segunda-feira, 18 de junho de 2012

E ainda mais um pouco...


A avó de Vitória adoeceu gravemente. O facto perturbou-a. A tia Júlia contou-lhe que um bicho lhe carcomera o útero. Ela, na sua ingenuidade de rapariguinha de oito anos, imaginou um bicharoco cheio de pêlo, com uns dentes aguçados devorando o interior da pobre velhinha. Para ela era insuportável supor tamanha barbárie. A enfermidade atirou a avó à cama e Vitória deliciou-se com o pedido da velha senhora , em querer que a neta lhe  lavasse os pés diariamente. O ritual provocou-lhe imenso deleite. Ela baixava-se mansamente, tal como Cristo fez com os discípulos, acariciava a pele macia e branca da avó.
Uma manhã solicitara uma ida ao jardim, calculava que pudesse ser a derradeira. Haviam-na sentado num cadeirão de vime enquanto a Bíblia repousava sobre o seu regaço. A neta aproximou-se e aninhou-se a seus pés.
- A avó está a ler a Bíblia?
- Não estou a ler, Vitória.
- Hum?
- Agora é tempo de oração.
            A neta tentou erguer-se, respeitando a meditação da avó. Todavia, a velha senhora impediu-a com gestos calmos.
- Fica quietinha aqui. Não estás bem comigo?
- Estou sim senhora.
            Enquanto os dedos trémulos da idosa percorreram a cabeça da neta interrogou:
- Como vais com a tua amiguinha, Helena?
- Nem lhe sei responder…
- Porque dizes isso? - quis saber a avó.
- Vemo-nos às escondidas.
- Já tinha percebido, de qualquer forma quando estiveres com ela procura esquecer os desaguisados entre as famílias.
- A minha mãe não gosta nada daquela gente.
- Isso é a tua mãe, não és tu. Não gostas dela?
- Gosto, mas… – manifestou-se vacilante.
- De que te queixas?
- Ela é muito vaidosa e convencida…
- Vitória cospe para cima e vê se não te cai na cara! - propôs a avó.
            A rapariga obedeceu imediatamente e cuspiu depois comentou:
- Avó, a saliva caiu-me na cara. Porque me aconselhou a fazer isto?
- É mais fácil criticar os outros do que olhar para nós! Um dia entenderás bem melhor que hoje. Anda, volta para aqui.
            A pequena obedeceu.
- E se por acaso essa rapariga te incomoda com os seus defeitos, não te encontres com ela. Assim deixas de  te  lamuriar.
Entretanto uma mulher aproximou-se delas:
- O que é que essa pequena faz aqui? – interrogou enervada.

sábado, 12 de maio de 2012

Apeteceu-me continuar...


Não tinham  notado a sua ausência; nem a mãe, nem a avó.
No dia seguinte apeteceu-lhe fazer o mesmo, no entanto, precisava de um tempo para se recompor.
Volvidos alguns dias preparou-se para a fuga e pulou de novo o muro. Os batimentos cardíacos haviam moderado. De qualquer forma um aperto tomou conta dela, asfixiando-a. Notou que desta vez as mãos tremeram. Assim não valia a pena. Circundou rente ao muro, olhou à socapa para todos os lados quando deu de caras com a mesma menina. De repente parou e encheu-se de vergonha pelo seu comportamento indigno. Abeirou-se da outra até tocá-la. Ficaram quietas, caladas, mirando-se mutuamente. A outra criança levantou o braço e tocou o rosto de Vitória. Um sorriso iluminou-lhe os traços sombrios por aquele afago. Em dívida, retribuiu o gesto. Riram-se ambas de acanhamento. Ela antecipou-se:
- O meu nome é Vitória. E o teu qual é?
- Helena. 


Quando se isolou nas brincadeiras ouviu uma voz distante, longínqua, que a despertou num sopro pálido de vento. Refém daquele sossego entorpecedor não atendeu ao chamamento, até que a voz ganhou força e se aproximou. Então ela, num repelão, sacudiu-se, endireitou-se e correu na direcção de um vulto negro que se moveu ao seu encontro.
E era sempre assim, a senhora idosa, trajando luto, segurava-a pela mão, num passo miúdo e periclitante conduzia-a aos seus aposentos. A voz cansada, lembrou a Vitória que faltava pouco para chover e mostrou  com o indicador, através da vidraça da porta atarracada, as nuvens ameaçadoras que galgavam matreiras a abóbada celeste. Acomodou-se na sua cadeira e a neta aninhou-se a seus pés. Colocou os óculos pequenos e redondos endireitando-os por cima do nariz. Abriu o livro pequenino e rompeu numa voz calma e rouca. A leitura narrava a vida de Cristo. Descrevia os milagres e os discursos apoteóticos que atraíram multidões. Quando a avó enunciou as profecias e se referiu ao fogo do inferno, Vitória arrepiou-se e imaginou as chamas a crepitarem lambendo a carne pecaminosa. A entoação subiu quando relatou as ofensas de Maria Madalena, a prostituta arrependida, a meretriz, aquela a quem Jesus, na sua infinita bondade, terá esconjurado Lúcifer. Realçou os papéis de destaque das outras mulheres na vida do Criador. A voz da avó adocicou quando descreveu a Virgem Maria, a essência da pureza imaculada, um estado de alma impossível de alcançar. Vitória aconchegou-se mais às suas saias, buscando protecção e chegou-lhe às narinas o odor suave do avental fresco.
O Inverno entrava em palco, ante o olhar inquieto e contemplativo de ambas. As duas testemunhavam de perto, através da vidraça, a presença demoníaca do vento fustigando o jardim, enlouquecendo os ramos, balançando os cabelos esfiapados dos arbustos. As árvores que outrora presenteavam a casa antiga de frutos, agora agitavam-se embriagadas e estéreis.
Vitória questionou a avó acerca da direcção que o temporal seguia, começou a impacientar-se, a chuva oblíqua não cessou e os reflexos dos coriscos iluminaram a casa toda e assustaram-na.
A Invernia rigorosa chicoteou tudo à sua passagem, afundou a vida num lençol de água. A terra agradeceu e saciou, por inteiro, a sua sede. O sol caprichoso de Verão havia invadido um parco Outono e insistira em ficar por ali durante mais tempo que alguém tivera memória.
Regularmente a avó abria as portas da sua casa e sentava à mesa todos os mendigos sem favoritismo. Ali, nunca faltara alimento aos que o procuravam.
De todos os pobres, a pequena sentia particular interesse pela muda e tentava decifrar o que ela lhe transmitia por gestos, no entanto, não sabia lê-los. Era uma pobre que trazia um grande volume debaixo de um braço e no outro, uma vara, à qual se apoiava para andar. Usava lenço a cobrir o cabelo cinzento, a roupa comprida camuflava o corpo que se adivinhava ser esquelético e um rosto escuro cavado pelas intempéries e pela fome. 
A avó sentava-se com ela à mesa e ia interpretando os seus gestos enquanto a pobre saciava a miséria que a roía por dentro. Depois riam, despediam-se e na semana seguinte lá vinha ela de novo.Tornara-se um ritual assistir à entrada e saída de pobres. Qualquer mendigo tinha direito a uma refeição, a palavras de conforto e afecto e ainda levavam algo, que tanto podia ser roupa ou comida.
A generosidade da velha senhora difundira-se de tal forma que adquirira o cognome de santa.
            A Primavera havia trazido o despertar de sonhos adormecidos e inimagináveis. As paisagens gotejando a verde e rouxinóis suspensos da lua cantando às gentes estranhas e a viajantes esquecidos em viagens infindáveis e misteriosas.
            Agora esmorecera fruto de uma síncope, por isso, o Verão se antecipou ensaiando os primeiros passos de dança. A luz rompeu madrugadas adentro prolongando os dias, tornando-os mais preguiçosos e lentos e as noites aprazíveis.

Nota: Peço desculpa pelas incorrecções 

domingo, 15 de abril de 2012

Apeteceu-me partilhar ...:)


Vitória cerrou as pálpebras e percorreu o jardim da sua meninice. Os dedos tacteando as pétalas sedosas das flores e os troncos encarquilhados das árvores. Inspirou os aromas e mexeu os lábios saboreando-os. Abriu os braços e rodopiou, as pregas da saia curta abriram-se formando uma corola. A natureza pulsou, trespassando o corpo ainda franzino como se de um vitral se tratasse. A miscelânea de verdes, castanhos, amarelos invadiu-a e provocou-lhe vertigens. Embriagada pela voracidade do redemoinho, cambaleou estonteada com tanto brilho e cor resvalando para o chão. E assim ficou toda colada à terra, numa reciprocidade quase perfeita. Os olhos abertos esgazeados, apontados ao céu. O coração frenético arremessado a alta velocidade. Deixou-se afundar na terra molhada e fofa submergindo lentamente. As brincadeiras da garota não ultrapassavam os muros altos do jardim, temeu os castigos da mãe e respeitou os conselhos da tia.
No entanto, a curiosidade por novas brincadeiras levou-a a trepar as árvores e espreitar para o lado de fora. Depois cresceu uma vontade insuportável de saltar o muro, ela resistiu ao sabor da aventura e voltou a casa imensamente frustrada. Já fatigada por tantas tentativas goradas, um dia resolveu pôr termo aos receios. Subiu a árvore como sempre e pela primeira vez colocou o pé sobre o muro. A emoção vibrou de tal forma que a fez arrepender do passo dado, receava que o coração estilhaçasse e morresse de forma trágica, sentiu pena da avó, o desgosto matá-la-ia com certeza. Mas atreveu-se e finalmente escorregou para o exterior. Agora não sabia o que fazer, o pânico aturdiu-a. Reconheceu aquele lado da rua, já o tinha atravessado com a mãe e a tia. Julgou que a sensação de liberdade fosse outra. Aquela impressão não lhe agradou. Principiou a escalada quando subitamente uma menina se aproximou para espiá-la. Surpreendida desistiu de subir e acercou-se da outra criança. Questionou-a sobre a sua presença ali e não obteve resposta. Vitória pensou que aquele silêncio poderia ser sinónimo de conspiração. Começou a impacientar-se. Ameaçou agredi-la se abrisse a boca. De nada lhe valeram as injúrias maldosas. Vitória achou-se demasiado ansiosa e descontrolada. Por fim, a outra afastou-se e ela galgou o muro de regresso a casa.

(Excerto do romance a publicar)
Nota explicativa :(Peço imensa desculpa pelas incorreções, pois a versão colocada não é a final) Grata pela compreensão.
P.N.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Desafio de Rosa Maria


Poema :" Perguntei ao Amor "de Rosa Maria
Voz e arranjo de Pedras Nuas
Feliz Páscoa a todos os Amigos

quarta-feira, 14 de março de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Bicadas da minha pena

Crónica do Tempo que Passa…

Um caso da vida Real

Mariana e Lucrécia travaram amizade num jantar. Simpatizaram logo uma com a outra e tornaram-se amigas, apesar de uma viver mais a norte e a outra mais a sul, mantiveram os respectivos contactos e foram trocando impressões ao telemóvel. Já a amizade ia quase nos píncaros, quando surgiram as primeiras discussões sérias. Todavia, procuraram gerir sempre os desaguisados de forma sensata e equilibrada. Até que os conflitos tornaram-se mais frequentes e a relação de amizade começou a oscilar. Um dia Lucrécia confessou-lhe abertamente que sofria de uma depressão, bebia compulsivamente desde há imenso tempo. E para agravar a situação ficara desempregada. Mariana incentivou-a a buscar ajuda. Lucrécia, mostrou-se corajosa e capaz de vencer o problema sozinha. Durante um período de tempo as duas mulheres haviam encontrado um ponto confortável e a amizade conheceu dias de melhoria. Até que, Lucrécia anunciou feliz: “ Hoje não bebi uma gota de álcool “ A outra regozijou-se com o facto. E a cada dia, durante uma semana, assinalou a efeméride contando a Mariana. Passou um mês, dois e nada de álcool, tudo apontava para um franco progresso. A certa altura Mariana decidiu visitar a cidade da amiga e esta animada com a notícia ofereceu-lhe estadia e lá foi com a namorada da prima esperar Mariana à estação. Esta conheceu Luísa, e feitas as apresentações, o automóvel arrancou rumo a casa de Lucrécia. Mariana, sentiu-se contente e satisfeita. Foi apenas o tempo de se instalar num dos quartos vagos; abrir a mala e colocar os seus pertences por perto, ali mesmo no chão…. Logo, uma chamada. Era Genoveva; a loira que ela conhecera num chat de conversação, parecera-lhe uma mulher interessante, inteligente, honesta, trabalhadora, dotada de bom fraseado, meiga, afável… já tinham trocado fotografias e sentiam a natural curiosidade de se verem cara a cara. Então, após oito dias de diálogo produtivo, haviam combinado um jantar. Lucrécia e Luísa empolgaram-se com a nova amizade de Mariana e prometeram levá-la ao sítio combinado. Andaram à procura da rua certa e finalmente encontraram a tal loira. Pararam, sorriam e cumprimentaram-se cordialmente. Lucrécia e Luísa retiraram-se, viriam mais tarde; a sós, Mariana e Genoveva numa cumplicidade de sorrisos, contentamento, alegria… radiantes. Os diálogos muito produtivos. O telemóvel de Mariana tocou de novo. Mais amigas vinham para o jantar; Eduarda e Catarina. Uma hora depois, Genoveva colocou-se ao telemóvel a dar coordenadas    às amigas de Mariana, a fim de que pudessem juntar-se a elas. E, meia hora mais tarde entraram as duas no restaurante; Eduarda, muito barulhenta lançou-se nos braços de Mariana, demonstrando claramente o quanto era bom revê-la. Catarina, mais comedida, depositou-lhe dois beijos estaladiços nas faces, também evidenciou que o reencontro era um prazer para ela. Depois de saudarem Genoveva sentaram-se à mesa e solicitaram o cardápio, com algum alarido pediram os pratos e a conversa prosseguiu animada até tarde. Terminada a refeição, a cavaqueira estar a esgotar-se e o lugar ter perdido o interesse, as quatro mulheres dispuseram-se a ir a um bar de uma rua muito movimentada. Nessa altura chegaram Lucrécia e Luísa. Havia muito ruído e mal se conseguiam fazer ouvir. O empregado serviu as bebidas, o ambiente foi se tornando mais acalorado; a vozearia subiu de tom, as gargalhadas aumentaram e a boa disposição. O tema da conversa girava em torno dos tempos complicados, da vida social e política….até que Mariana recostou-se no sofá para descansar e foi nessa altura que olhou mais pausadamente os olhos da loira Genoveva. Sorriram uma para a outra e Mariana arriscou colocar a sua mão sobre a mão da outra. E recolheu um outro sorriso encantado… Nenhuma das outras mulheres ousou arriscar palavra. O diálogo continuou profícuo e aprazível, Mariana desviou a atenção para a sua mais recente amizade. Os dedos da mão esquerda de mariana acariciavam  os dedos da mão direita  de Genoveva e vice versa. Nem uma nem outra pronunciaram qualquer sílaba …apenas as mãos dadas e os dedos quentes a roçarem-se…Mariana tinha esquecido literalmente que se encontravam num lugar público, Genoveva tinha feito o mesmo. Lançaram olhares muito sedutores uma à outra. Ninguém se manifestou a não ser Eduarda, que esgazeou  muito os olhos numa atitude repreensiva . Nessa ocasião a loira ergueu-se e foi  pedir mais bebidas. “ Qual o problema?” , argumentou  Mariana enfrentando Eduarda que continuava irritada.  “ Nenhum” respondeu prontamente “ Não sabia de nada…não me contaste…e vai com calma para não te desapontares” aconselhou sabiamente. As outras mulheres manifestaram-se com sorrisos de aprovação. Entretanto, Genoveva regressara à mesa, e a “brincadeira” das mãos continuou… Algum tempo depois, alguém se lembrou que estava na hora de se irem embora. Quando saíram do bar encontraram na rua uma noite bem fria, quase gélida. Genoveva, despediu-se apressada, necessitava apanhar um táxi. Então mariana prontificou-se a acompanhá-la até o sítio onde poderiam encontrar um e distanciou-se das outras. Saudou naturalmente Genoveva e voltou a reunir-se ao grupo. Quando se aproximou recebeu elogios, gracejaram com aquele breve “namorico” , imaginaram que Mariana iria passar a noite com a outra, porém, ela  alegou não ter qualquer urgência, haveria de encontrar tempo para conquistar a loira Genoveva. Entrou na viatura de Lucrécia, à frente do lado direito a prima Luísa. Mesmo atrás o veículo de Eduarda com Catarina ao lado. Quando se aproximaram de uma encruzilhada, Lucrécia e Eduarda pararam os respectivos carros e foi a hora de se despedirem. Depois arrancaram de novo, cada uma para seu lado, Eduarda ainda levava Catarina a casa. As três mulheres prepararam-se para dormir. Luísa, no quarto de Lucrécia, e Mariana no sofá cama da sala. Esta ainda teve tempo para enviar uma mensagem a Genoveva, querendo saber se tinha chegado bem, pelo que a outra respondeu que sim. Mariana ainda arriscou uma mensagem ligeiramente mais emotiva mas não houve troca. Na manhã do dia seguinte Mariana resolveu tomar  o pequeno almoço fora, na companhia de Luísa, pois no frigorifico de Lucrécia não havia nada que pudesse ser digerido ou bebível. Ficaram numa longa prosa, acerca do namoro de Luísa com a prima de Lucrécia. Aquilo era mesmo paixão a sério. A outra encontrava-se a estudar e a trabalhar no estrangeiro e Luísa permanecia irredutível e determinada a reunir-se à namorada vinte anos mais velha que ela. Lucrécia que já tinha ido ao ginásio apareceu no café. Logo de seguida deixou a namorada da prima algures perto de casa e levou Mariana à cidade de Genoveva. Quando chegaram, Lucrécia procurou logo um sítio para estacionar e posteriormente aguardaram num pequeno café que Genoveva chegasse. Lucrécia parecia tão entusiasmada como Mariana. Adiantou que ia deixar as duas à vontade e ia até aos sítios do costume, para ela seria indiferente. Três a quatro minutos depois ali estava ela muito bem vestida… num linguajar extremamente cantado. Lucrécia questionou-a logo se ela não gostaria de passear a sós com Mariana. Genoveva respondeu que para ela era indiferente. A alegria de Mariana murchou-lhe ligeiramente os lábios. Caminharam ao longo da praia, e, Genoveva de cigarro na boca, empolgou-se com a prosa de Lucrécia e deixou mariana para trás. As duas mulheres foram caminhando e só um tempo depois se lembraram da outra. Mariana andava de telemóvel a fotografar texturas. Aguardaram por ela, sem contudo, lhe prestarem muita atenção. Mariana aproximou-se e dirigiram-se a um restaurante  ali mesmo, rente ao mar e instalaram-se na esplanada ao ar livre e no calor abrasivo do sol. Genoveva continuou a fumar e Lucrécia começou a pedir cervejas. Entretanto Mariana, pôs-se a brincar com  a bota de Genoveva e a roçar com os dedos na perna esquerda. A outra sorria mas sem muita vida. Falaram sobre diversos temas e a meio da tarde resolveram voltar a caminhar pela praia. Numa determinada ocasião, Lucrécia foi de encontro ao mar, Mariana aproveitou para abraçar Genoveva, colou-se nas costas e apertou-a ligeiramente pela cintura. A outra não reagiu, Mariana desconfiada com aquela atitude abriu e braços e interpelou-a directamente: “ Estou a incomodar?”. Genoveva após uma baforada de fumo: “ Não estás a incomodar, é que o meu coração não bate como eu pensaria…” Mariana, esfriou de repente. A outra aproximou-se e ainda acrescentou: “ Ninguém manda no coração, entendes?” Mariana  adiantou: “ Está certo, compreendo, não acontece, não acontece…ora essa.” ;“Genoveva ainda disse: “ Podemos ser amigas , eu simpatizo imenso contigo”;”Pois podemos.” Mariana resignou-se sem nenhuma inspiração. Logo de seguida foram a um bar que Lucrécia conhecia. Mariana estava desanimada e Lucrécia que não sabia de nada, olhava-a intrigada. Lancharam e erguendo-se de repente Mariana pediu a Lucrécia: “ Vamos embora para casa , sim?”depois  encaminhou-se para dentro e pediu a conta . Entretanto Lucrécia também veio ter com ela e quis saber: “ mas afinal que aconteceu entre vocês, estava tudo bem”. “ Ela diz que o coração dela não bate por mim e não me apetece ficar mais aqui”; “Ah, por isso …ela falou para eu vir ter contigo que  não estavas bem…“ Ó pá, que chatice!” – retorquiu Lucrécia. “ Tens a certeza que queres ir embora?”; “Tenho sim” ; “Então primeiro vamos deixá-la em casa?” ; “ Sim. “ Genoveva, ergueu-se e as três caminharam em silêncio até ao carro de Lucrécia. Subiram e o automóvel arrancou. Por entre curvas e mais curvas lá chegaram ao apartamento da loira. Despediram-se sem nenhum ânimo. Ficou a promessa de um novo encontro quando as outras duas se encontrassem ali. “ Agora quero ir para casa.” declarou  Mariana; “Mas nem pensar, é cedo…e tu ficaste triste, precisas é de te divertir!”- rematou Lucrécia decidida e continuou : “ Deixa de ser parva, não quero lamúrias, nem lágrimas…porque para já mal conheces a gaja…e já pareces um cachorrinho abandonado…”; “ Eu não lido bem com as rejeições, é só isso”- justificou a outra; “E o que é que isso quer dizer?” ; “ Quer dizer que sofri muitas rejeições … e esta rejeição é mais uma…o que me dói vem do passado” ; “ Compreendo mas quero distância de gente deprimida…” E sem mais delongas depois de percorrer estradas e ruas desconhecidas imobilizou a viatura num sítio estranho, numa rua antiga  e estreita. “Vamos!” . Mariana apeou-se  e seguiu a outra. Lucrécia estacou a passo e informou a amiga: “Este é o clube que costumo frequentar, vais gostar, tem bom ambiente e bons amigos” . Mariana não proferiu palavra. Entraram, o recinto estava repleto de homens quase todos de meia idade, barba feita, sem nenhuma vaidade, bebiam, petiscavam e cavaqueavam uns com os outros. Mas não era um lugar alegre nem divertido. Lucrécia encontrou logo um amigo e apresentou-o a Mariana, depois surgiu outro e mais outro. E foi uma farra. A rapariga pediu logo uma cerveja e mais uma e logo a seguir outra… e não se sabe quantas mais… Mariana pôs-se à conversa com um amigo de Lucrécia, um jovem falador, tagarela, ao principio ainda conseguiu acompanhá-lo, depois apercebeu-se que Lucrécia só queria dar nas vistas, chamar à atenção, pois não parava de brincar com um dos  amigos, um homem que aparentava estar na casa dos quarenta e muitos…eram duas crianças, ela desgrenhava-lhe os cabelos  e ele tentava se desenvencilhar dela.  O alarido foi subindo. Lucrécia divertia-se imenso e o amigo também. Dir-se-ia   tratar-se de um esgrimir amigável. Subitamente  fez sinal a Mariana, apontando para o seu telemóvel e os lábios soletraram “É a Genoveva”. Lucrécia atendeu e começaram a falar. Estavam distantes,  o homem mais velho tentava impedir a conversa e criticava-a em voz alta. O mais jovem forçava Mariana a dar-lhe atenção. O ruído foi subindo…ela queria prestar atenção ao que Lucrécia dizia ao telemóvel. Sabia que era sobre ela que conversavam. “ Pois , compreendo, ela agora está bem… as fotografias enganam? Mas as fotos são dela…e ela é muito requisitada…pois, nem tudo corre como o desejado…Mas este  encontro não significou nada para ela! Foi apenas um encontro que correu mal , apenas isso… e ela está a divertir-se à brava” .O ruído era intenso e o que Lucrécia falava perdia-se e misturava-se com outras e imensas vozes… até que Lucrécia notou a curiosidade de  Mariana e fez-lhe um gesto para que a outra se aproximasse . Ainda assim , mesmo sentada e muito próxima, não era fácil , ouviu algumas das frases cortadas, fragmentadas… sentia-se confusa e num lugar estranho, rodeada de homens , nada ali fazia sentido. Levantou-se e foi de novo para o sítio onde se encontrava anteriormente. O mesmo rapaz queria atenção, e ela teve vontade de fugir dali, gritar e, na impossibilidade de extravasar o completo desencanto  tentou dissimular, contudo, não resistiu e as lágrimas traíram-na . Os amigos de Lucrécia alertaram-na e a rapariga desligou imediatamente o telemóvel. Mariana encaminhou-se para fora e Lucrécia seguiu-a e uma vez fora do recinto  dirigiu-a  até ao carro. Fê-la sentar-se no banco da frente, ao lado direito e cobrindo-a com um casaco disse-lhe: “ Qualquer coisa ligas-me…sim? Tenta ficar calma “. Eu vou para lá…eles estão à minha espera… “ Em seguida depositou-lhe  um beijo na fronte e foi embora. Lucrécia deixou Mariana sozinha. Não se sabe quanto tempo ficou ali a tremer de frio, e as lágrimas deslizando, deslizando pela face. Pacientemente esperou, esperou…desesperou ….voltou a desesperar e a esperar…até que Lucrécia voltou acompanhada do amigo tagarela e do outro a quem andou a desgrenhar os cabelos. O homem abriu a porta do carro, fez Mariana sair, colocou-lhe o braço à volta dos ombros  e falou-lhe com um ar muito paternalista. Lucrécia, não gostou daquela intimidade pediu a Mariana que entrasse imediatamente no carro para seguirem. Pois o tagarela já tinha entrado. O carro foi ligado e enquanto arrancava, Lucrécia, falou alto pela janela aberta com o outro homem, coisas ininteligíveis… e no meio das frases soltas…ficou apenas uma frase : “ Já te conheço Armando, já te conheço!” E o carro voou. Sem falar nada Lucrécia entre voltas e mais voltas estacionou à porta de um restaurante rasca. Pediu frango, salada e arroz para três pessoas e mais cervejas. O jantar decorreu com uma alguma animação. Depois, pediram a conta e foram deixar o amigo tagarela em casa. Nessa altura Mariana voltou a pedir : “ vamos para casa”, Lucrécia respondeu “ Nem penses, para ficares a pensar na outra, não, vais te divertir …” O carro seguiu para depois voltar a estacionar num lugar isolado. Saíram, Lucrécia bateu a uma porta . Abriram, disse-lhes algo, ambas entraram. Era um bar. Ambiente escuro ,luzes vermelhas, gente sentada a beber… outros de pé…novamente ruído. Lucrécia aproximou-se para pedir  a tão desejada bebida. Cerveja. Mariana não quis tomar nada. De repente Lucrécia começou com as palhaçadas do costume. Ergueu os braços, fechou os olhos, riu sem destino, falou alto. As outras pessoas olharam. Mariana conhecia o lado exibicionista de amiga, entretanto, não compreendia se aquela encenação se devia à bebedeira ou às duas coisas. Mais uma vez aguardou pacientemente que Lucrécia consumisse umas poucas de cervejas e insistisse nas teatrices. Mariana foi surpreendida pelo telefonema de Eduarda. Lucrécia ao aperceber-se de quem era porque  não simpatizava nada com a outra, tirou-lhe o telemóvel das mãos e pôs-se a falar: “Sim? Queres falar com a Mariana? Ela não pode agora. Porquê? Não, não está com a Genoveva…essa história deu para o torto …a história não resultou, mas ela está ali com um grupo de miúdas a divertir-se imenso…queres falar com ela? Agora não…ela acabou de me fazer sinal ,foi  ao WC, entendes, ligas outra ocasião. Até que a chamada acabou ,ambas riram da brincadeira de Lucrécia , pediram a conta e saíram. Foram para o carro e Mariana tornou a arriscar: Vamos para casa? , “ Está bem, vamos.”  Mariana colocou o cinto de segurança mais satisfeita …iam finalmente a caminho de casa… precisava descansar, fechar os olhos e relaxar.  No percurso, Lucrécia começou a conduzir o carro em ziguezagues. Mariana assustou-se e advertiu: “Pára com isso, essa brincadeira pode acabar mal.” Mas a outra continuou mais um pouco. Queria demonstrar que comandava e a brincadeira só acabaria quando ela própria decidisse. “ Termina com isso …não estou a gostar” . A outra sorriu com um ar de troça e fez-lhe a vontade. O carro prosseguiu até que passaram por elas duas viaturas , uma na faixa da esquerda, outra na faixa da direita. Iam a alta velocidade . Lucrécia comentou “ Vês estes gajos ?São do Karting  …e …xiça…logo dois , são lixados, esta zona é de assaltos, tenho medo que nos sigam … agora vou acelerar para despistá-los. Mais à frente, arranjou um estacionamento e disse “ Estás a ver aquele café?”- e apontou para o lado esquerdo da rua- “vamos até lá! Só para despistar os gajos”. Mariana sentiu-se desolada “ Outra vez …outro bar…estou farta…e quero ir para casa”. “ Vá anda, conheço aquela gente…sei como funcionam…vamos só ficar o tempo suficiente para nos esquecerem” . Havia um grupo de homens e mulheres na rua. O bar encontrava-se fechado. Lá dentro havia também um  grupo só de homens. Lucrécia, bateu à porta uma , duas, três vezes, Até que se designaram abrir  para informá-la que o estabelecimento encerrara mas ela lá fez questão de cumprimentar o empregado.  E com palavrinhas muito ternas meteu conversa…notou-se a familiaridade entre os dois, pediu uma cerveja e aconselhou Mariana a comer alguma coisa, pois em casa dela não havia rigorosamente nada. Mariana pediu algo quente mas as máquinas encontravam-se desligadas…e sólido, só salgados e fatias de tarte. Então  comeu uma das fatias de tarte que ainda restavam. Lucrécia parecia animada, bem disposta, sem nenhuma pressa…bebia muito calmamente a cerveja. Ao contrário de Mariana que se  sentia esgotada, com frio e com fome. Após ingerir a primeira  cerveja, pediu outra. O rosto de Mariana contraiu-se desgostoso. E ali ficou pacientemente à espera que a outra entre várias anedotas  que proferiu resolvesse de uma vez por todas a sair.  Até que, finalmente havia terminado e disse: “Vamos” , e a outra seguiu-a imediatamente. Antes de entrar no carro Mariana ainda conseguiu brincar “ Esta noite durmo contigo” , a outra respondeu prontamente “ Não, não, não…nem penses” ;“Porquê? Estás com medo do quê?” Do outro lado silêncio . O carro arrancou e ao fim de dez minutos Lucrécia procurou lugar para estacionar novamente. Completamente embriagada, atirou-se ao volante, beijou-o, abraçou-o e falou-lhe em espanhol. No seu monólogo que durou minutos intermináveis , Lucrécia mimou o veículo por este ser o seu companheiro fiel. Mariana respirou de alívio, finalmente em casa. Lucrécia saiu do veículo sendo seguida pela  amiga e após andar alguns metros … desceram alguns degraus…Mariana  estranhou o lugar…franziu o sobrolho e subitamente leu em letras garrafais “BAR”. “Não, não acredito nisto” exclamou irritada. “ Vamos, entra “ indicou a outra, abrindo a porta. “ Não entro, quero ir para casa, acabou, estou farta, não quero mais “   De repente  Lucrécia perdeu o controlo e agarrou Mariana pela cintura, esta por sua vez debateu-se agarrou-se ao corrimão da escada, a outra  tentou em vão puxá-la para dentro. Mariana,  ao tentar livrar-se da outra,  escorregou e Lucrécia também perdeu o equilíbrio e chocou contra a parede. Nesse momento soltou a outra que se afastou da porta do bar. “ Não vou entrar aí !” , “vais entrar sim! ” , Garanto-te que não vou, quero ir para casa” “ E eu estou a fim de me divertir, queres ir para casa, toma a chave e vai” Marina ficou estarrecida “ Eu não sei onde moras?!” “ Não quero saber, queres ir vai, tens aqui a chave!” Lucrécia abriu a mão de Mariana e arreliada depositou-lhe a chave. Mariana puxou o braço “ Não quero, não sei onde fica, não me  vou embora sozinha”. “ Então vem comigo”. Mariana completamente desanimada seguiu Lucrécia, desceram imensos degraus, por um corredor estreito. E foram dar a um bar. Havia meia dúzia de pessoas. Os poucos homens fitaram-nas a ambas. Havia uma mulher alta que acompanhava um deles. Lucrécia pediu uma cerveja e logo a seguir passou para um sala contígua, estreita e comprida, rodeada de sofás, havia o lado esquerdo e o lado direito , em linha recta. Elas ocuparam o lado direito. Os homens vinham e iam para o bar…era como se estivessem curiosos. Mariana sentou-se no sofá mas Lucrécia queria dançar e precisava de companhia. Então forçou a outra a levantar-se e dançar com ela, ela ainda tentou  afastar-se mas Lucrécia não permitiu e tinha mais força. Mariana viu-se obrigada a dançar. Felizmente que ali não havia ninguém. Nenhuma das outras pessoas conseguiam vê-las. Dançaram durante algum tempo, de um lado para outro. Sacudiram o corpo. Havia um grande ecran de Tv  na parede do lado delas… Até que dois homens que aparentavam estar na casa dos  cinquenta anos chegaram e vieram instalar-se em frente, de copo na mão, eram os mesmos que já lá estavam antes. Agora olhavam-nas de forma persistente. Mariana sentiu-se envergonhada, queria parar de dançar mas  Lucrécia não lhe dava tréguas. Teve de continuar … a mulher e o homem  velho também tinham vindo. Agora os quatro seguiam os movimentos delas. Mais uma vez Mariana tentou se sentar mas foi  novamente impedida. Lucrécia não parava de beber. Até que Mariana solicitou de novo: “Vamos embora “ , “Cala-te e dança” , “As pessoas estão a olhar para nós”, “Quero lá saber, estou a cagar para isso”. O homem do bar entrou duas vezes e mostrou claramente não estar a gostar nada da situação. Até que mariana não resistiu e procurou sentar-se. Lucrécia embebedada até aos cabelos baixou-se e dançou nas pernas da outra, depois inclinou-se muito alterada e resmungou entre os dentes: “Aqui tens a minha morada, podes ir” . Mariana deu-lhe as costas e voltou-se para o ecran.  Era um filme de guerra. Ficou a olhar , sentiu que a amiga continuou a dançar sozinha. Mas não ligou, ficou sentada, toda encostada ao sofá. Ficou naquela posição durante muito tempo. A outra, vencida pela cansaço, finalmente fizera o mesmo. Mariana voltou-se para observá-la. Reparou que dormia ou fingia dormir. Deixou-se ficar … por muito tempo. Até que voltando-se de novo, Lucrécia passou-lhe sinal que estava na hora de irem. O bar ia fechar. Entraram no carro , Lucrécia pôs o carro a funcionar e lá foram. Cinco minutos depois procurou um sítio para estacionar, ficou colérica porque não tinha lugar para ela. Então foi estacionar mais distante de casa mas embriagada como estava ao fazer marcha atrás não viu a reentrância da parede bateu com a parte traseira, partindo um dos faróis. Indignada  Soltou uma série de palavrões . Mariana seguiu-a em silêncio e  reconheceu a rua, sabia  que daí a pouco entrariam finalmente em casa de Lucrécia. Assim foi. Nessa ocasião decidiu comunicar à amiga que no dia seguinte deixaria a sua  casa. Lucrécia criticou-lhe a ideia. E quando foram dormir mal falaram. Mariana não tinha sono, mal cerrara as pálpebras ouviu um ruído estranho…apurou a orelha, foi então que percebeu que a outra se masturbava ruidosamente. Enervada voltou-se para o outro lado, cobrindo a cabeça com o lençol.  Logo de manhã  cedo tomou  um duche e saiu para o café, quando voltou, foi apenas o tempo de  arrumar a mala , bater à porta do quarto da amiga, que permaneceu deitada, de barriga para baixo e indiferente, Mariana  agradeceu  a estadia  e disse-lhe adeus.. .Lucrécia ainda  acrescentou sem motivação alguma: “ Podias continuar cá em casa, não te entendo”. Mariana retirou-se, fechou a porta e saiu. Já na rua apanhou um táxi.