terça-feira, 21 de abril de 2009

Os Revoltados

Agora carregam...
Pedras...
Paus
Picaretas
Pistolas
Espingardas...
Estão muito magoados
O coração endureceu-os
Voltaram...
ressequidos e sem perdão
Clamam vingança aos Opressores
Escutam-se gritos e lamentos!
São aos milhares...
Ninguém ouse calá-los
Trazem as mãos cheias de angustias
O sofrimento embruteceu-os
Aproximam-se velozmente
Transformaram-se em Monstros
Feras
Lobos famintos e bravios
Bradam horizonte além...
Não esquecem
QUEM OS ATRAIÇOOU!
QUEM OS HUMILHOU!
QUEM OS CONDENOU!
Das bocas abertas de fome marmorizadas
soam hinos de Fatalidade
Querem matar quem os Matou!!!
Tiveram fome
Estalaram de sede
Sentiram medo
O frio enregelou-os...
O calor insuportável
queimou-lhes as entranhas
Mas ninguém os socorreu...
NINGUÉM!!!

Publicado em 98

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A MORTE DOS PÁSSAROS

Ninguém mais do que eles podia ser Feliz no mundo...de mãos entrelaçadas bebiam o azul de cada madrugada . Rasgavam as montanhas num agitar aflito e louco de asas...a leve brisa matinal acariciava-lhes ligeiramente as penas. As bocas moviam-se num voluptuso beijo...o olhar permanentemente renovado. Cada afago , cada gesto ousado vibrava dentro deles...acendia milhares de desejos inébrios e desvairados
E eles cantavam, brincavam, gritavam e soltavam gargalhadas...dançavam valsas de alegria...
A Floresta comungava daquela agitação ...as árvores baloiçavam-se trémulas de comoção.
Eu observava-os, imóvel...e deliciava-me com toda aquela Beleza.
Porém, um fatídico cataclismo desabou sobre o pequeno paraíso... O sol caminhava alto , eles os dois desfrutavam o esplendor das água mansas e cristalinas , banhavam-se no rio...
Monstros gigantes e humanos acorrentaram-nos, um de cada vez...ninguém mais os viu na Floresta. O reino entristeceu, a felicidade murchou.
A minha alma seguiu-os, não podia abandoná-los à sua triste condição... muito menos ficar imperturbável ao destino dos fundadores da Vida na Floresta .
Foram enjaulados num sítio desterrado...cada um na sua cela. Lançavam um ao outro um olhar aflitivo, de dor e sofrimento.
A porta de uma jaula foi aberta e um deles foi deportado para longe dali.
A mão atroz e perniciosa do homem nao comprendeu o crime de separá-los.
E agora que iria acontecer? Como iriam resistir à distancia?
Ela quedou-se estática ,inerte, recusou alimentar-se...
Ele insurgiu-se contra quem lhe havia roubado, o que de mais precisoso tinha.
Sacudia violentamente as grades, atirava-se numa fúria de se ferir e sucumbir em sangue.
Gritava e o eco rouco repercutia-se no céu dos passarinhos.
Só eu soube o quanto sofreram e via-os morrer de Amor e nada podia fazer para tornar a uni-los.
Public em 99

domingo, 5 de abril de 2009

A semente da Primavera

Uma sementinha andava algures perdida num campo imenso ...
Um pássaro distraído transportou-a na penugem e fê-la aterrar num jardim exótico
"Ui" gemeu ao embater contra a terra e afundou-se...
Por ali ficou , germinou, cresceu e logo mostrou ser uma simples flor reservada.
Um dia decidiu questionar em voz alta:
- Afinal onde estou?
- No Jardim da Casa Grande - responderam-lhe em uníssono.
- Quem sois vós? - Tornou a perguntar
- Somos as flores, ora essa! - a resposta foi imediata.
Após uma breve pausa, a florzinha voltou-se para outra que se encontrava nas imediações:
- E tu, quem és?
A flor rubra emitiu um tom displicente:
-Ahn? Eu sou a papoila, a flor preferida do Dono da Casa. Este jardim está repleto de rosas, cravos, orquídeas, gilbérias, crisântemos, adálias, antúrios, tulipas, magnólias, lírios e outras espécies. Tu a qual pertences?
A flor pálida balbuciou:
- Sou uma flor silvestre...
- Uma flor silvestre?! - exclamou a papoila num esgar - nunca serás como nós. Não pertences a nenhuma linhagem. Um dia estarei num dos jarrões dos aposentos da Casa...ou com um pouco mais de sorte , no salão de baile, quanta pompa! ... imagino-me envolta na festa mágica ...
- És ambiciosa! - proferiu num ímpeto a flor silvestre.
- Sou ambiciosa e vaidosa... mas tenho razões de sobra para isso - confirmou astuciosa.
Ao anoitecer surgiu no jardim o filho do Dono da Casa.
A papoila surpreendida pronunciou em voz baixa:
- O filho do Dono...quanta honra, nunca visitou este lado do jardim...normalmente quem vem é a Alice, a copeira...querem apostar como ele repara em mim!!! - rematou com alarde
- Não me importo de ser esquecida... - declarou sincera a flor silvestre -apraz-me a vida ao ar livre, tão saudável...
O rapazito aproximou-se da papoila e baixando-se cortou-a cerce à terra.
A flor não cabia sem si de contente, nem prestou atenção à sua interlocutora.
- Que comédia hilariante - comentou trocista a flor do campo.
Algumas horas mais tarde o rapazinho descia a escadaria mármore a correr...
- Que pena ter de atirá-la fora...- comentou entre dentes - e num gesto arremessou-a para longe, deu as costas e voltou a entrar.
- És tu papoila?!
- Sim, sou eu mesma! - estava sufocada em lágrimas
- Que aconteceu? - O tom soou preocupado.
- Nada ... o rapaz é inexperiente, cortou-se e sem querer furou-me de um lado a outro...
- Dói muito? - a voz saiu embargada.
- Deixa-me em paz. Estou suja de sangue...logo eu que era tão linda terminar desta forma...
- Quando a Primavera chegar vou falar de ti...da tua beleza, da tua altivez, da tua vaidade...e as andorinhas vão espalhar a novidade aos quatro cantos do mundo.
A voz da papoila ficou rouca:
-Prometes mesmo?
-Prometo.
- Afinal é uma boa amiga...- sussurrou a papoila
Publicado em 2000

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Realidades mais atrozes

Seguro no copo com Whisky
Preguiçosamente a outra mão pelo cabelo
Aliso o bigode grisalho
Tombo sobre o sofá...
Os ponteiros do relógio
contuam a sua rota...
O corpo cansado,entorpecido
um formigueiro nervoso...
uma febre metálica
O tempo encalhado
esmorece na garganta, humedecida pela bebida.
Paixões antigas atormentam-me...
Sopro a raiva ...
Aproximo-me da vidraça
Fito a roupa branca
que ansiosa troça do meu sofrer
Mas aquela visão é alento:
A mulher vulgar do prédio
em frente ao meu...
carcomida pelo tabaco
a roupa amarrotada
amante dos vícios carnais
Sempre lavando e engomando
para fora...
precisa dar de comer
aos gaiatos ranhosos...
Os garotos trepam aos telhados
atiram pedras na rua
Torcem matreiros a cauda aos gatos raquíticos
e os bicharocos vítima das maldades
respingam veneno pelas narinas
Engalfinham-se todos ...
e ela desata aos berros
Grita o nomes deles
e como eles não a escutam
Ela praguejava
amaldiçoando a sorte.
A roupa fica por lá...a tremer.
Vejo-a
quase todas as manhãs...
Sai apressada
blasfemando...
A saia balançando
Ignora o que são números
Nao sabe assinar o nome
Nunca ouviu falar de cultura
Ninguém lhe falou de sonhos
...
Abro a vidraça e ponho a cabeça de fora
Fecho as pálpebras
provo a meiguice do vento e do sol
Sou desperto por uma voz que grita de lá de baixo
"Um bom dia"
Abro os olhos e vejo a mulherzinha magra
que acena como a roupa branca.

Publicado em 87

quarta-feira, 25 de março de 2009

PROCURA_SE UM AMANTE

Leiam só mais este por favor!!!

"Muitas pessoas têm um amante,e outras gostariam de ter um.Há também as que não têm , e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêm ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.
Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança. Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"...além da inevitável receita do anti- depressivo do momento. Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti- depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho. Há as que pensam : "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas?!"
Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam nunca mais . As que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...
Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"?
"Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicolores, afastarmo-nos do que é gratificante ,observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva. "Ir vivendo"é adiar a possibilidade de viver o hoje, fingindo contentarmo-nos com a incerteza e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contentem com "Ir vivendo."Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida...
Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:
"Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida".
Texto :Drº Jorge Bucay
Livro: " Hay que buscarse un Amante"

sexta-feira, 20 de março de 2009

"Carregar o passado" II

"A incapacidade, ou melhor,a relutância de a mente humana abandonar o passado é maravilhosamente ilustrada na história de dois monges Zen.
Tanzan e Ekido, que caminhavam ao longo de uma estrada em terra batida, que tinha ficado completamente enlameada depois de umas fortes chuvadas. Perto de uma aldeia , depararam-se com uma rapariga que queria atravessar a estrada, mas a lama era tanta que teria arruinado o quimono de seda que trazia vestido.
Tanzan prontificou-se a pegar nela ao colo e transportou-a para o outro lado.
Os monges prosseguiram o seu caminho em silêncio. Cinco horas mais tarde, quando se aproximavam do templo onde estavam instalados, Ekido não se conseguiu conter mais.
" Porque levaste aquela rapariga ao colo para o outro lado da estrada ?"
perguntou ele. " Os monges não devem fazer esse tipo de coisas."
" Eu deixei a rapariga lá há várias horas", respondeu Tanzan. "Ainda estás com ela ao colo?"
Agora imagine como seria a vida de alguém que é sempre como Ekido, incapaz de abandonar internamente as situações, ou reticente em fazê-lo, acumulando cada vez mais "tralha " dentro de si, e poderá ter uma ideia de como é a vida para a maioria das pessoas no nosso planeta. Que pesado fardo do passado carregam nas suas mentes!
O passado continua vivo dentro de nós através das memórias, mas as memórias em si não constituem um problema. Na realidade , é através delas que aprendemos com o passado e com os erros do passado. Só quando as memórias, ou seja, os pensamentos sobre o passado nos dominam por completo é que se tranformam num fardo, se tornam problemáticas e passam a fazer parte da nossa noção de identidade. A nossa personalidade, que é condicionada pelo passado, transforma-se então em prisão. As nossas memórias estão imbuídas de uma noção de identidade , e a nossa história converte-se na pessoa que julgamos ser. Este "pequeno eu" é uma ilusão que encobre a nossa verdadeira identidade, a Presença intemporal e informe.
Contudo, a nossa história não consiste apenas na memória emocional- antigas emoções que são permanentemente revividas. Como no caso do monge,que carregou o fardo do seu ressentimento durante cinco horas, alimentando-o com os seus pensamentos, a maior parte das pessoas carrega uma enorme quantidade de bagagem desnecessária, tanto mental como emocional, ao longo da sua vida. As pessoas limitam-se a si próprias através de mágoas , arrependimentos, hostilidade, culpa. O seu pensamento emocional tornou-se a sua identidade e, por isso, ficam presas às antigas emoções, visto que estas fortalecem a sua identidade.
Devido à tendência humana para perpetuar antigas emoções, quase todas as pessoas carregam no seu campo energético uma acumulação de dor emocional antiga, a que dou o nome de "corpo de dor".
Porém, podemos parar de acrescentar coisas ao corpo de dor que já possuímos. Podemos aprender a quebrar o hábito de acumular e perpetuar antigas emoções batendo as nossas asas, metaforicamente falando, e abstendo-se de viver mentalmente no passado, quer algo se tenha passado ontem ou há trinta anos. Podemos aprender a não manter as situações ou os acontecimentos vivos nas nossas mentes, mas a voltar a focar a nossa atenção continuamente no momento presente primitivo e intemporal, em vez de estarmos presos aos filmes que elaboramos mentalmente. Então,é a nossa Presença que se torna identidade, em vez dos nossos pensamentos e emoções.
Nada do que possa ter acontecido no passado nos impede de estarmos presentes agora; e se o passado não nos pode impedir de estarmos presentes agora, que poder tem ele?"

segunda-feira, 16 de março de 2009

"BATE AS TUAS ASAS"

Uma pessoa por quem eu nutro especial consideração, respeito e estima colocou-me nas mãos vários textos para eu ler e como encontrei particular interesse, resolvi partilhá-los com os Amigos Virtuais. Reflictam!!!

O pato que tinha uma mente humana

...os patos ,após uma luta, que nunca dura mais tempo , se separam e flutuam em direcções opostas. Depois,cada pato bate vigorosamente as asas algumas vezes, libertando assim a energia em execesso acumulada durante a luta. Após baterem as asas, flutuam com serenidade, como se nada tivesse acontecido.
Se o pato tivesse mente humana, ele manteria a luta acesa através do pensamento, da criação de histórias. Esta seria provavelmente a história do pato:

"Não acredito no que ele acabou de fazer. Ele esteve a dez centímetros de mim. Ele acha que é dono deste lago. Não tem consideração pela minha esfera privada . Nunca mais volto a confiar nele. Para a próxima , ele vai tentar outra coisa qualquer só para me arreliar. Tenho a certeza de que já está a preparar alguma. Mas eu não vou permitir isto. Vou dar-lhe uma lição que ele nunca há-de esquecer."

E a mente continua ininterruptamente concentrada nas suas fantasias, pensando e falando nisso passados dias ,meses ou até anos. No que diz respeito ao corpo, a luta ainda continua, e a energia gerada por ele em resposta a todos os pensamentos é a emoção , que , por sua vez, gera mais pensamentos. Isto transforma-se no pensamento emocional do ego. É fácil imaginar como a vida do pato seria problemática se ele tivesse uma mente humana. Porém, é assim que a maior parte dos seres humanos vive. As situações ou os acontecimentos nunca chegam realmente a ter um fim. A mente e a sua maquinação de "eu e a minha história" continuam a alimentá-los.
Nós somos uma espécie que se perdeu do seu caminho. Tudo o que faz parte da Natureza, todas as flores,árvores e animais têm lições importantes a ensinar-nos, se pararmos para os ver e ouvir.
A lição que o nosso pato nos deu é esta : Bate as tuas asas - o que se traduz por
"Abandona a tua história" - regressa ao único sítio do poder :
O momento presente