltou a cabeça para o lado esquerdo:
- Inês! – chamou surpreendido.
Ela aparentava ser da mesma idade que ele;
Cabelo louro médio, às pontas, meã de altura. 
Túnica de capulana, floreada em tons quentes e calça branca de tecido mole.
Sandália e bolsa a condizer.
- Hum? É quem estou a pensar? - gracejou
- E em quem estás a pensar? - questionou rindo
- Amaro Paixão! - exclamou sorridente. 
- Em pessoa. – inclinou a cabeça numa  reverência.
Riram-se  divertidos e cumprimentaram-se delicadamente. 
- Há  quantos anos?! - acrescentou a mulher estarrecida.
- É  verdade. - aquiesceu.
- Então, que é feito de ti ? - avançou com naturalidade.
- Tanta coisa aconteceu... – proferiu  vaidoso.
- Que tens feito? - não  resistiu à  curiosidade de saber.
- Desde a última vez que trabalhamos juntos ; namorei, casei, tenho dois filhos,
fui professor,  passei por todos os cargos até  chegar a diretor- rematou triunfante
- Parabéns. Que percurso, Amaro! Realizado?
- Obrigado. Invejável, não? Realizado? Sem sombra de dúvida, a nível pessoal e profissional.
- Talhado para o sucesso! - constatou sem reservas
- Sei que sou bom profissional, quando fui avaliado, a minha nota
foi mais alta de todos os grupos da escola e a minha mulher é  igual;
excelente em História.  Os meus dois filhos têm as melhores notas
da escola, tanto ele, como ela. Muito aplicados
e os resultados estão  à  vista. Ambos receberam vários prémios.
-Isso é  ser um felizardo! - lisonjeou- Em que escola estão?
- Todos na minha! E ai de algum colega que atravesse o meu caminho!
- Que queres dizer com isso? - franziu o sobrolho
- Nós somos pais atentos, sabemos perfeitamente o que valem.
Nenhum diretor de turma ou outro colega, se atreve, sequer a baixar as notas
aos meus filhos. A minha família é sagrada, mexem com ela, mexem comigo.
  Caso contrário, uma conversinha de gabinete
e olha, desfaço qualquer  um. Em última instância, nesse ano
convido a sair e há muitas formas de o fazer...
Se insistir em regressar, vai arrepender-se amargamente!
- Tu não pensavas assim! - exclamou estupefacta
- E como é que eu pensava? - pronunciou com uma pontinha de sarcasmo.
- Discordavas da atribuição de prémios, detestavas que Encarregados de
Educação interviessem nas tuas avaliações, consideravas falta de
respeito pelo teu trabalho...
- Olha Inês, não  me recordo de nada disso! E digo-te mais, o ensino,
em certas escolas é  um autêntico  cancro, uma putrefação, cheira muito mal.
- Referes-te a todas as  escolas?
- Algumas por onde passei e a minha também.
 Entrei em funções de diretor, coloquei a casa em ordem;
é preciso pulso firme; procedi a uma desinfeção.
Conheço bem os vícios de muita gente que ali trabalha. Assumi cargos e fiquei
por dentro de toda a imundície que circulava naquele edifício.
Comigo não brincam, nem vale a pena tentar.
- Espera, referia-me ...
-Sei a que te referias e não se pode mudar de ideias?! - a tonalidade da voz irritada
- Não te parece que entregar prémios, a partir do segundo ciclo,
é  demasiado cedo? um exagero? Habitua-se mal, estudar é um dever, em casa, a mãe
quando pedir ajuda, vem sempre a contrapartida ?  Não é por isso
que os resultados são  melhores, o comportamento  uma lástima!
Era assim que também pensavas...
- Mudei, os meus filhos trabalham e esforçam-se para alcançar prémios.
Almejam, até entre eles disputam...
- Falas de competição!
- E qual o problema? O ser humano foi feito para competir e que vença o melhor.
- Não te parece que já existe muita competição…
- Porque paramos aqui?... - atalhou de repente - desapertou o nó da gravata
- De facto…podemos nos refugiar numa esplanada  - sugeriu imediatamente
- Estou com pressa e aflito com o calor... agora tenho de ir.
Ainda tens o meu contacto? Liga-me um dia destes.
Cumprimentaram-se e separaram-se rapidamente.
Ela ficou parada, e murmurou:
“Nem perguntou por mim, telefonar, para quê?
 Para continuar a ser cesto do teu lixo?
Fui muito amiga sem receber nenhuma amizade em troca.
Devia ter-me esquivado, cúmulo do egoísmo
e do oportunismo, sugado pelo sistema. Não
tarda, será  mais um escravo  acomodado.”
Após um gesto contrariado, resolveu finalmente seguir o seu caminho,
ainda perturbada  com aquela conversa, zangada e a ciciar  baixinho.
- Inês, espera! - chamou outra voz
Voltou-se e o rosto clareou.
- Alice, que prazer! - e abriu os braços
Alice; quarentona, olhos verdes, tez morena, cabelo apanhado e desgrenhado.
Uma simpatia extraordinária, alegre e divertida. Chamariz para homens e mulheres!
Muito carismática; bom gosto, moderna, desenvolta,
dava nas vistas pela beleza e requinte.
Beijaram-se desmedidamente e Alice elogiou meio a sério, meio a brincar:
- Estás bem! Muito bem! Alguma plástica?
- Já amealhei bastante, vou pensar no assunto!
Acharam graça ao assunto.
- Diz-me, Inês, continuas a dar explicações?- quis logo saber.
- Sim, continuo, porquê?
- A minha filha vai precisar! - disse séria.
- É só ligar a combinar. Tens o meu contacto…
- Com certeza, tu és uma  sortuda! Desejava poder fazer o mesmo! Estou farta de tanta
 incoerência, falta de justiça, intolerância…
- A sério?
- Sim, muita burocracia, um sistema obsoleto, caduco, a precisar de reformas
estruturais  profundas, nem as tecnologias o salvam! Remendo aqui, ali, acolá!
Na minha opinião está tudo às avessas! Todos têm consciência que já bateu no fundo
 mas alguém tem coragem para travar ou alterar alguma coisa? Não!
É no início que se mexe, quando as coisas começam a vergar.
 Não prestam atenção aos indícios! Tal como os fogos; devem ser  combatidos imediatamente
Acão rápida! Antes que se propaguem …
Ai Inês , vejo coisas, ouço coisas que é de bradar aos céus…
- Os meus explicandos também contam histórias…
 e queixam-se dos pais, dos professores, dos funcionários…. dos colegas…
os professores queixam-se do mesmo… sabes Alice, há muita falta de saúde mental,
muito mais do que se julga… e é transversal à sociedade,
 as pessoas dissimulam, mas sentem e negam. 
- Tens razão, querida, toda a razão, repara no que move os docentes;
 A prioridade; a progressão na carreira; os ordenados; o que não foi pago!
É só dinheiro? E os outros problemas? Tábua rasa!
 Os pais não colaboram, os colegas não apoiam os seus pares,
os miúdos a cada ano são mais violentos e mal educados
Não respeitam ninguém! Não querem saber da escola para nada!
Se um  professor quer se defender, a escola encobre o aluno…
O nível de atrocidades é inacreditável… e ainda aqui vamos! Se soubesse
que chegaríamos a este estado de coisas , jamais teria optado por esta profissão.
 Aos pais, interessa-lhes apenas um lugar para depositar os pequenos e as notas; que
 transitem de ano, o resto passa-lhes ao lado… Isto assemelha-se a um novelo de lã,
 cujos fios andam misturados e quanto mais se estica, pior fica, mais amarrado,
sem solução à vista!
- Arrependida?
- Muito, a sério! Vamos tomar café, esquecer este filme de terror.
Vá, agora quero saber de ti! Conta-me as tuas novidades!
Voltaram para trás, enquanto caminhavam para uma esplanada bem perto do mar, Alice
enlaçou Irene pela cintura, num abraço afável.
PN

Nota :

Com este texto poético, quis apenas levantar algum pó, problemáticas que surgem na malha ...como se vai  "costurando" o Ensino.  

Só para acrescentar que nesta altura do campeonato, os professores ainda não sabem para onde vão leccionar....

Os que já sabem, são colocados na  " terra do nunca", muito distante de casa, às vezes os respectivos cônjuges, enviados para  lugares opostos, com casas, bens e  filhos pelo meio...

Não compreendo porque razão a abertura dos concursos é tão tardia e no mês de férias; Agosto. 

Todos os anos, a abertura do ano lectivo é sempre conturbada, desastrosa, ineficaz...?!Sem a Tranquilidade necessária?! 


5 comentários:

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Estou simplesmente
encantada com seu texto.
Verdade,Verdades e VERDADES.
Adorei terminar com abraço. Bjins. CatiahoAlc.

Jaime Portela disse...

Os professores não dão apenas aulas, estão nos mais diversos cargos de direcção e gestão e até estão no ministério respectivo. Por isso, eles têm a faca e o queijo... Com isto quero dizer que a resolução de muitos dos problemas do ensino público depende em larga escala dos próprios professores. Ainda que a matéria prima (alunos) e salários não estejam ao seu alcance melhorá-los...
Excelente e oportuno texto, pleno de actualidade.
PN, um bom fim de semana.
Beijo.

Fá menor disse...

Cenas do quotidiano... encontra-se de tudo nesta vida; e o ensino parece-me que vai de mal a pior. Que sociedade anda a ser criada?

(Irene ou Inês?)

Beijinhos.

Pedrasnuas disse...

Obrigada pela chamada de atenção,Fá! não me apercebi , é Inês! Que coisa! normalmente passo tudo a pente fino... mas escapou!

Manuel Luis disse...

Desejo um excelente ano lectivo.
Bjs