A casa antiga desmorona
lentamente…. Os sorrisos apagam, as palavras antes ruidosas, efusivas …
sussurram presas nas cordas vocais partidas…na mesa da sala grande, as células
proliferam e proliferam, duplicam e imiscuem-se com as velhas. O imbróglio está
feito.
O tumulto começa. Os olhos azul céu
flutuam aguarelados e baços na poalha da antiguidade, buscam consolo na manta
que cobre os joelhos, os ossos frágeis já não seguram a leucemia crónica… nem
os mil e cem fungos, trajados de soldados, um batalhão imenso, colossal, que se
apodera do trato urinário.
E a neve? Aquela branca, casta,
pura e fria…nunca viu…deixou a oportunidade escapar-lhe dos dedos. O desgosto instala-se
no quarto e revolve-o, prende-lhe as pernas quebradiças e atira-o ao leito sem
qualquer piedade…. O aposento torna-se exíguo, a cadeira de rodas choca com os
móveis, faz inversão de marcha, sai porta fora e despeja-o num lar de gente
cuja sorte atraiçoou.
Não, não, não pode ser. Que taça
dá-lhe Deus a beber?! Implora que o devolvam a casa…não tem a certeza de qual,
as imagens sucedem-se, empurram-se umas às outras, emergem do fundo do tempo e
surgem imprecisas, incertas, enevoadas… O sol torna-se forte, mais claro e eis que
a verdade abre cortinas e os olhos cerúleos procuram ler no cérebro estafado
quem são aqueles vultos estranhos que povoam a visão, esqueceram-se de lhe
colocar os óculos, os lábios entreabrem-se, esbugalha mais as pupilas, aguça a
opacidade dos cristalinos e decifra as imagens meio sumidas que parecem
feri-lo, a dor da traição grita mais e mais fundo, são muitos coxos em cadeiras
de rodas, alguns abandonam os corpos nos assentos, atirados de qualquer
forma sobre os sofás, outros arrastam-se de um lado para
outro, titubeiam periclitantes, percorrem a sala num fictício passeio, há
rostos pardos e fechados, cabelos lambidos, expressões inexpressivas, sorrisos
dementes, bocas desdentadas e putrefactas, pálpebras caídas, vozes
desconhecidas, ruídos indecifráveis, cheiros estranhos e pestilentos. Quer fugir, tem urgência em escapar, abalar
desesperadamente, correr… Sente-se impotente, interditado pela banda que o
prende à cadeira de rodas, arrisca pedir socorro, contudo, as palavras
morrem-lhe na garganta, estão sepultadas no peito. Irremediavelmente perdido desprende
o saco lacrimal e caudais de rios lançam-se face abaixo. Agora terá de lidar
com aquele flagelo. Um nervoso miudinho aperta-o, entala-o, espreme-o.
No dia logo a seguir a este, a
mente recusa continuar, o alzheimer enlouquece-o, precipita-o no abismo do sono
profundo, ausenta o ser, agora é um estranho de si mesmo. O pesadelo é acordar.
As dores trucidam e não há mais ânimo para suportar… Mal sobem os cílios, volta
a cerrar, é o mesmo lugar sem nome, longe de casa, distante dos seus.
Desinquieta-se, encoleriza-se… dão-lhe a tomar qualquer coisa, fazem-no
deglutir, tenta recusar, não consegue, está muito debilitado e vencido,
carcomido pela doença. Adormece e o coração não o acorda a horas regulares, é
transportado para um campo de concentração… onde chocam camas e mais camas, gente
como ele, vencida, gente que já nada tem a não ser abandono, incompreensão e
sofrimento. Gente que tem um corpo que pesa muito aos demais, gente que não
cabe no mundo dos vivos. Gente sem sorte e sem norte, sem nenhuma esperança…
amalgama de gemidos…. Ninguém os atende…
Aguarda-os “o corredor da morte”. Colocam no homem a máscara de oxigénio…é tão pesada!
Estão a magoá-lo…” Senhor perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Se ao
menos ele pudesse fazer um gesto e pedir outra posição, os ossos do rosto
estreitados daquela forma… por favor não. Nova dose de anestesia, a dor vai
ficando distante, os ruídos diluindo-se por lá…. e o ser a ir…. é sacudido
abruptamente, acorda surpreso, a maca segue viagem por caminhos desconhecidos, abre bem os olhos e é noite?! noite cerrada. Está
só com dois estranhos? transportam-no para onde?
É despejado na sala A, quarto
andar…. Há outros condenados ao lado, são mais jovens, safam-se. Para o homem é
o fim da linha. A máscara de oxigénio está mais apertada… as secreções alojaram-se em força no peito. Visita-o um
anjo, fita-o, tenta articular palavras, sai apenas um vagido. Desiste. Os dois
olham-se mutuamente e o anjo segreda-lhe ao ouvido:
- Vai, não temas, Deus está a
chamar-te.
Depois segura-lhe na mão, afaga-a.
O homem enternecido fita-o longamente, vencido pelo cansaço, a cabeça tomba e
adormece profundamente.
E a Teresa? Não se despediu dela…
nem se recorda quando a viu pela última vez, como estará? Onde estará? A
companheira de uma vida…
É tudo tão confuso… o coração vai-se
negando a acompanhar o corpo…a máscara cobre-lhe o rosto, deixa marcas, a mão
esquerda torna-se, fria, pesada e inchada, a esquerda violácea e imóvel desde o
primeiro Acidente Vascular Cerebral. Voltam o homem para o lado esquerdo, a
cabeça inclinada para o alto…e o estertor ansioso a estremecê-lo todo e os
olhos claros abertos, fitos no infinito… o anjo ronda de novo por ali, toca-lhe,
fala-lhe com brandura, o que disse não sei…. Horas depois, pelas dezoito horas
e vinte minutos daquela terça feira prenhe de sol, o coração do homem pára
definitivamente.
PN

