sexta-feira, 10 de maio de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
Mil beijos
A chave coberta de musgo verde
rodou na fechadura da
porta centenária.
A ranhura estreita, castanho ocre, oxidara,
escurecera aqui e ali,
invadida pela poalha mística dos invernos brumosos.
Quando finamente dava mostras de abrir,
eis que… emperrou, nem para um lado, nem para outro…
foi tal a insistência da mão que tentou…
que a chave na fechadura, vozeou… chorou…
a chave musgo tornou a girar
e num estalido a porta destrancou …
a mão vagarosamente
empurrou, empurrou…
os gonzos sobressaltaram,
guincharam as
frinchas por perto.
Mal a porta se tinha aberto,
nem o interior se adivinhava…
quando se ouviram risinhos.
a mão hesitou intimidada
descansou
quase no interior penetrou.
Se não fosse uma
lufada de vento que quase a porta fechou
Uma eternidade mão levou e impediu,
que a pesada porta não voltasse a abrir…
corajosa, não deixou.
Os risinhos ficaram mais perto,
mais sonoros,
mais densos…
assim que se vislumbrou o íntimo do quarto…
saltaram de trás da porta dezenas de deles…
todos aos gritinhos,
tão eufóricos,
tão louquinhos por
beijinhos
e num linguajar
ininteligível …
o batalhão atirou-se a beijar
os olhos,
o nariz,
os cabelos,
as mãos
a boca
……..
Para logo desmancharem-se numa nuvem de pó.
Dentro do lúgubre quarto,
jazia uma escrivaninha enfarinhada,
onde as aranhas haviam feito morada
e as teias, lençóis de linho,
mais alvas que o
próprio branquinho .
Sobre o tampo, esquecido, um tinteiro com tinta fresca,
a pena escura ainda
gotejava e num fragmento de tecido onde mal se descortinava:
“ Querida e amada Alice, encomendei mil beijinhos e são
todos para si, em sinal da minha ternura e profunda admiração pela mulher que
é. Há nuvens de amargura sombreando a minha cabeça, fui de novo chamado ao combate…vou
sem fé, matar homens tem algum sentido?! Não há justiça neste mundo, nem paz
que nos valha! Os generais, responsáveis pela guerra não dão sossego… Querida
Alice, lamento não estar aqui, o meu maior anseio; abraça-la muito na hora
derradeira. Mas fique certa que a levo no coração e no pensamento. Com muita
amizade e carinho.
O capitão, seu para sempre…
Mil beijos
PN 14 de Abril de 2013
sábado, 23 de março de 2013
JoanaManuel_Actriz_youtube
http://youtu.be/t3bwfURSztA
Clique por favor sobre o nome da Actriz e não perca o seu conteúdo porque vale muito a pena ouvi-la!!!
Boa Páscoa
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Boa Páscoa
quinta-feira, 21 de março de 2013
Crianças do 1.º ciclo "trabalham" tanto ou mais do que os adultos
quarta-feira, 20 de março de 2013
Ry Cooder Paris, Texas
http://youtu.be/X6ymVaq3Fqk
Nota: Desejo Feliz Páscoa a todos os Amigos. Prometo retribuir as visitas. Sempre Grata pela vossa prsença aqui. As minhas sinceras desculpas a quem estou em falta e com certeza serão muitos.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Princesa e Pedras
Princesa- O
menino está só?! Não! O menino não está só! Não vês a água que corre? E o
cágado mesmo ali? O raio de sol que o beija e o reflexo que brinca com os seus cabelos
ondulados?
Pedras – Vejo
tudo isso…e aquele vaso perdido no jardim, de quem será?
Princesa- Não sei
mas quase aposto que foi atirado pelo menino do riacho, aquele sonso está
sempre a fazer marotices às escondidas
Pedras- Não
fales assim do menino…as suas marotices são tão inofensivas….
Princesa-Hum? Não
sei. Porque o faz? Até o mocho, o professor da floresta já me falou sobre este
menino….
Pedras- Porque
faz marotices? A resposta é óbvia, trata-se de uma criança!
Princesa
-O
professor tem experiência e apesar das lentes embaciadas e ver muito mal… nada
lhe escapa.
Pedras- Admito
que sim.
Princesa-
Digo-te, este menino está “apaixonado” por ti e faz de tudo para chamar a tua
atenção, aposto que seguirás por este trilho, verás a bilha e espreitarás,
tirando de lá alguns doces e flores que ele te deixou…
Pedras- Também sou
“apaixonada” por ele, se fosse meu filho não o amaria mais… a terra aguarda sedenta
o alimento que transborda daquele pote, é água salpicada de lantejoulas, há-de
arrastar as impurezas dos olhos da rainha e deste rei…um dia ele vai querer
voar e os pássaros levá-lo-ão para longe…
Princesa- Não
sentirás a sua falta?
Pedras-
Naturalmente que sim…bastar-me-á saber que foi mais além e é feliz … ele tem todos
os sonhos por compor e um mundo para conquistar… os laços que nos unem nunca
mais se desfazem…são como as raízes das árvores.
Princesa- O amor
é assim; primeira espreita, depois estala, mesmo sem querermos ou esperarmos…a
certa altura, estala em dor.
Pedras- Não
existe amor sem dor…
Princesa- O
menino maroto não perdoa, se te afastares muito, sentirá ciúmes e quando
crescer parte-te o vasilhame, retira os doces e as pétalas que te tinha
ofertado … e quando acordares verás que lá estão só as tuas lágrimas …
Pedras- As
minhas e as dele, unidas, para juntas renascerem e seguirem distintos caminhos,
sem nunca se esquecerem. Quando o menino faz maldades vem ter comigo, o lábio
gordo a tremer de emoção, pede desculpas, abraçamo-nos comovidos e o nosso amor
estreita-se ainda mais.
Princesa- Ele
ainda é muito verdinho… tentas ampará-lo mas um dia, constatarás que é em vão…
Pedras- Nada é
em vão…se houver sentimento e verdade.
Princesa- Após
oferecer-te o vasilhame de amor, um dia cansa-se e o jardim deixará de ser zen,
estarás mais velha, o sorriso apagado e murcho e as tardes cinza escuras,
desgostos da vida … então ambos aperceber-se-ão que amadurecer é sofrer os
desaires do amor e seguir por carreiros errantes e distantes.
Pedras- Escuta
o som da natureza, não antecipes as fatalidades, a seu tempo, elas chegarão e
nessa altura eu e ele saberemos lidar com as adversidades. Agora escuta a voz da
água a correr, de uma ave a cantar…tudo é movimento, ação, queda de risco, saltar,
correr, voar ou simplesmente caminhar, cuidadosamente ou inadvertidamente … eu
prefiro nem sempre pensar se vou cair, porque se caio, posso magoar-me ou não…a
queda pode surgir como uma oportunidade de me refrescar e aprender mais …sinto a
mão do menino na minha, é força que me ampara e sorri, que me fala e me segreda
palavras de afeto. Continuo vigilante e observo com desvelo as suas
brincadeiras e repousos.
Princesa-
Preocupas-te tanto com ele! Esqueces que a rainha, minha mãe pediu ao
feiticeiro para transformá-lo em pedra e dessa forma castigá-lo pela
desobediência.
Pedras- Pois,
ao transformá-lo em pedra, aproximou-o de mim…
Princesa- Um dia
o feitiço quebra-se… e ao tornar-se humano, abandonar-te-á.
Pedras- Há
memórias que perduram… nada foi plantado em vão! É altura de protege-lo dos
fantasmas, das bruxas, dos maus olhados, das invejas, das poções diabólicas… e
sobretudo ensiná-lo a defender-se.
Princesa- E como
pensas livrá-lo de todo o mal?
Pedras- Tenho
aqui um livro, o livro do amor. Foi uma fada boa que me deu. Já comecei a
escrever nele as minhas memórias, espera, deixa procurar a página que ela me
indicou…
Princesa- Porque
repetes baixinho o número mil oitocentos e trinta….?
Pedras- Para
não esquecer a surpresa que esta página me reserva…cá está!
Princesa- O quê?
Em branco?! Que assombro! Ficaste pálida…e agora que me dizes?
Pedras – Não
sei…ou…é isso mesmo, observa, o livro está todo em branco, sou eu que terei de
escrever a minha história.
Princesa-
Fazes-me rir, porque raio havia uma fada boa de oferecer-te um livro em branco,
e indicar-te uma página igualmente em branco!?
Pedras- Tu não
compreendes, a fada deu-me uma lição; não há setas, nem pistas. Encontra tu
própria o caminho.
Princesa- Se for
seguro…. Vai e arrisca. Delicio-me a passear por aqui, todos os dias, eu e o
meu príncipe dragão, claro está, sentimos a energia deste lugar… que me deixa a
alma limpa, fico mais leve, livre e acabo sempre por suspirar da escalada de
emoções… diz-me, afinal por que razão o feiticeiro obedeceu cegamente às ordens
da rainha? Que recebeu em troca?
Pedras- Não
sei, a rainha é mãe…e foi com o consentimento do rei…não sei mais nada.
Princesa- tudo
isto me intriga e me confunde…se a rainha é mãe…onde ficou o instinto maternal,
a compaixão, o amor…?
Pedras- A
rainha adora o seu filho, embora a olho nu, não pareça, está doente e afetada,
em muitos aspetos incapacitada, noutros irresponsável e ainda noutros infantil.
Princesa-
Infantil?!
Pedras-
Infantil, quando se coloca ao colo do filho e pede-lhe proteção…quando se
esconde nas costas dele com um escudo …os papéis invertem-se.
Princesa- Como
sabes tudo isso? Nunca me apercebi dessas coisas…
Pedras- Fui ama
da casa real durante muitos anos ou já esqueceste?
Princesa- É óbvio
que não esqueci…
Pedras- Nem
podes, quando nasceste, eu já lá estava.
Princesa- És
muito perspicaz.
Pedras- …Podias
salvar o teu irmão, porque não o fazes?
Princesa- Estás
doida! Neste momento sou a favorita, a que corresponde às expectativas dos
reis. A herdeira da coroa sou eu e não abdico desse privilégio por nada.
Pedras-
Princesa…por favor.
Princesa- Não!
Não tentes. Lamento, no entanto já tomei a minha decisão.
Pedras- É pena
que não sintas o mesmo que eu pelo teu irmão, o teu único irmão, mais novo que
tu. Eu faço deste canto, encanto e da
pureza, purificação. A voz da criança é conto de fadas, castelo flutuante,
prado verdejante, jardim florido… moinho que produz vento…não queres ouvi-lo?
Aqui é o lugar mágico do sol e da água límpida e corrente…
Princesa- Não creio
nas tuas palavras, estás enfeitiçada. Vou embora, até porque se faz tarde.
Pedras-Adeus!
Princesa- Adeus!
Uma tarde, cansada de esperar,
Pedra, decidiu procurar o mago, não suportou mais a indiferença dos reis em
relação ao menino. O castelo tinha-o esquecido definitivamente. Tornara-se inadiável
socorre-lo. Após longas horas de diálogo, entre ela e o feiticeiro, haviam
chegado finalmente a um consenso. O mago quebraria o bruxedo com uma condição;
desposaria Pedra, torná-la-ia humana e adotariam o rapaz. A ideia foi bem recebida.
O bruxo não era feio, a sua graça andava furtiva nos escombros da maldita
bruxaria, merecia uma oportunidade para conhecer o novo sentimento e deixar
advir das profundezas um homem renovado. O menino tinha treze anos quando se
tornou de novo humano. Prepararam-se para a viagem. Um estalo de dedos do mágico
e raiou no céu um robusto pássaro mecânico, movido por rodas, ferro e outras
geringonças. Os três subiram uma escada desengonçada e meteram-se na barriga da
ave. De repente, ouviu-se um ruído feroz e a cauda do bicharoco expeliu uma
fumarada, os enormes membros inferiores iniciaram uma corrida veloz, por fim a
ave arremessou-se de novo no céu… e as asas abrindo e fechando na ânsia de
chegar ao lugar prometido. Pedras sorriu por se lembrar que a viagem
iniciara-se precisamente no ano de mil oitocentos e trinta.
PN 20 de Fevereiro de 13
Nota: Peço desculpa pelas gralhas que poderão encontrar.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Bicadas da minha pena
Daniel Oliveira - "O texto que escrevi aqui ontem no Facebook, com alguns acrescentos, no site do Expresso. Os insultos de ontem, se pretendiam ser pedagógicos sobre este assunto, até foram. Disseram-me muito sobre o fanatismo e sobre como algumas coisas que julgamos adquiridos - que a vida humana é um valor absoluto, abstracto e que não depende das avaliações que fazemos de cada pessoa, por exemplo - não o são."
Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Um cão de uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Foi decidido o seu abate. mais de 20 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma decisão de evidente bom senso. Segundo fonte do Instituto de Medicina Legal ao jornal "Público", "a autópsia, realizada quarta-feira, concluiu que a morte se deveu a ferimentos provocados pela mordedura do cão".
Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". A ver se nos entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça (por isso os motivos pouco interessam), mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado" de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por segurança.
Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!" A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Eu sou contra a pena de morte. Eu como carne de animais que foram abatidos. Serei incoerente ou limito-me a não comparar o incomparável? Os animais não têm, para os humanos, o mesmo estatuto das pessoas. E quem acha que têm não percebe porque consideramos a vida humana um valor absoluto e indiscutível.
Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. Tendo tido (e continuando a ter) quase sempre animais domésticos (de que gosto imenso), parece-me haver em muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais um discurso que relativiza os direitos humanos. Porque não compreendem a sua absoluta excepcionalidade.
Sobre o "relatório" do FMI escreverei para a edição do "Expresso" em papel.
Concordo com a opinião de Daniel Oliveira.
Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Um cão de uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Foi decidido o seu abate. mais de 20 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma decisão de evidente bom senso. Segundo fonte do Instituto de Medicina Legal ao jornal "Público", "a autópsia, realizada quarta-feira, concluiu que a morte se deveu a ferimentos provocados pela mordedura do cão".
Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". A ver se nos entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça (por isso os motivos pouco interessam), mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado" de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por segurança.
Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!" A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Eu sou contra a pena de morte. Eu como carne de animais que foram abatidos. Serei incoerente ou limito-me a não comparar o incomparável? Os animais não têm, para os humanos, o mesmo estatuto das pessoas. E quem acha que têm não percebe porque consideramos a vida humana um valor absoluto e indiscutível.
Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. Tendo tido (e continuando a ter) quase sempre animais domésticos (de que gosto imenso), parece-me haver em muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais um discurso que relativiza os direitos humanos. Porque não compreendem a sua absoluta excepcionalidade.
Sobre o "relatório" do FMI escreverei para a edição do "Expresso" em papel.
Concordo com a opinião de Daniel Oliveira.
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