A rainha Mil Faces antecipou-se
à ama de quartos e chegou primeiro:
- Vá, filha,
apressa-te, o pai quer ver-te agora!
- Logo agora que estou
a brincar com as minhas bonecas …- replicou enervada.
- Princesa, por favor,
nada de lamúrias, vamos lá!
- A mãe tem sempre que
lhe obedecer.- comentou com um ar de fastio.
- Ele é o rei, o teu
pai, está bem?
- Tu és a rainha, minha
mãe…- argumentou astuta.
- Atenção a esses modos
ou o rei manda-te cortar a língua de tão espevitada!
Segurando na criança
pela mão, puxou-a e rapidamente levou-a à presença do pai.
- Aproxima-te Malvada!
– disse o Mau Educador cofiando manhosamente o bigode e a barba.
A menina encrespou o
rosto de enfado e deu um passo em frente.
- Que cara é essa? –
quis saber o pai.
- A minha!
- Não sejas refilona –
contestou brando.
- A princesa não é
refilona. – acudiu a rainha.
- Ai não? – sacudiu o
lenço de mão.
- Não pode levar a mal
o que a minha princesinha diz…
- Deixemo-nos de arengas
– apressou-se a acrescentar o Mau Educador – depois, com as pontas dos dedos
ergueu o rosto da criança:
- Já pinta os lábios,
princesa?! – pronunciou com estupefação.
- Ela gosta, é menina…e
há outras na corte que também fazem o mesmo…- corroborou a rainha Mil faces.
O rei ergueu as
sobrancelhas e em silêncio lançou à mulher um olhar displicente, em seguida
afirmou:
- Não gosto, acho que é
muito cedo para isso.
- Deixai a menina ser
menina.
Os olhos de sua
excelência semi cerraram-se de irritação, deu um estalinho com a língua e
prosseguiu estalando seguidamente os dedos:
- Vamos à lição –
anunciou em voz alta e acrescentou: - Tragam-me o anão!
A menina afastou-se
quando o anão entrou na sala.
- Quem é ele? – quis
saber a Malvada fingindo receio e medo.
- Um idiota ladrão – respondeu o rei
- Trapaceiro-
acrescentou a rainha
- Que sentes por ele? –
perguntou o rei à filha.
- Nada. Que havia de
sentir?!
- Então esbofeteia-o! -
ordenou sua excelência estreitando os olhos.
A menina obedeceu, o
pai riu-se:
- Isso é uma carícia!
A criança intimidou-se
e recuou. Então o rei avançou:
- Vê como faço!- e exemplificou
esmurrando o anão em cheio no nariz. O rapaz
foi arremessado para o ar e estatelou-se no chão como se de uma peça de
vestuário se tratasse. Depois juntou-se à menina e baixou-se para ficar à
altura dela.
- É óbvio que não
estava à espera que fosses capaz disto…mas vou treinar-te para que um dia sejas
uma bela tirana. Escuta-me, bati-lhe com a mão que tinha anéis, por isso tem o
nariz a sangrar. É desta forma que deves enfrentar os teus inimigos, sem medo,
sem vacilar, sem piedade, sem remorsos. Inimigos são para abater. Entendido?
- Sim, pai.
Em seguida, fitou-a
sério e indagou meio ternurento:
- Amas-me?
- Sim, pai!
- Amas tua mãe?
- Sim, pai!
- Fico muito regozijado
por saber isso...nunca te revoltes contra nós, amamos-te e tu amas-nos, seria
trágico …! O resto do mundo não importa….desde que tenhas as tuas razões… e te
defendas dos predadores…Agora vai brincar com as bonecas.
- Sim , pai!
A criança ia
afastar-se, quando o Mau Educador agarrou-a pelo pulso.
- Quero o meu beijo
antes de te retirares!
A princesa sorriu sem
vontade e depositou no rosto do pai um beijo repenicado. O Mau Educador alegrou-se
e em seguida deu uma palmadinha afetuosa no rabinho da criança:
- Vá lá…
Depois vagueou pela
sala de mãos atrás das costas, enquanto a rainha se mantinha no mesmo lugar, em
silêncio.
- Quero ver o rapaz –
informou enquanto tocava a campainha. A Mil Faces não se moveu.
A ama surgiu e o rei
pediu para trazerem o príncipe Delicado. Alguns minutos e assomou à porta.
- Meu pai? –
apresentou-se e fez vénia.
O Mau Educador observou
minuciosamente o filho que se mantinha muito direito e de olhos baixos, retirou
a espada da cinta, nessa ocasião a rainha estremeceu e deu dois passos em frente,
temente do pior, mas recuou os mesmos passos para trás quando percebeu que o
rei servia-se da espada para se apoiar. Rodou em torno do miúdo, deteve-se nas
costas dele e interrogou-o:
- Tens algum assunto
para me contar?
- Não senhor!
- Hum? – o rei encolheu
o sobrolho.
- Que tens feito,
rapaz?!
- Algumas coisas.
- Algumas coisas?! –
clamou e o cenho carregou-se de aborrecimento e perplexidade.
A criança estremeceu
com o rugido do pai. E este procurando dominar-se, voltou à carga :
- Fala-me do que tens
aprendido com a tua preceptora.
- Não me lembro
pai…não… - O rapazinho sufocou dentro de si mesmo. Como se tivesse inchado e
fosse estourar a qualquer momento.
- Não é possível, não
pode ser verdade! –o pai gritou-lhe , a
mãe continuava na sombra, lançando ao filho faíscas de raiva. Os olhos do rei
direcionaram-se para os olhos da esposa, confirmando se ela partilhava da mesma
indignação que ele.
- Fale! Abra a boca e
diga-me o que pensa! – propôs o rei à rainha.
- Essa criança só pensa
em brincar…não se concentra nos estudos, não me obedece, não sei mais o que
fazer…sinto-me envergonhada com o comportamento dele.
- E agora, que tens a
acrescentar ao que a senhora tua mãe acabou de dizer?
O menino permaneceu em
silêncio. Então o Mau Educador não se contendo berrou-lhe aos ouvidos, fazendo-o
estremecer de novo:
- És surdo? – como a
criança permaneceu no mesmo estado de imobilidade, o rei baixou o tom mas
proferiu extremamente impaciente :- A partir de agora estás de castigo, levas
cinquentas chibatadas nas pernas e nas nádegas e ficas proibido de brincar com
as outras crianças do reino.
Os lábios do príncipe tremeram
e os olhos nublaram-se.
- Agora sai
imediatamente da minha presença, e volta um homem! Foi para isso que te criei!
E a si – dirigiu-se à rainha – cabe-lhe ter a certeza que este rapaz se torna
no meu sucessor!
O rapazinho retirou-se
amargurado. O Mau Educador continuou para a mulher:
- Após cumprir o
castigo, quero-o em treinos para ingressar na cavalaria. Há-de ter espírito
beligerante, tal como eu quero! Irá para a guerra comigo!
- Tenho sérias dúvidas
que resulte …- adiantou a rainha Mil Faces.
- Porque diz isso?
- É uma criança
sensível e delicada...
- Deixará de o ser! –
afirmou convicto.
- Aquele rapaz precisa
de pulso firme – referiu a rainha mal
humorada.
- Vai ter a partir de
agora…a sua educação resultou mal… transformou-o num rapaz inexperiente, pacato,
sem ação, um inútil…
- Está a atirar com as
culpas para mim?! – a rainha Mil Faces indispôs-se.
- Não, não estou a
acusá-la de nada!… - rematou com ironia.
- Não é assim, então
fico com as culpas todas? E a sua responsabilidade?
- Estou mais tempo na
guerra do que em casa…não se esqueça disso!
O rosto da rainha Mil
Faces enrubescera, dominado pela cólera:
- Não gosto desse peso
nas costas …
- Com certeza minha
senhora, não tornemos a falar do assunto, porque caso contrário esta noite será
punida...
A rainha ergueu o rosto
e numa pose de desafio retrucou:
- É bom que pense duas
vezes antes de me acusar seja do que for… sei a que dá importância e do seus
sentimentos por mim… tenha por isso mais respeito pela mãe dos seus filhos e
esposa dedicada.
O rei levou a mão
direita aos cabelos e alisou-os numa atitude de verdadeiro enjoo.
-Quero aqui a princesa
Feia! – a ordem saiu num tom furioso e impaciente e não demorou muito até a
filha mais velha aflorar à porta. Entrou e aguardou que o rei tomasse a
palavra. Como continuava calado a rapariga adiantou-se:
- Chamou meu pai?
- Chamei porque
regressei da guerra e quero ver os meus filhos, não é natural?
- Com certeza pai e cá
estou eu …
O rei ficou
surpreendido com a ligeireza da resposta e por isso avançou com uma pergunta:
- Qual é o teu lema de
vida?
- Coloco no mesmo patamar;
verdade, lealdade e bondade.
O Mau Educador alisou o
bigode que por sinal até lhe assentava bem e perscrutou a rapariga com
curiosidade:
- Esses lemas estão
reservados a alguém especial ou são para todos?
- Para todos sem
reservas – a resposta não se fez esperar.
- E quais os que se confinam
à casa real?
- Nenhuns!
- Não gostei da provocação!
– objectou o rei com desagrado, chegou-se para mais perto e colocou a mão
esquerda sobre o ombro direito da filha.
- Princesa, minha
filha, esses lemas não te levam muito longe. E a ambição onde fica?
- Mas sou comedidamente
ambiciosa!
- Conversa apática,
inconsistente… digamos, uma forma de pensar amorfa…. princesa, és capaz de
faltar à verdade? De escarnecer? De calcar os vermes dos inimigos? De ser
calculista e fria quando for necessário?
- Jamais pai!
- Jamais?! – o rei
tinha perdido de novo a cabeça. – mas como julgas tu que te irás defender dos inimigos?
- Com amor pai! –
respondeu segura.
- Se pensas assim
meto-te num convento! rematou vigorosamente.
Feia enrubesceu de
temor. Os seus olhos divagaram assustados pelo chão da sala à procura de uma
fuga rápida para aquela inquisição.
O Mau Educador ergueu o
rosto pensativo, desencantado, desiludido…a íris tornou-se clara e nostálgica.
A expressão acinzentada.
- Minha filha,
desconheço que mundo habitas, com certeza não é o mesmo que eu, não tens a
verdadeira noção do que é andar por aqui e na minha opinião já tens idade para
isso. És uma sonhadora, e quem sonha é parvo, vence quem sabe viver – o rei fez
uma pausa e voltou a falar – Princesa, o mundo pertence aos que têm império,
aos que têm nome, aos que se eternizam pelos feitos. O resto não conta, é povo,
gente escrava, ralé sem voz, gente que obedece sem contestar às minhas ordens.
Discordas de mim?
- Discordo pai!
- Atreves-te a
discordar? – o rei empalideceu.
- Prefere que lhe
minta?
- Sai daqui! – tão
grande foi a fúria que as lágrimas transbordaram e correram em ziguezague pala
face tisnada. A rapariga escapou sem olhar para trás, enfurecido lançou a espada
à porta e desatou a blasfemar em voz baixa, de forma impercetível e logo a
seguir :- Tão inteligente e tão parva, casa-te com um plebeu e ficas sem
linhagem, sem nome e sem nada! Renego-te! – Bradou num tom rouco. Em seguida
lançou-se sobre a rainha e agarrando-a pelos cabelos murmurou irado – Ela vai
para um convento, ouviu?
- Sim, com certeza –
respondeu a rainha Mil Faces humilhada.
Era
noite, do alto do cabeço repousava o imponente palácio, por entre uivos de aves
noturnas e soturnas em demanda, presas fáceis e cegas. Hora destemida dos
mistérios impenetráveis, de falsos segredos cochichados e conjeturados nas
sombras. Hora dos crimes maquiavélicos e
diabólicos. Hora das pontes caladas, do silêncio pesado, dos túmulos se abrirem
no rugido enferrujado de ferrolhos e gonzos. Hora reparadora de sonos
inquietos. Hora das estrelas exibirem os seus gorjeios cintilantes.
Mais adiante veio a luz
do dia espreguiçar-se calma e serena, galgando docemente aquela manhã outonal. Inesperadamente
soprou uma aragem fresca, temperada com hálito de Inverno. O grande jardim respirava
profundamente a frescura dos pequenos lagos verdes, o repouso dos grilos, o
despertar das flores, das árvores e do céu.
A princesa Feia desceu
as escadas de mármore, passou a meio do jardim e continuou colina abaixo até
desaparecer no bosque. Ali sentia-se mais livre, inspirada e mais perto da paz
e da tranquilidade da sua floresta. Correu nova aragem, ainda mais fria,
arrepiou-se. Os cabelos claros, lisos e leves revolveram-se uns nos outros e
chegaram a cobrir-lhe o rosto, muito pacientemente afastou-os sem pressas. Veio
outra aragem estranha, muito localizada, um bafo quente, então parou
ligeiramente receosa e voltou-se para trás. Ninguém. Apenas ramos entrelaçados,
folhas de várias espécies, troncos, alguma folhagem densa, o sol a infiltrar-se
de jato em todos os espaços, buracos e orifícios… Nada que fizesse estremecer,
quando ia iniciar de novo a caminhada, sentiu outra aragem situada sobre o seu
ouvido, como se alguém tivesse soprado por entre os cabelos. Pressentiu que ali
havia mais alguém e desatou a fugir:
- Princesa, sou eu!
Aquela voz fê-la parar
e voltar-se novamente:
- Pregou-me um
susto…daqueles!- declarou a arfar.
- Desculpe, não foi
essa a minha intenção!- justificou-se a rir o recém chegado.
O jovem divertido apoiou-se
na bengala e acercou-se da princesa:
- Menina…- tomou-lhe a
mão e conduziu-a aos lábios – depois da usual vênia.
- Adoro a forma
elegante que usa sempre que me cumprimenta, tão distinto…
- A melhor hora do meu
dia é quando nos encontramos. – dito isto fitou-a longamente nos olhos.
Ela perturbada
afastou-se meigamente e lembrou que continuassem a andar:
- Conheço-o já há algum
tempo mas nunca o vi por aqui… – estranhou entusiasmada.
- É a primeira vez que
cá venho…algo me chamou…foi a sua presença oculta…- riu de novo.
- Não gosta da vida campestre?
- Confesso que não sou
grande apreciador da vida campestre… vim com o propósito de desanuviar uns dias
…e depois tenciono voltar à capital… fiquei mais tempo por sua causa! – e dito
isto, deu alguns passos rápidos e colocou-se à frente da princesa, interditando
a sua marcha. Sorriu-lhe muito matreiro, estendeu o braço esquerdo e colocando
os dedos sobre o queixo da rapariga, pronunciou :
- É muito bonita;
cabelos prateados, olhos vivos e profundos, boca rosada, tez pálida, rosto
oval….
A princesa riu-se e
inclinou ligeiramente a cabeça.
- Falo a sério, parece
saída de um conto mágico… - pronunciou com verdade o barão Bem Disposto.-
depois rumorejou olhos nos olhos:- é a minha princesinha linda…-e
ficaram assim, imóveis durante não se sabe quanto tempo…
O barão ficou muito
perto dela… via-o agora tão nítido…muito maior; a massa de caracóis,
desgrenhados e escuros, com arabescos à mistura, chegavam-lhe aos ombros, o
rosto escuro e quadrado, a bela dentição, alva e brilhante, os olhos castanhos
claros rasgados e pestanudos…
- Princesa, gostaria de
celebrar esta nossa amizade? – como não houve resposta, o jovem indagou: - estou
a falar consigo e não me responde, porquê?
- Sim… - parecia
desconcertada.
- Não lhe parece boa
ideia? – quis saber algo incomodado.
Ele procurou ler-lhe as
feições e segurando-a pelos ombros, beijou-a ao de leve nos lábios, depois
afastou-se para tornar a espiá-la. Foi aí que detetou uma sombrinha turvando os
olhos dela. Sem mais delongas abraçou-a longamente, apertando-a com firmeza e
sentimento, beijou-a uma e outra vez. A
princesa havia correspondido com alguma excitação.
- Estou a seguir por um
caminho errado? – quis saber e antes que
ela pudesse responder adiantou-se - Não
gostou do beijo, é isso?
- Gostei, o sabor dos
seus lábios nos meus, tem a frescura da primavera.
- Esse seu lado poético
impressionou-me desde o primeiro dia em que a conheci. – elogiou-a sorridente-
é um prazer quando me fala dos seus poetas favoritos e me lê a sua poesia. Como
sabe, não tenho inspiração para versos mas aprecio pessoas sensíveis e munidas
desse talento, sendo a princesa uma delas, deixa-me imensamente feliz!
- Eu acho-o um homem
incrivelmente tentador, muito semelhante a uma escultura de uma qualquer
divindade grega, um poema…Inteligente, culto, terno, ponderado…
- Hum…que beleza…as
suas palavra são seda sobre mim… apetece-me cantar…- abriu os braços e cerrou
as pálpebras de regozijo.
Veio um sopro agitado
de vento e ela acompanhou o pormenor dos cabelos mais curtos enrolarem-se nas
têmporas e na testa, a linha reta do nariz, demorou-se nos lábios carnudos e
entreabertos, no queixo duro, nos tendões fortes que desenhavam o pescoço …
Aquela visão tornou-se
mais real quando a encostou toda ao tronco de uma árvore e apertou o seu corpo contra
o dela, agarrando-a firme pela cabeça, enquanto os cabelos esvoaçavam como asas
de borboletas. Beijou-a longamente, com deleite e paixão. E arrebatado pelo
desejo soltou uma das mãos para acariciá-la no ventre, nos seios redondos e
fartos e quando a mão esguia atingiu as coxas, numa carícia mais ousada, ela
retraiu-se e tentou escapar:
- Desculpe, não devia,
sou cavalheiro e não quero forçá-la a nada…
A princesa Feia colocou
o indicador sobre os lábios do barão, muito carinhosa e assim que soltou:
- Amo-a! declarou num
ímpeto e os seus olhos resplandeceram a luz poderosa e intensa dos enamorados, o
fogo dos que amam e desafiam os abismos do incerto…
- Amo-o também! –
reconheceu tremendo de emoção.
- Está a ficar mais
frio, deseja subir? não quero que se constipe, está bem?
- Vai começar a chover…
– esclareceu ela, espreitando o céu por entre os ramos.
- E… já está a cair uma
poalha! – exclamou surpreendido.
- Vamos?
- Sim, acompanho-a.
- Barão, há um detalhe
que ainda não lhe contei…- articulou com alguma dificuldade.
- Então conte-me por
favor! – ele ficou ansioso de repente
- O meu pai vai
enviar-me para um convento! – declarou triste.
- Como? – gemeu chocado
– e porquê? – o jovem parou de andar e ela também.
- As minhas ideias
incomodam o meu pai.
- Pois, já calculava
que isso viesse a acontecer, já me falou de vários episódios …e a rainha, sua
mãe nunca a defende…- constatou lacónico.
- E que vamos fazer?
- Mas tem a certeza que
a enviará para um mosteiro?
- Sim, de certeza,
conheço muito bem o meu pai…
O jovem ficou absorto,
os olhos castanhos esverdeados vaguearam em redor, como se algures houvesse uma
resposta escondida.
- Estou a meditar numa
alternativa, porque não vou perdê-la agora que mal a encontrei.
Entretanto a chuva
começou a intensificar-se e nem um nem outro se aperceberam, concentrados na
urgência de uma decisão. Ambos paralisados à espera de uma ideia que viesse
salvar quele amor que ainda era semente a querer dar fruto.
- Devo voltar para a
capital daqui a dois dias…
- Então estamos
perdidos – atalhou angustiada.
- Não me parece. –
remediou com convicção.
- Que quer dizer?
- Levo-a comigo!
- Fujo consigo?!
- Sim! A menos que não
queira.
- É óbvio que quero…mas
dois dias é o tempo suficiente para meu pai tomar conhecimento e acabar com o
plano. O rei e a princesa Malvada tudo farão para tornar impossível a nossa
fuga…
- Então terá de ser
breve! Que tal amanhã?
- Aceito com uma
condição!
- Qual?
- Levo comigo o
príncipe Delicado…não posso deixá-lo para trás, seria devastador para o meu
irmão.
- Concordo, então consegue
preparar-se e prepará-lo para amanhã?
- Sim, consigo. A que
horas?
- Venham ter comigo
aqui mesmo, depois seguimos na carruagem para a estação. Às nove em ponto, não
se atrase por favor… - declarou conciso.
Abraçaram-se de novo,
beijaram-se com voracidade e na urgência de quem não pode esperar mais.
Subitamente acordaram e aperceberam-se que precisavam
de trocar imediatamente de roupa.
- Separemo-nos aqui.
Será melhor que ninguém do palácio o veja.
- Tem razão, e não se
esqueça, meu amor. Nada de atrasos – enquanto corria voltava-se para trás e
gritava:
- Não se esqueça, não
se esqueça…não se esqueça! e o eco repercutia-se nos ouvidos da princesa.
- Não esquecerei meu
amado…murmurou e levou as pontas dos dedos aos lábios, atirou um beijo na
direção onde barão já havia desaparecido e lançou-se numa corrida veloz de
volta ao palácio.
Pedras Nuas Afonso
19 de Novembro de 12