Prova de amor em tempo de Natal
Já há algum tempo que os grandes olhos do maroto fixavam a vitrina. Ninguém prestara atenção à criança ali parada, empedernida. Do lado de dentro da loja, a menina de olhos negros sorria-lhe e o garoto de pupilas dilatadas esticou-se e pôs-se em bicos de pés para observá-la melhor.
Piscou os olhos e soprou num assobio matreiro, mordendo com força o lábio inferior.
- Ah…Linda boneca! Gostava tanto de poder brincar com ela…- atraíam-no os cachos de caracóis emoldurando o rosto trigueiro tornando-a praticamente real. Se ele pudesse tocá-la…ainda hesitou antes de entrar. Respirou fundo, encheu o peito de coragem e com um ar destemido de cavaleiro arrojado, colocou-se à socapa junto da boneca e acariciou-a timidamente. Viu o preço afixado mas ainda não conseguia descodificar a importância, embora tivesse aprendido na escola.
Amava profundamente a dança, por isso corria muito, trepava muros, saltava por cima dos bancos…os pés ganhavam asas e ele voava como os pássaros. Era um rapazinho sensível e inteligente. Sonhava com o dia em que iria pisar um palco e ser aplaudido por multidões de fãs. Quando bailava sentia-se livre como ninguém… Livre de preconceitos, livre de livros maçudos que a mãe obrigava-o a ler, dos números intermináveis, mesquinhos e das palavras agudas e esdrúxulas …livre da escola que o amarrava a uma mesa quase todo o dia. Era no ar, quando bebia aquela sensação de paz infinita, inigualável e de entrega absoluta à natureza que o seu coração irrompia de regozijo e satisfação.
- Oh miúdo, que fazes aí?- questionou o empregado da loja.
O rapaz ficou mudo, quieto e tenso. Então o empregado continuou:
- Que queres daí? Uma boneca?! Isso é para meninas. Vai atrás da bola … isso é que é para homens…
- Que preconceito o seu! – comentou um homem alto que acabara de entrar .
- Não é preconceito senhor… sempre ouvi dizer que as bonecas são para as meninas e a bola para os rapazes, é como as cores…
- Que quer dizer?
- Azul para homem, cor-de-rosa para senhoras.
- O seu mundo é muito limitado, para si resolve tudo com duas cores e simplifica tudo.
- Não sou o único…
- Pois, mas sabe, eu faço a diferença… uso várias cores no vestuário e não me importo com o que possam pensar.
- O senhor é que sabe…eu ainda sou à antiga como meu pai e meu avô, eles ensinaram-me assim e é assim que eu sou.
- Com certeza, faça-me o favor de embrulhar a boneca. - pediu o cliente.
- É para dar de presente à sua filha?
- Não, é para o menino, eu não tenho filhas, tinha um rapaz por certo muito parecido com aquele.
- Tinha, já não tem?!
- Morreu o ano passado no Natal.
- Lamento, deve ter sido duro…
- Uma tragédia… depois disso passei a contemplar a vida com outras lentes…
- Olhe, aqui tem a sua boneca.
O homem alto, recebeu o pacote, pagou-o, virou-se devagar para o menino, inclinou-se, olhou-o nos olhos com profundidade e carinho e indagou:
- Querias a boneca, não querias?
- Sim, queria…
O empregado que ficara a presenciar a cena acrescentou para o menino:
-Oh, miúdo dá essa boneca à tua irmã…
- Eu sou sozinho, não tenho irmãs.
- Então entrega a uma prima, dá-lhe de prenda.
- Não, esta boneca é para eu fazer de conta que é minha irmã.
- Não tens amigos?
- Tenho mas é diferente…
- Alegra-te meu rapaz, toma a tua prenda e vai brincar. – acrescentou o homem alto.
O garoto segurou no embrulho e precipitou-se para a saída.
-Ei, oh, miúdo, agradece ao senhor! – lembrou o empregado.
- Obrigado - balbuciou apressado.
O garoto, à saída voltou-se para trás, contraiu os lábios e subitamente os olhos ficaram mais brilhantes e húmidos.
Ajeitou a boina para dissimular a vergonha que sentia e correu num alvoroço avenida abaixo com o pacote na mão.
Lá ao fundo, antes de virar a esquina, retrocedeu e alegremente acenou ao homem alto que continuava à porta da loja.
Pedras nuas Dezembro de 91
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