sexta-feira, 25 de abril de 2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Grata pela vossa companhia


Desculpem as ausências demasiadamente prolongadas....não tem sido possível fazer a habitual visita de outros tempos.... Abraço
PN

domingo, 13 de abril de 2014

Com imenso carinho ...



A casa antiga desmorona lentamente…. Os sorrisos apagam, as palavras antes ruidosas, efusivas … sussurram presas nas cordas vocais partidas…na mesa da sala grande, as células proliferam e proliferam, duplicam e imiscuem-se com as velhas. O imbróglio está feito.
O tumulto começa. Os olhos azul céu flutuam aguarelados e baços na poalha da antiguidade, buscam consolo na manta que cobre os joelhos, os ossos frágeis já não seguram a leucemia crónica… nem os mil e cem fungos, trajados de soldados, um batalhão imenso, colossal, que se apodera do trato urinário.
E a neve? Aquela branca, casta, pura e fria…nunca viu…deixou a oportunidade escapar-lhe dos dedos. O desgosto instala-se no quarto e revolve-o, prende-lhe as pernas quebradiças e atira-o ao leito sem qualquer piedade…. O aposento torna-se exíguo, a cadeira de rodas choca com os móveis, faz inversão de marcha, sai porta fora e despeja-o num lar de gente cuja sorte atraiçoou.
Não, não, não pode ser. Que taça dá-lhe Deus a beber?! Implora que o devolvam a casa…não tem a certeza de qual, as imagens sucedem-se, empurram-se umas às outras, emergem do fundo do tempo e surgem imprecisas, incertas, enevoadas… O sol torna-se forte, mais claro e eis que a verdade abre cortinas e os olhos cerúleos procuram ler no cérebro estafado quem são aqueles vultos estranhos que povoam a visão, esqueceram-se de lhe colocar os óculos, os lábios entreabrem-se, esbugalha mais as pupilas, aguça a opacidade dos cristalinos e decifra as imagens meio sumidas que parecem feri-lo, a dor da traição grita mais e mais fundo, são muitos coxos em cadeiras de rodas, alguns abandonam os corpos nos assentos, atirados de qualquer forma  sobre os  sofás, outros arrastam-se de um lado para outro, titubeiam periclitantes, percorrem a sala num fictício passeio, há rostos pardos e fechados, cabelos lambidos, expressões inexpressivas, sorrisos dementes, bocas desdentadas e putrefactas, pálpebras caídas, vozes desconhecidas, ruídos indecifráveis, cheiros estranhos e pestilentos.  Quer fugir, tem urgência em escapar, abalar desesperadamente, correr… Sente-se impotente, interditado pela banda que o prende à cadeira de rodas, arrisca pedir socorro, contudo, as palavras morrem-lhe na garganta, estão sepultadas no peito. Irremediavelmente perdido desprende o saco lacrimal e caudais de rios lançam-se face abaixo. Agora terá de lidar com aquele flagelo. Um nervoso miudinho aperta-o, entala-o, espreme-o.
No dia logo a seguir a este, a mente recusa continuar, o alzheimer enlouquece-o, precipita-o no abismo do sono profundo, ausenta o ser, agora é um estranho de si mesmo. O pesadelo é acordar. As dores trucidam e não há mais ânimo para suportar… Mal sobem os cílios, volta a cerrar, é o mesmo lugar sem nome, longe de casa, distante dos seus. Desinquieta-se, encoleriza-se… dão-lhe a tomar qualquer coisa, fazem-no deglutir, tenta recusar, não consegue, está muito debilitado e vencido, carcomido pela doença. Adormece e o coração não o acorda a horas regulares, é transportado para um campo de concentração… onde chocam camas e mais camas, gente como ele, vencida, gente que já nada tem a não ser abandono, incompreensão e sofrimento. Gente que tem um corpo que pesa muito aos demais, gente que não cabe no mundo dos vivos. Gente sem sorte e sem norte, sem nenhuma esperança… amalgama de  gemidos…. Ninguém os atende… Aguarda-os “o corredor da morte”. Colocam no homem a máscara de oxigénio…é tão pesada! Estão a magoá-lo…” Senhor perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Se ao menos ele pudesse fazer um gesto e pedir outra posição, os ossos do rosto estreitados daquela forma… por favor não. Nova dose de anestesia, a dor vai ficando distante, os ruídos diluindo-se por lá…. e o ser a ir…. é sacudido abruptamente, acorda surpreso, a maca segue viagem por caminhos desconhecidos,  abre bem os olhos e é noite?! noite cerrada. Está só com dois estranhos? transportam-no  para onde?
É despejado na sala A, quarto andar…. Há outros condenados ao lado, são mais jovens, safam-se. Para o homem é o fim da linha. A máscara de oxigénio está mais apertada… as secreções  alojaram-se em força no peito. Visita-o um anjo, fita-o, tenta articular palavras, sai apenas um vagido. Desiste. Os dois olham-se mutuamente e o anjo segreda-lhe ao ouvido:
- Vai, não temas, Deus está a chamar-te.
Depois segura-lhe na mão, afaga-a. O homem enternecido fita-o longamente, vencido pelo cansaço, a cabeça tomba e adormece profundamente.
E a Teresa? Não se despediu dela… nem se recorda quando a viu pela última vez, como estará? Onde estará? A companheira de uma vida…

É tudo tão confuso… o coração vai-se negando a acompanhar o corpo…a máscara cobre-lhe o rosto, deixa marcas, a mão esquerda torna-se, fria, pesada e inchada, a esquerda violácea e imóvel desde o primeiro Acidente Vascular Cerebral. Voltam o homem para o lado esquerdo, a cabeça inclinada para o alto…e o estertor ansioso a estremecê-lo todo e os olhos claros abertos, fitos no infinito… o anjo ronda de novo por ali, toca-lhe, fala-lhe com brandura, o que disse não sei…. Horas depois, pelas dezoito horas e vinte minutos daquela terça feira prenhe de sol, o coração do homem pára definitivamente. 

PN 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Branco

Por força das circunstâncias
desenraizaram-me
trasladaram meu corpo chagado
para terreno baldio…
As cataratas deambularam à procura dos óculos
do pijama…da mesa de cabeceira
das gavetas compridas da penteadeira
dos vários espelhos que refletiam a minha longevidade
do vestuário de três portas
onde baloiçavam as nossas indumentárias domingueiras
cada vez mais raro vestirmos
Guardei ali o fato cinzento com que me casei,
O fato da minha vida
Sempre pronto para qualquer acontecimento
Quantas vezes me sentei na extremidade da cama
cabelo oleado, rosto formoso, barbeado
sem rugas, bem trajado e o espelho esguio  a cismar por mim
Passou uma gazetilha entre os meus dedos
que seguia com particular interesse
Um leitor assíduo, compulsivo
Depois as letras ficaram distantes e apagadas
só chegavam aos meus olhos os cabeçalhos…
Que distância…uma eternidade.
Em casa, nunca faltou pão para a boca
uma família pequena, à medida das minhas posses
Honesto, reto, humilde trabalhador
Nunca roubei nada a ninguém.
tudo o que conquistei é meu…
a consciência limpa e tranquila
filhos criados e bem educados
Sempre presentes e amados
 e
Hoje, acabado
meio perdido, meio achado
num quarto estranho
de sombras claras, a esperar o fim
a última trasladação
o sol nu espeta-se de rompante, revela muito a misantropia
do ser  desfigurado em que me tornei.
Estou distante dos meus cantos
dos objetos que toquei
onde fui senhor e rei…rei de coisa nenhuma
Apenas um pacato homem do seu tempo.
desfeito em lençóis
Busco do fundo da memória
a identidade perdida…
Chamo alguém
mas não sei quem…
Que Deus me valha
e me tire deste aperto
desta mágoa…

Me liberte deste corpo, desta mortalha…

PN

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Há fumo pelas serras fora…

Há fumo pelas serras fora…
o vapor tropeça nas vertentes húmidas
cortinas corridas, janelas esvoaçantes …
cabeças sem juízo 
das casas encolhidas com frio 
escondidas no sopé dos montes …
abrigadas dos ventos fustigantes
Numa síncope desfalecida, o céu tomba
mais cadavérico que nunca…
e vai habitar os troncos decepados
As bruxas soltam-se em tarde sombria
mas estão velhas, cansadas e doentes
e o feitiço já não vinga…
procuram asilo em lareiras frias
onde deus voltou as costas e se foi embora…
Uma penumbrazinha descuidada mete o pé no charco
e fica a cogitar contrariada
foi sujar-se mesmo antes de adormecer …
agora vai ter de se deitar em lençóis frescos…
a cheirar a terra vilã e a erva desgraçada
Que passo desconcertado…
os queixos apertam, rangem de martírio
as sílabas inacabadas tremem periclitantes
O farol engoliu a bofetada e desapareceu mar adentro
um estouro de onda, pobre desnorteada
deu-lhe o rumo certo…
para além, fora do manicómio das cabeças desunidas
para longe, onde não se respira o pó que morde
o lugar das pedras lúcidas e curadas…
PN

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

As feras


Grande é a aflição
Tão triste penar
delírio de lágrimas
a descer do calvário.
Rosnam caninos 
Verdades estragadas
laranjal amargo 
flor cuspida no chão 
Andam à solta... à solta
as feras de salto alto
maquilhadas, aromáticas
travestis plastificadas
Vazias, feias, escarninhas
Ávidas de estrelato
As feras rondam… rondam
farejam bêbedas, soporíficas
lunáticas, descaradas
chutam ideias estúpidas para o ar…
Intrometidas, intrusas,
ditadoras,
sem nenhuma sabedoria
deslumbradas …
na mísera condição.
Os corcundas vaidosos
metem dó
de tamanha subserviência
de tamanha servidão….
beijam o chão das feras
lambem o próprio pó…
É vê-los soberbos, arrogantes
com outros de rasa condição
ou seus semelhantes…
Brandos, calmos, limitados
com as feras de salto alto
tontos, atarantados
aduladores salivantes
Cães sem raça, nem postura
míopes, cegos, caricaturantes
autênticas bestas irritantes.
PN

domingo, 26 de janeiro de 2014

Que realidade....

Dói-me ver os filhos da pobreza 
de mão estendida;
rotos, esfarrapados...
barriga vazia
E, cada vez mais a inimiga riqueza 
os deixa literalmente deformados.

PN