Uma sementinha andava algures perdida num campo imenso ...
Um pássaro distraído transportou-a na penugem e fê-la aterrar num jardim exótico
"Ui" gemeu ao embater contra a terra e afundou-se...
Por ali ficou , germinou, cresceu e logo mostrou ser uma simples flor reservada.
Um dia decidiu questionar em voz alta:
- Afinal onde estou?
- No Jardim da Casa Grande - responderam-lhe em uníssono.
- Quem sois vós? - Tornou a perguntar
- Somos as flores, ora essa! - a resposta foi imediata.
Após uma breve pausa, a florzinha voltou-se para outra que se encontrava nas imediações:
- E tu, quem és?
A flor rubra emitiu um tom displicente:
-Ahn? Eu sou a papoila, a flor preferida do Dono da Casa. Este jardim está repleto de rosas, cravos, orquídeas, gilbérias, crisântemos, adálias, antúrios, tulipas, magnólias, lírios e outras espécies. Tu a qual pertences?
A flor pálida balbuciou:
- Sou uma flor silvestre...
- Uma flor silvestre?! - exclamou a papoila num esgar - nunca serás como nós. Não pertences a nenhuma linhagem. Um dia estarei num dos jarrões dos aposentos da Casa...ou com um pouco mais de sorte , no salão de baile, quanta pompa! ... imagino-me envolta na festa mágica ...
- És ambiciosa! - proferiu num ímpeto a flor silvestre.
- Sou ambiciosa e vaidosa... mas tenho razões de sobra para isso - confirmou astuciosa.
Ao anoitecer surgiu no jardim o filho do Dono da Casa.
A papoila surpreendida pronunciou em voz baixa:
- O filho do Dono...quanta honra, nunca visitou este lado do jardim...normalmente quem vem é a Alice, a copeira...querem apostar como ele repara em mim!!! - rematou com alarde
- Não me importo de ser esquecida... - declarou sincera a flor silvestre -apraz-me a vida ao ar livre, tão saudável...
O rapazito aproximou-se da papoila e baixando-se cortou-a cerce à terra.
A flor não cabia sem si de contente, nem prestou atenção à sua interlocutora.
- Que comédia hilariante - comentou trocista a flor do campo.
Algumas horas mais tarde o rapazinho descia a escadaria mármore a correr...
- Que pena ter de atirá-la fora...- comentou entre dentes - e num gesto arremessou-a para longe, deu as costas e voltou a entrar.
- És tu papoila?!
- Sim, sou eu mesma! - estava sufocada em lágrimas
- Que aconteceu? - O tom soou preocupado.
- Nada ... o rapaz é inexperiente, cortou-se e sem querer furou-me de um lado a outro...
- Dói muito? - a voz saiu embargada.
- Deixa-me em paz. Estou suja de sangue...logo eu que era tão linda terminar desta forma...
- Quando a Primavera chegar vou falar de ti...da tua beleza, da tua altivez, da tua vaidade...e as andorinhas vão espalhar a novidade aos quatro cantos do mundo.
A voz da papoila ficou rouca:
-Prometes mesmo?
-Prometo.
- Afinal é uma boa amiga...- sussurrou a papoila
Publicado em 2000