quinta-feira, 13 de março de 2014

Branco

Por força das circunstâncias
desenraizaram-me
trasladaram meu corpo chagado
para terreno baldio…
As cataratas deambularam à procura dos óculos
do pijama…da mesa de cabeceira
das gavetas compridas da penteadeira
dos vários espelhos que refletiam a minha longevidade
do vestuário de três portas
onde baloiçavam as nossas indumentárias domingueiras
cada vez mais raro vestirmos
Guardei ali o fato cinzento com que me casei,
O fato da minha vida
Sempre pronto para qualquer acontecimento
Quantas vezes me sentei na extremidade da cama
cabelo oleado, rosto formoso, barbeado
sem rugas, bem trajado e o espelho esguio  a cismar por mim
Passou uma gazetilha entre os meus dedos
que seguia com particular interesse
Um leitor assíduo, compulsivo
Depois as letras ficaram distantes e apagadas
só chegavam aos meus olhos os cabeçalhos…
Que distância…uma eternidade.
Em casa, nunca faltou pão para a boca
uma família pequena, à medida das minhas posses
Honesto, reto, humilde trabalhador
Nunca roubei nada a ninguém.
tudo o que conquistei é meu…
a consciência limpa e tranquila
filhos criados e bem educados
Sempre presentes e amados
 e
Hoje, acabado
meio perdido, meio achado
num quarto estranho
de sombras claras, a esperar o fim
a última trasladação
o sol nu espeta-se de rompante, revela muito a misantropia
do ser  desfigurado em que me tornei.
Estou distante dos meus cantos
dos objetos que toquei
onde fui senhor e rei…rei de coisa nenhuma
Apenas um pacato homem do seu tempo.
desfeito em lençóis
Busco do fundo da memória
a identidade perdida…
Chamo alguém
mas não sei quem…
Que Deus me valha
e me tire deste aperto
desta mágoa…

Me liberte deste corpo, desta mortalha…

PN

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Há fumo pelas serras fora…

Há fumo pelas serras fora…
o vapor tropeça nas vertentes húmidas
cortinas corridas, janelas esvoaçantes …
cabeças sem juízo 
das casas encolhidas com frio 
escondidas no sopé dos montes …
abrigadas dos ventos fustigantes
Numa síncope desfalecida, o céu tomba
mais cadavérico que nunca…
e vai habitar os troncos decepados
As bruxas soltam-se em tarde sombria
mas estão velhas, cansadas e doentes
e o feitiço já não vinga…
procuram asilo em lareiras frias
onde deus voltou as costas e se foi embora…
Uma penumbrazinha descuidada mete o pé no charco
e fica a cogitar contrariada
foi sujar-se mesmo antes de adormecer …
agora vai ter de se deitar em lençóis frescos…
a cheirar a terra vilã e a erva desgraçada
Que passo desconcertado…
os queixos apertam, rangem de martírio
as sílabas inacabadas tremem periclitantes
O farol engoliu a bofetada e desapareceu mar adentro
um estouro de onda, pobre desnorteada
deu-lhe o rumo certo…
para além, fora do manicómio das cabeças desunidas
para longe, onde não se respira o pó que morde
o lugar das pedras lúcidas e curadas…
PN

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

As feras


Grande é a aflição
Tão triste penar
delírio de lágrimas
a descer do calvário.
Rosnam caninos 
Verdades estragadas
laranjal amargo 
flor cuspida no chão 
Andam à solta... à solta
as feras de salto alto
maquilhadas, aromáticas
travestis plastificadas
Vazias, feias, escarninhas
Ávidas de estrelato
As feras rondam… rondam
farejam bêbedas, soporíficas
lunáticas, descaradas
chutam ideias estúpidas para o ar…
Intrometidas, intrusas,
ditadoras,
sem nenhuma sabedoria
deslumbradas …
na mísera condição.
Os corcundas vaidosos
metem dó
de tamanha subserviência
de tamanha servidão….
beijam o chão das feras
lambem o próprio pó…
É vê-los soberbos, arrogantes
com outros de rasa condição
ou seus semelhantes…
Brandos, calmos, limitados
com as feras de salto alto
tontos, atarantados
aduladores salivantes
Cães sem raça, nem postura
míopes, cegos, caricaturantes
autênticas bestas irritantes.
PN

domingo, 26 de janeiro de 2014

Que realidade....

Dói-me ver os filhos da pobreza 
de mão estendida;
rotos, esfarrapados...
barriga vazia
E, cada vez mais a inimiga riqueza 
os deixa literalmente deformados.

PN

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Espírito de Natal




O céu desce
numa pálida nuvem
O dia amanhece
dentro da gruta
Os anjos bocejam
num trejeito ingénuo
Os sinos bamboleiam   
Num   tom  alegre…
É chegada a hora
da  luz cobrir
o que de trevas
está para vir…
ó  Salvador surge agora
salva os bons do poço sem  fundo
e condena os maus a um mar de chumbo
As fontes cantam de rosto lavado
água benta corre o prado
  lágrimas rebentam
dos olhos varados
E das alturas,… das alturas
vem um gesto desejado….
PN
 
 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A folha branca



Não é no tecto que encontrarás as linhas curvas, ondulantes, as linhas retas, as linhas finitas e infinitas, as linhas quebradas,ziguezagueadas, mastigadas, esticadas, sinuosas, majestosas, espiraladas, curtas,compridas, grossas e finas.... é na tua folha de papel.... deixa a tua mão correr, nesse diálogo firme , vigoroso e aventureiro e se porventura uma dessas linhas sair fora dos teus planos , do percurso traçado,segue-a, até onde for possível...quem sabe se não te mostrará outro caminho possível,um atalho que fará toda a diferença e poderá mudar o rumo do teu desenho...
PN

Perdoem-me a ausência nos vossos espaços...a seu tempo marcarei presença com o mesmo prazer de sempre. Abraço.