quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O fel dos últimos dias

Estou próxima do céu...
Os meus olhos...ai os meus olhos
Não te vejas neles
mas através deles
talvez possas saber de mim...
Sentada na cadeira de balanço
na antiga casa, velha e bela...
por ser de minha mãe
resolvi morar nela...
Lugar do meu aconchego
colo quente, distante...
distante da avó
Hoje só mordo lembranças de pó
A casa antiga ladeada de jardins
nuvens verdes
nuvens azuis...
fustigada pelo vento
no sopro do clarim...
Uma vida cheia de traça
silêncios absurdos
murmúrios e baça...
O sol morno na vidraça
e nós filhos da desgraça
Filhos dos desgostos e desencantos
das alegrias mofas
e dos prantos
O medo...o medo
das horas
das bebedeiras
e dos espantos...
Tive pavores, senti horrores...febre
e a doença que levou meu irmão
A meu pai deu-lhe a corda
para se enforcar nela...
Nesta casa antiga e bela...
aconteceram coisas ...
que não ouso contar seja a quem for...
mas é nela que me vou acabar
O último suspiro hei-de dar...
como seria de supor
O balcão de pedra
onde me ia debruçar
a ver a água límpida passar
As janelas sempre abertas
à espera do frio e do sol...
em Invernos que tudo gela e encolhe
O vento zunia e a minha cabeça aturdia
Toda a noite
o desgarrado gemia...
e eu...de olhos bem abertos
apenas ouvia
e fechar os cílios não podia
E a noite cheia de olhos
faróis acesos para mim
astros escuros, temíveis
sem fim...
Eu via o tédio
sobretudo o tédio dos gestos repetidos
sempre iguais...
aos do dia anterior
e aos que haviam de vir...
Vi o ódio a borbulhar
a tortura arruinar
o rancor se fazer notar
Ai que vida mal fadada...
que as dívidas arrastam para a lama
sem deixar rigorosamente nada...
E a falta de honra?
ai... quase todos contaminados...
Meu Deus...
Minha mãe doente e sem ajuda
um lar sem lareira acesa...
e reis em palácios
quanta gente rica!!!
Meu pai um trabalhador...
um escravo sem férias e mal pago
Quanta injustiça
Quanta miséria
Quanta dor
Um homem mal pago
sem nome e gago...
Quanto suor sem proveito
e na casa do patrão taças
a transbordar em gritos de espuma
Ai ...quantas cabeças loucas
no manicómio desta casa...
e nós, sozinhos, por conta da tempestade
Olhos...que me dais a ver?!
as insónias de uma noite de remorsos e culpa
Meus olhos fizeram-se Outonais
misteriosas luzes
mais tristes que as noites
mais fundos que poços
fontes secas de lua cheia
Oh, velas do perdão...
candeias de graça
pelo mar adentro
eu entro descalça...
Não, não é preciso o faroleiro dos navegantes
janelas abertas de um rosto
Já é tarde...para as claridades de Agosto
Luas de estio
Luas brancas, opacas, de veludo
em que o brilho é tudo...
O branco véu de noiva
Quis ter olhos tranquilos
serenos, bonitos...
mas cedo fiquei
sem pai
sem mãe
sem irmãos
sem filhos
Agora...
olhos piedosos a orar Avé Marias
Só as mãos estendidas e frias...
Olhos de Inverno na noite a relampejar
arrepiantes...
à espera de outra noite deixam-se ficar...
Subordinado ao tema da Velhice

sábado, 30 de janeiro de 2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

domingo, 17 de janeiro de 2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Satã e a Vaidade

Descansa em seu espaldar precioso
a mão fina de plumas cintilantes
Bela, fogosa...
a vaidade exibe as pedras mais graciosas...
'
Desta forma, a deliciosa senhora
provoca um enorme prazer
nos incautos jovens que a desejam ter
'
É noite, lua cheia, o céu estende-se de glória
No inferno Satã chifrudo grita vitória
'
Os bonitões inclinados sobre o majestoso véu
recordam as festas passadas
....
O calor dos tesões
O viço das orgias
A força dos orgasmos
E das posições....
'
A vaidade é opulenta
mas ostenta certa mágoa...
falta-lhe a conquista que o peito abrasa....
'
É noite, lua cheia, o céu estende-se de glória
No inferno, satã chifrudo mira-se ao espelho...
e tem uma ideia sem demora...
'
Levado pelo entusiasmo...
enverga uma armadura cintilante
ousa descer ao salão nobre do pecado
e sussurrar ao ouvido da vaidade
muitos galanteios ...
o seu amor chamejante...
'
O sol fulgurante inveja
a figura deslumbrante e tinasda de Satã.
Mais brilhante que a sua
mais pujante que a lua
'
No auge da sedução,Satã matreiro
arranca à sua guitarra
os mais estranhos acordes...
os mais embevecidos
loucos, roucos
dignos de um apaixonado guerreiro...
'
Os olhos penetram a seda
das varetas
do leque plumoso
E canta numa voz de mil matizes
num riso fascinante e libidinoso
'
Os cabelos compridos aos caracóis
escuros e sedosos
o olhar claro e malicioso...
'
A vaidade totalmente rendida
escorrega nos meandros
da sua majestade que a toma como perdida
'
Certo é que, a um toque de Satã
sente a senhora um estranho ardor...
Ofegante e aflita com o súbito calor
solicita rapidamente um objecto para se ver...
'
Satã o seu espelho entrega...
desvairada, a senhora estremece e não quer crer....
ao descobrir um rosto medonho
Desconhecido
fenecido
deformado
uma fera
um animal?!
'
Satã , abjecto e asqueroso, retira-se nas sombras
os jovens que se tinham apartado
vêm agora secar-lhe as lágrimas
com piedosas mentiras
e apaziguar a sua aflição
'
A vaidade desesperada ordena que trocem de satã:
as gargalhadas saltam à rua
e todos se riem
cantam
bailam
festejam
a terrível maldição
Satã ...perde o espelho
o feitiço quebrou
para mal do seu coração...
'
Em altos brados, a vaidade grita por ele...
Pede-lhe com ternura que lhe devolva
o que mais amou...
'
Os jovens galanteadores abandonam
o salão da beleza promíscua
Ali finou-se o vício da devoção
'
Resta uma certeza
prostrada a vaidade perde o seu falso idílio
e chora naquele que será o seu exílio
'
É noite, lua cheia, o céu estende-se de glória
No inferno Satã chifrudo fica
mudo e sem vitória